GENEBRA – Na Suíça, muçulmanos estao proibidos de construir seus minaretes. Na Suíça, um seguro de um carro comprado por um brasileiro custa 200% mais caro que um seguro do mesmo carro de um priorietário “de olhos azuis”, como diria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na Suíça, o dinheiro de um ex-ditador do Haiti que estava em contas nos bancos de Genebra ainda nao foi devolvido ao povo haitiano porque nao haveria provas de sua irregularidade, mesmo 25 anos depois de estarem bloqueados. Na Suíça, partidos debatem a criaçao de leis estipulando que se um estrangeiro cometer um crime, nao apenas ele seria expulso do país, mas toda sua família, mesmo que os demais sejam inocentes.
Nessa mesma Suíça, porém, os cidadaos irao às urnas no dia 7 de março para votar uma proposta de lei para criar advogados para os animais, pagos pelo estado. Cada cantao suíço terá de ter um advogado para representar cachorros, gatos, porcos, coelhos e qualquer outra animal no tribunal.
O referendo ocorre à pedido de ativistas de direitos dos animais, que conseguiram reunir 144 mil assinaturas dos cidadaos apoiando a iniciativa. Para que um tema seja colocado à votaçao nacional, 100 mil assinaturas devem ser reunidas.
As últimas sondagens realizadas no país indicam que a lei seria aprovada com 70% dos votos. O sistema funcionaria da seguinte maneira: se alguém souber de uma situaçao em que um animal está recebendo maus-tratos de seu proprietário, uma queixa na Justiça poderá ser formulada por um vizinho, amigo ou, mais provavelmente, um inimigo. O animal em questao seria defendido pelo advogado pago pelo estado.
No cantao de Zurique, o advogado já existe. Antoine Goetschel, que é quem ocupa o posto, explica que um cidadao, quando é agredido, pode ir a um tribunal. Agora, esse direito também existe para um animal.
Nao questiono o direito dos animais e tenho simpatia por um país que tem recursos para bancar tal iniciativa. Nao quero aqui questionar muito menos a democracia direta, uma das grandes qualidades da Suíça e que é, de fato, a forma mais explícita da soberania de um povo.
Mas na Suíça, há dois anos, o partido majoritário no país ganhou as eleiçoes com cartazes pelas ruas das cidades mostrando uma ovelha negra sendo expulsa da Suíça por ovelhas brancas. Ativistas de direitos humanos atacaram o partido por estar promovendo a xenofobia no país. Até a ONU se envolveu na polêmica e pediu que os cartazes fossem retirados, o que nunca ocorreu. O debate sobre a imigraçao explodiu, grupos latino-americanos, africanos e árabes se sentiram agredidos pelos cartazes e pelos votos dos suíços nas urnas.
O partido – o UDC – explicou que nao falam de pessoas em seus cartazes, mas de ovelhas.
Prezados leitores, perdao pela ironia. Mas qual seria o resultado de uma votaçao em que se proporia que imigrantes ganhassem maiores direitos? Infelizmente, nao há sondagens para isso, pois nunca nenhum grupo fez tal proposta para que seja votada nas urnas.
No limite do absurdo e se o absurdo for a regra, a pergunta que fica agora é a seguinte: se o referendo do dia 7 de março estipular a criaçao de um advogado para os animais, será que a ovelha negra do cartaz do UDC terá os mesmos direitos das ovelhas brancas e poderá entrar na Justiça por maus tratos?
Mas afinal, eles estavam falando de ovelhas ou de nao?
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