SOPRON, Hungria - Há 20 anos, a cidade de Sopron, na fronteira entre a Hungria e a Áustria viveu o primeiro rasgo no que parecia ser a impenetrável Cortina de Ferro. Alemães do Leste aproveiram a realização de um picnic organizado pelas autoridades dos dois países para simplesmente furar a barreira. 600 deles conseguiram atravessar para o Ocidente.
Hoje, pensar que uma barreira existia no lugar por onde passei parece algo como um sonho. Ou para muitos um pesadelo. Ruas e estradas atravessam da Áustria para a Hungria, sem qualquer burocracia. Os moradores das pequenas cidades da Áustria que estão perto da fronteira chegam até mesmo a se queixar do movimento de carros que agora passam pelo meio de seus pacatos vilarejos, antes às márgens da Europa Ocidental e quase adormecidos. Na estrada que liga Sopron à Áustria, o movimento de carros é tão grande que um trânsito é formado todos os dias nas horas de pico. Uma revolução para uma região que ficou dividida por arames farpados desde 1971 e, antes, por minas terrestres.
Mas o muro não desapareceu. Ele apenas mudou de lugar. 500 quilômetros ao leste da fronteira aberta entre a Hungria e a Áustria, a realidade é bem diferente. Uma verdadeira barreira foi criada na nova fronteira da Europa para barrar a entrada dos novos imigrantes. Não são alemães tentando fugir do comunismo e da ditadura. São afegãos, iraquianos e paquistaneses tentando escapar da guerra, chineses cruzando o mundo para trabalhar na Europa e milhares de cidadãos da Ucrânia, Sérvia, Bósnia, Moldávia e do Cáucaso fugindo da pobreza.
Por ano, 500 mil estrangeiros entra ilegalmente na UE e, agora, a meta dos europeus é de frear essa explosão da migração. Nos anos da Guerra Fria, a fronteira era formada por arames farpados, muros, cães de ataque, tanques, muitos soldados e minas espalhadas por milhares de quilômetros. A nova fronteira também conta com alguns arames farpados e soldados.
Mas o novo modelo é bem mais sofisticado e não corre o risco de entrar em pane por falta de peças, como o dos soviéticos. No lugar de cães, minas e tanques, a UE investiu de forma pesada na instalação de sensores, barreiras eletrônicas e um sistema informatizado com computadores ligados aos dados da Interpol e das agências de inteligência dos países europeus. No total, são quase 6 mil quilômetros da nova cortina de ferro, separando a UE do resto da Europa, câmeras a cada 150 metros em alguns locais. O patrulhamento das fronteiras é uma das prioridades políticas desses governos, mas que também está transformando a vida da região e de famílias.
Ironicamente, a UE exigiu que os países do Leste Europeu que aderiram ao bloco há 5 anos sejam os novos responsáveis por resguardar a Europa da imigração irregular e de criminosos. O acordo é simples: esses países teriam sua adesão aprovada em um espaço de livre circulação de pessoas se garantissem que poderiam fechar suas fronteiras aos cidadãos de fora da UE. A UE já injetou 2 bilhões de euros para ajudá-los e, hoje, todos os meios tecnológicos e soldados são usados para garantir que a imigração irregular e o tráfico sejam parados na fronteira. Pelas regras estipuladas pela UE – conhecidos como Acordo de Schengen – países dentro do bloco teriam suas fronteiras simplesmente suprimidas e seus cidadãos poderiam circular livremente. Em troca, as fronteiras exteriores da UE seriam reforçadas.
Polônia, Hungria e Eslováquia foram alguns dos países que foram obrigados a se comprometer em criar verdadeiros muros contra seus vizinhos do leste. Mas, para isso, isolaram famílias ucranianas, sérvias, croatas e bielorussas que por décadas estavam próximas às fronteiras que hoje são da UE. Do lado ucraniano, a percepção é de que os países do Leste Europeu que aderiram à UE esqueceram seu passado. Alguns, de dentro da UE, admitem que estão traindo seus vizinhos. “Sinto que estamos fazendo com nossos vizinhos ucranianos o mesmo que sofremos durante décadas”, afirmou diretor do Departamento de Educação da Universidade Eslovaca de Tecnologia, Miroslav Babinsky.
A realidade do novo muro permeia todo o Leste Europeu. Em uma viagem de trem entre Bucareste e Budapeste realizada pela reportagem, os vagões foram barrados na fronteira entre a Hungria e a Romênia por horas durante a madrugada. Policiais fortelemente armados vasculhavam até mesmo a parte inferior do trem, procurando imigrantes ilegais. “Na UE, ainda não somos todos iguais”, lamentou Adrian, um romeno que havia embarcado no mesmo trem em direção a Budapeste. A forma encontrado por muitos para driblar essas barreiras é pagar um “especialista” em cruzar fronteiras. Ou seja, um traficante de seres humanos.
Para entrar na Europa, os imigrantes escondem-se em caminhões, tentam cruzar a floresta que ocupa a região de fronteira e até mesmo se arriscam em câmaras frias que transportam carnes e alimentos de um lado a outro da fronteira. O preço: US$ 15 mil – muitas vezes o equivalente ao preço de suas casas que tiveram de vender para pagar a “passagem” ao traficante – e, claro, muita coragem. Ou seria desespero…
Há 20 anos, o violoncelista russo Mstislav Rostropovich pegou seu instrumento ao ver o Muro de Berlim cair e correu para o local. Fez questão de tocar à beira da obra que simbolizou a divisão da Europa. Rostropovich, falecido em 2007, sempre lutou pela liberdade de expressão, pela democracia e por uma arte sem nacionalismos. Em 1974, fugiu da Rússia e conseguiu atravessar a Cortina de Ferro. Em 1989, sua mensagem aos responsáveis pela divisão era simples: Nunca Mais.
Pena que nem todos escutaram seu recital à beira do muro.
BUDAPESTE, Hungria - 20 anos após a queda do Muro de Berlim e dos regimes comunistas na Europa do Leste, eis uma constatação: o capitalismo foi muito bem entendido na região. Nas principais capitais dos países do Leste Europeu, relíquias do comunismo são vendidas, ainda que quase todos os compradores sejam ocidentais.
A mais incrível de todas as relíquias que eu encontrei por enquanto foi a possibilidade de comprar “O Último Suspiro do Comunismo”. Poderia parecer nome de filme ou um livro sobre o drama de uma família separada por Stalin. Mas não é. Trata-se de uma latinha. Dentro, ar. Isso mesmo. Os húngaros vendem o que ironicamente dizem ser os últimos momentos do comunismo. Na tampa da lata, a empresa que fabrica o produto alerta que ela não deve ser aberta, já que isso permitiria a “fuga” do suspiro do comunismo. Tudo isso pelo equivalente a 5 euros.
Outra atração pseudo-comunista é o tour que se oferece em Budapeste à bordo de um Trabant. O carro era fabricado na ex-Alemanha Oriental e se tornou uma das poucas opções para a população do Leste Europeu. Claro, com um único problema: um morador da Alemanha Oriental precisava esperar até onze anos na fila para adquirir o carro, ironicamente chamado de “Jaguar de Papel”.
O tour não passa de uma farsa. 3 horas dentro de um carro sem qualquer conforto no trânsito quase paulistano de Budapeste. O único ponto positivo é o esforço do guia que tenta reconstituir como eram os anos comunistas em seu país, enquanto Mercedes de última geração, carros japoneses e outros tentam ultrapassar o nosso velho Trabant. A aula surreal de comunismo ao vivo sai por 60 euros.
Nas ruas das capitais do Leste Europeu, pode-se encontrar capacetes soviéticos, emblemas das tropas de Moscou e muitos outros itens supostamente raros. Mas a realidade é que, 20 anos depois da queda do regime, grande parte desses produtos não passa também de uma farsa.
Fala-se que já se vendeu tantas partes do Muro de Berlim que, se todas essas pedrinhas fossem juntadas, o muro daria a volta no planeta…duas vezes.
Mas o que mais impressiona mesmo é a origem de grande parte desses produtos ditos comunistas: a China, claro. A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que o ano terminará com os chineses ocupando o cargo de maior exportador do planeta, superando americanos e alemães pela primeira vez na historia moderna. Enfim, o século XXI começa simplesmente com a ironia de um estado comunistas ser o maior exportador do mundo, inclusive de produtos avacalhando seu próprio sistema. Isso sim é que é entender o capitalismo.
Bucareste, Romênia - O Congresso Nacional tem 10 mil funcionários, 54 cozinhas, mil faxineiras, 1,5 mil seguranças e um custo de energia de 9 milhões de reais por ano. Mas esse edifício faraônico não está em Brasília. Trata-se do Palácio do Povo, o maior edifício público civil do planeta. Isso na empobrecida Bucareste e em um cidade com mil crianças de rua em plena União Européia. O Palácio acabou se transformando em um espelho dos absurdos de um regime que perdeu o contato com a realidade ou mesmo com as teorias do socialismo.
O Parlamento romeno foi projetado pelo ex-ditador Nicolae Ceausescu no início da década de 80. Apenas um quinto do projeto inicial acabou sendo realizado. Mas mesmo assim foi suficiente para colocar a obra no livro dos recordes e superar até mesmo as pirâmides do Egito. Apenas o Pentágono, em Washington, é maior. Mas está classificado não como um edifício público civil, mas militar.
No Palácio do Povo, os atos secretos se confundem com sua construção. Em 1983, Nicolae Ceausescu abriu uma licitação pública para que arquitetos apresentassem projetos. A vitoriosa foi uma jovem de 28 anos até então desconhecida no mundo da arquitetura. Ah sim…era a sobrinha da esposa do ditador.
Sua ordem: tudo dentro do palácio teria de ter origem na Romênia. Mas com seu tio obrigando que houvesse telas de seda, a solução foi importar as formigas da China.
Um quinto da cidade histórica de Bucareste foi destruída para que o palácio fosse erguido, inclusive hospitais, escolas e igrejas medievais. A parte central do edifício abra-se para uma praça e uma grande avenida, também construída pelo ditador. Sua idéia era de que, da janela do prédio, pudesse fazer discursos e ser saudado por milhões de pessoas. Não teve tempo nem ocasião para isso. O primeiro que usou dessa vantagem foi Michael Jackson, em 1992. Milhões o esperavam no local projetado pelo ditador comunista.
Mas uma de suas idéias jamais saiu do papel. Ele queria a construção de um túnel entre o palácio e o aeroporto. Talvez ele estaria vivo se essa parte estivesse pronta.
Em 1989, o país viveu uma revolução sangrenta e o ditador foi executado depois de um dos processos mais rápidos da história. Foi acusado, julgado e executado em um só dia.
Com o ditador fora do caminho, os políticos se depararam com um dilema: o que fazer com o Palácio do Povo, que já estava com 75% de suas obras completadas. Depois de um estudo, concluiu-se que era mais barato terminar o prédio que derrubá-lo. A decisão foi de colocar os novos deputados para usar o prédio. Mas mesmo assim sobrava muito espaço. Passaram a alugar as salas para eventos como casamentos, leilões, cerimônias e outras atividades.
30 mil pessoas trabalharam na construção do Palácio. Muitos eram prisioneiros políticos, obrigados a trabalhar. Dezenas morreram. Mas os relatórios oficiais não citam sequer um acidente nos anos de construção.
Já nos anos de democracia, o governo romeno decidiu compensar os trabalhadores que sobreviveram às obras com um prêmio. Todos aqueles que atuaram nas obras, seja de forma forçada, assalariado ou voluntário, podem hoje se aposentar antes do restante dos trabalhadores.
Mas até hoje ninguém sabe quanto custou a obra. Não há qualquer nota. Há cinco anos, uma consultoria internacional calculou que o Palácio do Povo de Bucareste valeria o equivalente a US$ 22 bilhões em material, gastos com a destruição de monumentos da Idade Média, perda de vidas e salários não pagos. 10% do PIB da Romênia.
Sem poder reduzir o tamanho do prédio, a solução dos reformistas romenos é outra: reduzir o número de ocupantes. Em dezembro, o país vai às urnas para votar se aceita ou não a demissão de 175 deputados. Ou seja, reduzir de 475 para 300 o número total de parlamentares. Brasília sabe disso…
Mogosoaia, Romênia – Se em uma guerra a primeira vítima é a verdade, em uma revolução uma das primeiras vítimas são os símbolos do regime que está sendo derrubado. Assim ocorreu com a estátua de Saddam Hussein em Bagdá e assim ocorreu em tantos outros lugares do mundo. Na Praça da Estrela, no centro de Bucareste, Lenin era um marco. Com sua serenidade, relembrava aos romenos a base do sistema que viveram por 50 anos.
Lenin era o principal ornamento de um bairro onde estava o imponente edifício da Agência Nacional de Informações da Romênia, absolutamente controlada pelo regime de Nicolae Ceausescu. Uma ex-funcionária da agência conta que estava instruída a reproduzir qualquer comentário positivo publicado pela imprensa estrangeira sobre o país ou sobre “o grande líder”. Mas jamais uma notícia negativa.

Com a revolução de 1989, não foi por acaso que uma das primeiras vítimas foi exatamente a estátua de Lenin. Ela foi derrubada antes mesmo do julgamento do ditador, que ocorreria três dias depois. Outras estátuas também foram destruídas e hoje, em Bucareste, símbolos comunistas são proibidos.
Mas para onde estas estátuas foram levadas… Quem as carregou para longe da cidade e o que foi feito delas… Com a ajuda de personalidades importantes do mundo da política, consegui encontrá-las: Lenin está enterrado – ou melhor, largado – em um campo 30 minutos fora da cidade, na cidade de Mogosoaia. Poucos são os romenos que conhecem o local.
Ao lado de Lenin estão os muros de um dos palácios da aristocracia que o regime tanto fez para eliminar. A estátua está vandalizada e destruída. O cultivo de trigo chega quase a seu queixo. Algumas das estátuas estão em uma posição que aparentam que estão pedindo socorro à capela que se encontra ao lado. Uma ironia da história.
20 anos após a queda do regime na Romênia, o Partido Comunista está banido. Mas todos aqueles políticos e membros da polícia secreta que atuaram no país por décadas hoje ganharam uma nova sigla e agora concorrem a eleições democráticas. A praça onde estava Lenin – a Praça da Estrela – hoje ganhou um novo nome: Praça da Imprensa Livre. Ironicamente, um dos magnatas da imprensa romena hoje é nada mais nada menos que um dos altos funcionários da polícia secreta de Ceausescu, entidade responsável por torturas, ameaças contra jornalistas e mais de 10 mil mortes nos 21 anos do regime do ditador. Viva a Revolução!

Constanta
CONSTANTA, Romênia – Civilizada ou covarde? Livre ou cínica? Potência ou um império de muletas? Nos últimos 60 anos, a Europa se transformou em um dos processos de paz de maior sucesso na história moderna. A Europa passou do Holocausto a uma integração invejada por muitos, inclusive com moeda única, um hino e, em breve, um presidente. Mas na primeira década do século XXI, a Europa se encontra em um profundo dilema e em busca de novos caminhos. Imigração, problemas sociais e mesmo a volta de tendências extremistas eram crises latentes na região há anos. Com a atual crise econômica – a pior na região desde a Segunda Guerra Mundial – esses temas se transformaram em assuntos de campanhas presidenciais, de debates entre acadêmicos e mesmo tema de conversa nos cafés das principais capitais do continente.
Bem-vindo ao “Direto da Europa”, um blog com o objetivo de debater as novas realidades do Velho Continente, suas conquistas e seus problemas. Não se trata de criar um tratado sobre a Europa. Apenas recolher as migalhas da história. Mas, como diria um velho poeta, as migalhas também precisam ser recolhidas. Para isso, nada melhor que começar pelo extremo da Europa e em uma região que comemora neste ano os 20 anos da queda de todo um sistema: o Leste Europeu. Durante os próximos dias, a idéia é a de percorrer o que um dia esteve do outro lado do muro, isolado pela cortina de ferro.
O início do percurso é a cidade de Constanta, balneário romeno no Mar Negro. Do outro lado, a Ásia Central. Para a União Européia, Constanta representa o primeiro porto de entrada ao bloco para quem vem da Ásia. Ao sul, a Turquia e todo o desafio que ela representa para a Europa. Não por acaso, a segurança é uma das prioridades na região de Constanta. Mas o extremo não é apenas geográfico. A região é uma das mais pobres do continente e os problemas sociais são dramáticos, como veremos nos próximos dias. O objetivo da viagem é o de chegar a Gdansk, onde o movimento de trabalhadores de um estaleiro foi fundamental para gerar a queda dos regimes comunistas. Serão mais de 2,5 mil quilômetros cruzando cinco países que, até 1989, simplesmente estavam isolados pelas barreiras físicas e ideológicas da Guerra Fria.
Nos anos 70, um dos líderes do Partido Comunista chinês, Zhou Enlai, foi questionado sobre o que ele achava do impacto da Revolução Francesa, de 1789. Com uma história de seu país de sete mil anos, a resposta do líder chinês surpreendeu muitos no Ocidente: “ainda é muito cedo para dizer qual será o impacto”. Mas exatos 200 anos após a Revolução Francesa, as revoluções no Leste Europeu em 1989 passaram a fazer parte de um pequeno grupo de acontecimentos que de fato determinaram uma mudança no destino de muitos países, inclusive em várias regiões do mundo. O impacto foi sentido de Havana à Luanda, de Pequim a Washington. De Berlim aos locais mais isolados da África onde guerrilhas atuavam financiadas pela lógica da Guerra Fria.
Nos anos seguintes à queda do Muro de Berlim e o fim da Cortina de Ferro, Francis Fukuyama falou no “fim da história”. “Podemos estar presenciando não apenas o fim da Guerra Fria ou a passagem de um período particular da história pós-guerra. Mas o fim da história como tal. Ou seja, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governar”, disse.
De fato, a democracia liberal ocidental foi implementada em toda a região. A bandeira da OTAN e da União Européia estão colocadas em praças que foram criadas para glorificar o sistema comunista. Mas nos próximos dias, a viagem mostrará que poucas foram as teorias acadêmicas que mais se enganaram em relação ao que seriam os anos seguintes. A história não terminou. Está apenas começando.
Bem-Vindo e Boa Viagem!
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