GENEBRA – A Itália foi surpreendida hoje com a declaração do mafioso arrependido Gaspare Spatuzza de que o primeiro-ministro do país, Silvio Berlusconi, seria cúmplice das atividades da Cosa Nostra. A acusação foi feita na audiência pública em um tribunal de Turim.
Spatuzza colabora com a Justiça desde 2008 e revelou que Berlusconi seria um dos canais de diálogo entre o mundo da política e Giuseppe Graviano, chefe da máfia siciliana.
Mas estudos nos últimos meses vem mostrando que, bem além dos políticos, a máfia tem uma ampla presença na economia italiana. Um relatório publicado pela associação de empresas Confesercenti, na Itália, chega a constatar a Máfia seria a “empresa” mais bem-sucedida do país.
O documento, do final de 2008, indica que somente no setor comercial da máfia os lucros em 2007 foram de 70 bilhões de euros, equivalentes a 7% do PIB da Itália e acima de vendas
mundiais de empresas como Nestlé e outras gigantes pela Europa.
Parte dos recursos ainda estaria em bancos ao outro lado da fronteira norte do país, em contas secretas na Suíça.
A “holding” Máfia contaria com pelo menos quatro subdivisões: além da enfraquecida Cosa nostra, estão a ‘Ndrangheta, Camorra e Sacra corona unita. Essas organizações estão implantadas principalmente na Calábria, Campania e Puglia, com uma divisão territorial religiosamente respeitada.
O perigo, na avaliação da associação de comerciantes, é que a quebra de alguns setores e a recessão levem a Máfia a comprar novos grupos e controlar novas parcelas da atitividade economica da Itália. O país enfrentou uma de suas piores crises entre o final de 2008 e meados de 2009.
“A crise econômica torna a máfia ainda mais perigosa. É alarmante saber que a máfia irá procurar se aproveitar da vulnerabilidade e das incertezas da economia para
fortalecer suas posições”, afirmou o presidente da associação dos comerciantes, Marco Venturi.
“A Máfia é, acima de tudo, um grande grupo financeiro e, diante da crise, não tem problema de liquidez e de fazer novos investimentos. Sua grande capacidade financeira permite conquistar novos mercados, se aproveitar da crise da liquidez e adquirir imóveis e empresas”, alerta a entidade.
O tráfico de drogas gera por ano 59 bilhões de euros ao grupo, contra 12,6 bilhões de euros em usura e a extorsão outros 9 bilhões de euros. Só a agro-máfia, produções
controladas pelo grupo principalmente no sul da Itália, gera cerca de 7,5 bilhões de euros por ano ao grupo.
Os produtores ganham até mesmo vendendo vistos de trabalho para imigrantes do Leste Europeu e africanos. Cada visto custaria cerca de 2 mil euros. O tráfico de armas também gera 5,8 bilhões de euros ao grupo, enquanto o contrabando outros 1,2 bilhão de euros.
Já a prostituição seria responsável por cerca de 600 milhões de euros. Mas o grupo ainda conta com restaurantes, bares noturnos, operadores de turismo e várias outras empresas.
Estudos apontam que o grupo criminoso tem maior presença e poder exatamente nas regiões menos desenvolvidas. Se a média do desemprego na Itália é de apenas 6,7%, no sul a taxa supera 12%, uma das mais altas de toda a Europa. Na periferia de Nápoles, o desemprego chega a 40%.
As pessoas se acostumaram a pensar linearmente, talvez em virtude dos filmes de hollywood, e não se dão conta que a máfia tem ramificações em todos os setores da sociedade. Onde existe dinheiro, a máfia tenta se colocar nele. É uma holding do mal.
Sou jornalista, moro em Milão e acho um verdadeiro descompasso o fato de o italiano, do médio ao de alto nivel socioeconômico, no geral, atribuir os problemas de imigração excessiva, clandestinidade, prostituição e tráfico de drogas aos países DE FORA. Sendo que, sabemos, a Itália vive disso e investe nisso. Um visto aqui, oficialmente, não é nada mais que um pedido feito pelo correio que custa cerca de 100 euros e vale uns 8 meses, tempo que demora para a polícia chamar o candidato. Fora a quantidade de trabalhadores não registrados, “en nero”. Enfim, tem muito o que comentar… um abraço!
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