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Jamil Chade

GENEBRA – Nos anos 70, o entao secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, ironizou a situaçao da integraçao européia ao questionar qual seria o número de telefone que deveria usar para a falar com a Europa. Se Kissinger fosse obrigado a telefonar mais uma vez para a Europa em 2010, nao acharia que sua frase está tao ultrapassada.

A partir de 1 de janeiro, a Uniao Européia terá dois presidentes: a Espanha, que assume o cargo rotativo até julho, e o presidente permanente Herman Van Rompuy, que acaba de ser eleito. Isso sem contar com o presidente da Comissao Européia, José Manuel Barroso, e a nova ministra das Relaçoes Exteriores, Catherine Ashton.

A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa que dá uma maior institucionalizaçao para a Europa, mas nao retira os governos nacionais da cena. Trata-se de mais um passo para a supranacionalidade. Mas com governos ainda hesitantes em abrir mao completamente de sua soberania.

A Espanha terá a dura tarefa de implementar o tratado que abre uma nova era para a Europa e tenta garantir um maior peso do continente nos temas internacionais. Para os mais otimistas, a Europa ganha novas instituiçoes que transformarao a integracao em um projeto ainda mais irreversível.

Mas o resultado também é um complexo sistema que já começa a gerar atritos. José Luis Rodriguez Zapatero, o presidente do governo espanhol e de olho em alavancar sua popularidade, receberá cúpulas como a da América Latina – Europa e com Barack Obama. Mas será Rompuy quem presidirá os encontros.

Na agenda da Espanha está o relançamento economico da Europa. Mas foi Rompuy que tomou a iniciativa de convocar para Bruxelas uma cúpula no dia 11 de janeiro para tratar do assunto econômico e de superar a crise financeira.

Miguel Angel Moratinos, o ministro de Relaçoes Exteriores da Espanha, garante que nao haverá problema e que cada um saberá qual seu papel. Mas já deixou claro que quer estar ao lado de Ashton quando ela for lidar com o Oriente Médio, América Latina e países do Mediterrâneo, uma nova aposta espanhola. Na agenda ainda está a situaçao no Afeganistao, a relaçao estratégica com a China e a adesao da Turquia.

Nao há dúvidas de que a UE é o projeto de maior sucesso na história contemporânea da integraçao entre países. Em apenas 65 anos, o continente passou de uma guerra sem precedentes para a paz. Ainda assim, a resposta para a pergunta de Kissinger continua vaga.

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NYON, Suíça– Enquanto a economia européia patina e dá sinais de que uma recuperação será lenta, uma competição mostra que continua dando lucros. Um estudo publicado nesta semana mostrou que a Liga dos Campeões movimenta 6 bilhões de euros nesta temporada para a economia européia, valor superior ao que a África do Sul espera ter como lucros com a Copa do Mundo de 2010.

Na sexta-feira, o sorteio para as próximas fases da Liga dos Campeões realizada pela Uefa colocou na agenda do futebol verdadeiros duelos de gigantes em suas oitavas de finais, para a alegria de torcedores e principalmente dos patrocinadores. O maior torneio de clubes do mundo, por exemplo, verá o confronto entre o Milan e o Manchester United.

Em Nyon, a Uefa fez o sorteio das próximas confrontações, em um ambiente cercado de expectativas. Claro. Seria a partir dos confrontos que cada equipe mediria quanto ganharia até meados de 2010. Com o resultado, o inglês David Beckham que atua pelo Milan voltará ao clube que o revelou ao mundo, o Manchester United. Pato, Ronaldinho e o técnico Leonardo sabem que o confronto pode já tirar o time italiano da competição de forma prematura.

Em um outro duelo ítalo-britânico, é um português que promete ser alvo de todas as atenções. O técnico da Inter, José Mourinho, enfrentará seu ex-clube Chelsea por um lugar nas quartas de final. O atual campeão, o Barcelona, enfrentará o Stuttgart e espera continuar no caminho de mais uma conquista. Já o Real Madrid, de Kaká, enfrenta o Lyon. A partida marca o retorno do francês Karim Benzema a seu ex-clube. O objetivo do Real é conquistar seu décimo título, principalmente depois dos pesados investimentos que fez.

Mas estudos feitos por patrocinadores da competição mostram que os lucros da Liga dos Campeões sâo garantidos. Em média, cada clube sai do torneio com 50 milhões de euros a mais em caixa. Em 2008, o Barcelona saiu com o troféu e 110 milhões de euros na conta. O próprio Lyon admite que parte de seu interesse na competição é garantir lucros e um maior preço para vender seus jogadores.

As partidas de ida ocorrem a partir de meados de fevereiro. O jogo de volta está marcado para março.

Enquanto os técnicos se preparam para os próximos jogos, os patrocinadores continuam fazendo seus cálculos sobre os ganhos. O estudo publicado nesta semana e encomendado pela Mastercard, uma das patrocinadoras, concluiu que, pelo menos para a Liga dos Campeões, a crise não existe.

Certamente, isso não significa que todos os clubes na competição estejam em dia com suas contas. Muito pelo contrário. Juntos, o Real Madrid, Barcelona e Manchester United tem dívidas somadas de 1 bilhão de euros.  Enquanto competições como a Liga dos Campeões existir, os grandes continuarão a financiar seus déficits. Já os pequenos…

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18.dezembro.2009 11:13:12

Devolvendo a Vacina

GENEBRA – Há dois meses, governos se apressavam em tentar obter acordos para a compra da vacina contra a gripe suína. Lembro-me de ver representantes de algumas das maiores farmacêuticas do mundo alertando que não haveria vacina para todos.

Agora, em muitos locais da Europa, o produto está encalhado e governos já começam a devolver as vacinas às multinacionais. Mesmo assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) se recusou ontem a declarar o fim da pandemia do virus H1N1, alertando que uma nova onda de infecções poderia ocorrer no final do inverno do hemisfério norte, entre março e abril.

A Suíça, que havia comprado 13 milhões de doses da vacina para seus 7 milhões de habitantes, anunciou nesta semana que quer se desfazer de 4,5 milhões de doses. Parte da explicação é o fato de que cada pessoa precisa de apenas uma dose, e não duas como se estimava no início da pandemia. Mas outro fenômeno é o baixo interesse da população em se vacinar.

Na Espanha, a ministra da Saúde, Trinidad Jiménez, admitiu que está negociando com as empresas para devolver o produto. « Os contratos assinados com as empresas que nos venderam as vacinas – GSK, Novartis e Sanofi-Pasteur – incluem cláusulas que permitem devolver as vacinas para que se possa distribuir a outros países », disse. A Espanha comprou 37 milhões de doses da vacina para sua população.

A idéia seria passar as doses para países que não assinaram contratos com empresas. Uma das preocupações da ONU no início da pandemia era de que o poder de compra dos países ricos deixasse as demais economias sem acesso ao produto.

Já alguns estados alemães começam negociações com a GlaxoSmithKline para reduzir as encomendas. Em janeiro, Berlim abrirá negociações com outros países para transferir as vacinas encalhadas. 2 milhões de doses poderiam ser vendidas, das mais de 50 milhões que o país adquiriu.

Quem perde com isso são as empresas farmacêuticas. Segundo a Morgan Stanley, os lucros da Novartis poderiam chegar a US$ 600 milhões com a doença, contra 750 milhões de euros para a Sanofi. Já a Glaxo teria lucros de mais de US$ 3 bilhões. Mas a devolução dos estoques pode reduzir e maté 15% esses benefícios.

Quem também perde é a OMS e sua credibilidade. Duramente criticada por ter criado um sentimento de pânico, a OMS se defende e alerta que é « muito cedo ainda » para dizer que a pandemia acabou. Keiji Fukuda, responsável dentro da organização pelo assunto, ainda insiste que a incerteza é o que marca a atual gripe. Para ele, França, Suíça e Leste Europeu mantém um « nível elevado » da gripe. « É improvável que uma pandemia possa desaparecer de um momento a outro », disse.

Para ele, o principal será avaliar o que ocorrerá nos próximos quatro ou cinco meses.

Enquanto os países ricos não sabem o que fazer com suas vacinas, a OMS admite que ainda não enviou aos países pobres as vacinas que recebeu como doação e que foram usadas pelas multinacionais como publicidade.

Segundo Fukuda, isso depende da capacidade do país receptor de mostrar que tem como administrar as vacinas. Nos estoques estão paradas as 180 milhões de vacinas doadas pelas companhias.

A OMS estima que, em oito meses, cerca de 10 mil pessoas morreram por causa da gripe suína. Mas o número poderia ser maior. A gripe sazonal mata entre 250 mil e 500 mil pessoas por ano no mundo.

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GENEBRA – A Itália foi surpreendida hoje com a declaração do  mafioso arrependido Gaspare Spatuzza de que o primeiro-ministro do país, Silvio Berlusconi, seria cúmplice das atividades da Cosa Nostra. A acusação foi feita na audiência pública em um tribunal de Turim.

Spatuzza colabora com a Justiça desde 2008 e revelou que  Berlusconi seria um dos canais de diálogo entre o mundo da política e Giuseppe Graviano, chefe da máfia siciliana.

Mas estudos nos últimos meses vem mostrando que, bem além dos políticos, a máfia tem uma ampla presença na economia italiana. Um relatório publicado pela associação de empresas Confesercenti, na Itália, chega a constatar a Máfia seria a “empresa” mais bem-sucedida do país.

O documento, do final de 2008, indica que somente no setor comercial da máfia os lucros em 2007 foram de 70 bilhões de euros, equivalentes a 7% do PIB da Itália e acima de vendas
mundiais de empresas como Nestlé e outras gigantes pela Europa.

Parte dos recursos ainda estaria em bancos ao outro lado da fronteira norte do país, em contas secretas na Suíça.

A “holding” Máfia contaria com pelo menos quatro subdivisões: além da enfraquecida Cosa nostra, estão a ‘Ndrangheta, Camorra e Sacra corona unita.  Essas organizações estão implantadas principalmente na Calábria, Campania e Puglia, com uma divisão territorial religiosamente respeitada.

O perigo, na avaliação da associação de comerciantes, é que a quebra de alguns setores e a recessão levem a Máfia a comprar novos grupos e controlar novas parcelas da atitividade economica da Itália. O país enfrentou uma de suas piores crises entre o final de 2008 e meados de 2009.

“A crise econômica torna a máfia ainda mais perigosa. É alarmante saber que a máfia irá procurar se aproveitar da vulnerabilidade e das incertezas da economia para
fortalecer suas posições”, afirmou o presidente da associação dos comerciantes, Marco Venturi.

“A Máfia é, acima de tudo, um grande grupo financeiro e, diante da crise, não tem problema de liquidez e de fazer novos investimentos. Sua grande capacidade financeira permite conquistar novos mercados, se aproveitar da crise da liquidez e adquirir imóveis e empresas”, alerta a entidade.

O tráfico de drogas gera por ano 59 bilhões de euros ao grupo, contra 12,6 bilhões de euros em usura e a extorsão outros 9 bilhões de euros. Só a agro-máfia, produções
controladas pelo grupo principalmente no sul da Itália, gera cerca de 7,5 bilhões de euros por ano ao grupo.

Os produtores ganham até mesmo vendendo vistos de trabalho para imigrantes do Leste Europeu e africanos. Cada visto custaria cerca de 2 mil euros.  O tráfico de armas também gera 5,8 bilhões de euros ao grupo, enquanto o contrabando outros 1,2 bilhão de euros.
Já a prostituição seria responsável por cerca de 600 milhões de euros. Mas o grupo ainda conta com restaurantes, bares noturnos, operadores de turismo e várias outras empresas.

Estudos apontam que o grupo criminoso tem maior presença e poder exatamente nas regiões menos desenvolvidas. Se a média do desemprego na Itália é de apenas 6,7%, no sul a taxa supera 12%, uma das mais altas de toda a Europa. Na periferia de Nápoles, o desemprego chega a 40%.

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GENEBRA – No último fim de semana, a população suíça aprovou uma lei que proíbe a construção de minaretes em mesquistas no país alpino. A decisão gerou críticas de todos os lados. Vaticano, União Européia, líderes religiosos no Egito e Indonésia condenaram a decisão. Para a ONU, trata-se inclusive de uma violação aos direitos de liberdade religiosa.

Mas quem fez a ameaça mais dura até agora foi o governo turco. A idéia proposta por Ancara tiraria o sono de qualquer suíço: pedem a todos os muçulmanos que retirem suas fortunas dos bancos de Genebra e Zurique. A Suíça guarda um terço das fortunas privadas do planeta, cerca de US$ 3 trilhões. Uma parte importante é do mundo árabe.

“Estou certo de que esse voto irá fazer com que nossos países irmãos do mundo muçulmano repensem a idéia de deixar seus dinheiros e investimentos em bancos suíços”, afirmou o ministro Egemen Bagis, em entrevista ao jornal turco Zaman. Bagis é o ministro encarregado de negociar a adesão da Turquia à União Européia, um projeto hoje que não passa de uma ilusão.

“Em 2008, quando os bancos em todo o mundo estavam entrando em falência, não vimos nenhum banco turco sofrer qualquer problema”, disse.

Mais de 57% dos eleitores na Suíça votaram por banir os minaretes. A decisão assustou o Vaticano, que agora teme que suas igrejas em países muçulmanos sejam atacadas.

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GENEBRA – A Suíça vai às urnas neste fim de semana para votar em um referendo que pode ter consequências bem além dos alpes. Os suíços aprovam ou não uma proibição à construção de minaretes em mesquistas no país. O debate ganhou proporções internacionais e grupos radicais já alertam que uma eventual aprovação da proibição pode gerar respostas violentas contra igrejas no Oriente Médio. Ontem, o Vaticano apelou para que a população vote a favor da construção dos minaretes muçulmanos, e não contra os símbolos muçulmanos. O debate é ainda o espelho de um dilema para os governos: como integrar o número cada vez maior de muçulmanos na Europa diante do crescimento de forças anti-imigração.
 
Na Suíça, são 400 mil muçulmanos, em um país de 7,7 milhões de habitantes. Hoje, existem 180 locais de culto. Mas apenas quatro deles contam com minarete. Na mesquita de Genebra, visitada pelo Estado ontem, o minarete não é usado para convocar os fiéis a rezar. Mesmo assim, na madrugada de quinta-feira, o prédio foi vandalizado antes das 6 da manhã, quando os primeiros muçulamos chegavam para rezar. A mesma mesquita foi apedrejada há poucos dias.
 
A campanha contra os minaretes foi lançada pelo Partido do Povo Suíço, de direita, e que mantém campanhas contra a imigração. Nas cidades suíças, cartazes foram espalhados com a imagem de mesquistas. No lugar dos minaretes, a fotos traziam mísseis. Um jogo de vídeo game também foi distribuído aos jovens. O objetivo é destruir minaretes, cada vez que surgem.
 
O debate começou quando uma mesquista de Berna, a capital do país, pediu a autorização para a construção de um minarete. “Os minaretes não são construções inocentes. São levantadas para marcar o território e a progressão do islã em países estrangeiros”, afirmou o deputado de direita, Oskar Freysinger, um dos líderes da proposta de banir a construção.

A direita suíça repetiu de forma insistente a frase do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que comparou os minaretes a “baionetas”. “Nós não queremos armas em nossos territórios. Os minaretes não são um símbolo religioso. São símbolos de poder”, alertou Freysinger.

Para a comunidade muçulmana na Suíça, suas mesquistas estão sendo utilizadas politicamente. Os centros religiosos abriram suas portas para qualquer suíço. “Nossos minaretes são um símbolo de liberdade religiosa”, disse Mahmoud El Guindi, um dos líderes da comunidade.

Na última sondagem realizada no país, há duas semanas, 54% da população afirmou que não votaria pela proibição na construção de minerates. Mas o problema é que a taxa de indecisos ainda era grande: mais de 15%.

Os grupos mais moderados alertam que não há contradição entre ser muçulmano e suíço. Prova disso é a equipe de futebol sub17 do país que ganhou a Copa do Mundo há duas semanas. Metade da equipe era muçulmana, com jovens filhos de imigrantes da Bósnia e Turquia.

Mas nem sempre a integração tem funcionado. Na principal prisão de Genebra, 54% dos detentos são muçulmanos, segundo os dados oficiais do Departamento de Justiça da cidade.

O tema superou as fronteiras suíças. A Organização da Conferência Islâmica enviou diplomatas para alertar o governo
suíço de que a repercussão no mundo árabe pode ser profunda, seguindo os exemplos da reação que houve contra desenhos considerados como ofensivos na imprensa dinamarquesa há alguns anos.

No restante da Europa, ela expõe o debate sobre a integração dos muçulmanos. A Holanda já proibiu sua construção e a França ainda não tem uma posição final sobre o assunto. Políticos e grupos religiosos na Alemanha, Itália e outros países também foram tomados pela discussão.

Os próprios bispos católicos na Suíça declararam na sexta-feira que são contra a proibição e que pediam a todos os católicos que votassem pela autorização. O que a Igreja teme é que seus poucos locais de culto ainda autorizados no Oriente Médio sejam alvos de retaliações.
 
Ontem, o próprio Vaticano criticou a realização da votação e também alertou para retaliações contra cristãos nos países muçulmanos. “Se alguém quer ser católico, precisa estar aberto aos outros”, afirmou Antonio Maria Veglio, presidente do Conselho Pontifício da Pastoral do Imigrante. Ele admite que o Islã, em muitos casos, não pratica uma “reciprocidade”.

Já os empresários suíços tem outro temor: seus negócios com o mundo muçulmano. Conhecida como um país neutro, a Suíça sempre teve acesso facilitado em países considerados como fechados, como Líbia ou Irã. Agora, a Câmara de Indústria da Suíça tem que a proibição da construção de minaretes afete o comércio de US$ 10 bilhões por ano entre o país e o Oriente Médio. Alguns governos já indicaram que poderão boicotar produtos suíços.

Para especialistas, a votação na Suíça ainda é um teste sobre como os países europeus estão realizando a integração de outras religiões e outras comunidades em suas sociedades. Ongs como a Anistia Internacional acusam os governos de já terem fracassado nessa integração e alertam que, um sinal negativo como o dos minaretes, pode dar a sensação a essas populações de que vivem em guetos.

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GDANSK, Polônia - O histórico estaleiro de Gdansk quer investir nos projetos relacionados ao pré-sal no Brasil. A cúpula da empresa viajará até o Rio de Janeiro no início de 2010 para tentar convencer a Petrobras a fechar acordos com o estaleiro – que já foi o quinto maior do mundo -para o fornecimento de navios e estruturas metálicas.

A iniciativa do estaleiro de buscar novos parceiros faz parte de sua própria reforma que começou neste ano e que levará outros três para estar concluída. Depois de passar para a história como o palco da luta contra o regime comunista no Leste Europeu nos anos 80, a empresa corria o risco de quebrar se não adotasse uma nova estratégia empresarial. Foi salvo pelos subsídios da União Européia.

No estaleiro de Gdansk, tudo começou em 1980 com uma greve liderada pelo então eletricista desempregado Lech Walesa. Mas os revolucionários ainda tiveram de esperar até 1989 para ver seu movimento dar resultados. Nas primeiras eleições livres, o sindicato Solidariedade, o primeiro independente em todo o bloco comunista, ganhou 99 dos 100 lugares no Parlamento polonês.

20 anos depois, porém, o estaleiro é o espelho da transição de toda a região: 90% dos trabalhadores foram demitidos desde 1989 e a empresa foi comprada por um grupo estrangeiro. O Solidariedade, que tinha 10 milhões de membros, hoje conta com apenas 700 mil. Sem o mercado garantido nos países que faziam parte da União Soviética, a produção do estaleiro desabou. Em 1970, o estaleiro produzia 35 navios por ano. Hoje, são apenas quatro.

Muitos dos líderes sindicais poloneses também não estão mais lá. Nas obras, os trabalhadores são vietnamitas, ucranianos e outros imigrantes.

Um dos poucos sinais de que o local fez parte da história é seu portão. Nas grades ainda estão colocadas as fotos da revolução, uma bandeira da Polônia e outra do sindicato Solidariedade. Não falta ainda uma foto do Papa João Paulo II, nascido na Polônia e que teve um papel fundamental na luta contra o comunismo.

Nostálgico, um dos líderes históricos do Solidariedade, Jerzy Borowczak, confessou: “antes, rezávamos para que o Papa nos ajudasse a acabar com a opressão. Hoje, rezamos para manter nossos empregos”.

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VARSÓVIA – Na segunda-feira passada, em Berlim, o polonês Lech Walesa foi o primeiro a empurrar os dominós gigantes que marcaram as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Walesa foi escolhido por ter sido o primeiro, em 1980, a desafiar o regime comunista criando um sindicato independente, o Solidariedade. Ele acabaria sendo eleito presidente da Polônia em 1990. Mas jamais conseguiu voltar a ser eleito, diante da oposição que se criou em torno dele. Eletricista e sindicalista, Walesa reconhece ao “Direto da Europa” que tem mais inimigos hoje que pessoas que o apoiam. Mas ainda assim acredita que fez a coisa certa ao desafiar o regime autoritário. Hoje, um de seus trabalhos é o de ajudar a oposição em Cuba a ser organizar contra o regime de Havana. Eis os principais trechos da entrevista:

P – Qual foi a maior conquista com a queda dos regimes comunistas para o mundo?

Walesa – A idéia de que podemos superar divisões e muros. Na realidade, isso já havia ocorrido muito antes, em 1980 na Polônia. No estaleiro de Gdansk, unimos as diferentes classes sociais sob a mesma bandeira. Até então, estávamos divididos. Mas aí decidimos caminhar juntos. Trabalhadores e intelectuais, jovens e velhos, crentes e não crentes. O sindicato Solidariedade lançou uma transformação real em nossas sociedades e, em consequência, em todo o sistema. O mundo inteiro estava ao nosso lado. O sindicato Solidariedade não tinha fronteiras. O próprio Papa João Paulo II estava ao nosso lado. Já em 1979 ele nos havia dado esperanças em sua visita à Polônia. Seu recado tocou a todos. Ele disse naquela ocasião: “Deixe o Espírito Santo tocar a todos e renovar o rosto do mundo”. Foi com esse espírito que decidimos lançar o desafio. Primeiro de mudar o rosto da sociedade polonesa e, depois, como um dominó, de toda a região.

P – Como o sr. explica que, depois de tais eventos, o sr. sequer seria eleito para um segundo mandato como presidente da Polônia?

Walesa – Quando terminanos a greve em 1980, meus amigos me carregavam em seus ombros e eu falava para uma audiência enorme. Mas eu sempre pensava: hoje me carregam nos braços. Mas amanhã poderão pedras sobre mim. E eu estava certo. Depois de dez anos, eu descobri que tinha mais oponentes que apoiadores. Entendi logo no início do processo que a mudança nos custaria muito. Entendi que a liberdade teria um preço alto. A realidade é que a liberdade cobrou um preço alto. Ser presidente não era o que eu buscava. Mas compreendi que seria necessário me lançar a isso se queríamos de fato romper com a cadeia de comando do governo comunista.

P – Mas hoje muitos no Leste Europeu estão decepcionados com suas situações, queixando-se do desemprego e das disparidades sociais, mesmo que comemorem a liberdade. Qual o caminho para superar esses problemas?

Walesa – A revolução pacífica que promovemos nos ano 90 não apenas fechou um capítulo de divisões no mundo. Ela também abriu uma nova era. A Era Global. O que se pode dizer com certeza hoje é de que precisamos de uma nova filosofia para entender e atuar dentro de um mundo globalizado.

P – Um dos focos de seu trabalho hoje é o de apoiar a democracia em Cuba. Como o sr. vê a situação em Havana hoje para a oposição?

Walesa - A oposição cubana não está unida e nem é solidária. Esse é o principal problema. Há uma falta de visão clara sobre como caminhar para a liberdade. No nosso caso na Polônia também havia divisões, diferentes avaliações sobre o que deveríamos fazer. Mas entendemos logo que o sucesso só viria com uma visão clara do futuro e unidade. Foi difícil mante-la. Mas conseguimos. Sobre Cuba, eu estou comprometido a continuar ajudando. O mundo e a região precisam da democracia e da liberdade em Cuba.

P – Em 1989, enquanto o Muro caia, tanto o sr. como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva eram sindicalistas naquele momento. Lula não venceu as eleições daquele mesmo ano e ficou claro que vocês tiveram sérias divisões. Porque não houve um entendimento naquele momento ?

Walesa – Temos muito em comum. Discussões e desacordos são parte de um mundo democrático e livre. Tenho muita admiração pelo presidente Lula.

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PRAGA, REPÚBLICA TCHECA – Poucos são os documentos pessoais que explicam em tão poucas palavras um acontecimento histórico. Mas o diário do assistente para política externa de Mikhail Gorbatchev, Anatoly Chernyaev, revela o que poucos historiadores, jornalistas ou sociólogos conseguiriam descrever diante do acontecimento.

Eis o que ele anotou em seu diário pessoal no dia 10 de novembro de 1989, dia seguinte à queda do Muro de Berlim:

“O Muro de Berlim entrou em colapso. Uma era inteira na história do sistema socialista acabou. Hoje, também recebemos a notícia sobre a “aposentadoria” de Zhivkov (líder búlgaro). Apenas nossos “melhores amigos” Castro, Ceausesco e Kim Il Sung ainda estão por ai – pessoas que nos odeiam.

Mas o principal é o Muro de Berlim. Ele não tem relação apenas com o socialismo, mas com uma mudança no equilíbrio de poder mundial. Esse é o fim de Ialta…do legado Stalinista e da derrota da Alemanha Hitlerista.

Isso é o que Gorbatchev fez. E ele acabou sendo um grande líder. Ele entendeu o caminho da história e ajudou a história a achar seu canal natura¨.

O diário, para quem quiser ler, está nos arquivos da Fundação´Gorbatchev, em Moscou, ou no Biblioteca Havel, em Praga.

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Bratislava, Eslováquia  – Há um ano, a ucraniana Ania foi abordada por uma mulher em uma discoteca de sua cidade, Uzhhorod. Ela propôs à jovem de 20 anos que fosse trabalhar em Londres como modelo. Passagem, hospedagem e mesmo a alimentação estariam garantidas pela senhora, que se apresentou como um agente de manequins. Ania aceitou. Mas, já no caminho, percebeu que estava presa e impedida de sair do quarto de hotel onde se encontrava.

Conseguiu escapar por uma janela, duas semanas depois, e conta que andou toda a noite para encontrar alguém que a levasse para casa. Descobriu que estava na Eslováquia. “Não sabia nem em que país eu estava”, disse. Hoje, ela está recebendo tratamento psicológico e afirma temer até ir à escola. A pobreza e a falta de empregos nas ex-repúblicas soviéticas estão gerando um fenômeno que alarma a ONU, Estados Unidos, União Européia e entidades de direitos humanos de todo o planeta: o tráfico de seres humanos.

Dados do Departamento de Estado norte-americano estimam que até 175 mil mulheres dos países que faziam parte do bloco comunistas são enviadas para o exterior todos os anos para prestar trabalhos forçados. Isso vem se repetindo ano após ano desde a queda do muro de Berlim em 1989. 80% delas vão para a prostituição em capitais como Viena, Londres ou Berlim. Dados da Comissão Econômica da ONU para a Europa apontam que 15 mil russas e mulheres do Leste Europeu estão trabalhando na zona de prostituição das cidades alemãs.

Muitas, segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), estão atuando para grupos criminosos que controlam bares e boates. Esses locais seriam financiados por gangues russas, turcas e sérvias. Em Viena, 70% das prostitutas vem dos países que faziam parte do bloco soviético. Os lucros são importantes. Segundo o Departamento de Estado, os valores obtidos pelos grupos criminosos poderia chegar a US$ 9 bilhões por ano com a venda de pessoas.

Em Kosice, Eslováquia, o assistente social Jan Borko conta que vem insistindo nas escolas que trabalha para que a informação sobre o tráfico de pessoas seja difundido. “As principais vítimas são as pessoas mais vulneráveis economicamente. Mas há também muita falta de informação. Os grupos criminosos vão até cidades do interior e fazem promessas absurdas a meninas”, afirmou Borko. “Muitas acham que seu príncipe encantado apareceu”, disse. “Meu trabalho é o de prevenir, por meio da informação de que esse risco existe”, disse. Casos como esses são inúmeros.

Um deles, descoberto pela polícia eslovaca, revela que o criminoso chegou a namorar sua vítima por dois meses em Bratislava antes de propor uma viagem à Viena. Lá, entrou em um quarto de hotel e disse a vítima que já voltaria. Nunca mais apareceu e a mulher passou a ser explorada pelo dono do hotel.

“Os grupos criminosos são verdadeiras multinacionais, com funcionários de vários países e agindo em várias regiões do mundo ao mesmo tempo”, explicou a chefe do escritória da OIM em Bratislava, Zuzana Vatralova. Ela criou um número de emergência para que vítimas possam ligar para denunciar o que estão sofrendo. Mas muitas são ameaçadas por seus proprietários, que alertam que matariam alguém de sua família se ela fugisse. O próprio Ministério do Interior da Ucrânia admite que o paradeiro de 5 mil mulheres do país é “desconhecido”.

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