GENEBRA – Joseph Blatter, O cartola que domina o futebol Mundial há mais de uma década aponta que os jogadores africanos, em vários aspectos, são superiores aos do Brasil. «Fisicamente e psicologicamente, os jogadores africanos estão em um nível acima dos brasileiros », disse, na última segunda-feira em Genebra.
« São jogadores que buscam algo, que tem vontade. Já os brasileiros são mais acrobatas, mais artistas », afirmou, em um tom irônico.
Blatter só se esqueceu de mencionar que a África jamais chegou a uma semi-final de Copa do Mundo.
GENEBRA – As vésperas da primeira viagem da presidente Dilma Rousseff para a Europa, o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, insinua a necessidade de o Brasil apoiar processos de democratização pelo mundo e de usar sua própria experiência como “exemplo” para outros países.
« Sabemos que o Brasil está nesse momento focado em seu desenvolvimento. Mas, sem dar lição aos outros, seria importante o Brasil compartilhar sua experiência, que é um sucesso e é importante », cobrou, durante um evento na segunda-feira da Fundação Sérgio Vieira de Mello para a entrega de um prêmio a uma ong iraquiana. O brasileiro Vieira de Mello era o representante da ONU em Bagdá há sete anos, quando foi atingido por um carro bomba, fazendo 21 vítimas.
Falando em Genebra, Barroso fez um apoio explícito à intervenção militar na Líbia e garantiu que a resolução da ONU que permitiu a operação “entrará para a história do direito”. “A decisão de atacar não é fácil. Mas a alternativa era cruzar os braços e ver um massacre”, disse.
O presidente da Comissão chegou a comparar o que ocorreu em Ruanda e na Bósnia nos anos 90 com o que poderia ter ocorrido em Benghazi se não fosse a intervenção externa. «Precisamos trabalhar para depois poder olhar no espelho sem vergonha. Seria indigno ficar diferente », disse.
Barroso, questionado por este reporter, preferiu não comentar diretamente a decisão do Brasil de se abster na votação no Conselho de Segurança sobre a Líbia. De uma forma mais geral, apontou que “o papel do Brasil (no apoio à onda de democratização) é crítico”, disse.
« O Brasil é um sucesso global de um país emergente que mostrou que pode ter uma democracia competitiva e ainda assim ter crescimento econômico e desenvolvimento social », disse. « Por isso é que seu papel (na promoção da democracia) é importante. Rompe com a percepção de que são os estados não-democráticos os que mais crescem », apontou.
Barroso ainda vez uma defesa clara da operação militar na Líbia. « Não podemos ser ambiguos nesse caso », completou.
GENEBRA – O pior cenário projetado pela ONU se confirma na Líbia e, apenas um mês depois a eclosão do conflito, mais de 400 mil refugiados deixaram o país em guerra. Apenas na fronteira com a Tunísia, acampamentos já abrigam mais de 160 mil pessoas. No lado egípcio da fronteira, a situação é ainda mais crítica, já que o governo do Cairo se recusa a aceitar a construção de campos de refugiados pela ONU no local.
Por dia, cerca de 6 mil pessoas estariam deixando o país. O número chegou a cair para apenas 2 mil quando os ataques da coalizão começaram. Muitos tinham a esperança de que o ataque colocaria um fim rápido no governo de Muamar Kadafi. Mas não foi nada disso que ocorreu.
No acampamento de Choucha, na Tunísia, 9 mil pessoas a mais pediram desde sexta-feira para receber a ajuda dada pela ONU e ongs.
Uma parcela importante ainda tenta chegar até a Europa, cruzando o Mar Mediterrâneo. Muitos, porém, não completam a travessia. No fim de semana, 70 corpos de eritreus foram encontrados nas costas da Líbia, vítima provável de um naufrágio. Há dois dias, 400 líbios ainda « desapareceram » em alto mar depois de uma tempestade.
Os que sobrevivem estão sendo obrigados a passar por centro de detenções na Europa. Kadafi, nas primeiras semanas no conflito, chegou a ameaçar « inundar » a Europa com imigrantes se os governos do continente continuassem a apoiar os rebeldes.
Diante da dificuldade em escapar para o Norte, um fluxo de refugiados já começa a chegar no Chade, Niger e Sudão, na fronteira sul.
Para lidar com o êxodo, a ONU e a Organização Mundial de Migrações fizeram um apelo de US$ 160 milhões. Mas nem 60% desse valor chegou até agora aos cofres das entidades.
« Essa crise está longe de um fim. Temos de nos preparar para um longo processo e decisões difíceis », declarou o diretor da OIM, William Swing.
GENEBRA - Enquanto manifestantes no Bahrein eram reprimidos nos últimos dias pelas forças de ordem e a ONU declarava que até cem pessoas haviam desaparecido nos últimos dias, o governo do pequeno país no Golfo Pérsico fazia um esforço diplomático para se explicar e montar uma campanha de sedução da opinião pública mundial. A monarquia mandou à ONU, em Genebra, sua superministra , Fatima Al Balooshi, responsável pelas pastas de Saúde, Assuntos Sociais e Direitos Humanos. Enquanto tentava convencer a ONU e jornalistas internacionais de que seu país estava passando por um golpe, e não uma revolução popular, a ministra distribuia sorrisos e a impressão de que a população não tinha do que se queixar. « Somos o único país do Oriente Médio que já cumpriu as metas do Milênio de redução de pobreza », argumentava.
Ela, pelo menos, não tinha do que se queixar. Enquanto conversava, levava orgulhosamente sua bolsa Louis Vuitton que, claro, ia combinando com a carteira da mesma marca. Nada mal como imagem para a ministra de Assuntos Sociais de um país em ebulição. Entre as propostas paea acalmar a população está a introdução de um Bolsa Família. Mais inexplicável ainda eram suas respostas às acusações de que seu governo massacra a oposição, fato comprovado e condenado pela ONU. Eis os principais trechos da entrevista que me concedeu na sede da ONU:
P – A ONUacusou o seu governo de violações de direitos humanos e apontou para o desaparecimento de até cem pessoas nos últimos dias. Porque o seu governo vem tomando essas medidas diante de manifestantes que pedem reformas ?
R – Fui cobrar da ONU de onde tiraram essas informações. Nada disso ocorreu. O que vimos é que foram alguns dos manifestantes que iniciaram a violência. Usavam paus, facas e até espadas contra nossos policiais. Ainda levaram crianças para as ruas para aumentar o número de manifestantes. Nosso país é um local pacífico e as pessoas ficaram assustadas com tudo isso. Atacaram ambulâncias e até hospitais. Até agora, temos 243 policiais feridos por conta das manifestações e apenas 53 feridos entre os manifestantes.
P – Como é que, diante da acusações de uso da força pelo seu governo, a sra. aponta que há mais policiais feridos que manifestantes ? Deve ser um caso único no mundo hoje.
R – Quando as manifestações começaram, o mundo inteiro se voltou contra o Bahrein por conta da forma de respondemos. Então a decisão foi a de demonstrar que, se não usássemos força, a esperança era de que os manifestantes também não o fariam. Mas foi exatamente o contrário que ocorreu. Vendo que não havia controle, os manifestantes deixaram de ter limites.
P – Mas há acusações de que policiais chegaram a invadir hospitais para espancar manifestantes já atingidos, enquanto recusavam a entrada de novos feridos.
R – Não é nada disso. Eram os manifestantes que ocuparam os hospitais. Encontramos até armas lá.
P – Mas qual o número de mortos até agora?
R – São 19. Onze deles manifestantes, mas também quatro policiais, dois estrangeiros e dois civis.
R – Se a situação é tão boa no país, porque há então manifestações?
P – Pediam uma melhor vida e salários melhores. Oferecemos diálogo. Mas não aceitaram. Pode parecer que o Bahrein é parte da onda de revoluções que atingiu o Oriente Médio. Mas o Bahrein é diferente. Não é uma ditadura. Temos a melhor em educação e saúde do Oriente Médio. O que ocorre é que os líderes da violência tem uma agenda externa. Eles torturam e não representam povo de Bahrein.
P – A Arábia Saudita mandou soldados ao Bahrain. Foram voces quem pediram?
R – Sim, para proteger locais estratégicos.
P – Proteger contra quem ?
R – Temos informações de que essa manifestação não é apenas algo espotâneo. Temos indícios claros do envolvimento de atores estrangeiros, como o Hezbollah e um país vizinho. Deram armas e treinamento.
P – Qual país?
R – Um país vizinho.
P – Porque não se pode dizer o nome ? A sra. insinua que seria o Irã ?
R – Só posso dizer que é um país vizinho.
P – Críticos do regime alegam que um dos problemas é que, num país de maioria xiita, é uma família real sunita quem comanda. Isso é um problema ?
R – Somos uma democracia. O Parlamento é eleito e quase metade dele é compost de xiitas. Por tanto, não aceito esse argumento. Temos 19 igrejas cristãs no país, somos uma sociedade multicultural.
P – O que voces estão pensando em fazer para frear a pressão social por uma melhor vida no país?
R – Uma das propostas que estamos avaliando é justamente o que voces estabeleceram com sucesso no Brasil, que é a transferência de recursos, no mesmo estilo do Bolsa Família. Estamos avaliando como implementar essa experiência aqui.
P – A opção da monarquia desaparecer pode ser uma solução ?
R – Ninguém está pedindo isso.
GENEBRA – Na próxima quinta-feira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU vota uma resoluçao para criar um cargo de relator especial para investigar os crimes cometidos pelo governo iraniano. 50 países já apoiam o projeto, liderado pelos Estados Unidos.
O Brasil, depois de anos hesitando criticar o governo de Ahmadinejad, deve finalmente votar a favor da resoluçao.
Com exclusividade, eis o rascunho do texto, em inglês e como está sendo circulado nesse momento entre as capitais de todo o mundo para avaliaçao dos governos, antes da votaçao:
Situation of Human Rights in the Islamic Republic of Iran
The Human Rights Council,
Guided by the Charter of the United Nations, as well as the Universal Declaration of Human Rights, the International Covenants on Human Rights and other relevant international human rights instruments,
Recalling General Assembly Resolution A/RES/65/226 of December 21, 2010, and regretting the Islamic Republic of Iran’s lack of cooperation with the requests of the General Assembly reflected in the resolution,
Welcoming the Interim report of the Secretary-General on the situation of human rights in Iran to the Human Rights Council and expressing serious concern about developments noted in that report,
Recalling its resolutions 5/1 on the institution-building of the Council and 5/2 on the code of conduct for special procedures mandate-holders of the Council, of 18 June 2007, and stressing that mandate-holders are to discharge their duties in accordance with those resolutions and the annexes thereto,
1. Decides to appoint a Special Rapporteur on the situation of human rights in the Islamic Republic of Iran to report to the Human Rights Council and the General Assembly and to present an interim report to the General Assembly at its 66th session and to submit a report for consideration by the Human Rights Council at its Nineteenth Session;
2. Calls upon the Government of the Islamic Republic of Iran to cooperate fully with the Special Rapporteur and to permit access to visit the country as well as all necessary information to enable fulfillment of the mandate;
3. Requests the Secretary General to provide the Special Rapporteur with the resources necessary to fulfill the mandate within existing resources.
GENEBRA – Na Suíça, muçulmanos estao proibidos de construir seus minaretes. Na Suíça, um seguro de um carro comprado por um brasileiro custa 200% mais caro que um seguro do mesmo carro de um priorietário “de olhos azuis”, como diria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na Suíça, o dinheiro de um ex-ditador do Haiti que estava em contas nos bancos de Genebra ainda nao foi devolvido ao povo haitiano porque nao haveria provas de sua irregularidade, mesmo 25 anos depois de estarem bloqueados. Na Suíça, partidos debatem a criaçao de leis estipulando que se um estrangeiro cometer um crime, nao apenas ele seria expulso do país, mas toda sua família, mesmo que os demais sejam inocentes.
Nessa mesma Suíça, porém, os cidadaos irao às urnas no dia 7 de março para votar uma proposta de lei para criar advogados para os animais, pagos pelo estado. Cada cantao suíço terá de ter um advogado para representar cachorros, gatos, porcos, coelhos e qualquer outra animal no tribunal.
O referendo ocorre à pedido de ativistas de direitos dos animais, que conseguiram reunir 144 mil assinaturas dos cidadaos apoiando a iniciativa. Para que um tema seja colocado à votaçao nacional, 100 mil assinaturas devem ser reunidas.
As últimas sondagens realizadas no país indicam que a lei seria aprovada com 70% dos votos. O sistema funcionaria da seguinte maneira: se alguém souber de uma situaçao em que um animal está recebendo maus-tratos de seu proprietário, uma queixa na Justiça poderá ser formulada por um vizinho, amigo ou, mais provavelmente, um inimigo. O animal em questao seria defendido pelo advogado pago pelo estado.
No cantao de Zurique, o advogado já existe. Antoine Goetschel, que é quem ocupa o posto, explica que um cidadao, quando é agredido, pode ir a um tribunal. Agora, esse direito também existe para um animal.
Nao questiono o direito dos animais e tenho simpatia por um país que tem recursos para bancar tal iniciativa. Nao quero aqui questionar muito menos a democracia direta, uma das grandes qualidades da Suíça e que é, de fato, a forma mais explícita da soberania de um povo.
Mas na Suíça, há dois anos, o partido majoritário no país ganhou as eleiçoes com cartazes pelas ruas das cidades mostrando uma ovelha negra sendo expulsa da Suíça por ovelhas brancas. Ativistas de direitos humanos atacaram o partido por estar promovendo a xenofobia no país. Até a ONU se envolveu na polêmica e pediu que os cartazes fossem retirados, o que nunca ocorreu. O debate sobre a imigraçao explodiu, grupos latino-americanos, africanos e árabes se sentiram agredidos pelos cartazes e pelos votos dos suíços nas urnas.
O partido – o UDC – explicou que nao falam de pessoas em seus cartazes, mas de ovelhas.
Prezados leitores, perdao pela ironia. Mas qual seria o resultado de uma votaçao em que se proporia que imigrantes ganhassem maiores direitos? Infelizmente, nao há sondagens para isso, pois nunca nenhum grupo fez tal proposta para que seja votada nas urnas.
No limite do absurdo e se o absurdo for a regra, a pergunta que fica agora é a seguinte: se o referendo do dia 7 de março estipular a criaçao de um advogado para os animais, será que a ovelha negra do cartaz do UDC terá os mesmos direitos das ovelhas brancas e poderá entrar na Justiça por maus tratos?
Mas afinal, eles estavam falando de ovelhas ou de nao?
GENEBRA – A ONU está no Haiti desde 1993, muitos antes do terremoto. Conferências de doadores já foram organizadas várias vezes antes do desastre natural que deixou de joelhos o país. Mesmo assim, pouco se avançou.
Uma das explicaçoes é mesmo o fato de que o dinheiro e esforços ficaram concentrados apenas em enviar soldados, quando na realidade o Haiti precisava de banheiros, escolas, alimentos e casas.
Mas, fora das câmeras, nao sao poucos os militares, funcionários da ONU e mesmo governos estrangeiros que apontam a corrupçao como um dos obstáculos para o desenvolvimento do país já antes do terremoto. A entidade Transparencia Internacional deixa claro o tamanho do problema: apenas seis países no mundo sao considerados como sendo mais corruptos que o Haiti.
Documentos obtidos pelo este blog revelam que as desconfianças em relaçao ao fluxo do dinheiro nao se limitam ao governo do Haiti. A missão de paz da ONU no Haiti, comandada pelas tropas brasileias, foi alvo de suspeitas de irregularidade em auditorias feitas pela própria Organização das Nações Unidas. Documentos classificados como sigilosos obtidos pelo blog apontam que irregularidades em contratos e forma de prestação de contas por parte da operação de paz foram identificados entre 2005 e 2006. Em uma das auditorias, a ONU alerta que o processo de licitação para a compra de combustível para os tanques e carros da missão de paz apresentou suspeitas de favorecimento para uma das empresas, que acabou ganhando o contrato de milhões de dólares.
Na ONU, o debate sobre a corrupção dentro da entidade ganhou força nos últimos anos. O escândalo envolvendo pagamentos irregulares ao ex-governo de Saddam Hussein quase derrubou o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Um programa das Nações Unidas – Petróleo por Alimentos – era usado tanto por Bagdá como por empresas para lucrar e contornar as sanções impostas pelo Conselho de Segurança. Uma das empresas tinha como funcionário o filho de Annan.
Desde então, a atenção da ONU sobre todos os gastos de missões em todo o mundo foi redobrada. Doadores e países que gastam milhões por ano financiando as operações de paz exigiram maior transparência nas contas. Ban Ki Moon, o atual secretário-geral da ONU, explicou à reportagem que de fato a luta por maior responsabilidade dentro das missões.
No caso do Haiti, a missão de paz é considerada como uma das mais importantes e ainda como crucial para o país. Desde 1993 a ONU conta com tropas no Haiti, mas nenhuma das missões anteriores conseguiu resolver o problema. Em 2004, o Conselho de Segurança criou a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (MINUSTAH, sigla em francês). O objetivo é o de restaurar a ordem no Haiti, após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. O Brasil, que esperava ter maior presença internacional, se apresentou para liderar a missão e, a cada ano, seu mandato é renovado. Para o Itamaraty, a missão no Haiti é uma espécie de vitrine da capacidade do País de colaborar com a paz mundial.
Mas um dos problemas identificados foi com a compra de combustível para os mais de 2 mil carros, caminhões, tanques e aviões da ONU que estavam no Haiti entre 2005 e 2006. O relatório inicial da Divisão de Auditoria Interna da ONU foi publicado no dia 11 de janeiro de 2007. Em nenhum momento se acusa os soldados brasileiros ou o comando militar do País de ser o responsable pela fraude. A investigaçao isenta ainda as tropas nacionais de envolvimento no esquema. O problema viria de parte dos funcionários civis na ONU e no terreno.
A constatação é de que mecanismos para evitar fraude nos combustíveis dos tanques não foram plenamente adotados. “Uma série de irregularidades ocorreu no processo de licitação de compra de combustíveis”, afirma o documento. “A confidencialidade das propostas (das empresas que concorreram à licitação) não foi preservada e, no geral, faltou integridade ao processo”, afirmou o documento. Houve, segundo a análise, um favorecimento de uma das empresas, a Dinasa.
No processo de licitação para um dos contratos, as empresas TOTAL, Dinasa e Skylink se apresentaram. “A Total ofereceu um preço muito menor que a oferta da Dinasa. Portanto, a TOTAL deveria ter ganhado a licitação”, afirmou a auditoria, sobre a primeira rodada de ofertas.
Mas o contrato acabou sendo dado para a DINASA. A ONU “encontrou indicações de que a DINASA pode ter sido beneficiada por informações internas”. Isso porque a empresa acabou oferecendo, em uma segunda rodada, exatamente o que a MINUSTAH estipulava em seu projeto, mantido em sigilo até então. Um contrato de US$ 8,7 milhões foi dado à empresa em junho de 2005. O caso acabou chegando até Nova Iorque e a ONU pediu que a missão avalisse as irregularidades na licitação.
A ONU, porém, até hoje não esclarece se a irregularidade constatada foi tratada e se as constatações da auditoria levaram a uma investigação.
Em Nova Iorque, a ONU constatou novas suspeitas em relação à missão no Haiti. “O pagamento (feitos pela missão) aos vendedores (de combustível) não eram adequadamente embasados. Documentos necessários para justificar pagamentos não eram transmitidos para a Seção de Finanças”, completou a investigação.
Outra irregularidade: nem todos os equipamentos existentes para controlar fraude nos combustíveis foram enviados aos postos onde estavam as tropas brasileiras no Haiti. A explicação da missão foi de que isso exigiria um treinamento extra por parte dos soldados.
Os casos não se limitam ao tema de combustíveis. Outro problema foi identificado em 27 de fevereiro de 2007. Uma auditoria foi realizada nos gastos da missão em quartos de hotéis. A investigação foi iniciada por causa de constatações de que as notas apresentadas e o contrato com um dos hoteis – El Rancho – não apresentavam os mesmos valores. A missão ainda levou 24 meses para apresentar as contas ao Comitê de Contratos da ONU. Os auditores obtiveram emails e fizeram uma série de entrevistas para entender o que ocorria.
O contrato inicial que foi alvo da investigação se referia ao período de junho a dezembro de 2005, com gastos de US$ 600 mil. No total, a ONU fez gastos de mais de US$ 1,6 milhão para alojar seus militares nesse hotel entre 2004 e 2006.
A Divisão de Auditoria da ONU apontou uma série de irregularidades. “A apresentação da MINUSTAH não era clara e levantou questões sobre a veracidade das informações”, afirmou o documento da ONU. A informação enviada à Nova Iorque era “incompleta e inconsistente”. A missão no Haiti rejeitou as denúncias, alegando que não houve falha no envio de informações e acusou na época os escritórios em Nova Iorque por demoras em processar a informação. Para a missão, o contrato entre o hotel El Rancho e a ONU era um “caso único” e novos procedimentos não precisariam ser estabelecidos.
A Divisão de Auditoria não aceitou a explicação da missão. A demora em justificar gastos e problemas nos relatórios enviados à sede da ONU também foram destacados pela Divisão de Auditoria Interna da entidade.
Em um documento de 23 de abril de 2008 da Divisão de Auditoria Interna, a ONU ainda aponta que verificou 79 casos de pagamentos acima de US$ 200 mil entre 2006 e 2007. A ONU se diz “satisfeita” com as informações prestadas sobre as transações, mas critica a demora em alguns casos. Entre as recomendações, pedia maior clareza da parte da Minustah na apresentação dos detalhes de pagamentos.
Um outro documento do mesmo dia aponta uma auditoria em relação aos gastos de novembro de 2007. A ação tinha como meta verificar se os controles internos estavam funcionando de forma adequada na liberação de recursos. A auditoria concluiu que a MINUSTAH “tem implementado controles eficacez na execução de licitações até US$ 1 milhão”, afirma. “Mas os relatório que passaram de US$ 200 mil nao foram enviados à Divisão de Licitações da ONU, Departamento de Administração e ao Sub-secretario-geral, como exigido”. A auditoria criticou a demora no envio dos relatórios e ainda apontou que as documentenações “nem sempre eram consistentes”.
Uma série de recomendações foram feitas à missão para que modificasse seu comportamento. Agora, o terremoto recolou o país de joelhos e conferências internacionais em Davos, Genebra e Montreal já garantiram doaçoes importantes ao país. Resta saber quem é que controlará o fluxo de dinheiro ao Haiti.
GENEBRA – Nos anos 70, o entao secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, ironizou a situaçao da integraçao européia ao questionar qual seria o número de telefone que deveria usar para a falar com a Europa. Se Kissinger fosse obrigado a telefonar mais uma vez para a Europa em 2010, nao acharia que sua frase está tao ultrapassada.
A partir de 1 de janeiro, a Uniao Européia terá dois presidentes: a Espanha, que assume o cargo rotativo até julho, e o presidente permanente Herman Van Rompuy, que acaba de ser eleito. Isso sem contar com o presidente da Comissao Européia, José Manuel Barroso, e a nova ministra das Relaçoes Exteriores, Catherine Ashton.
A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa que dá uma maior institucionalizaçao para a Europa, mas nao retira os governos nacionais da cena. Trata-se de mais um passo para a supranacionalidade. Mas com governos ainda hesitantes em abrir mao completamente de sua soberania.
A Espanha terá a dura tarefa de implementar o tratado que abre uma nova era para a Europa e tenta garantir um maior peso do continente nos temas internacionais. Para os mais otimistas, a Europa ganha novas instituiçoes que transformarao a integracao em um projeto ainda mais irreversível.
Mas o resultado também é um complexo sistema que já começa a gerar atritos. José Luis Rodriguez Zapatero, o presidente do governo espanhol e de olho em alavancar sua popularidade, receberá cúpulas como a da América Latina – Europa e com Barack Obama. Mas será Rompuy quem presidirá os encontros.
Na agenda da Espanha está o relançamento economico da Europa. Mas foi Rompuy que tomou a iniciativa de convocar para Bruxelas uma cúpula no dia 11 de janeiro para tratar do assunto econômico e de superar a crise financeira.
Miguel Angel Moratinos, o ministro de Relaçoes Exteriores da Espanha, garante que nao haverá problema e que cada um saberá qual seu papel. Mas já deixou claro que quer estar ao lado de Ashton quando ela for lidar com o Oriente Médio, América Latina e países do Mediterrâneo, uma nova aposta espanhola. Na agenda ainda está a situaçao no Afeganistao, a relaçao estratégica com a China e a adesao da Turquia.
Nao há dúvidas de que a UE é o projeto de maior sucesso na história contemporânea da integraçao entre países. Em apenas 65 anos, o continente passou de uma guerra sem precedentes para a paz. Ainda assim, a resposta para a pergunta de Kissinger continua vaga.
NYON, Suíça– Enquanto a economia européia patina e dá sinais de que uma recuperação será lenta, uma competição mostra que continua dando lucros. Um estudo publicado nesta semana mostrou que a Liga dos Campeões movimenta 6 bilhões de euros nesta temporada para a economia européia, valor superior ao que a África do Sul espera ter como lucros com a Copa do Mundo de 2010.
Na sexta-feira, o sorteio para as próximas fases da Liga dos Campeões realizada pela Uefa colocou na agenda do futebol verdadeiros duelos de gigantes em suas oitavas de finais, para a alegria de torcedores e principalmente dos patrocinadores. O maior torneio de clubes do mundo, por exemplo, verá o confronto entre o Milan e o Manchester United.
Em Nyon, a Uefa fez o sorteio das próximas confrontações, em um ambiente cercado de expectativas. Claro. Seria a partir dos confrontos que cada equipe mediria quanto ganharia até meados de 2010. Com o resultado, o inglês David Beckham que atua pelo Milan voltará ao clube que o revelou ao mundo, o Manchester United. Pato, Ronaldinho e o técnico Leonardo sabem que o confronto pode já tirar o time italiano da competição de forma prematura.
Em um outro duelo ítalo-britânico, é um português que promete ser alvo de todas as atenções. O técnico da Inter, José Mourinho, enfrentará seu ex-clube Chelsea por um lugar nas quartas de final. O atual campeão, o Barcelona, enfrentará o Stuttgart e espera continuar no caminho de mais uma conquista. Já o Real Madrid, de Kaká, enfrenta o Lyon. A partida marca o retorno do francês Karim Benzema a seu ex-clube. O objetivo do Real é conquistar seu décimo título, principalmente depois dos pesados investimentos que fez.
Mas estudos feitos por patrocinadores da competição mostram que os lucros da Liga dos Campeões sâo garantidos. Em média, cada clube sai do torneio com 50 milhões de euros a mais em caixa. Em 2008, o Barcelona saiu com o troféu e 110 milhões de euros na conta. O próprio Lyon admite que parte de seu interesse na competição é garantir lucros e um maior preço para vender seus jogadores.
As partidas de ida ocorrem a partir de meados de fevereiro. O jogo de volta está marcado para março.
Enquanto os técnicos se preparam para os próximos jogos, os patrocinadores continuam fazendo seus cálculos sobre os ganhos. O estudo publicado nesta semana e encomendado pela Mastercard, uma das patrocinadoras, concluiu que, pelo menos para a Liga dos Campeões, a crise não existe.
Certamente, isso não significa que todos os clubes na competição estejam em dia com suas contas. Muito pelo contrário. Juntos, o Real Madrid, Barcelona e Manchester United tem dívidas somadas de 1 bilhão de euros. Enquanto competições como a Liga dos Campeões existir, os grandes continuarão a financiar seus déficits. Já os pequenos…
GENEBRA – Há dois meses, governos se apressavam em tentar obter acordos para a compra da vacina contra a gripe suína. Lembro-me de ver representantes de algumas das maiores farmacêuticas do mundo alertando que não haveria vacina para todos.
Agora, em muitos locais da Europa, o produto está encalhado e governos já começam a devolver as vacinas às multinacionais. Mesmo assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) se recusou ontem a declarar o fim da pandemia do virus H1N1, alertando que uma nova onda de infecções poderia ocorrer no final do inverno do hemisfério norte, entre março e abril.
A Suíça, que havia comprado 13 milhões de doses da vacina para seus 7 milhões de habitantes, anunciou nesta semana que quer se desfazer de 4,5 milhões de doses. Parte da explicação é o fato de que cada pessoa precisa de apenas uma dose, e não duas como se estimava no início da pandemia. Mas outro fenômeno é o baixo interesse da população em se vacinar.
Na Espanha, a ministra da Saúde, Trinidad Jiménez, admitiu que está negociando com as empresas para devolver o produto. « Os contratos assinados com as empresas que nos venderam as vacinas – GSK, Novartis e Sanofi-Pasteur – incluem cláusulas que permitem devolver as vacinas para que se possa distribuir a outros países », disse. A Espanha comprou 37 milhões de doses da vacina para sua população.
A idéia seria passar as doses para países que não assinaram contratos com empresas. Uma das preocupações da ONU no início da pandemia era de que o poder de compra dos países ricos deixasse as demais economias sem acesso ao produto.
Já alguns estados alemães começam negociações com a GlaxoSmithKline para reduzir as encomendas. Em janeiro, Berlim abrirá negociações com outros países para transferir as vacinas encalhadas. 2 milhões de doses poderiam ser vendidas, das mais de 50 milhões que o país adquiriu.
Quem perde com isso são as empresas farmacêuticas. Segundo a Morgan Stanley, os lucros da Novartis poderiam chegar a US$ 600 milhões com a doença, contra 750 milhões de euros para a Sanofi. Já a Glaxo teria lucros de mais de US$ 3 bilhões. Mas a devolução dos estoques pode reduzir e maté 15% esses benefícios.
Quem também perde é a OMS e sua credibilidade. Duramente criticada por ter criado um sentimento de pânico, a OMS se defende e alerta que é « muito cedo ainda » para dizer que a pandemia acabou. Keiji Fukuda, responsável dentro da organização pelo assunto, ainda insiste que a incerteza é o que marca a atual gripe. Para ele, França, Suíça e Leste Europeu mantém um « nível elevado » da gripe. « É improvável que uma pandemia possa desaparecer de um momento a outro », disse.
Para ele, o principal será avaliar o que ocorrerá nos próximos quatro ou cinco meses.
Enquanto os países ricos não sabem o que fazer com suas vacinas, a OMS admite que ainda não enviou aos países pobres as vacinas que recebeu como doação e que foram usadas pelas multinacionais como publicidade.
Segundo Fukuda, isso depende da capacidade do país receptor de mostrar que tem como administrar as vacinas. Nos estoques estão paradas as 180 milhões de vacinas doadas pelas companhias.
A OMS estima que, em oito meses, cerca de 10 mil pessoas morreram por causa da gripe suína. Mas o número poderia ser maior. A gripe sazonal mata entre 250 mil e 500 mil pessoas por ano no mundo.
2011
2010
2009