Corrupçao: os bastidores da relaçao entre a ONU e o Haiti
- 31 de janeiro de 2010
- 11h03
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – A ONU está no Haiti desde 1993, muitos antes do terremoto. Conferências de doadores já foram organizadas várias vezes antes do desastre natural que deixou de joelhos o país. Mesmo assim, pouco se avançou.
Uma das explicaçoes é mesmo o fato de que o dinheiro e esforços ficaram concentrados apenas em enviar soldados, quando na realidade o Haiti precisava de banheiros, escolas, alimentos e casas.
Mas, fora das câmeras, nao sao poucos os militares, funcionários da ONU e mesmo governos estrangeiros que apontam a corrupçao como um dos obstáculos para o desenvolvimento do país já antes do terremoto. A entidade Transparencia Internacional deixa claro o tamanho do problema: apenas seis países no mundo sao considerados como sendo mais corruptos que o Haiti.
Documentos obtidos pelo este blog revelam que as desconfianças em relaçao ao fluxo do dinheiro nao se limitam ao governo do Haiti. A missão de paz da ONU no Haiti, comandada pelas tropas brasileias, foi alvo de suspeitas de irregularidade em auditorias feitas pela própria Organização das Nações Unidas. Documentos classificados como sigilosos obtidos pelo blog apontam que irregularidades em contratos e forma de prestação de contas por parte da operação de paz foram identificados entre 2005 e 2006. Em uma das auditorias, a ONU alerta que o processo de licitação para a compra de combustível para os tanques e carros da missão de paz apresentou suspeitas de favorecimento para uma das empresas, que acabou ganhando o contrato de milhões de dólares.
Na ONU, o debate sobre a corrupção dentro da entidade ganhou força nos últimos anos. O escândalo envolvendo pagamentos irregulares ao ex-governo de Saddam Hussein quase derrubou o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Um programa das Nações Unidas – Petróleo por Alimentos – era usado tanto por Bagdá como por empresas para lucrar e contornar as sanções impostas pelo Conselho de Segurança. Uma das empresas tinha como funcionário o filho de Annan.
Desde então, a atenção da ONU sobre todos os gastos de missões em todo o mundo foi redobrada. Doadores e países que gastam milhões por ano financiando as operações de paz exigiram maior transparência nas contas. Ban Ki Moon, o atual secretário-geral da ONU, explicou à reportagem que de fato a luta por maior responsabilidade dentro das missões.
No caso do Haiti, a missão de paz é considerada como uma das mais importantes e ainda como crucial para o país. Desde 1993 a ONU conta com tropas no Haiti, mas nenhuma das missões anteriores conseguiu resolver o problema. Em 2004, o Conselho de Segurança criou a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (MINUSTAH, sigla em francês). O objetivo é o de restaurar a ordem no Haiti, após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. O Brasil, que esperava ter maior presença internacional, se apresentou para liderar a missão e, a cada ano, seu mandato é renovado. Para o Itamaraty, a missão no Haiti é uma espécie de vitrine da capacidade do País de colaborar com a paz mundial.
Mas um dos problemas identificados foi com a compra de combustível para os mais de 2 mil carros, caminhões, tanques e aviões da ONU que estavam no Haiti entre 2005 e 2006. O relatório inicial da Divisão de Auditoria Interna da ONU foi publicado no dia 11 de janeiro de 2007. Em nenhum momento se acusa os soldados brasileiros ou o comando militar do País de ser o responsable pela fraude. A investigaçao isenta ainda as tropas nacionais de envolvimento no esquema. O problema viria de parte dos funcionários civis na ONU e no terreno.
A constatação é de que mecanismos para evitar fraude nos combustíveis dos tanques não foram plenamente adotados. “Uma série de irregularidades ocorreu no processo de licitação de compra de combustíveis”, afirma o documento. “A confidencialidade das propostas (das empresas que concorreram à licitação) não foi preservada e, no geral, faltou integridade ao processo”, afirmou o documento. Houve, segundo a análise, um favorecimento de uma das empresas, a Dinasa.
No processo de licitação para um dos contratos, as empresas TOTAL, Dinasa e Skylink se apresentaram. “A Total ofereceu um preço muito menor que a oferta da Dinasa. Portanto, a TOTAL deveria ter ganhado a licitação”, afirmou a auditoria, sobre a primeira rodada de ofertas.
Mas o contrato acabou sendo dado para a DINASA. A ONU “encontrou indicações de que a DINASA pode ter sido beneficiada por informações internas”. Isso porque a empresa acabou oferecendo, em uma segunda rodada, exatamente o que a MINUSTAH estipulava em seu projeto, mantido em sigilo até então. Um contrato de US$ 8,7 milhões foi dado à empresa em junho de 2005. O caso acabou chegando até Nova Iorque e a ONU pediu que a missão avalisse as irregularidades na licitação.
A ONU, porém, até hoje não esclarece se a irregularidade constatada foi tratada e se as constatações da auditoria levaram a uma investigação.
Em Nova Iorque, a ONU constatou novas suspeitas em relação à missão no Haiti. “O pagamento (feitos pela missão) aos vendedores (de combustível) não eram adequadamente embasados. Documentos necessários para justificar pagamentos não eram transmitidos para a Seção de Finanças”, completou a investigação.
Outra irregularidade: nem todos os equipamentos existentes para controlar fraude nos combustíveis foram enviados aos postos onde estavam as tropas brasileiras no Haiti. A explicação da missão foi de que isso exigiria um treinamento extra por parte dos soldados.
Os casos não se limitam ao tema de combustíveis. Outro problema foi identificado em 27 de fevereiro de 2007. Uma auditoria foi realizada nos gastos da missão em quartos de hotéis. A investigação foi iniciada por causa de constatações de que as notas apresentadas e o contrato com um dos hoteis – El Rancho – não apresentavam os mesmos valores. A missão ainda levou 24 meses para apresentar as contas ao Comitê de Contratos da ONU. Os auditores obtiveram emails e fizeram uma série de entrevistas para entender o que ocorria.
O contrato inicial que foi alvo da investigação se referia ao período de junho a dezembro de 2005, com gastos de US$ 600 mil. No total, a ONU fez gastos de mais de US$ 1,6 milhão para alojar seus militares nesse hotel entre 2004 e 2006.
A Divisão de Auditoria da ONU apontou uma série de irregularidades. “A apresentação da MINUSTAH não era clara e levantou questões sobre a veracidade das informações”, afirmou o documento da ONU. A informação enviada à Nova Iorque era “incompleta e inconsistente”. A missão no Haiti rejeitou as denúncias, alegando que não houve falha no envio de informações e acusou na época os escritórios em Nova Iorque por demoras em processar a informação. Para a missão, o contrato entre o hotel El Rancho e a ONU era um “caso único” e novos procedimentos não precisariam ser estabelecidos.
A Divisão de Auditoria não aceitou a explicação da missão. A demora em justificar gastos e problemas nos relatórios enviados à sede da ONU também foram destacados pela Divisão de Auditoria Interna da entidade.
Em um documento de 23 de abril de 2008 da Divisão de Auditoria Interna, a ONU ainda aponta que verificou 79 casos de pagamentos acima de US$ 200 mil entre 2006 e 2007. A ONU se diz “satisfeita” com as informações prestadas sobre as transações, mas critica a demora em alguns casos. Entre as recomendações, pedia maior clareza da parte da Minustah na apresentação dos detalhes de pagamentos.
Um outro documento do mesmo dia aponta uma auditoria em relação aos gastos de novembro de 2007. A ação tinha como meta verificar se os controles internos estavam funcionando de forma adequada na liberação de recursos. A auditoria concluiu que a MINUSTAH “tem implementado controles eficacez na execução de licitações até US$ 1 milhão”, afirma. “Mas os relatório que passaram de US$ 200 mil nao foram enviados à Divisão de Licitações da ONU, Departamento de Administração e ao Sub-secretario-geral, como exigido”. A auditoria criticou a demora no envio dos relatórios e ainda apontou que as documentenações “nem sempre eram consistentes”.
Uma série de recomendações foram feitas à missão para que modificasse seu comportamento. Agora, o terremoto recolou o país de joelhos e conferências internacionais em Davos, Genebra e Montreal já garantiram doaçoes importantes ao país. Resta saber quem é que controlará o fluxo de dinheiro ao Haiti.
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A pergunta persiste: qual o telefone da Europa?
- 30 de dezembro de 2009
- 11h34
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – Nos anos 70, o entao secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, ironizou a situaçao da integraçao européia ao questionar qual seria o número de telefone que deveria usar para a falar com a Europa. Se Kissinger fosse obrigado a telefonar mais uma vez para a Europa em 2010, nao acharia que sua frase está tao ultrapassada.
A partir de 1 de janeiro, a Uniao Européia terá dois presidentes: a Espanha, que assume o cargo rotativo até julho, e o presidente permanente Herman Van Rompuy, que acaba de ser eleito. Isso sem contar com o presidente da Comissao Européia, José Manuel Barroso, e a nova ministra das Relaçoes Exteriores, Catherine Ashton.
A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa que dá uma maior institucionalizaçao para a Europa, mas nao retira os governos nacionais da cena. Trata-se de mais um passo para a supranacionalidade. Mas com governos ainda hesitantes em abrir mao completamente de sua soberania.
A Espanha terá a dura tarefa de implementar o tratado que abre uma nova era para a Europa e tenta garantir um maior peso do continente nos temas internacionais. Para os mais otimistas, a Europa ganha novas instituiçoes que transformarao a integracao em um projeto ainda mais irreversível.
Mas o resultado também é um complexo sistema que já começa a gerar atritos. José Luis Rodriguez Zapatero, o presidente do governo espanhol e de olho em alavancar sua popularidade, receberá cúpulas como a da América Latina – Europa e com Barack Obama. Mas será Rompuy quem presidirá os encontros.
Na agenda da Espanha está o relançamento economico da Europa. Mas foi Rompuy que tomou a iniciativa de convocar para Bruxelas uma cúpula no dia 11 de janeiro para tratar do assunto econômico e de superar a crise financeira.
Miguel Angel Moratinos, o ministro de Relaçoes Exteriores da Espanha, garante que nao haverá problema e que cada um saberá qual seu papel. Mas já deixou claro que quer estar ao lado de Ashton quando ela for lidar com o Oriente Médio, América Latina e países do Mediterrâneo, uma nova aposta espanhola. Na agenda ainda está a situaçao no Afeganistao, a relaçao estratégica com a China e a adesao da Turquia.
Nao há dúvidas de que a UE é o projeto de maior sucesso na história contemporânea da integraçao entre países. Em apenas 65 anos, o continente passou de uma guerra sem precedentes para a paz. Ainda assim, a resposta para a pergunta de Kissinger continua vaga.
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Liga dos Campeões movimenta 6 bi de euros
- 19 de dezembro de 2009
- 17h24
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- Por Jamil Chade
NYON, Suíça– Enquanto a economia européia patina e dá sinais de que uma recuperação será lenta, uma competição mostra que continua dando lucros. Um estudo publicado nesta semana mostrou que a Liga dos Campeões movimenta 6 bilhões de euros nesta temporada para a economia européia, valor superior ao que a África do Sul espera ter como lucros com a Copa do Mundo de 2010.
Na sexta-feira, o sorteio para as próximas fases da Liga dos Campeões realizada pela Uefa colocou na agenda do futebol verdadeiros duelos de gigantes em suas oitavas de finais, para a alegria de torcedores e principalmente dos patrocinadores. O maior torneio de clubes do mundo, por exemplo, verá o confronto entre o Milan e o Manchester United.
Em Nyon, a Uefa fez o sorteio das próximas confrontações, em um ambiente cercado de expectativas. Claro. Seria a partir dos confrontos que cada equipe mediria quanto ganharia até meados de 2010. Com o resultado, o inglês David Beckham que atua pelo Milan voltará ao clube que o revelou ao mundo, o Manchester United. Pato, Ronaldinho e o técnico Leonardo sabem que o confronto pode já tirar o time italiano da competição de forma prematura.
Em um outro duelo ítalo-britânico, é um português que promete ser alvo de todas as atenções. O técnico da Inter, José Mourinho, enfrentará seu ex-clube Chelsea por um lugar nas quartas de final. O atual campeão, o Barcelona, enfrentará o Stuttgart e espera continuar no caminho de mais uma conquista. Já o Real Madrid, de Kaká, enfrenta o Lyon. A partida marca o retorno do francês Karim Benzema a seu ex-clube. O objetivo do Real é conquistar seu décimo título, principalmente depois dos pesados investimentos que fez.
Mas estudos feitos por patrocinadores da competição mostram que os lucros da Liga dos Campeões sâo garantidos. Em média, cada clube sai do torneio com 50 milhões de euros a mais em caixa. Em 2008, o Barcelona saiu com o troféu e 110 milhões de euros na conta. O próprio Lyon admite que parte de seu interesse na competição é garantir lucros e um maior preço para vender seus jogadores.
As partidas de ida ocorrem a partir de meados de fevereiro. O jogo de volta está marcado para março.
Enquanto os técnicos se preparam para os próximos jogos, os patrocinadores continuam fazendo seus cálculos sobre os ganhos. O estudo publicado nesta semana e encomendado pela Mastercard, uma das patrocinadoras, concluiu que, pelo menos para a Liga dos Campeões, a crise não existe.
Certamente, isso não significa que todos os clubes na competição estejam em dia com suas contas. Muito pelo contrário. Juntos, o Real Madrid, Barcelona e Manchester United tem dívidas somadas de 1 bilhão de euros. Enquanto competições como a Liga dos Campeões existir, os grandes continuarão a financiar seus déficits. Já os pequenos…
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Devolvendo a Vacina
- 18 de dezembro de 2009
- 11h13
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – Há dois meses, governos se apressavam em tentar obter acordos para a compra da vacina contra a gripe suína. Lembro-me de ver representantes de algumas das maiores farmacêuticas do mundo alertando que não haveria vacina para todos.
Agora, em muitos locais da Europa, o produto está encalhado e governos já começam a devolver as vacinas às multinacionais. Mesmo assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) se recusou ontem a declarar o fim da pandemia do virus H1N1, alertando que uma nova onda de infecções poderia ocorrer no final do inverno do hemisfério norte, entre março e abril.
A Suíça, que havia comprado 13 milhões de doses da vacina para seus 7 milhões de habitantes, anunciou nesta semana que quer se desfazer de 4,5 milhões de doses. Parte da explicação é o fato de que cada pessoa precisa de apenas uma dose, e não duas como se estimava no início da pandemia. Mas outro fenômeno é o baixo interesse da população em se vacinar.
Na Espanha, a ministra da Saúde, Trinidad Jiménez, admitiu que está negociando com as empresas para devolver o produto. « Os contratos assinados com as empresas que nos venderam as vacinas – GSK, Novartis e Sanofi-Pasteur – incluem cláusulas que permitem devolver as vacinas para que se possa distribuir a outros países », disse. A Espanha comprou 37 milhões de doses da vacina para sua população.
A idéia seria passar as doses para países que não assinaram contratos com empresas. Uma das preocupações da ONU no início da pandemia era de que o poder de compra dos países ricos deixasse as demais economias sem acesso ao produto.
Já alguns estados alemães começam negociações com a GlaxoSmithKline para reduzir as encomendas. Em janeiro, Berlim abrirá negociações com outros países para transferir as vacinas encalhadas. 2 milhões de doses poderiam ser vendidas, das mais de 50 milhões que o país adquiriu.
Quem perde com isso são as empresas farmacêuticas. Segundo a Morgan Stanley, os lucros da Novartis poderiam chegar a US$ 600 milhões com a doença, contra 750 milhões de euros para a Sanofi. Já a Glaxo teria lucros de mais de US$ 3 bilhões. Mas a devolução dos estoques pode reduzir e maté 15% esses benefícios.
Quem também perde é a OMS e sua credibilidade. Duramente criticada por ter criado um sentimento de pânico, a OMS se defende e alerta que é « muito cedo ainda » para dizer que a pandemia acabou. Keiji Fukuda, responsável dentro da organização pelo assunto, ainda insiste que a incerteza é o que marca a atual gripe. Para ele, França, Suíça e Leste Europeu mantém um « nível elevado » da gripe. « É improvável que uma pandemia possa desaparecer de um momento a outro », disse.
Para ele, o principal será avaliar o que ocorrerá nos próximos quatro ou cinco meses.
Enquanto os países ricos não sabem o que fazer com suas vacinas, a OMS admite que ainda não enviou aos países pobres as vacinas que recebeu como doação e que foram usadas pelas multinacionais como publicidade.
Segundo Fukuda, isso depende da capacidade do país receptor de mostrar que tem como administrar as vacinas. Nos estoques estão paradas as 180 milhões de vacinas doadas pelas companhias.
A OMS estima que, em oito meses, cerca de 10 mil pessoas morreram por causa da gripe suína. Mas o número poderia ser maior. A gripe sazonal mata entre 250 mil e 500 mil pessoas por ano no mundo.
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Máfia: uma indústria de 70 bilhões de euros
- 4 de dezembro de 2009
- 15h31
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – A Itália foi surpreendida hoje com a declaração do mafioso arrependido Gaspare Spatuzza de que o primeiro-ministro do país, Silvio Berlusconi, seria cúmplice das atividades da Cosa Nostra. A acusação foi feita na audiência pública em um tribunal de Turim.
Spatuzza colabora com a Justiça desde 2008 e revelou que Berlusconi seria um dos canais de diálogo entre o mundo da política e Giuseppe Graviano, chefe da máfia siciliana.
Mas estudos nos últimos meses vem mostrando que, bem além dos políticos, a máfia tem uma ampla presença na economia italiana. Um relatório publicado pela associação de empresas Confesercenti, na Itália, chega a constatar a Máfia seria a “empresa” mais bem-sucedida do país.
O documento, do final de 2008, indica que somente no setor comercial da máfia os lucros em 2007 foram de 70 bilhões de euros, equivalentes a 7% do PIB da Itália e acima de vendas
mundiais de empresas como Nestlé e outras gigantes pela Europa.
Parte dos recursos ainda estaria em bancos ao outro lado da fronteira norte do país, em contas secretas na Suíça.
A “holding” Máfia contaria com pelo menos quatro subdivisões: além da enfraquecida Cosa nostra, estão a ‘Ndrangheta, Camorra e Sacra corona unita. Essas organizações estão implantadas principalmente na Calábria, Campania e Puglia, com uma divisão territorial religiosamente respeitada.
O perigo, na avaliação da associação de comerciantes, é que a quebra de alguns setores e a recessão levem a Máfia a comprar novos grupos e controlar novas parcelas da atitividade economica da Itália. O país enfrentou uma de suas piores crises entre o final de 2008 e meados de 2009.
“A crise econômica torna a máfia ainda mais perigosa. É alarmante saber que a máfia irá procurar se aproveitar da vulnerabilidade e das incertezas da economia para
fortalecer suas posições”, afirmou o presidente da associação dos comerciantes, Marco Venturi.
“A Máfia é, acima de tudo, um grande grupo financeiro e, diante da crise, não tem problema de liquidez e de fazer novos investimentos. Sua grande capacidade financeira permite conquistar novos mercados, se aproveitar da crise da liquidez e adquirir imóveis e empresas”, alerta a entidade.
O tráfico de drogas gera por ano 59 bilhões de euros ao grupo, contra 12,6 bilhões de euros em usura e a extorsão outros 9 bilhões de euros. Só a agro-máfia, produções
controladas pelo grupo principalmente no sul da Itália, gera cerca de 7,5 bilhões de euros por ano ao grupo.
Os produtores ganham até mesmo vendendo vistos de trabalho para imigrantes do Leste Europeu e africanos. Cada visto custaria cerca de 2 mil euros. O tráfico de armas também gera 5,8 bilhões de euros ao grupo, enquanto o contrabando outros 1,2 bilhão de euros.
Já a prostituição seria responsável por cerca de 600 milhões de euros. Mas o grupo ainda conta com restaurantes, bares noturnos, operadores de turismo e várias outras empresas.
Estudos apontam que o grupo criminoso tem maior presença e poder exatamente nas regiões menos desenvolvidas. Se a média do desemprego na Itália é de apenas 6,7%, no sul a taxa supera 12%, uma das mais altas de toda a Europa. Na periferia de Nápoles, o desemprego chega a 40%.
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Entre a Cruz, o Minarete e os Bancos Suíços
- 3 de dezembro de 2009
- 14h25
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – No último fim de semana, a população suíça aprovou uma lei que proíbe a construção de minaretes em mesquistas no país alpino. A decisão gerou críticas de todos os lados. Vaticano, União Européia, líderes religiosos no Egito e Indonésia condenaram a decisão. Para a ONU, trata-se inclusive de uma violação aos direitos de liberdade religiosa.
Mas quem fez a ameaça mais dura até agora foi o governo turco. A idéia proposta por Ancara tiraria o sono de qualquer suíço: pedem a todos os muçulmanos que retirem suas fortunas dos bancos de Genebra e Zurique. A Suíça guarda um terço das fortunas privadas do planeta, cerca de US$ 3 trilhões. Uma parte importante é do mundo árabe.
“Estou certo de que esse voto irá fazer com que nossos países irmãos do mundo muçulmano repensem a idéia de deixar seus dinheiros e investimentos em bancos suíços”, afirmou o ministro Egemen Bagis, em entrevista ao jornal turco Zaman. Bagis é o ministro encarregado de negociar a adesão da Turquia à União Européia, um projeto hoje que não passa de uma ilusão.
“Em 2008, quando os bancos em todo o mundo estavam entrando em falência, não vimos nenhum banco turco sofrer qualquer problema”, disse.
Mais de 57% dos eleitores na Suíça votaram por banir os minaretes. A decisão assustou o Vaticano, que agora teme que suas igrejas em países muçulmanos sejam atacadas.
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Entre a Cruz e o Minarete – O Dilema Europeu
- 29 de novembro de 2009
- 6h55
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- Por Jamil Chade
GENEBRA – A Suíça vai às urnas neste fim de semana para votar em um referendo que pode ter consequências bem além dos alpes. Os suíços aprovam ou não uma proibição à construção de minaretes em mesquistas no país. O debate ganhou proporções internacionais e grupos radicais já alertam que uma eventual aprovação da proibição pode gerar respostas violentas contra igrejas no Oriente Médio. Ontem, o Vaticano apelou para que a população vote a favor da construção dos minaretes muçulmanos, e não contra os símbolos muçulmanos. O debate é ainda o espelho de um dilema para os governos: como integrar o número cada vez maior de muçulmanos na Europa diante do crescimento de forças anti-imigração.
Na Suíça, são 400 mil muçulmanos, em um país de 7,7 milhões de habitantes. Hoje, existem 180 locais de culto. Mas apenas quatro deles contam com minarete. Na mesquita de Genebra, visitada pelo Estado ontem, o minarete não é usado para convocar os fiéis a rezar. Mesmo assim, na madrugada de quinta-feira, o prédio foi vandalizado antes das 6 da manhã, quando os primeiros muçulamos chegavam para rezar. A mesma mesquita foi apedrejada há poucos dias.
A campanha contra os minaretes foi lançada pelo Partido do Povo Suíço, de direita, e que mantém campanhas contra a imigração. Nas cidades suíças, cartazes foram espalhados com a imagem de mesquistas. No lugar dos minaretes, a fotos traziam mísseis. Um jogo de vídeo game também foi distribuído aos jovens. O objetivo é destruir minaretes, cada vez que surgem.
O debate começou quando uma mesquista de Berna, a capital do país, pediu a autorização para a construção de um minarete. “Os minaretes não são construções inocentes. São levantadas para marcar o território e a progressão do islã em países estrangeiros”, afirmou o deputado de direita, Oskar Freysinger, um dos líderes da proposta de banir a construção.
A direita suíça repetiu de forma insistente a frase do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que comparou os minaretes a “baionetas”. “Nós não queremos armas em nossos territórios. Os minaretes não são um símbolo religioso. São símbolos de poder”, alertou Freysinger.
Para a comunidade muçulmana na Suíça, suas mesquistas estão sendo utilizadas politicamente. Os centros religiosos abriram suas portas para qualquer suíço. “Nossos minaretes são um símbolo de liberdade religiosa”, disse Mahmoud El Guindi, um dos líderes da comunidade.
Na última sondagem realizada no país, há duas semanas, 54% da população afirmou que não votaria pela proibição na construção de minerates. Mas o problema é que a taxa de indecisos ainda era grande: mais de 15%.
Os grupos mais moderados alertam que não há contradição entre ser muçulmano e suíço. Prova disso é a equipe de futebol sub17 do país que ganhou a Copa do Mundo há duas semanas. Metade da equipe era muçulmana, com jovens filhos de imigrantes da Bósnia e Turquia.
Mas nem sempre a integração tem funcionado. Na principal prisão de Genebra, 54% dos detentos são muçulmanos, segundo os dados oficiais do Departamento de Justiça da cidade.
O tema superou as fronteiras suíças. A Organização da Conferência Islâmica enviou diplomatas para alertar o governo
suíço de que a repercussão no mundo árabe pode ser profunda, seguindo os exemplos da reação que houve contra desenhos considerados como ofensivos na imprensa dinamarquesa há alguns anos.
No restante da Europa, ela expõe o debate sobre a integração dos muçulmanos. A Holanda já proibiu sua construção e a França ainda não tem uma posição final sobre o assunto. Políticos e grupos religiosos na Alemanha, Itália e outros países também foram tomados pela discussão.
Os próprios bispos católicos na Suíça declararam na sexta-feira que são contra a proibição e que pediam a todos os católicos que votassem pela autorização. O que a Igreja teme é que seus poucos locais de culto ainda autorizados no Oriente Médio sejam alvos de retaliações.
Ontem, o próprio Vaticano criticou a realização da votação e também alertou para retaliações contra cristãos nos países muçulmanos. “Se alguém quer ser católico, precisa estar aberto aos outros”, afirmou Antonio Maria Veglio, presidente do Conselho Pontifício da Pastoral do Imigrante. Ele admite que o Islã, em muitos casos, não pratica uma “reciprocidade”.
Já os empresários suíços tem outro temor: seus negócios com o mundo muçulmano. Conhecida como um país neutro, a Suíça sempre teve acesso facilitado em países considerados como fechados, como Líbia ou Irã. Agora, a Câmara de Indústria da Suíça tem que a proibição da construção de minaretes afete o comércio de US$ 10 bilhões por ano entre o país e o Oriente Médio. Alguns governos já indicaram que poderão boicotar produtos suíços.
Para especialistas, a votação na Suíça ainda é um teste sobre como os países europeus estão realizando a integração de outras religiões e outras comunidades em suas sociedades. Ongs como a Anistia Internacional acusam os governos de já terem fracassado nessa integração e alertam que, um sinal negativo como o dos minaretes, pode dar a sensação a essas populações de que vivem em guetos.
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O Estaleiro de Gdansk quer lucrar com o Pré-Sal
- 13 de novembro de 2009
- 6h23
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- Por Jamil Chade
GDANSK, Polônia - O histórico estaleiro de Gdansk quer investir nos projetos relacionados ao pré-sal no Brasil. A cúpula da empresa viajará até o Rio de Janeiro no início de 2010 para tentar convencer a Petrobras a fechar acordos com o estaleiro – que já foi o quinto maior do mundo -para o fornecimento de navios e estruturas metálicas.
A iniciativa do estaleiro de buscar novos parceiros faz parte de sua própria reforma que começou neste ano e que levará outros três para estar concluída. Depois de passar para a história como o palco da luta contra o regime comunista no Leste Europeu nos anos 80, a empresa corria o risco de quebrar se não adotasse uma nova estratégia empresarial. Foi salvo pelos subsídios da União Européia.
No estaleiro de Gdansk, tudo começou em 1980 com uma greve liderada pelo então eletricista desempregado Lech Walesa. Mas os revolucionários ainda tiveram de esperar até 1989 para ver seu movimento dar resultados. Nas primeiras eleições livres, o sindicato Solidariedade, o primeiro independente em todo o bloco comunista, ganhou 99 dos 100 lugares no Parlamento polonês.
20 anos depois, porém, o estaleiro é o espelho da transição de toda a região: 90% dos trabalhadores foram demitidos desde 1989 e a empresa foi comprada por um grupo estrangeiro. O Solidariedade, que tinha 10 milhões de membros, hoje conta com apenas 700 mil. Sem o mercado garantido nos países que faziam parte da União Soviética, a produção do estaleiro desabou. Em 1970, o estaleiro produzia 35 navios por ano. Hoje, são apenas quatro.
Muitos dos líderes sindicais poloneses também não estão mais lá. Nas obras, os trabalhadores são vietnamitas, ucranianos e outros imigrantes.
Um dos poucos sinais de que o local fez parte da história é seu portão. Nas grades ainda estão colocadas as fotos da revolução, uma bandeira da Polônia e outra do sindicato Solidariedade. Não falta ainda uma foto do Papa João Paulo II, nascido na Polônia e que teve um papel fundamental na luta contra o comunismo.
Nostálgico, um dos líderes históricos do Solidariedade, Jerzy Borowczak, confessou: “antes, rezávamos para que o Papa nos ajudasse a acabar com a opressão. Hoje, rezamos para manter nossos empregos”.
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Walesa: “A Liberdade cobrou um preço alto”
- 11 de novembro de 2009
- 12h12
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- Por Jamil Chade
VARSÓVIA – Na segunda-feira passada, em Berlim, o polonês Lech Walesa foi o primeiro a empurrar os dominós gigantes que marcaram as celebrações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. Walesa foi escolhido por ter sido o primeiro, em 1980, a desafiar o regime comunista criando um sindicato independente, o Solidariedade. Ele acabaria sendo eleito presidente da Polônia em 1990. Mas jamais conseguiu voltar a ser eleito, diante da oposição que se criou em torno dele. Eletricista e sindicalista, Walesa reconhece ao “Direto da Europa” que tem mais inimigos hoje que pessoas que o apoiam. Mas ainda assim acredita que fez a coisa certa ao desafiar o regime autoritário. Hoje, um de seus trabalhos é o de ajudar a oposição em Cuba a ser organizar contra o regime de Havana. Eis os principais trechos da entrevista:
P – Qual foi a maior conquista com a queda dos regimes comunistas para o mundo?
Walesa – A idéia de que podemos superar divisões e muros. Na realidade, isso já havia ocorrido muito antes, em 1980 na Polônia. No estaleiro de Gdansk, unimos as diferentes classes sociais sob a mesma bandeira. Até então, estávamos divididos. Mas aí decidimos caminhar juntos. Trabalhadores e intelectuais, jovens e velhos, crentes e não crentes. O sindicato Solidariedade lançou uma transformação real em nossas sociedades e, em consequência, em todo o sistema. O mundo inteiro estava ao nosso lado. O sindicato Solidariedade não tinha fronteiras. O próprio Papa João Paulo II estava ao nosso lado. Já em 1979 ele nos havia dado esperanças em sua visita à Polônia. Seu recado tocou a todos. Ele disse naquela ocasião: “Deixe o Espírito Santo tocar a todos e renovar o rosto do mundo”. Foi com esse espírito que decidimos lançar o desafio. Primeiro de mudar o rosto da sociedade polonesa e, depois, como um dominó, de toda a região.
P – Como o sr. explica que, depois de tais eventos, o sr. sequer seria eleito para um segundo mandato como presidente da Polônia?
Walesa – Quando terminanos a greve em 1980, meus amigos me carregavam em seus ombros e eu falava para uma audiência enorme. Mas eu sempre pensava: hoje me carregam nos braços. Mas amanhã poderão pedras sobre mim. E eu estava certo. Depois de dez anos, eu descobri que tinha mais oponentes que apoiadores. Entendi logo no início do processo que a mudança nos custaria muito. Entendi que a liberdade teria um preço alto. A realidade é que a liberdade cobrou um preço alto. Ser presidente não era o que eu buscava. Mas compreendi que seria necessário me lançar a isso se queríamos de fato romper com a cadeia de comando do governo comunista.
P – Mas hoje muitos no Leste Europeu estão decepcionados com suas situações, queixando-se do desemprego e das disparidades sociais, mesmo que comemorem a liberdade. Qual o caminho para superar esses problemas?
Walesa – A revolução pacífica que promovemos nos ano 90 não apenas fechou um capítulo de divisões no mundo. Ela também abriu uma nova era. A Era Global. O que se pode dizer com certeza hoje é de que precisamos de uma nova filosofia para entender e atuar dentro de um mundo globalizado.
P – Um dos focos de seu trabalho hoje é o de apoiar a democracia em Cuba. Como o sr. vê a situação em Havana hoje para a oposição?
Walesa - A oposição cubana não está unida e nem é solidária. Esse é o principal problema. Há uma falta de visão clara sobre como caminhar para a liberdade. No nosso caso na Polônia também havia divisões, diferentes avaliações sobre o que deveríamos fazer. Mas entendemos logo que o sucesso só viria com uma visão clara do futuro e unidade. Foi difícil mante-la. Mas conseguimos. Sobre Cuba, eu estou comprometido a continuar ajudando. O mundo e a região precisam da democracia e da liberdade em Cuba.
P – Em 1989, enquanto o Muro caia, tanto o sr. como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva eram sindicalistas naquele momento. Lula não venceu as eleições daquele mesmo ano e ficou claro que vocês tiveram sérias divisões. Porque não houve um entendimento naquele momento ?
Walesa – Temos muito em comum. Discussões e desacordos são parte de um mundo democrático e livre. Tenho muita admiração pelo presidente Lula.
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Um diário íntimo do Fim da Guerra Fria
- 8 de novembro de 2009
- 10h55
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- Por Jamil Chade
PRAGA, REPÚBLICA TCHECA – Poucos são os documentos pessoais que explicam em tão poucas palavras um acontecimento histórico. Mas o diário do assistente para política externa de Mikhail Gorbatchev, Anatoly Chernyaev, revela o que poucos historiadores, jornalistas ou sociólogos conseguiriam descrever diante do acontecimento.
Eis o que ele anotou em seu diário pessoal no dia 10 de novembro de 1989, dia seguinte à queda do Muro de Berlim:
“O Muro de Berlim entrou em colapso. Uma era inteira na história do sistema socialista acabou. Hoje, também recebemos a notícia sobre a “aposentadoria” de Zhivkov (líder búlgaro). Apenas nossos “melhores amigos” Castro, Ceausesco e Kim Il Sung ainda estão por ai – pessoas que nos odeiam.
Mas o principal é o Muro de Berlim. Ele não tem relação apenas com o socialismo, mas com uma mudança no equilíbrio de poder mundial. Esse é o fim de Ialta…do legado Stalinista e da derrota da Alemanha Hitlerista.
Isso é o que Gorbatchev fez. E ele acabou sendo um grande líder. Ele entendeu o caminho da história e ajudou a história a achar seu canal natura¨.
O diário, para quem quiser ler, está nos arquivos da Fundação´Gorbatchev, em Moscou, ou no Biblioteca Havel, em Praga.
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