Essa imagem foi feita no planeta Terra mesmo, mas também parece ser de outro mundo, como as dos posts anteriores … É do menor vertebrado já descoberto: um sapinho da Nova Guiné, que não passa de 8 milímetros de corpo. A nova espécie foi batizada de Paedophryne amauensis, em homenagem à vila de Amau, na qual foi descoberta.
A novidade está descrita em um artigo científico na revista PLoS One, assinado por uma equipe de pesquisadores liderada por Christopher Austin, da Louisiana State University.
A natureza é mesmo incrível! Imagine só!
Quanto mais os astrônomos olham para o espaço, mais “superpovoado” ele parece. Em novo estudo divulgado ontem, pesquisadores estimam que haja, em média, pelo menos um planeta para cada uma das 100 bilhões de estrelas na nossa galáxia, a Via-Láctea. E a contagem só começou. “Concluímos que estrelas com planetas em sua órbita são regra e não exceção”, escrevem os autores do estudo na revista Nature. A média, segundo eles, é de 1,6 planeta por estrela.
Mais de 700 planetas extrassolares foram descobertos nos últimos anos e outros milhares de “candidatos” aguardam confirmação. A maioria é de gigantes gasosos, como Júpiter e Saturno, mas avanços tecnológicos começam a revelar, também, a presença de vários planetas menores e rochosos, mais parecidos com a Terra.
No início da noite de ontem, a Nasa anunciou a descoberta dos três menores planetas extrassolares conhecidos, localizados em órbita de uma estrela chamada KOI-961. Segundo nota divulgada pela agência espacial americana, eles têm 78%, 73% e 57% do raio da Terra. Ou seja, são todos menores do que o nosso planeta, e o menor deles tem mais ou menos o tamanho de Marte (veja comparação na imagem abaixo). A descoberta foi feita com o telescópio espacial Kepler e confirmada por meio de observações feitas com telescópios no solo.
Os três planetas têm órbitas muito próximas de sua estrela, que é uma anã-vermelha, com um sexto do diâmetro do nosso Sol. “É o menor sistema solar já descoberto”, afirma John Johnson, líder de pesquisa no Instituto de Ciências Exoplanetárias da Nasa, no Instituto de Tecnologia da Califórnia. “Na verdade, é mais semelhante ao sistema de Júpiter e suas luas (do que do Sol e seus planetas). É mais uma prova da diversidade de sistemas planetários que existe na nossa galáxia.”
Estimativa Conservadora
O estudo na Nature é baseado numa técnica de observação que favorece a descoberta de planetas grandes e em órbitas distantes de suas estrelas. Ou seja: não leva em conta os planetas menores e mais próximos, como estes anunciados pela Nasa, que são muito mais difíceis de detectar. O que significa que a média real da Via-Láctea pode chegar a dois ou mais planetas por estrela, segundo Arnaud Cassan, do Instituto de Astrofísica de Paris, um dos autores do estudo. (mais informações técnicas neste link do ESO)
As descobertas mais recentes mostram que os planetas não são apenas comuns, mas estão em lugares inesperados, como sistemas binários, formados por duas estrelas. Até recentemente, astrônomos pensavam que esses sistemas eram caóticos demais para sustentar planetas em suas órbitas. Mas três sistemas desse tipo já têm planetas confirmados.
“A natureza deve gostar de formar planetas, porque está formando-os até em lugares onde é difícil fazer isso”, disse William Welsh, professor de astronomia da Universidade Estadual de San Diego, coautor de um outro estudo publicado na Nature, sobre a descoberta de dois planetas em um sistema binário. A descoberta foi feita também com o telescópio Kepler. “É uma boa notícia para aqueles que procuram vida fora da Terra.”
“Estamos encontrando uma variedade incrível de coisas que nem achávamos que poderiam existir”, comenta a astrônoma Lisa Kaltenegger, da Universidade Harvard, que participa da conferência da Sociedade Astronômica Americana, que ocorre em Austin, Texas. “Estamos ‘inundados’ com planetas, enquanto que há 17 anos atrás nem tínhamos certeza se existiam (fora do Sistema Solar).”
(Texto elaborado com informações de Seth Borenstein/AP, de Washington)
Duas imagens quentinhas do Universo, recém-saídas do forno gélido do espaço-tempo:
1) Nesta imagem, feita pelo telescópio espacial Hubble, da NASA, astrônomos descobriram um aglomerado de cinco galáxias localizadas a aproximadamente 13,1 bilhões de anos-luz da Terra. Segundo a NASA, é o aglomerado de galáxias mais distante já observado.
13 bilhões de anos-luz é uma distância incompreensível … Significa que essas galáxias foram formadas nos primórdios do Universo, “apenas” 600 milhões de anos após o Big-Bang (que ocorreu 13,7 bilhões de anos atrás). A foto não parece muito impressionante à primeira vista, até que você para para pensar sobre o que está olhando: cada ponto luminoso nesta foto é uma galáxia inteira, com bilhões de estrelas (e provavelmente bilhões de planetas) dentro dela. Imagine só! (As que fazem parte do “aglomerado” estão marcadas com círculos … mas infelizmente o release da NASA não explica porque elas aparecem tão distantes umas das outras na imagem …).
Mais informações neste link: Hubble Pinpoints Farthest Protocluster of Galaxies Ever Seen
2) Essa aqui também é de um aglomerado de galáxias, batizado de “El Gordo”. Segundo a equipe que fez a descoberta (utilizando o Very Large Telescope do ESO, no Chile, juntamente com o telescópio espacial de raios X Chandra, da NASA, e o Atacama Cosmology Telescope), é o “maior aglomerado já observado no Universo longínquo”, localizado a 7 bilhões de anos-luz da Terra.
“Este aglomerado tem mais massa, é mais quente e emite mais raios-X do que qualquer outro aglomerado encontrado a esta distância ou a distâncias ainda maiores,” disse Felipe Menanteau da Universidade Rutgers, que liderou este estudo, segundo o press release divulgado pelo ESO. “Dedicámos muito do nosso tempo de observação ao El Gordo e estou contente por termos conseguido descobrir este espantoso aglomerado em colisão.”
Mais informações neste link: El Gordo – Um aglomerado de galáxias “gordo” e distante
Ambas as descobertas foram divulgadas no encontro da Sociedade Astronômica Americana, que está em curso em Austin, no Texas (EUA).
Imagine só se de repente, num inverno qualquer, um terço dos habitantes de uma cidade simplesmente desparecessem. Saíssem para comprar pão e nunca mais voltassem. É isso, mais ou menos, o que vem acontecendo com as abelhas melíferas dos EUA nos últimos cinco anos. As abelhas deixam suas colmeias para coletar néctar ou qualquer outra coisa e nunca mais voltam. Morrem. Desaparecem. Mas ninguém sabe exatamente porquê.
O problema começou em 2006, nos EUA, onde abelhas criadas são usadas em larga escala na agricultura para polinização de várias culturas. Criadores começaram a reportar perdas de 30% ou mais de suas colônias (milhões e milhões de abelhas), e o problema permanece desde então, cheio de mistérios. Muitas pesquisas foram feitas e muitas hipóteses foram levantadas, mas até hoje ninguém chegou a uma explicação conclusiva sobre o que está matando as abelhas. O fenômeno foi batizado de Colony Collapse Disorder (CCD) e a suspeita é que vários fatores estejam contribuindo para a mortandade disseminada dos insetos, incluindo fungos, bactérias, vírus e pesticidas.
E como se isso não fosse suficiente, mais um vilão entrou para a lista de suspeitos na semana passada: uma mosca parasita que coloca seus ovos dentro do abdômen das abelhas. Segundo um estudo publicado na revista PLoS One, ao serem infectadas as abelhas ficam num estado tipo “zumbi” — voam para longe das colmeias, desorientadas, e acabam morrendo. (Um roteiro que se encaixa muito bem no quadro de sintomas da CCD, já que, apesar da mortandade, não se encontra abelhas mortas próximas às colmeias.) Sete dias depois, as larvas da mosca “brotam” de dentro do corpo da abelha morta.
A mosca parasita, da espécie Apocephalus borealis, já era conhecida dos cientistas, mas não se sabia que ela infectava também as abelhas melíferas (Appis mellifera). A descoberta foi feita por acaso, por um professor de biologia da Universidade Estadual de São Francisco, na Califórnia, um dos Estados americanos mais prejudicados pela CCD (só a produção de amêndoas de lá, por exemplo, emprega cerca de 1,5 milhão de colônias de abelhas para polinização natural, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
Os pesquisadores não propõem que a mosca seja a principal causa da CCD, muito menos a única … mas pode ser, quem sabe, mais uma peça do quebra-cabeça.
Ler isso me fez lembrar da história dos abutres asiáticos, sobre os quais escrevi no mês passado, na minha última reportagem da série “Repórter Viajante“. Os abutres começaram a “desaparecer” por volta de 1994, e os cientistas só descobriram o que estava matando as aves em 2004, dez anos depois: envenenamento por diclofenaco, uma droga veterinária usada para tratar vacas (para saber mais detalhes, leia a reportagem aqui).
Assim como no caso das abelhas, não havia “corpos” dos bichos mortos … Os abutres pareciam simplesmente “desaparecer” , pois morriam no topo das árvores ou outros lugares de difícil acesso, e seus corpos eram rapidamente consumidos por outros animais. E, assim como no caso das abelhas, especulou-se muito sobre infecções por vírus ou bactérias … até que um exame toxicológico mais detalhado identificou o diclofenaco como culpado. Nesse meio tempo, milhões e milhões de abutres morreram intoxicados, deixando três espécies à beira da extinção.
Tomara que as abelhas tenham mais sorte.
Abraços a todos.
“Lembre-se de olhar para cima, para as estrelas, e não para baixo, para os seus pés. Procure entender o sentido daquilo que você vê e questione-se sobre o que faz o Universo existir. Seja curioso.”
Mensagem do físico britânico Stephen Hawking (aquele da cadeira de rodas), no discurso de seu aniversário de 70 anos, comemorado ontem. Tirou as palavras da minha boca … (quem acompanha o blog sabe que costumo escrever mensagens semelhantes, mas é claro que vindo do Stephen Hawking soa muito melhor)
A curiosidade é a raiz do conhecimento. Não a curiosidade fútil, de bisbilhotar a vida dos outros ou folhear revistas de celebridades (que, confesso, pode ser divertido, mas não tem lá muita utilidade), mas a curiosidade útil, de entender porque as coisas existem, como elas funcionam, porque elas são do jeito que são e porque agimos da maneira que agimos. (Por exemplo: Porque é que as pessoas se interessam tanto pela vida de celebridades??)
Curiosidade é olhar para o céu e perguntar: O que são aqueles pontinhos luminosos que brilham durante a noite? A que distância eles estão de nós? E porque é que alguns se movem e outros, não? Do que é feito o Sol? Será que um dia ele vai se apagar? E é ele que gira em torno de nós, ou nós que giramos em torno dele?
Se sabemos as respostas para todas essas perguntas hoje (os pontinhos são estrelas; a distância delas em relação a nós é medida em anos-luz; as que se movem na verdade não são estrelas, mas planetas; o Sol é uma bola de gás de hidrogênio e hélio, que ainda vai brilhar por alguns bilhões de anos, mas um dia vai mesmo se “apagar”; e somos nós que giramos em torno dele e não o contrário … como se dizia religiosamente na antiguidade), é porque alguém um dia teve a curiosidade de fazê-las para começo de conversa.
Estou usando a astronomia como exemplo porque essa é a área do Hawking (um físico que estuda a origem, o funcionamento e o futuro do Universo), mas a curiosidade se aplica da mesma forma a qualquer outra área das ciências, exatas, humanas ou biológicas.
Por exemplo: O que causa a esclerose lateral amiotrófica (ELA), como essa doença evolui, e como é que o Stephen Hawking não morreu dela até agora???
Hawking foi diagnosticado com ELA aos 21 anos, em 1963, e os médicos lhe disseram inicialmente que não sobreviveria mais do que alguns anos (o que, infelizmente, é o prognóstico correto para a maioria dos pacientes). Com o tempo, a doença tirou sua fala e seus movimentos, mas não sua capacidade intelectual. Mesmo com suas limitações físicas severas, Hawking continuou a produzir ciência de altíssima qualidade, escreveu livros incríveis, propôs teorias revolucionárias … e, sei lá como, continua vivo até hoje, fazendo perguntas dificílimas e encontrando respostas ainda mais complicadas para elas.
Só um mistério parece ser insolúvel para o físico brilhante:
Em uma entrevista recente à revista New Scientist, um repórter curioso perguntou a Hawking “Sobre o que você mais pensa durante o dia?”, e ele respondeu, “Mulheres. Elas são um mistério total.”
Até sobre isso Hawking fala com propriedade, pois tem dois casamentos e dois divórcios no currículo. Imagine só! Alguém que se dedica a estudar a física de buracos-negros e entender a relação espaço-tempo do Universo, incapaz de entender algo tão mundano quanto as mulheres … Com essa curiosidade, acho que ele vai morrer mesmo.
Abraços a todos.
Depois de três meses escalando montanhas geladas no Himalaia, retornei ao calor brasileiro e a primeira entrevista que fiz na minha volta ao jornal foi com cientistas na Antártida, onde a sensação térmica era de -40 graus Celsius. Imagine só!
A matéria, que pode ser lida neste link, conta a história da instalação de uma estação meteorológica no interior do continente antártico. O módulo, chamado Criosfera 1, é esse contêiner vermelho com a bandeira brasileira que você vê na foto acima, com a equipe de pesquisadores à frente.
O líder da expedição é o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de não termos neve ou gelo no Brasil, precisamos de especialistas como ele para estudar o clima de lugares como a Antártida e o Ártico, pois o que acontece nesses lugares afeta o clima do planeta como um todo … e o Brasil faz parte do planeta! Assim como as pessoas na Groenlândia precisam se preocupar com o que acontece com as árvores da Amazônia, nós precisamos nos preocupar com o que acontece com o gelo das regiões polares.
Quando falei com a expedição por telefone via satélite, na tarde de terça-feira, o Prof. Simões estava ocupado do lado de fora, coletando amostras de gelo. Mais tarde, porém, ele respondeu algumas perguntas por email, que eu copio abaixo para complementar a matéria. Além disso, as notícias da expedição podem ser acompanhadas pela página do Centro Polar e Climático da UFRGS no Facebook.
ESTADO: Qual é o status operacional do Criosfera 1 neste momento?
JEFFERSON: O Criosfera 1 está semioperativo; começou a transmitir dados meteorológicos (temperatura, pressão atmosférica, umidade, velocidade do vento) ontem (dia 1). Em breve irá transmitir dados da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Estamos em fase de teste. O módulo já está em seu lugar definitivo: 84°S, 79°29’39″W, 1.287 metros, no Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental (onde no dia 3 fez -17°C, com sensação térmica de -42 °C).
ESTADO: Qual o foco das pesquisas neste momento e qual o propósito científico do módulo a longo prazo?
JEFFERSON: O módulo é para pesquisa atmosférica, coleta de dados meteorológicos e da química da atmosfera. Este ano é uma fase de teste, com as medições descritas acima. No futuro teremos medidores de partículas de carbono elementar (“black carbon” em inglês) e parte escura da fuligem, micropartículas e outros gases.
Trata-se do posto latino-americano mais próximo do Polo Sul Geográfico, que está a somente 670 km de distância. O Criosfera 1 foi integralmente planejado e implementado pela comunidade científica nacional e marca importante avanço para o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).
ESTADO: O módulo precisa de ocupação humana?
JEFFERSON: Não. Seus instrumentos podem ser operados de maneira remota. Todo o módulo é automatizado para reduzir custos. Mas terá manutenção anual.
ESTADO: Com relação aos testemunhos de gelo, como está o trabalho de retirada, o que será feito com essas amostras e o que se espera aprender com elas?
JEFFERSON: Já tiramos 70 metros e estamos avançando. Por enquanto temos mais ou menos 150 anos de dados. As amostras serão derretidas em laboratório e uma bateria de análises químicas será realizada para obter uma série temporal de variações da química da atmosfera e do clima. Os dados do testemunho serão calibrados com os dados do Criosfera 1. É uma contribuição brasileira para experimentos internacionais, como o IPICS (International Ice Core Partnership), que procura reconstruir a história do clima e da química da atmosfera ao longo dos últimos 2000 anos usando testemunhos de gelo obtidos de geleiras de todas as partes do mundo (Antártida, Groenlândia, Alpes, Andes, Himalaias, Montanhas Rochosas, etc).
ESTADO: Qual é a situação operacional da expedição? Tudo funcionando bem até agora? Todo mundo com saúde?
JEFFERSON: Tudo ok. Ano relativamente quente, temperatura mínima até agora -17 °C, sensação térmica mínima -42 °C, todos com saúde e muito trabalho. Fora problemas normais como equipamentos quebrando com o frio, sonda trancando, etc, tudo ok.
E que continue assim, professor!
Abraços a todos.
Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, anunciaram a descoberta de tubarões híbridos (como o da foto acima), nascidos do cruzamento de duas espécies parecidas, porém diferentes, de tubarões-galha-preta. A história, divulgada pelo The Christian Science Monitor, me fez lembrar de um post que escrevi em 2010 sobre animais híbridos, chamado Mistureba Genética.
O galha-preta-australiano costuma viver em águas mais quentes no norte da Austrália, enquanto que o galha-preta-comum vive em águas mais frias no sudeste do país. Os cientistas especulam que o aquecimento dos oceanos (associado ao aquecimento global) pode estar colocando as espécies mais próximas uma da outra, favorecendo a formação de híbridos … mas talvez não seja preciso uma teoria tão elaborada. Talvez esses híbridos sempre estiveram por aí, só que só os detectamos agora porque algúem se deu ao trabalho de fazer um estudo genético sobre eles. De qualquer forma, é interessante. Mais uma amostra da dificuldade científica de definir limites entre espécies. (E mais uma boa desculpa para colocar uma foto de tubarão no blog.)
Neste link do The Christian Science Monitor é possível ver várias fotos de outros animais híbridos: Hybrid Animals.
Abraços a todos.
Para começar bem o ano, uma fotinho do espaço, que nunca é demais …
Essa aí é a Nebulosa Ômega, fotografada pelo Very Large Telescope (na minha opinião, o melhor e mais objetivo nome de telescópio já inventado) do European Southern Observatory (ESO), no Chile. Ela está a mais de 5 mil anos-luz da Terra, o que significa que a foto foi divulgada agora, em 2012 d.C., mas você está vendo a nebulosa como ela era em 3000 a.C. Ou seja, 5 mil anos atrás (tempo que a luz emitida pelas estrelas dentro dela demorou para chegar da nebulosa até as câmeras do telescópio no topo dos Andes chilenos).
Como ela é hoje? Só saberemos daqui a 5 mil anos, se alguém ainda estiver vivo para fotografá-la de novo … Imagine só!
Abaixo, mais detalhes sobre a imagem, disponível no site do ESO:
“O gás colorido e a poeira escura da Nebulosa Ômega servem de matéria prima na criação da próxima geração de estrelas. Nesta região particular da nebulosa, as estrelas mais jovens – brilhando de forma ofuscante em tons branco-azulados – iluminam todo o conjunto. As zonas de poeira da nebulosa, semelhantes a brumas, contrastam visivelmente com o gás brilhante. As cores vermelhas dominantes têm origem no hidrogênio, que brilha sob a influência da intensa radiação ultravioleta emitida pelas estrelas quentes jovens.
A Nebulosa Ômega tem muitos nomes, dependentes de quem a observou, quando e do que julgou ter visto. Entre esses nomes inclui-se: Nebulosa do Cisne, Nebulosa Ferradura e ainda Nebulosa Lagosta. Este objeto foi também catalogado como Messier 17 (M17) e NGC 6618. A nebulosa situa-se entre 5000 e 6000 anos-luz de distância na direção da constelação de Sagitário. Um alvo bastante popular entre os astrônomos, este campo de poeira e gás brilhante é uma das mais jovens e mais ativas maternidades estelares na Via Láctea, onde nascem estrelas de grande massa.”
Abraços a todos.
Caros amigos-leitores,
Como a maioria de vocês deve saber, passei todo o ano de 2011 viajando pelo mundo, produzindo uma série de reportagens especiais sobre ciência e meio ambiente para o Estadão. Por causa disso, não consegui escrever no blog com a frequência que costumava … mas agora estou de volta ao Brasil e prometo que em 2012 o blog voltará ao seu “normal”.
Obrigado pela leitura e feliz ano novo a todos!
Para se feliz, deixe a imaginação fluir.
Caros amigos-leitores,
A última reportagem da minha série Repórter Viajante foi publicada ontem no Estadão. Ela trata de um tema que está longe de ser novidade na Ásia, mas sobre o qual eu honestamente nunca tinha ouvido falar até cinco meses atrás, mergulhando na Indonésia, quando um pesquisador do Instituto Smithsonian, que é biólogo marinho mas também apaixonado por pássaros, ficou sabendo que eu viria para o Nepal e me perguntou: “Por que você não escreve sobre a crise dos abutres?”
“Crise dos abutres???”, perguntei.
Cinco meses depois, eis aqui a resposta à minha própria pergunta.
OBS: Agora eu digo abutres, mas até duas semanas atrás eu ainda estava traduzindo o termo “vultures”, em inglês, como “urubus”, em português. Até que tive a grande ideia de mandar um email para o ornitólogo Luís Fabio Silveira, curador de aves do Museu de Zoologia da USP, e ele elegantemente me passou uma correção. Saibam vocês que urubu é uma coisa, abutre é outra. Os dois são aves de rapina e os dois se alimentam de carniça, mas, fora isso, pertencem a linhagens completamente diferentes, do ponto de vista evolutivo. Imagine só!
Apenas um dos muitos enganos que cometemos em relação a essa aves, como vocês poderão perceber na reportagem. Os textos estão copiados abaixo.
Abraços a todos.
Links de organizações relacionadas à matéria: SAVE (Saving Asia´s Vultures from Extinction), Vulture Rescue, Bird Conservation Nepal, Royal Society for the Protection of Birds, The Peregrine Fund, IUCN Red List (Gyps bengalensis), Parahawking
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ABUTRES EM PERIGO
Com três espécies criticamente ameaçadas de extinção, países asiáticos lutam para reverter mortandande em massa causada pela introdução de uma droga veterinária 15 anos atrás
Dhan Bahadur Chaudhary encontrou uma maneira incomum de demonstrar seu amor pela vida selvagem. Há cinco anos ele compra vacas velhas da comunidade, que ninguém mais quer, lhes dá abrigo e alimento, e depois aguarda ansiosamente para que elas morram. De preferência, em intervalos regulares, pelo menos uma por semana.
Ele é o gerente do Restaurante de Abutres de Nawalparasi, no centro-sul do Nepal, um dos seis “estabelecimentos” desse tipo criados recentemente no país pela organização Bird Conservation Nepal (BCN). Os abutres são os fregueses. Os seres humanos são os garçons. E as vacas, a refeição.
No Nepal, um país de maioria hindu, a vaca é um animal sagrado, protegido por lei. Matar uma delas, por qualquer motivo, é crime. Por isso Chaudhary precisa esperar que os animais morram naturalmente. O preço pago por vaca é irrisório: $250 rúpias nepalesas (pouco mais do que R$ 5). Ainda assim, vale a pena para os fazendeiros. “É um alívio para eles, pois eles não têm o que fazer com a vaca depois que ela fica velha”, explica Chaudhary.
Centenas de abutres frequentam o restaurante cada vez que uma refeição é servida. O recorde de movimento é de 270 pássaros – bem mais do que os 70 que costumavam aparecer no início do projeto, em 2006. O que é um bom sinal. O número de ninhos no entorno do restaurante também aumentou: de 17 para 67.
As carcaças são limpas até o osso pelas aves em cerca de 30 minutos. Enquanto o abutres de acotovelam sobre a vaca morta para bicar um pedaço de carniça, turistas de espremem dentro de uma cabana ao lado para tirar fotos.
Os recursos do turismo ajudam a manter o restaurante funcionando. Mas a motivação do projeto passa longe do entretenimento. Por trás do espetáculo sangrento, desenrola-se uma das histórias mais dramáticas – e pouco apreciadas – de luta pela sobrevivência da biodiversidade atua.
O Gyps bengalensis está criticamente ameaçado de extinção, assim como duas outras espécies de abutres asiáticos: o Gyps indicus (abutre-de-bico-longo) e o Gyps tenuirostris (abutre-de-bico-estreito). Todos reduzidos a menos de 10% — ou até 1% — de suas populações “originais”. Comuns até o início da década de 1990, seus números começaram a despencar vertiginosamente cerca de 15 anos atrás, sem explicação. Principalmente na Índia, no Nepal e no Paquistão, suas principais áreas de ocorrência.
De início, muita gente provavelmente achou bom se ver livre dessas aves carniceiras. Até que o mau cheiro das carcaças tornou impossível ignorar o problema.
Os números são assustadores. O Gyps bengalensis, que até pouco tempo era considerado a ave de rapina mais abundante do mundo, está à beira da extinção, com um declínio populacional de 99,9% na Índia e mais de 90% no Nepal. As outras duas espécies estão em situação semelhante, praticamente com um pé na cova.
“Não consigo pensar em outro bicho que tenha sofrido um declínio tão grande em tão pouco tempo”, afirma Chris Bowden, gerente do Programa de Abutres da Royal Society for the Protection of Birds (RSPB), na Inglaterra. “A situação é realmente crítica.”
O declínio não demorou a ser notado já na década de 90, especialmente nas regiões mais populosas da Índia, onde o sumiço dos abutres teve efeito semelhante ao de uma greve de garis em São Paulo. Sem as aves carniceiras para fazer o serviço de “limpeza”, vacas mortas começaram a se acumular e apodrecer por todos os lados, tanto nas cidades quanto no campo.
Demorou, porém, para cientistas descobrirem o que estava matando os abutres. Especulou-se muito sobre alguma infecção por vírus ou bactéria, tipo gripe aviária. Mas não. O diagnóstico só veio em 2004, com um trabalho de “autópsia” publicado na revista Nature: intoxicação por diclofenaco, um analgésico e antiinflamatório introduzido como droga veterinária na região em meados da década de 1990 – não por coincidência, na mesma época em que os abutres começaram a “desaparecer”.
O diclofenaco é inofensivo para as vacas e seres humanos, mas letal para os abutres. Basta comerem a carne de um animal que tenha sido tratado com a droga até três dias antes que os abutres invariavelmente morrem de falência renal, também no prazo de dois a três dias. Neles, o diclofenaco causa gota visceral, uma doença caracterizada pelo acúmulo de cristais de ácido úrico nos rins. Só na Índia, estima-se que mais de 30 milhões de aves tenham morrido dessa forma.
Por alguma razão fisiológica não identificada, só os abutres do gênero Gyps parecem ser intoxicados pela droga. Para outras aves – incluindo outras espécies de abutres – não há problemas registrados.
Alimentação Saudável
Em resposta à crise, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção de diclofenaco para uso veterinário. Mas ainda não conseguiram erradicar a droga da cadeia de consumo (mais informações nessa página).
A lógica por trás dos “restaurantes”, portanto, é garantir uma fonte de alimento constante e livre de diclofenaco para os abutres. Além do impacto causado pela droga, a quantidade de carcaças disponíveis para os abutres diminuiu consideravelmente nos últimos anos, à medida que as pessoas passaram a enterrar ou queimar os animais mortos em vez de jogá-los no meio do mato ou na beira de rios, como se fazia antigamente. Bom para os seres humanos, do ponto de vista sanitário, mas ruim para os abutres.
“O mais comum agora é enterrarem a carcaça”, diz o biólogo Ramji Gautam, professor de zoologia no Câmpus de Prithwi Narayan, em Pokhara, onde há também um restaurante de abutres. “Com isso, sobra pouca comida para eles, já que aqui não há grandes manadas de animais selvagens dos quais eles possam se alimentar, como na África.”
Quando visitei o restaurante de Nawalparasi, no início deste mês, Chaudhary tinha 14 vacas em estoque e esperava receber mais dez nos próximos dias. Na época da reprodução dos abutres, que vai de outubro a março, o ideal é servir de uma a três carcaças por semana, segundo o naturalista. “É quando eles precisam de mais alimento.”
Chaudhary diz com orgulho que este é “o primeiro restaurante de abutres de base comunitária do mundo”, destacando os vários projetos sociais e de geração de renda que são desenvolvidos com a população local. Tão importante quanto alimentar os pássaros, diz ele, é ajudar as pessoas e educá-las sobre a importância ecológica dos abutres.
“Antigamente a gente punha veneno nas carcaças, só por diversão”, conta o agricultor Bhakta Bahadur Rana, de 62 anos, vizinho do restaurante. Quando os pássaros começaram a ficar escassos e o mau cheiro e as moscas das carcaças comeaçaram a invadir as casas, porém, a atitude da comunidade mudou. “Agora eles sabem que os abutres são nossos amigos”, afirma Chaudhary.
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AVES SÃO PACÍFICAS E BENÉFICAS AO HOMEM
“Cuidado para não assustá-los. Eles são tímidos e ficam estressados com facilidade”, avisa o veterinário Binay Shrestha, em voz baixa, à medida que nos aproximamos da gaiola. Parece estar falando de algum passarinho exótico, e não dos abutres de quase 5 quilos e 2 metros de envergadura empoleirados do outro lado da grade. Estranho. Minha impressão era de que eu deveria ter medo deles, e não o contrário.
Contrariando as crenças populares, porém, os abutres são aves pacíficas e inofensivas ao homem. Não fosse pelo fato de comerem carniça – um serviço ecológico essencial –, certamente seriam admirados como as grandes aves de rapina que são (da mesma família das águias e gaviões), e não temidos como símbolos místicos de morte e mau agouro. Especialmente porque não causam a morte de ninguém, só limpam a sujeira.
“Suas garras não são tão fortes, já que não precisam caçar nem carregar presas pelo ar”, explica Shrestha, responsável pelo Centro de Conservação e Reprodução de Abutres do Parque Nacional de Chitwan, no sul do Nepal. “Seu bico também não é dos mais fortes, e ele raramente é agressivo.”
Os abutres são oportunistas. Ficam circulando pelo ar, planando nas correntes térmicas mais altas, e quando detectam um animal descem rapidamente para se alimentar, antes que outro carnívoro chegue e os empurre para fora da mesa. Só brigam mesmo entre eles próprios, na hora das refeições. Quando ameaçados, regurgitam tudo que tiverem no estômago e voam rapidamente para longe. A fuga é seu principal mecanismo de defesa.
“As pessoas têm uma impressão totalmente equivocada desses pássaros”, diz o treinador de aves londrino Scott Mason. “Você tem de enxergar o que elas são por dentro, e não apenas julgá-las pela aparência. Os abutres têm personalidades incríveis e podem ser extrememante afetuosos.”
Mason é o inventor de uma atividade chamada “parahawking”, em que as pessoas voam de parapente acompanhadas por aves de rapina treinadas. Entre elas, dois abutres da espécie Neophron percnopterus (abutre-egípcio), de bico amarelo e plumagem branca, indiscutivelmente mais carismáticos do que o sisudo Gyps bengalensis. “São embaixadores que usamos para educar as pessoas sobre os abutres de uma forma geral”, explica Mason, que há dez anos voa quase que diariamente em Pokhara, na região central do Nepal, e viu a quantidade de abutres declinar radicalmente nesse período. Cada cliente que voa com sua equipe recebe uma palestra sobre o risco de extinção dos Gyps, e parte do dinheiro arrecadado é doado para projetos de conservação.
Apólice de Seguro
Já em Chitwan, o acesso ao Centro de Reprodução é restrito. Inaugurado em 2008 pelo governo do Nepal, em parceria com as ONGs Bird Conservation Nepal e National Trust for Nature Conservation, o centro cuida de 60 abutres-de-dorso-branco, dos quais 14 já estão em idade reprodutiva. A esperança é que no ano que vem nasçam os primeiros filhotes. E que, quatro ou cinco anos mais tarde, esses filhotes possam ser soltos na natureza, em “zonas livres de diclofenaco”.
Com as populações selvagens ainda em queda, a reprodução em cativeiro é vista como uma apólice de seguro indispensável ao futuro da espécie. Há outros quatro centros de reprodução em operação, três na Índia e um no Paquistão, com 351 pássaros em cativeiro e 36 filhotes nascidos desde 2008 (das três espécies ameaçadas de Gyps).
Os abutres-de-dorso-branco colocam só um ovo por ano, e o filhote leva de quatro a cinco anos para atingir a maturidade. São reprodutores lentos, o que os torna ainda mais vulneráveis à extinção.
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DROGA FOI PROIBIDA, MAS USO ILEGAL CONTINUA
Descobrir que o que estava matando os abutres era uma droga veterinária, e não uma doença contagiosa, foi um “alívio” para pesquisadores e ambientalistas, “pois era uma causa que podíamos eliminar”, relembra Chris Bowden, da Royal Society for the Protection of Birds.
Desde a publicação do estudo na Nature que identificou o diclofenaco como causa de morte, em 2004, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção e comercialização da droga – mas apenas para uso veterinário. O diclofenaco continua a ser produzido para uso humano, e muitos se aproveitam dessa brecha para continuar a aplicar a droga em animais. A fórmula é a mesma, só muda o rótulo.
Como substituto para uso veterinário, passou-se a indicar o meloxicam, um antiinflamatório equivalente que é inofensivo para os abutres. Convencer as pessoas a trocar de droga, porém, não tem sido fácil. O diclofenaco é barato, eficiente e tem a confiança de veterinários e fazendeiros. “É um produto testado e aprovado há vários anos”, diz Sagar Paudel, veterinário da Bird Conservation Nepal (BCN). “Por isso é tão difícil convencer a pessoas a mudar.”
Ainda mais quando a razão para mudar é proteger uma espécie que não inspira muita simpatia na população. Um dos maiores desafios de salvar os abutres é convencer as pessoas de que eles merecem ser salvos. “Todo mundo sabe que os abutres estão desaparecendo, mas nem tudo mundo os quer de volta”, reconhece Ishana Thapa, diretora de Conservação da BCN.
Preconceitos culturais e religiosos à parte, os abutres prestam um serviço ecológico essencial aos seres humanos e ao meio ambiente, alimentando-se das carcaças de animais mortos antes que elas se tornem vetores para a disseminação de doenças. Só na Índia, segundo Bowden, estima-se que os 40 milhões de abutres que existiam no país até o início da década de 90 consumiam 12 milhões de toneladas de carniça por ano.
Prognóstico Complicado
Com a proibição do diclofenaco, alguns sinais positivos começam a aparecer. “As populações não estão se recuperando, mas pelo menos o ritmo de queda diminuiu”, diz, cauteloso, o pesquisador Munir Virani, diretor de programas da organização The Peregrine Fund para o sul da Ásia e a África.
Em 2009, o governo do Nepal lançou um plano de ação de cinco anos para proteção dos abutres, com ênfase em conscientização, fiscalização e a criação de “áreas livres de diclofenaco”, onde aves selvagens ou nascidas em cativeiros possam viver sem risco de intoxicação.
Pesquisas indicam que basta uma quantidade muito pequena de diclofenaco para dizimar populações inteiras de abutres, já que centenas de aves podem se alimentar de uma mesma carcaça. Estatisticamente, ainda que só 1% das carcaças no ambiente estivesse contaminada com a droga, isso já seria suficiente para causar toda a mortandade registrada nos últimos 15 anos.
Então, todo cuidado é pouco. “Com tão poucos abutres restantes, se deixarmos um pouco de diclofenaco ‘escapar’ na natureza já poderá matar todos eles”, alerta Ishana, da BCN.
Situação Brasileira
O diclofenaco é autorizado para uso veterinário no Brasil desde os anos 1990, para aplicação em bovinos, suínos e eqüinos. A restrição é para cães e gatos, para os quais o diclofenaco é altamente tóxico, segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Os abutres Gyps não ocorrem no País e não há registro de problemas de intoxicação com urubus ou outras espécies de aves nacionais.
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