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Herton Escobar

10.janeiro.2014 19:12:40

Tubarão-branco pode viver mais de 70 anos

FOTO: Tubarão-branco na ilha de Guadalupe, no México. (Wikimedia Commons)

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Pergunta básica: Quantos anos vive um tubarão-branco?

Saber a expectativa de vida (longevidade) de uma espécie é um dos requisitos básicos para a elaboração de estratégias eficientes de conservação. Mas pense bem: Como é que se descobre a idade de um tubarão-branco — um animal enorme, migratório, predador furtivo, de mar aberto, que não pode ser mantido em cativeiro e que você, normalmente, só consegue ver de dentro de uma jaula, jogando pedaços de carne e baldes de sangue no mar para atraí-lo? Não é um jabuti, que você cria no seu jardim desde pequeno, nem uma estrela-do-mar, que você reproduz dentro de um aquário.

A técnica adotada tradicionalmente para isso consiste em contar as camadas de crescimento nas vértebras de tubarões mortos, semelhante ao que se faz para estimar a idade de uma árvore, contando os anéis de crescimento do seu tronco (assumindo que cada camada representa um ano). Com base nessa metodologia, estima-se que os tubarões-brancos vivam algo entre 20 e 30 anos, já que o indivíduo mais velho “datado” até agora por essa técnica tinha 23 anos (uma fêmea de mais de 5 metros, capturada no Oceano Pacífico). Mas é uma técnica pouco confiável, pois chega um ponto na vida do bicho em que as camadas se tornam finas demais para serem contadas com precisão.

Agora, um novo estudo, publicado na revista de acesso aberto PLoS One, sugere que os tubarões-brancos podem viver mais de 70 anos. A nova estimativa é baseada numa técnica muito mais precisa e curiosa, baseada na datação de átomos de carbono-14 produzidos pelas explosões de bombas atômicas nas décadas de 1940 a 1960, que se espalharam por todos os ecossistemas da Terra e foram naturalmente incorporados por todas as formas de vida do planeta desde então (incluindo os tubarões, nos oceanos, e nós, seres humanos, na superfície).

Os cientistas sabem qual era a concentração de carbono-14 na atmosfera e nos oceanos em cada ano do passado e, portanto, podem usar isso como uma tabela de referência para estimar a idade de qualquer substância que contenha esse isótopo em sua composição. Assim, ao medir a concentração de carbono-14 depositado nas vértebras de um tubarão, é possível saber há quanto tempo aquela vértebra foi constituída e, consequentemente, a idade do animal. A mesma técnica, curiosamente, foi usada recentemente para registrar a formação de novos neurônios (neurogênese) no cérebro humano, revelando que uma média de 700 novas células são formadas diariamente apenas no hipocampo (mais detalhes em:  Neurônios são criados na vida toda, diz estudo)

Os pesquisadores fizeram isso com as vértebras preservadas de oito tubarões-brancos (quatro fêmeas e quatro machos, capturados entre 1967 e 2010) e estimaram que a fêmea mais velha tinha 40 anos (com 5,2 m de comprimento) e o macho mais velho, 73 anos (com 4,9 m de comprimento). “Nossos resultados estendem dramaticamente a longevidade e idade máxima de tubarões-brancos, em comparação com estudos anteriores, e sugerem a existência de dimorfismo sexual nas taxas de crescimento, além de chamar atenção para a possibilidade de que populações de tubarão-branco são consideravelmente mais sensíveis a mortalidade induzida por seres humanos do que se imagina”, escrevem os pesquisadores, liderados por Li Ling Hamady, pesquisadora do Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI).

A última frase refere-se ao fato de que predadores “topo de cadeia” e de vida mais longa são mais vulneráveis à extinção, porque normalmente se reproduzem lentamente, ocupam áreas mais extensas e necessitam de uma grande quantidade de comida para sobreviver. É exatamente o caso do tubarão-branco, que, apesar de não ser citado, se encaixa perfeitamente no cenário de um outro estudo, publicado hoje na revista Science, sobre a importância dos grandes carnívoros para o equilíbrios das cadeias ecológicas globais — entre eles, a nossa onça-pintada, que está seriamente ameaçada de extinção na Mata Atlântica (matéria da Agência Fapesp sobre o assunto: http://agencia.fapesp.br/18445).

Para mais informações, veja também esse post de 2010: Pobres carnívoros

comentários (5) | comente

  • A + A -
5 Comentários Comente também
  • 10/01/2014 - 22:29
    Enviado por: Roberto Barretto

    Santo Deus!!! O carbono 14 não é nem nunca foi um isótopo radioativo criado pelo homem durante as explosões nucleares. A técnica da datação por C14 é baseada na meia vida média deste isótopo de ocorrência natural. Com o passar do tempo, o C14 se transforma em C12, perdendo massa na forma de radiação. A meia vida deste isótopo é de 5.730 anos e sua decomposição é linear. Todo indivíduo antes de morrer possui uma proporção semelhante de C14 armazenado em seus tecidos. A cada ano a concentração de C14 diminui progressivamente, até chegar a 50% do total normalmente apurado em condições naturais 5.730 anos após a sua morte. Avaliando-se a concentração deste isótopo na “cartilagem” das vértebras do tubarão é que se chegou a sua idade aproximada. Tubarões não tem ossos como os serem humanos e outros peixes. São peixes cartilaginosos.

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  • 10/01/2014 - 23:42
    Enviado por: Claudio

    Os tubarões de colarinho-branco, como os que temos aos montes em Brasilia e até no governo de alguns Estados, como o Maranhão, seguramente vivem ou viverão mais que isso…

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  • 11/01/2014 - 13:36
    Enviado por: Goytá

    Herton, através do link nesta matéria, acessei e li sua outra matéria de 7 de junho passado, que eu ainda não tinha lido, sobre a formação de novos neurônios no hipocampo por toda a vida, numa descoberta que foi feita com base na incorporação de carbono 14. Nessa matéria, você afirma que o carbono 14 não é radioativo. Ele é, sim. É emissor de partículas beta, transformando-se em nitrogênio 14, no que inclusive, ao longo de bilhões de anos, pode ter sido uma das fontes da atual abundância de nitrogênio na atmosfera. O carbono 14 tem uma meia-vida de 5700 anos, e se não fosse radioativo, aliás, sua concentração se manteria constante e esse isótopo seria inútil para determinar a idade de materiais de origem biológica, pois essa idade é determinada justamente medindo-se o grau de decaimento radioativo do carbono 14.

    Dos 15 isótopos conhecidos do carbono, só dois não são radioativos: o carbono 12, o mais comum, e o 13, mais raro.

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  • 12/01/2014 - 13:51
    Enviado por: Roberto

    Se o tubarão vive mais de 70 anos, ainda tenho expectativa que o PSDB viva bem menos por que ele, como o tubarão, come escondido mas come muito!!!

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  • 17/01/2014 - 16:40
    Enviado por: gerson

    xique demais legal

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Herton Escobar

    Herton Escobar é repórter do jornal O Estado de S. Paulo desde 2000 e blogueiro desde 2008, especializado em jornalismo científico e ambiental. É formado em jornalismo pela Western Michigan University e foi bolsista do MIT e do Marine Biological Laboratory, nos EUA.

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