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Descoberta de ondas gravitacionais é publicada com dados ‘empoeirados’

Herton Escobar

19 junho 2014 | 17:25

Evidências que comprovariam a teoria da inflação cósmica na origem do universo foram duramente questionadas nos últimos dois meses, antes mesmo da publicação

A revista Physical Review Letters acaba de publicar os resultados de um estudo que pode ser o mais importante dos últimos tempos na física e na cosmologia. Ou não. Pode ser só poeira também.

Os resultados foram inicialmente (e talvez prematuramente) divulgados em março deste ano, quando pesquisadores ligados ao projeto BICEP2 anunciaram terem descoberto as primeiras evidências concretas de que o universo se expandiu numa velocidade alucinante (mais rápido do que a luz) no período de menos de um trilionésimo de segundo após o Big Bang — um processo conhecido como “inflação cósmica”, teorizado pelo astrofísico Alan Guth na década de 1980 e absolutamente essencial a todos os modelos teóricos que a física emprega para explicar a evolução do universo desde então, porém nunca comprovado na prática até agora, por meio de observações físicas. A prova, neste caso, seria a detecção das chamadas “ondas gravitacionais”, distorções no padrão de temperatura da radiação cósmica que seriam como ondulações no pano de fundo luminoso do universo, criadas por esse processo inflacionário logo após o Big Bang.

O anúncio original foi feito durante um encontro com jornalistas no Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics e teve enorme repercussão mundial, visto que seria um dos resultados mais importantes da física nos últimos tempos. Procurado para comentar a descoberta que finalmente confirmaria sua teoria, Guth chegou a dizer a dizer que o trabalho era “definitivamente” digno de um prêmio Nobel (citado em reportagem da Nature News: http://migre.me/jBTvW).

O grupo responsável pela pesquisa, liderado por pesquisadores de Harvard, Caltech, Stanford e outras instituições de ponta, apresentou seus dados e suas conclusões sobre eles à imprensa (e, consequentemente, ao público) antes de ter um trabalho publicado numa revista especializada — o que implicaria em ter a pesquisa revisada e validada por outros especialistas antes da divulgação. O resultado foi que os resultados passaram a ser questionados por outros grupos antes mesmo de serem publicados. “Eu achava que os resultados do BICEP2 eram bastante seguros. Agora a situação mudou”, chegou a dizer Guth em uma nova entrevista ao site da Nature, publicada no início deste mês (http://migre.me/jBTAJ).

Depois de muito debate e muitas revisões, o trabalho foi finalmente publicado; com um grau de certeza bastante reduzido. Os autores mantêm a interpretação de que os sinais detectados por eles — utilizando um telescópio no Pólo Sul — representam evidência da existência de ondas gravitacionais. Por outro lado, reconhecem que esta não é a única interpretação plausível. Os mesmos sinais poderiam ser explicados pela interferência de poeira espacial nas observações da radiação cósmica de fundo, conforme apontaram vários críticos nos últimos dois meses. Ou seja: são possíveis evidências de ondas gravitacionais, e não provas definitivas, como se imaginava de início. No fim das contas, continuamos, mais ou menos, na mesma.

“Claramente, são necessários mais dados para resolver a situação”, escrevem os autores do trabalho, na Physical Review Letters. O consórcio é liderado por John Kovac, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics. Para baixar o pdf do trabalho, clique aqui: http://migre.me/jUTRw

“Mesmo que o sinal do BICEP2 seja originado de ondas gravitacionais primordiais, várias verificações de consistência serão necessárias para que se possa dizer, definitivamente, que o sinal foi gerado pela inflação”, escreve o físico Lawrence Krauss, em um artigo de análise publicado no site Physics, da Sociedade Americana de Física, simultaneamente à publicação do trabalho na Physical Review Letters (http://physics.aps.org/articles/v7/64). “É difícil imaginar uma observação cosmológica mais importante ou com implicações mais abrangentes”, conclui, torcendo para que o time do BICEPS2 esteja certo.