Minha reportagem especial desta semana, publicada hoje no Estadão, sobre o novo navio oceanográfico da USP. Mesmo que você não goste muito do mar ou de navios, vale a pena ler.
Mais uma parceria de sucesso entre texto e infografia.
Os textos na íntegra podem ser lidos nos links abaixo:
Novo navio de pesquisa da USP chega para revolucionar as pesquisas no mar
Descoberta do pré-sal elevou prioridade da exploração oceânica
Abraços a todos, e boa leitura.
A Corte Europeia de Justiça tomou uma decisão esta semana que eu simplesmente não consigo compreender: proibiu o patenteamento de invenções baseadas no uso de células-tronco embrionárias humanas (CTEs). Ou seja: cientistas que desenvolverem novos protocolos e novas tecnologias para a transformação de células-tronco em neurônios, células cardíacas, células produtoras de insulina, ou qualquer outra célula que tenha aplicação prática em pesquisa ou tratamento não terão o direito de patentear suas descobertas. Podem pesquisar, sem problemas. Podem receber dinheiro público para pesquisar, sem problemas. Podem publicar suas descobertas, sem problemas. Mas não têm direito a propriedade intelectual nem podem ganhar nenhum dinheiro com elas. Têm de entregar tudo de mão beijada em domínio público, para o bem da humanidade, e passar bem, obrigado. Se cientistas de outros países quiserem copiar a invenção e patenteá-las em seus respectivos países, paciência, sinto muito.
A decisão me parece incoerente por vários motivos. Em primeiro lugar, porque não me parece lógico tornar ilegal o patenteamento de produtos que foram desenvolvidos legalmente. Se é permitido fazer pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, e até receber financiamento público para isso, como é que pode ser proibido patentear os resultados derivados dessa mesma pesquisa? Simplesmente não faz sentido. A decisão da Corte é baseada num julgamento moral de que as pesquisas com CTEs ferem a dignidade humana, por implicarem na destruição de embriões humanos. Ok, essa é uma opinião de muitos, especialmente dentro da Igreja Católica, com a qual pode-se ou não concordar. Mas se a Corte considera indigno tirar células de um embrião humano, então é isso que deveria ser proibido para começo de conversa, e não o patenteamento! (Proibir as pesquisas seria muito pior, mas pelo menos teria uma lógica por trás.)
Se bem que, na prática, proibir patentes é quase como proibir pesquisas. O resultado disso é que nenhum cientista mais na Europa vai se empenhar para desenvolver tecnologias (incluindo possíveis tratamentos) com base em células-tronco embrionárias humanas. Pesquisas básicas, até vá lá. Mas pesquisas aplicadas, acho difícil. A ideia de que a ciência é um bem da humanidade, e que portanto os cientistas deveriam fazer suas pesquisas e entregar suas descobertas de graça ao mundo, como frades franciscanos, é muito nobre em teoria. Na prática, porém, não passa de um sonho. Fazer pesquisa custa dinheiro. Desenvolver tecnologia custa dinheiro. Transformar essa tecnologia em produto custa dinheiro. Produzir esses produto em escala industrial e colocá-lo no mercado custa dinheiro. No caso de novos medicamentos e novos tratamentos, especialmente, custa MUITO tempo e MUITO. Quem vai pagar por isso?
Se quisermos novas drogas e novas curas, temos de aceitar que isso não virá de graça. Mesmo se a pesquisa que deu origem à descoberta tenha sido feita 100% numa instituição pública, com dinheiro 100% público, alguém vai ter de produzir essa descoberta e colocá-la no mercado. E não é a universidade que vai fazer isso. É uma empresa! Ao proibir os cientistas de patentear suas descobertas, a Corte europeia está, na verdade, beneficiando a indústria privada, que poderá se apropriar do conhecimento produzido pelos cientistas de graça, sem pagar royalties nem a eles nem a suas instituições (um retorno que seria garantido por meio das patentes). Mais uma vez, não faz sentido. Os cientistas não vão continuar a pesquisar de graça. Eles vão parar de pesquisar. Ou vão mudar de continente.
Seria o mesmo que eu dizer o seguinte: que a partir de hoje vou pedir demissão do Estadão, mas vou continuar a trabalhar como jornalista por conta própria, produzindo matérias de graça, pelo bem da humanidade (porque, afinal, a informação é essencial à democracia e à liberdade, e portanto deveria ser gratuita). Também abro mão dos direitos autorais de todas as minhas reportagens — quem quiser copiar e reproduzir pode fazê-lo à vontade, não precisa me dar crédito nem pagar nada. Não só isso, mas o Estadão se transformará numa entidade filantrópica e continuará a produzir o jornal e distribuí-lo diariamente de graça, pelo bem da humanidade. Um gesto muito nobre em teoria. Mas totalmente irrealista na prática. Eu amo meu trabalho, me orgulho do que faço e tenho plena consciência da importância do jornalismo para a sociedade, mas eu ainda preciso ir ao supermercado e pagar as contas no fim do mês. Sinto muito. O mesmo vale para os cientistas.
Poderia-se pensar talvez em algumas exceções. Por exemplo: o Instituto Butantan, que é uma instituição pública do Estado de São Paulo, desenvolve uma vacina. Ou a Fiocruz faz o mesmo no Rio de Janeiro. Ou a Embrapa desenvolve uma nova cultivar de soja, ou de feijão. Esses produtos chegarão ao mercado por um preço muito abaixo do que se fossem produtos de uma empresa privada, mas não serão de graça. E podem ter certeza de que serão muito bem protegidos por patentes, e quem quiser produzí-los fora do País terão de pagar royalties. A não ser que a sociedade brasileira esteja disposta a pagar impostos para desenvolver tecnologia de graça para os outros.
Patentear e cobrar royalties por descobertas não é bom apenas para os cientistas que as fizeram, é bom para toda a sociedade que se beneficia delas.
Abraços a todos.
…..
A notícia sobre a decisão da Corte pode ser lida aqui: Corte da UE veta patente de células-tronco com embrião destruído
Informações mais detalhadas, incluindo um histórico do caso e repercussão com cientistas da Europa, podem ser obtidas aqui (em inglês): European Court bans stem cell patents
.
Semana passada estive no Museu do Espaço e Foguetes dos EUA e fiquei impressionado. Eu já conhecia relativamente bem a história do programa Apollo e do desenvolvimento tecnológico por trás das “naves” (o Módulo de Serviço e Módulo Lunar) que levaram o homem à Lua em 1969. Mas não conhecia tão bem a história do desenvolvimento do foguete colossal que colocou essas naves no espaço para começo de conversa. O Saturn V ( ou “Saturno 5”), com 110 metros de altura, 10 metros de largura e 3 mil toneladas de peso, distribuídas em 3 estágios – cada um deles um foguete por conta própria, com características e finalidades individuais, um acoplado em cima do outro. Muito maior do que muitos prédios de São Paulo.
Por fora, o foguetão parece relativamente simples. Basicamente, um grande cilindro metálico com motores numa ponta e astronautas enlatados como sardinhas, na outra. Quando se conhece um pouco mais sobre as entranhas do foguete, sobre as forças gigantescas de propulsão necessárias para lança-lo ao espaço, e sobre os riscos igualmente gigantescos envolvidos na geração dessas forças no solo, porém, ganha-se um novo respeito por eles. O desafio é realmente gigantesco, tanto do ponto de vista da engenharia quanto da ciência e da tecnologia.
Tudo isso para botar dois seres-humanos na Lua e trazê-los de volta à Terra sãos e salvos, como diria então o falecido e icônico presidente JFK. Mais importante ainda: botar dois seres humanos americanos na Lua antes dos seres humanos soviéticos (que até então vinham dando um banho nos americanos na corrida espacial).
E o mais curioso dessa história toda (mais impressionante até do que o desafio tecnológico do Saturn V e de todo o programa Apollo) é que os americanos só venceram essa corrida no fim das contas graças a um engenheiro alemão que construiu o primeiro míssil balístico do mundo, chamado V2, que os nazistas lançaram contra os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Seu nome era Wernher von Braun, e sua foto sorridente está espalhada por todo o museu. Ele e sua equipe se renderam/foram capturados (uma mistura das duas coisas) pelos americanos no fim da guerra, depois que os Aliados finalmente renderam a Alemanha. Os soviéticos também estavam loucos atrás dele, mas acabaram tendo de se contentar com alguns outros engenheiros de menor escalão e menor brilhantismo. …. Antes de vencer a corrida espacial pela conquista da Lua, portanto, os americanos tiveram de vencer os soviéticos numa corrida pela “contratação” de von Braun. Caso contrário, a bandeira hasteada na superfície lunar hoje seria vermelha, com a foice e o martelo.
Isso é talvez a maior prova do valor do conhecimento e da tecnologia para o desenvolvimento e a soberania de um país. O maior tesouro alemão cobiçado pelos americanos e soviéticos no fim da Guerra não eram peças de ouro nem de prata … era a massa cinzenta do cérebro de um engenheiro. Imagine só!
Von Braun começou projetando foguetes para matar pessoas. Mas o que ele queria mesmo era colocar sere humanos no espaço. Vivos! E a tecnologia necessária para as duas coisas é basicamente a mesma. Você precisa lançar ao ar grandes quantidades de massa, a grandes velocidades, para percorrer grandes distâncias. Ou seja: você precisa de foguetes. A única diferença, basicamente, é o que você coloca na ponta deles: explosivos ou astronautas.
Von Braun, felizmente, preferia astronautas. Ao fim da guerra, ele e sua equipe foram levados para os EUA e ganharam cidadania americana. Em meio à corrida espacial, foram parar em Huntsville, no norte do Alabama, que foi onde desenvolveram o Saturn V para o programa Apollo. E onde hoje está construído o Museu do Espaço e Foguetes, onde é possível ver um Saturn V de verdade, bem de pertinho, e aprender sobre sua história. Que foi o que eu fiz.
Na entrada do prédio onde está exposto o foguete há uma grande placa com a seguinte frase de von Braun: “Os foguetes libertarão o homem de suas últimas correntes, as correntes da gravidade que ainda o prendem a este planeta. Abrirão para ele as portas do paraíso.” (tradução livre minha do inglês)
Ele não estava falando só da boca para fora, numa jogada de marketing. De fato, graças a ele, o homem venceu a gravidade e escapuliu para o espaço. Uma longa jornada que nos levou, hoje, à construção da Estação Espacial Internacional (ISS), que muita gente acha ser um desperdício de dinheiro, e com o programa dos ônibus espaciais da Nasa, que estão prestes a serem aposentados, por serem caros demais e perigosos demais. O Endeavour está lá em cima agora, orbitando sobre nossas cabeças, e o Atlantis deve ir para a torre de lançamento no fim do mês, para o voo final de todos.
E quem é que vai assumir a responsabilidade de levar e trazer astronautas da ISS depois disso? Os russos! Imagine só!
Não estou de maneira alguma debochando do programa espacial americano. É apenas uma ironia do destino. Mas que nos faz perguntar: Vencemos a gravidade e chegamos ao espaço. Mas será que abrimos as portas do paraíso, como gostaria von Braun? Colocar seres humanos no espaço é uma das conquistas mais incríveis do próprio ser humano. Mas também uma das mais custosas e perigosas empreitadas já empreendidas pelo homem. Aprendemos muito com a exploração humana do espaço. Mas poderíamos certamente ter aprendido tanto quanto, ou até mais, por menos dinheiro, com robôs, sondas e outras missões não tripuladas, como as que são lançadas hoje a lugares muito mais distantes do que a Lua. Será que vale a pena continuar mandando gente lá para cima? Ou deixamos toda a glória para os robôs?
Abraços a todos.
LEGENDAS: Acima, o terceiro estágio do Saturn V, que tinha penas um motor, modelo J-2. E abaixo, um dos motores modelo F-1 do primeiro estágio (que tinha 5 no total), expostos no museu do Alabama (comigo na frente, para dar uma ideia de escala). FOTO: Herton Escobar/AE
.
Uma boa ideia de nada vale se não for colocada em prática.
O Brasil está muito bem servido de bons cientistas. Formou milhares e milhares de mestres e doutores. Aumentou significativamente seu número de publicações científicas. Mas ainda não conseguiu dar o último passo, mais difícil, de transformar toda essa massa de conhecimento em riqueza para o país. Em benefício para as pessoas.
Eu já defendi a pesquisa básica várias vezes aqui no blog. E não me canso nunca de escrever sobre ela. Mas é claro que, em última instância, queremos também (precisamos!) que a ciência traga benefícios práticos para a nossa vida. Essa é a diferença entre ciência e tecnologia: ciência é aquilo que você sabe, tecnologia é aquilo que você usa.
O Brasil vai bem em ciência, mas vai mal em tecnologia. E uma das razões é a boa e velha burocracia nacional.
O Estadão publicou ontem uma entrevista com o novo presidente do CNPq, Glaucius Oliva, sobre esse tema. Boa sorte a ele e ao novo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, para melhorar esse quadro.
Abraços a todos.

crédito: Greg’s Cable Map
.
Quando você acessa um site inglês, hospedado na Inglaterra, como você acha que a informação chega do servidor de lá até o seu computador aqui? Pelo ar? Via satélite? Mágica digital? Telepatia?
Nada disso. Na verdade, ela viaja da maneira mais “tradicional” possível, via cabo.
Sei que parece uma pergunta/observação idiota, mas aposto que muita gente não sabe que há um emaranhado gigantesco de cabos de fibra ótica atravessando todos os oceanos e conectando todos os continentes da Terra, necessários para que a internet e outros serviços de telecomunicações funcionem. Imagine só!
Quando você baixa conteúdo de um site inglês, as informações atravessam fisicamente todo o Oceano Atlântico via cabo, de um computador na Inglaterra até o seu computador, na sua frente. Só que isso acontece à velocidade da luz … portanto as distâncias são absolutamente irrelevantes nesse caso. Se você baixa informações de um servidor da padaria da esquina ou de uma empresa de mergulho na Austrália, o tempo de viagem é exatamente o mesmo, para todos os fins práticos. Ou seja: instantâneo.
(A velocidade da luz, só para lembrar, é de 300 mil km por SEGUNDO no vácuo … dentro de uma fibra ótica ela é um pouco mais lenta, mas ainda assim, instantânea para todos os fins de utilidade humana. Segundo o site WolframAlpha, indicado pelo meu camarada Carlos Orsi, a distância em linha reta de Londres a São Paulo é de 9.471 km. Um “pacote de luz” contendo informações digitais e viajando por uma fibra ótica leva exatos 44,3 milisegundos para percorrer essa distância. Se fosse no vácuo, levaria 31,6 milisegundos. Uma diferença imperceptível.)
O mais doido é imaginar esse cabos dormindo no leito dos oceanos, milhares de metros abaixo da superfície, com peixes bizarros, polvos, caranguejos e outros seres das profundezas caminhando sobre eles. Imagine só!
Neste site é possível navegar por um mapa interativo de todos os cabos submarinos instalados no mundo. Entre lá e veja por onde trafegam as informações que você usa na internet.
(Para dar crédito a quem merece, descobri esse mapa graças ao Knight Science Journalism Tracker, um blog de jornalismo científico mantido por jornalistas ligados ao Knight Science Journalism Fellowships, programa do qual eu tive a honra de participar alguns anos atrás, no MIT. O Tracker, por sua vez, usou informações de um outro blogueiro da revista The Atlantic, que por sua vez cita um outro blog, de um professor da Carnegie Mellon University, chamado Infowarrior. …. Haja cabo submarino para transportar tanta informação!! Já pensou se a gente recebesse milhagem por conteúdo baixado na internet?)
Abraços a todos.
2012
2011
2010
2009