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Herton Escobar

29.fevereiro.2012 18:39:12

PULGA PRÉ-HISTÓRICA

FOTO: D. Huang et al, Nature

 

Com vocês, o fóssil de uma pulga “gigante” que chupava sangue de dinossauros peludos entre 125 e 165 milhões de anos atrás, segundo um estudo publicado na revista Nature. É um de nove espécimes coletados na China, com tamanhos que variam entre 1,4 e 2,0 cm para fêmeas e 0,8 e 1,5 cm, para machos. Ou seja: “gigantes”, se comparados às pulgas atuais.

A morfologia alongada e robusta de suas bocas sugere que essas pulgas eram inicialmente parasitas de animais peludos “reptilianos” (talvez dinossauros plumados que existiam na mesma época), de pele grossa, e que só mais tarde passaram a chupar sangue de mamíferos e aves. Imagine só!

 

 

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Se você ainda acha difícil acreditar que os pássaros são descendentes diretos dos dinossauros, assista a esse vídeo. Ou melhor, “ouça” esse vídeo, que eu fiz numa vila no interior do Sri Lanka. (Assista o vídeo de olhos fechados primeiro e preste atenção no som que um dos gansos faz … incrível!)

Apenas uma brincadeira para voltar ao tema da relação evolutiva entre aves e dinossauros. Já escrevi sobre isso antes no blog, então não vou me repetir (clique aqui para ver os posts anteriores). Mas caso você não saiba, aqui vai um resumo: A história de que todos os dinossauros foram extintos 65 milhões de anos atrás não é 100% verdade. Só 99% …. Uma linhagem de dinossauros sobreviveu: a que deu origem às aves. Eles podem parecer muito diferentes aos seus olhos hoje, mas, anatomicamente, aves e dinossauros são tão parecidos que, se você tivesse uma máquina do tempo, viajasse para o passado e enterrasse uma galinha no fundo de algum lago do Jurássico, e algum pesquisador descobrisse hoje o fóssil dessa galinha, ela poderia muito bem ir parar num museu classificada como um dinossauro.

Ou um ganso … Imagine só!

Abraços a todos.

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Imagine se você pudesse olhar para o passado. Pudesse ficar parado num lugar e ver o ambiente a sua volta retroceder no tempo, como um filme em reverso. Se estivesse em São Paulo, veria a cidade diminuir de tamanho até ser deconstruída por completo e dar lugar à sua cobertura original de mata atlântica, pontuada no máximo por algumas aldeias indígenas. Com tempo suficiente, veria o nível do mar retroceder até quilômetros de distância, formando uma ligação de terra contínua e coberta de florestas entre o que hoje é a praia e as ilhas do litoral paulista. Muitos bichos passariam por você. Primeiro, onças e macacos. Depois, preguiças gigantes e tatus do tamanho de um Fusca. Eventualmente, dinossauros de vários tipos e tamanhos. E coisas ainda mais antigas.

A paleontologia, infelizmente, ainda não é uma das ciências mais desenvolvidas e valorizadas no Brasil. Mas tem crescido bastante nos últimos anos e, felizmente, nos presenteado com descobertas muito interessantes de dinossauros e outros animais pré-históricos que caminharam por essas terras agora brasileiras milhares ou milhões de anos atrás, muito antes de qualquer tipo de ser humano dar as caras por aqui.

Faz uns dois meses, pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo apresentaram ao público o Tapuiasaurus macedoi, um gigante pescoçudo com 13 metros de comprimento que caminhava por onde hoje é o interior de Minas Gerais, 120 milhões de anos atrás.

Na semana passada, pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro apresentaram ao público mais uma série de descobertas pré-históricas. Entre elas, um gigante carnívoro batizado de Oxalaia quilombensis, com estimados 12 a 14 metros de comprimento e 5 a 7 toneladas de peso, que você pode ver na ilustração acima (uma concepção artística de como o dinossauro poderia ser, baseado na comparação deste fóssil brasileiro com os de outros dinossauros do mesmo grupo, encontrados em outros lugares do mundo). Imagine, então, voltar uns 95 milhões de anos no tempo, na atual Ilha do Cajual, no Maranhão, e dar de cara com esse monstrengo! Um predador carnívoro do tamanho de um elefante!

A descrição do Oxalaia quilombensis foi publicada numa edição especial de paleontologia dos Anais da ABC (Academia Brasileira de Ciências), uma das revistas científicas mais antigas do país.

Agora, nesta semana, mais uma novidade foi desenterrada do passado brasileiro (e do planeta): Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul apresentaram com um trabalho na revista Science a descrição de um animal que viveu ainda antes dos dinossauros, cerca de 260 milhões de anos atrás, no fim do período Permiano (veja a notícia completa publicada no Estadão). O Tiarajudens eccentricus, que você pode ver na ilustração da matéria, era um bicho pra lá de estranho. Ele já tinha uma dentição bem adaptada para comer plantas, numa época em que ser herbívoro ainda era coisa nova no planeta, mas também um par de caninos enormes, tipo dente-de-sabre. Ele era um sinapsídeo, parte de um grupo bem variado de animais que deu origem, entre outras coisas já extintas, à linhagem dos mamíferos. Ou seja, nós! (com a ressalva importante de que o Tiarajudens eccentricus, especificamente, não é um ancestral direto nosso … ele pertencia a uma linhagem diferente de sinapsídeos, que foi extinta no fim do Permiano … aliás, ele e quase tudo mais que vivia sobre a Terra naquela época).

E já que tocamos no assunto, vale chamar a atenção para um outro trabalho muito interessante, publicado na edição de 3 de março da revista Nature, com o título “Será que a sexta extinção em massa da Terra já chegou?” Esperamos que não … mas o cenário não é muito animador.

Extinções em massa parecem coisa de cinema, mas elas acontecem de verdade, e pra valer. A que deu fim aos dinossauros 65 milhões de anos atrás, no fim do período Cretáceo, é apenas a mais famosa. Houve pelo menos quatro outras, ocorridas 443, 359, 251 e 200 milhões de anos atrás. Em todas elas, mais de 75% das espécies do planeta foram extintas. Em geral, por uma combinação de eventos catastróficos e mudanças climáticas, detonadas por intenso vulcanismo, impactos de asteróides e outras coisas pouco agradáveis desse tipo.

Segundo os autores, que têm entre eles o biólogo brasileiro Tiago Quental, 99% das estimadas 4 bilhões de espécies que já existiram na Terra foram extintas ao longo do tempo. O 1% que “sobrou” é o que temos hoje. E a grande maioria das espécies atuais será eventualmente extinta também e substituída por novas espécies (talvez até nós). É o curso natural das coisas … A dúvida é se isso vai levar milhões de anos, via processos naturais de mudança e evolução, ou apenas algumas décadas ou séculos, pelas mãos destrutivas do homem.

Você já deve ter ouvido falar que espécies estão sendo extintas hoje pela ação do homem muito mais rápido do que acontecia na era dos dinossauros. Pois é … confesso que tenho um certo pé atrás com essa afirmação. Se não sabemos nem quantas espécies temos hoje exatamente, como podemos comparar taxas de extinção atuais com taxas de extinção de milhões de anos atrás, com base apenas no registro fóssil (que, por sua vez, é apenas uma pequena amostra de tudo que já existiu). Mas pois é … há maneiras cientificamente corretas, sim, de estimar isso. Mesmo que não conheçamos todas as espécies que existem hoje, podemos inferir com base em critérios científicos bem definidos que montes e montes de espécies estão sendo extintas ou já foram extintas nos últimos séculos sem que nunca tivéssemos conhecimento da existência delas. Porque foram extintas antes de serem descobertas.

Segundo os autores, as estimativas indicam que os seres humanos estão, sim, desencadeando uma sexta extinção em massa da biodiversidade do planeta, estimulada pela superexploração dos recursos naturais, destruição e fragmentação de habitats, introdução de espécies invasoras, poluição, caça, pesca, desmatamento, mudança climática, etc. Se continuar assim, dizem eles, a maior parte das espécies do planeta poderá desaparecer no prazo de alguns poucos séculos.

Então, imagine só! Para aqueles que nascerem daqui algumas décadas, um tigre-de-bengala poderá ser algo tão histórico quanto um dinossauro é para nós hoje. Para ver um fora de um zoológico, só mesmo com uma máquina do tempo.

Abraços a todos.

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07.fevereiro.2011 23:48:33

CABEÇA DINOSSAURO

O crânio do Tapuiassauro, com as mãos dos pesquisadores que o descobriram. (FOTO: Tiago Queiroz/AE)

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Dinossauros … De todos os seres vivos que já habitaram este planeta nos últimos 4 bilhões de anos, certamente nenhum conseguiu ser mais popular do que esses “grandes répteis”.

“Grandes e pequenos”, na verdade, pois havia dinossauros do tamanho de uma galinha, também. Aliás, a diversidade morfológica desses animais, demonstrada pela descoberta de centenas de novas espécies nos últimos anos, é algo inacreditável e, muitas vezes, pouco apreciado pelo público em geral, que costuma focar suas atenções apenas nos dinossauros maiores, mais sanguinolentos e hollywoodianos, tipo Tyrannosaurus rex.

Realmente, o T. rex era um animal impressionante … e eu me lembro bem de quando o vi “ao vivo” no cinema pela primeira vez, em Jurassic Park. Assustador! (obrigado Spielberg) Mas os dinossauros eram muito mais do que simples lagartos gigantes cheios de unhas e dentes … Eles dominaram a Terra por 165 milhões de anos! Você tem ideia do que é isso?

Vamos colocar em perspectiva: Nós, seres humanos modernos (espécie Homo sapiens), só aparecemos no registro fóssil cerca de 200 mil anos atrás. (“mil” … e não “milhões”) E isso, ainda, considerando “moderno” apenas do ponto de vista morfológico. Ou seja: os fósseis mais antigos de pessoas que tinham uma anatomia igual à nossa (“moderna”) têm cerca de 200 mil anos de idade. Antes disso só havia Homo erectus, australopitecinos e outras formas mais primitivas de hominídeos caminhando por aí.

Do ponto de vista “intelectual/cultural”, a história do homem moderno é ainda mais recente. Nossa civilização tem apenas 10 mil anos de idade, a contar da invenção da agricultura (que permitiu ao ser humano abandonar os hábitos nômades e produzir comida suficiente para sustentar populações maiores e construir cidades, dando origem a organizações sociais mais complexas, etc).

Em resumo, no fim das contas, os dinossauros reinaram sobre a Terra nada menos do que 825 vezes mais tempo do que o ser humano moderno – 165 milhões vs. 200 mil anos. Então, imagine tudo que aconteceu em 200 mil anos de história da humanidade, desde os homens das cavernas até a invenção do iPad, e multiplique isso por 825. Esse é o tempo que os dinossauros tiveram para se multiplicar e se diversificar, desde as suas formas mais primitivas até as milhares de espécies, de todos os tipos, hábitos e tamanhos, que se desenvolveram e foram dizimadas pelo impacto de um asteroide, 65 milhões de anos atrás. Por isso há tantos deles por aí! 165 milhões de anos é muita coisa! Suficiente para muitas espécies terem evoluído e se extinguido naturalmente, mesmo antes do cataclisma meteórico.

Hoje há cerca de 1 mil espécies de dinossauros conhecidas no mundo. E pode ter certeza de que isso é apenas uma micro-amostra da real biodiversidade de dinos que existiu naqueles 165 milhões de anos, entre o início do Triássico e o fim do Cretáceo. É só o que tivemos sorte de encontrar, graças a alguma combinação inacreditável de fatores ambientais e geológicos que preservaram esses ossos debaixo da terra e os trouxeram de volta à superfície agora, milhões e milhões de anos mais tarde.

Enter os países com maior abundância de fósseis estão os Estados Unidos, a China e a Argentina. Não necessariamente porque lá tinha mais dinossauros no passado, mas porque lá tem mais pesquisadores no presente … e as condições ambientais são mais propícias tanto para a preservação quanto para o afloramento de fósseis. Mas não se engane: os dinossauros viveram e morreram por toda a parte. E o Brasil não é exceção. (lembrando, claro, que naquela época não existiam países e os continentes atuais estavam, inicialmente, todos conectados numa única grande massa terrestre chamada Pangeia)

O número de espécies descobertas no Brasil ainda é pequeno (17). Mas a tendência é que esse número aumente bastante no futuro próximo, com a intensificação das pesquisas e o fortalecimento da paleontologia nacional. Os fósseis estão por aí, escondidos debaixo da terra … só precisamos encontrá-los e pesquisá-los.

A descoberta mais recente do País é o chamado Tapuiassauro, um gigante pescoçudo de 4 metros de altura e 13 metros de comprimento, cujo fóssil será exposto ao público a partir deste dia 8 no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. Vale muito a pena conferir! O crânio do bicho está super bem preservado, completo com a mandíbula e todos os dentes na boca. E tem ainda uma réplica em tamanho real do dinossauro, que certamente vai deixar muita criança de boca aberta e olhos arregalados (clique aqui para ver um infográfico interativo com mapas do museu e da exposição).

O Tapuiassauro foi descoberto no interior de Minas Gerais e eu tive o privilégio, como jornalista, de acompanhar boa parte dos trabalhos de pesquisa e descrição do fóssil ao longo dos últimos dois anos. Em setembro do ano passado, o Estadão publicou um caderno especial de 8 páginas sobre o projeto, acompanhado de uma série de vídeos e infográficos que podem ser acessados neste link. Tomara que seja só a primeira de muitas descobertas e muitas reportagens sobre dinossauros brasileiros nos próximos anos.

Imagine só: 120 milhões de anos atrás (idade estimada do Tapuiassauro), esse crânio da foto cima era a cabeça de um dinossauro de verdade, caminhando pelo interior de Minas Gerais! Certamente com muitos outros dinossauros ao redor dele!

O trabalho oficial de descrição científica da espécie, coordenado pelo professor Hussam Zaher, acaba de ser publicado online pela revista PLoS One. E o nome científico do bicho é Tapuiasaurus macedoi! Finalmente!

Abraços a todos.

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O crânio do Tapuiassauro, como foi escavado no campo, antes de ser levado para o laboratório para "limpeza" (preparação). FOTO: MZUSP

Conheça todos os dinossauros do Brasil: www.estadao.com.br/especiais/tapuiassauro

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sabertooth

Se você acha que um leão ou um tigre já metem medo hoje, imagine voltar no tempo alguns milhões de anos e dar de cara com o dono desse crânio aí de cima: um tigre-dente-de-sabre (Smilodon fatalis). Ele tinha mais ou menos o tamanho de um tigre (o maior dos felinos atuais), podendo passar dos 3 metros de comprimento e dos 300 quilos de peso. Um predador pra presa nenhuma botar defeito. Imagine só!

O que mais impressiona nesse bicho, claro, são os dentes. Em especial, os gigantescos caninos superiores, que desciam do maxilar como duas adagas mortais, usadas para perfurar e rasgar o couro e a carne das presas. Mas não era só de dentes que se fazia esse “monstro” … Um estudo publicado esses dias na revista PLoS One revela que o dente-de-sabre tinha também “braços” (membros dianteiros) extremamente fortes, comparados aos dos felinos atuais (que já são bastante fortes para começo de conversa). Os cientistas deduziram isso comparando a anatomia dos ossos fossilizados do Smilodon com os de 28 espécies vivas de felinos.

Os resultados comprovam a tese de que o dente-de-sabre precisava derrubar suas presas e prendê-las ao chão antes de dar a mordida fatal. Isso porque seus caninos, por serem tão grandes e terem uma estrutura ovalada, podiam quebrar com mais facilidade do que os dentes menores e mais cilíndricos de outros gatos. Então não dava para sair mordendo qualquer bisão em movimento por aí, no meio de uma corrida….

Aliás, um estudo publicado em 2007 na revista PNAS revelou que a mordida de um dente-de-sabre tinha apenas 1/3 da força da mordida de um leão.  Como os dentes eram muito grandes, o Smilodon tinha que abrir a boca até 120 graus para conseguir morder alguma coisa, e isso enfraquecia sua mordida. Por isso é provável que, além de ter de derrubar a presa primeiro, a mordida fosse sempre dada no pescoço, onde havia menos risco de chocar “sabres” com osso.

Então os dentões impressionavam, mas tinham também os seus pontos fracos.

O Smilodon viveu de 2,5 milhões até 10 mil anos atrás. Foi extinto, infelizmente, como tantos outros animais magníficos do Pleistoceno — muitos deles, suas presas. Felizmente temos os fósseis e os paleontólogos para nos contar um pouco da sua história.

Abraços a todos.

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