Minha mais recente reportagem especial, publicada no último domingo (6 de maio) no Estadão. Mais um triste relato de como a Mata Atlântica virou fumaça, literalmente. Numa escala bem maior do que tudo que já foi destruído na Amazônia.
Os textos podem ser lidos aqui:
72% das emissões históricas do País vieram da Mata Atlântica e do Cerrado
Área desmatada no Cerrado crescerá 20%
Depois de três meses escalando montanhas geladas no Himalaia, retornei ao calor brasileiro e a primeira entrevista que fiz na minha volta ao jornal foi com cientistas na Antártida, onde a sensação térmica era de -40 graus Celsius. Imagine só!
A matéria, que pode ser lida neste link, conta a história da instalação de uma estação meteorológica no interior do continente antártico. O módulo, chamado Criosfera 1, é esse contêiner vermelho com a bandeira brasileira que você vê na foto acima, com a equipe de pesquisadores à frente.
O líder da expedição é o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de não termos neve ou gelo no Brasil, precisamos de especialistas como ele para estudar o clima de lugares como a Antártida e o Ártico, pois o que acontece nesses lugares afeta o clima do planeta como um todo … e o Brasil faz parte do planeta! Assim como as pessoas na Groenlândia precisam se preocupar com o que acontece com as árvores da Amazônia, nós precisamos nos preocupar com o que acontece com o gelo das regiões polares.
Quando falei com a expedição por telefone via satélite, na tarde de terça-feira, o Prof. Simões estava ocupado do lado de fora, coletando amostras de gelo. Mais tarde, porém, ele respondeu algumas perguntas por email, que eu copio abaixo para complementar a matéria. Além disso, as notícias da expedição podem ser acompanhadas pela página do Centro Polar e Climático da UFRGS no Facebook.
ESTADO: Qual é o status operacional do Criosfera 1 neste momento?
JEFFERSON: O Criosfera 1 está semioperativo; começou a transmitir dados meteorológicos (temperatura, pressão atmosférica, umidade, velocidade do vento) ontem (dia 1). Em breve irá transmitir dados da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Estamos em fase de teste. O módulo já está em seu lugar definitivo: 84°S, 79°29’39″W, 1.287 metros, no Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental (onde no dia 3 fez -17°C, com sensação térmica de -42 °C).
ESTADO: Qual o foco das pesquisas neste momento e qual o propósito científico do módulo a longo prazo?
JEFFERSON: O módulo é para pesquisa atmosférica, coleta de dados meteorológicos e da química da atmosfera. Este ano é uma fase de teste, com as medições descritas acima. No futuro teremos medidores de partículas de carbono elementar (“black carbon” em inglês) e parte escura da fuligem, micropartículas e outros gases.
Trata-se do posto latino-americano mais próximo do Polo Sul Geográfico, que está a somente 670 km de distância. O Criosfera 1 foi integralmente planejado e implementado pela comunidade científica nacional e marca importante avanço para o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).
ESTADO: O módulo precisa de ocupação humana?
JEFFERSON: Não. Seus instrumentos podem ser operados de maneira remota. Todo o módulo é automatizado para reduzir custos. Mas terá manutenção anual.
ESTADO: Com relação aos testemunhos de gelo, como está o trabalho de retirada, o que será feito com essas amostras e o que se espera aprender com elas?
JEFFERSON: Já tiramos 70 metros e estamos avançando. Por enquanto temos mais ou menos 150 anos de dados. As amostras serão derretidas em laboratório e uma bateria de análises químicas será realizada para obter uma série temporal de variações da química da atmosfera e do clima. Os dados do testemunho serão calibrados com os dados do Criosfera 1. É uma contribuição brasileira para experimentos internacionais, como o IPICS (International Ice Core Partnership), que procura reconstruir a história do clima e da química da atmosfera ao longo dos últimos 2000 anos usando testemunhos de gelo obtidos de geleiras de todas as partes do mundo (Antártida, Groenlândia, Alpes, Andes, Himalaias, Montanhas Rochosas, etc).
ESTADO: Qual é a situação operacional da expedição? Tudo funcionando bem até agora? Todo mundo com saúde?
JEFFERSON: Tudo ok. Ano relativamente quente, temperatura mínima até agora -17 °C, sensação térmica mínima -42 °C, todos com saúde e muito trabalho. Fora problemas normais como equipamentos quebrando com o frio, sonda trancando, etc, tudo ok.
E que continue assim, professor!
Abraços a todos.
Hoje foi publicada no Estadão a sexta reportagem especial da série Repórter Viajante, sobre o impacto do aquecimento global sobre as geleiras do Himalaia – um dos temas mais “quentes” e polêmicos relacionados às mudanças climáticas, por causa de um erro cometido pelo IPCC (órgão internacional de cientistas que assessora as Nações Unidas sobre esse assunto) em seu último relatório, prevendo as geleiras corriam sério risco de desaparecer até 2035.
Dizer que essa previsão era furada, foi fácil. Fazer uma previsão cientificamente consistente para corrigí-la, não foi nada fácil. A relação entre o aquecimento global e o derretimento das geleiras do Himalaia é uma história extremamente complexa (assim como todas as outras sobre as quais eu escolho escrever, por alguma razão sadomasoquista que foge à minha própria compreensão).
Depois de muita apuração, vi-me diante de um desses cenários clássicos de “copo meio cheio, meio vazio”. Por um lado havia uma boa notícia: a confirmação de grande parte do gelo “eterno” do Himalaia parece ser mesmo eterno e que as geleiras não vão, mesmo, desaparecer – nem nos cenários mais críticos de que aquecimento da atmosfera. Por outro lado, isso não significa que as mudanças climáticas trazidas pelo aquecimento não terão impactos significativos sobre a região – especialmente sobre os povos tradicional das montanhas, que têm uma relação de sobrevivência muito íntima com a natureza. Só porque as geleiras não vão desaparecer por completo, não significa que não haja razão para preocupação.
Então, o que fazer? Abrir a matéria focando na metade meio cheia ou meio vazia do copo? Acabei optando por focar na metade meio cheia por dois motivos: 1) porque era mais “hard news” (considerando que o IPCC acaba de publicar uma correção oficial ao seu relatório e que amanhã começa mais uma reunião internacional do clima, em Durban), e 2) porque eu sou um otimista incorrigível. A metade meio vazia, porém, ganhou um texto próprio, baseado nas minhas observações pessoais e conversas com os povos locais ao longo de quase 30 dias caminhando pelas montanhas da região.
Os textos publicados estão reproduzidos abaixo, para facilitar a leitura.
Com relação ao erro do IPCC, não tive espaço para entrar em detalhes sobre porque isso aconteceu, mas quem se interessar pode ler esse artigo publicado algum tempo atrás no fórum Climate Change & The Media, da Universidade de Yale. Bastante informativo. O referido capítulo do relatório que trata das geleiras do Himalaia pode ser acessado aqui:IPCC AR4 Cap. 10.6.2 The Himalayan glaciers
Acho que o mais importante nesse caso é ressaltar que o erro do IPCC nesse caso foi um tanto grotesco, sim, mas foi um erro pontual, em um pequeno capítulo, dentro de um relatório de quase mil páginas, envolvendo milhares de fontes e trabalhos de referência. Ou seja, não invalida de maneira nenhuma as conclusões gerais da ciência relacionada ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Todo ser humano, toda empresa e toda organização comete erros: eu, você, o Estadão, a Folha, o IPCC, etc.
O importante é reconhecer esse erros e corrigí-los quando eles são detectados (e nisso o IPCC merece um puxão de orelha, pois foi bastante orgulhoso e resistente na maneira que lidou com essa situação — em especial seu presidente, Rajendra Pachauri). Uma coisa é certa: o processo de edição e revisão do próximo relatório (previsto para 2013 ou 2014) será muito mais rígido. E isso é ótimo!
Abraços a todos.
E seguem as matérias …

FOTO: A geleira do Monte Lantang Lirung, no Parque Nacional de Lantang. Uma das muitas que está derretendo rapidamente na região. (note o rastro profundo deixado pelo recuo do gelo)
HIMALAIA DIVIDIDO: ENTRE O SOL E O GELO
Assim que leu o relatório de 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) dizendo que as geleiras do Himalaia corriam “sério risco” de desaparecer até 2035, Koji Fujita sabia que algo estava errado. “Isso é loucura”, pensou o pesquisador japonês, um dos cientistas com mais experiência de campo nessa região alta e gelada do mundo. Ele sabia que a situação era ruim, mas não tão ruim assim. O problema é que nem ele nem ninguém tinha dados suficientes para dizer o que estava acontecendo de fato com a capa de gelo das montanhas naquele momento – muito menos o que viria a acontecer com ela no futuro.
Agora, passados dois anos desde que o erro no relatório do IPCC foi revelado e confirmado, no final de 2009, e um dia antes da abertura de mais uma conferência da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (a COP 17, em Durban, na África do Sul), o cenário é outro. Muitas das nuvens de desconhecimento que impediam os cientistas de enxergar o futuro das geleiras do Himalaia com um mínimo de claridade foram assopradas para longe pela força de novas pesquisas, realizadas com base em imagens de satélite, modelos computacionais e muitas horas de trabalho de campo no ar rarefeito das montanhas mais altas do planeta.
Muitas dúvidas ainda persistem, claro. Nuvens escuras e tempestuosas, adensadas por uma série de dificuldades políticas e logísticas que tornam o estudo das geleiras do Himalaia um desafio tão complexo quanto o das igualmente gélidas profundezas do oceano ou do espaço sideral. Mas um faixo de luz já se abre no horizonte, iluminando ao menos algumas conclusões sobre o estado de saúde do chamado “terceiro pólo” – a maior concentração de gelo e neve fora das regiões polares.
A principal delas é que os cientistas que acusaram o IPCC de estar errado estavam certos: as geleiras do Himalaia não vão, mesmo, desaparecer. Não todas elas, pelo menos. Nem em 2035, nem depois. Mesmo diante das previsões mais pessimistas de aquecimento da atmosfera, os dados indicam que grande parte da capa de gelo do Himalaia permanecerá à salvo do derretimento, protegida por um cobertor de ar frio que sopra permanentemente sobre seus picos mais altos. “As percepções de risco são um tanto exageradas”, avalia Fujita, professor da Universidade de Nagoya, recém-chegado de uma expedição de pesquisa às montanhas do Butão.
“As grandes geleiras não vão desaparecer, nem nos cenários climáticos mais catastróficos”, garante Arun Shrestha, do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (Icimod, em inglês), organização regional de pesquisa com sede em Katmandu, no Nepal.
Acima dos 5.400 metros de altitude, aproximadamente, a temperatura média nas montanhas do Himalaia nunca passa de zero – ou seja, é sempre congelante. Essa linha pode flutuar para cima ou para baixo de acordo com as condições climáticas, mas grande parte do gelo do Himalaia está suficientemente acima dela para garantir sua sobrevivência a longo prazo, explica Shrestha. No Nepal, metade das geleiras estão acima de 5.500 metros. Mesmo que aqui embaixo vire uma sauna, lá em cima continuará sendo um congelador. Uma rara boa notícia perdida nessa tempestade de maus presságios associados às mudanças climáticas.
O que não significa que a situação seja boa. O problema, na verdade, está mais embaixo.
MORRENDO DE CALOR
A má notícia é que muitas geleiras menores, em altitudes mais baixas, estão de fato derretendo em ritmo acelerado. Muitas já foram extintas, muitas outras deverão morrer de calor ainda nas próximas décadas, e as implicações disso para a biodiversidade e para os povos tradicionais das montanhas são enormes. “O risco maior é para as populações de altitudes médias, que dependem da água de nascentes para sobreviver”, avalia Shrestha.
As nascentes, que brotam por todos os lados nas montanhas, são abundantes, mas não são eternas. Elas são abastecidas por reservas naturais de água subterrânea que, por sua vez, são abastecidas pelo derretimento periódico de gelo e neve no topo das montanhas. Se a neve diminui e as geleiras derretem por completo, as nascentes secam. Simples assim.
Um estudo recente publicado na revista Annals of Glaciology pelo geógrafo Graham Cogley, da Universidade de Trent, no Canadá, estima que a região do “Grande Himalaia” – incluindo as montanhas associadas do Karakoram, sobre as quais flutuam as tumultuosas e altamente militarizadas fronteiras do Afeganistão, Paquistão, Índia e China – tinha aproximadamente 21 mil geleiras em 1985, contendo 4 trilhões a 8 trilhões de toneladas de gelo e cobrindo uma área do tamanho do Estado do Rio de Janeiro (43 mil km2). Desde então, Cogley estima que um quinto dessas geleiras já pode ter desaparecido.
Outras centenas ou até milhares de geleiras poderão derreter nas próximas décadas, dependendo dos padrões de temperatura e de uma série de outros fatores climáticos, físicos e geográficos. Entre 1985 e 2010, segundo Cogley, o ritmo médio de degelo foi de 1,7% ao ano. No pior dos casos, a massa de gelo na região poderá ser reduzida entre um terço e dois terços até 2035, completa o pesquisador – fazendo, ele mesmo, a ressalva de que seus números são provavelmente “pessimistas demais”, devido às várias incertezas que permeiam os cálculos.
HOMEM VS. NATUREZA
Uma visita às montanhas do Himalaia na faixa dos 4 mil a 6 mil metros de altitude revela cenas dramáticas de geleiras em condições aparentemente mórbidas. Mesmo para um leigo que as vê pela primeira vez, parece óbvio que elas estão encolhendo. Algumas estão retrocedendo ao ritmo de mais de 50 metros por ano, segundo o Icimod. As evidências estão escancaradas nos enormes rastros de pedras trituradas que as massas de gelo deixam pelo caminho ao retroceder. Sulcos com dezenas de metros de profundidade, parecendo trincheiras cavadas por um gigante de gelo em guerra com o clima.
Segundo os cientistas, não há dúvida de que o aquecimento da atmosfera está influenciando esse degelo. Por outro lado, é preciso levar em conta que essas geleiras estão derretendo naturalmente há mais de 150 anos, desde o fim da chamada Pequena Era do Gelo, um longo período de temperaturas baixas que manteve a Terra resfriada – e as geleiras saudáveis – até 1850. Em seu trabalho, Cogley diz que as geleiras são “grandes demais para o clima atual”, e provavelmente continuariam a encolher por mais algumas décadas independentemente da influência humana sobre o clima.
“O fato de que a maioria das geleiras está em retração é um sinal claro de resposta a algum tipo de mudança climática. Se essa mudança está relacionada ao aquecimento global causado pelo homem ou a processos naturais é uma discussão em aberto”, diz o pesquisador Dirk Scherler, da Universidade de Potsdam, na Alemanha. Uma opinião compartilhada por vários cientistas ouvidos pelo Estado.
As geleiras, assim como o oceano, respondem de maneira “atrasada” às variações climáticas. Seu comportamento atual pode ser uma reação a condições climáticas de décadas atrás, assim como sua resposta às condições atuais poderá ser sentida só décadas a frente.
Outra mensagem enfatizada pelos pesquisadores é que é difícil (e frequentemente incorreto) fazer previsões generalizadas para o Himalaia. As condições geográficas e climáticas variam bastante ao longo da cordilheira, tanto no eixo vertical quanto horizontal. E as respostas dessas diferentes composições às mudanças climáticas variam igualmente ao longo do tempo e do espaço. Nas montanhas mais a oeste, por exemplo, que ficam em latitudes mais elevadas, muitas geleiras estão aumentando em vez de encolhendo.
Só a cordilheira central do Himalaia se estende por 2.400 quilômetros, do Rio Indus, no oeste, ao Brahmaputra, no leste. Mas a influência das montanhas sobre o clima, a cultura e a economia da região se estende por uma área muito maior, englobando várias outras cordilheiras e bacias hidrográficas associadas, das montanhas nevadas do Afeganistão até os desertos do Planalto Tibetano e as florestas de Mianmar.
RECURSOS HÍDRICOS
Um dos pontos mais sensíveis às mudanças climáticas na região é a conexão entre as geleiras no topo das cordilheiras e os rios que fluem pelos vales e planícies montanha abaixo. As geleiras funcionam como represas naturais, acumulando água congelada no inverno e liberando água líquida durante o verão.
A importância disso para o abastecimento humano varia de acordo com as condições climáticas, geográficas e os padrões de ocupação humana. As regiões mais vulneráveis, segundo os cientistas, estão na parte oeste do Himalaia, onde a influência das monções é menor e a dependência na água das geleiras, maior – principalmente nos meses de seca.
“O impacto (do derretimento sobre os recursos hídricos) nas regiões mais áridas poderá ser significativo”, avisa o cauteloso Fujita. Nas regiões naturalmente mais úmidas, irrigadas pelas monções, diz ele, nem tanto.
Tudo muito variável. Não é à toa que quando perguntei a Cogley o que eu veria ao caminhar pelas montanhas e observar as geleiras da região ele respondeu: “Uma grande bagunça”.
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SINAIS ILUMINADOS DE MUDANÇA CLIMÁTICA
“Isso não era para estar assim”, comenta o guia nepalês Nara Bhujel, olhando incomodado para a névoa que encobre nossa trilha a caminho do Monte Everest, no Parque Nacional do Sagarmatha, no Nepal. “Nessa época já era para o céu estar limpo.”
É 12 de novembro e estamos passando por uma floresta de cascatas semicongeladas entre as vilas de Khunde e Dhole, a quase 4 mil metros de altitude. Felizmente, foi um dos poucos dias de tempo fechado que tivemos nas duas semanas de caminhada até o Acampamento Base do Everest. Nos outros dias, céu azul e sol forte o tempo todo, com quase nenhuma nuvem no céu e paisagens incríveis despontando a cada curva nas montanhas. O que também não deixa de ser estranho. Tantos dias seguidos de tempo bom não costuma ser a regra nessa região.
Pode ter sido sorte. Pode ter sido o aquecimento global.
Na paisagem iluminada pelo sol, os sinais de mudança climática se tornam evidentes. “As montanhas costumavam ter muito mais neve. Não tinha tanta rocha exposta, assim”, diz a guia da expedição, Andrea Cardona, que já fez a trilha até o Everest 14 vezes nos últimos anos. Um comentário que eu ouvi de vários moradores locais, ao longo de um mês caminhando pelas trilhas montanhosas do Nepal.
A impressão geral entre os povos tradicionais das montanhas é de que o clima “enlouqueceu” de uns dez anos para cá. Os invernos não são mais tão frios como costumavam ser. A quantidade de neve diminuiu. A chuva não cai mais quando costumava cair. As plantas estão florescendo fora de época. E várias nascentes estão secando.
“Antes, na minha vila, a neve vinha até aqui. Agora, só vem até aqui”, afirma Bhujel, apontando primeiro para o seu joelho e depois, para o seu tornozelo. “Está tudo errado”, resume o colega Dorji Tamang, que trabalha com expedições na região há mais de dez anos. “Não dá para prever mais nada.”
No Parque Nacional de Langtang, ao norte de Katmandu, a história é bem semelhante. Tão semelhante que os moradores parecem ter combinado suas falas. “Quando a gente planta, não chove nada. E depois que a gente colhe, chove um montão”, relata Tensing Lama, da vila de Langtang, um enclave de agricultores e mochileiros espremido entre duas fileiras de picos nevados no centro do parque, a 3.500 metros de altitude.
O resultado prático é que as plantações de batata – item básico de sobrevivência na dieta das montanhas – não se desenvolvem. E os agricultores sofrem. “Está tudo ao contrário”, afirma Lama, confuso.
“Eles não sabem necessariamente associar o que está acontecendo ao aquecimento global. Mas basta você explicar que tudo se encaixa”, diz Roshan Sherchan, da organização WWF Nepal, que desenvolve projetos sociais de adaptação às mudanças climáticas na região.
A imprevisibilidade das chuvas se encaixa com perfeição nos modelos de mudança climática, que prevêem distorções temporais nos padrões de precipitação em todo o planeta. A quantidade de água que cai do céu pode continuar a mesma, mas a periodicidade com que ela cai deverá ficar mais concentrada e esporádica, produzindo mais tempestades e menos chuvas periódicas – do tipo que os plantadores de batata precisam.
Os ventos também têm dado sinais de “loucura” em Lantang. No último inverno, moradores relatam que um vento “forte e rodopiante”, parecido com um tornado, baixou sobre a vila, arrancando os telhados de várias casas. Piemba Cho Tine, de 35 anos, conta que foi sugada de dentro de sua residência e jogada a uns 20 metros de distância. Ela, felizmente, não se machucou, mas seu marido e seu filho mais novo, de 1 ano, não tiveram a mesma sorte. Ambos morreram esmagados, debaixo de uma cama, quando o vento derrubou uma parede de pedras sobre eles.
“Tinha muita neve descendo da montanha, com pedras e pedaços de coisas rodopiando pelo ar”, conta Piemba, que agora sobrevive das doações de turistas e da pequena plantação de batatas que cultiva com a ajuda de seus três filhos sobreviventes, de sete, oito e nove anos (foto acima). “Nunca vi uma coisa dessas.” Assim como muitos moradores mais simples das montanhas, sem acesso a televisão, rádio ou internet, Piemba nunca ouviu falar de aquecimento global. Mas acha muito estranho o que anda acontecendo com o clima ultimamente.
MENOS NEVE, MENOS GELO
A algumas horas de caminhada dali, na vila de Kianjin Gumba, as bordas das geleiras que descem do Langtang Lirung, o pico mais alto do parque (7.227 metros), recuam visivelmente montanha acima. Ao olhar para elas, pensei: “Quando voltar para Katmandu vou procurar um pesquisador que possa me explicar o que está acontecendo aqui”. Mas não foi preciso.
Tshering Lama, proprietária de uma das pousadas mais antigas da vila, me deu uma explicação tão boa e convincente quanto a de qualquer cientista. “Antes, nevava no inverno, quando a terra e o ar estão mais frios, então a neve acumulava e virava gelo. Agora, neva mais tarde, quando a terra e o ar já não estão tão frios, então a neve derrete mais rápido e não vira gelo. Por isso as geleiras estão encolhendo.”
O “normal”, segundo Tshering, era nevar em dezembro e janeiro. Agora, só neva em fevereiro e março. Diferenças pequenas no calendário, mas que podem ser desastrosas para as geleiras e para a agricultura tradicional das montanhas. “A capacidade de adaptação dessas comunidades é muito limitada”, diz o pesquisador Arun Shrestha, do Icimod. “Pequenas alterações podem trazer grandes impactos.”
Enquanto prepara uma sopa de macarrão e batatas para o almoço, Tshering (foto abaixo) aponta para a face rochosa do Lantang Lirung, preenchendo quase toda a vista da janela da cozinha, e comenta, sem ser perguntada: “Quando eu era menina, ela era toda branca, sempre. Não dava para ver nada dessas rochas pretas embaixo.” É como se ela e Andrea tivessem combinado suas falas.
Pode ser coincidência. Pode ser o aquecimento global.
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O que fazer com a energia nuclear?
Faz mais de uma semana que tento escrever algo sobre a tragédia que se abateu sobre o Japão, com extrema dificuldade. Terremotos e tsunamis são fenômenos bem conhecidos, imprevisíveis e inevitáveis, sobre os quais já escrevi outras vezes aqui no blog. Não há como evitá-los. Temos apenas de aceitar que eles vão acontecer de tempos em tempos e tentar nos preparar o melhor possível para seus efeitos, com sistemas de monitoramento e alerta mais eficientes, construções mais seguras, etc.
Já o debate desencadeado pelos danos causados às usinas nucleares de Fukushima é algo muito mais complexo. Porque podemos fazer alguma coisa sobre elas … Mas o quê? A energia atômica é a tecnologia mais elegante, poderosa e ao mesmo tempo assustadora já inventada pelo homem. Com uma quantidade relativamente pequena de combustível nuclear é possível produzir uma quantidade relativamente muito grande de energia. Um quilo de urânio enriquecido numa usina nuclear pode produzir a mesma quantidade de energia que várias toneladas de carvão mineral em uma usina termoelétrica, por exemplo.
Com a vantagem, em tempos de aquecimento global, de não produzir nenhuma emissão de carbono. Do ponto de vista da sustentabilidade climática, a energia nuclear é 100% limpa. Tudo que um reator nuclear faz é aquecer água para produzir vapor, que é usado para movimentar uma turbina, que produz eletricidade. Igual se faz numa termoelétrica movida a carvão ou óleo diesel, só que com muito mais eficiência e sem emissão de poluentes. No final, o vapor é condensado (transformado de volta ao estado líquido) e reenviado ao reator para ser reutilizado. É um ciclo fechado, sem contato com o ambiente externo.
Quando uma usina nuclear está funcionando normalmente e perfeitamente, portanto, é uma maravilha tecnológica. O problema é que, como dizem os americanos, “shit happens”. And always will happen! Pode ser por uma falha humana, por atentado terrorista ou por um terremoto seguido de tsunami … mas sempre acontece e sempre vai acontecer. E é aí que a grande preocupação sobre a energia atômica se torna evidente.
É difícil ocorrer um acidente numa usina nuclear, pois as normas de segurança são realmente rígidas e os sistemas de segurança, extremamente robustos. Mas quando algo dá errado, os efeitos podem ser desastrosos. Chernobyl foi o maior e mais horrível exemplo disso.
O mais assustador é pensar que estamos lidando com um “contaminante” invisível. A radioatividade. Algo que penetra nossas células e nos atinge naquilo que é a raiz da nossa existência: o nosso DNA. Que se espalha pelo ar, pelo solo e pela água, sem cheiro, sem cor e sem som.
Se você pudesse olhar dentro de um reator nuclear, veria um monte de varetas mergulhadas em uma piscina. Parece ser a coisa mais simples e inofensiva do mundo. Mas daquelas varetas emana a energia mais elementar e mais poderosa do universo: a força do átomo. As varetas são feitas de urânio, que é o elemento mais “pesado” da natureza, com 92 prótons em seu núcleo. (O hidrogênio, que é o elemento mais leve, tem apenas 1, e o ferro, 26.) O calor que faz ferver a água dentro do reator nuclear é gerado pela fissão, ou quebra, desses átomos de urânio. A reação é desencadeada atirando-se nêutrons nas varetas. Quando um nêutron atinge um átomo de urânio, o átomo se quebra em dois e libera energia na forma de calor. Também libera mais nêutrons que estavam dentro de seu próprio núcleo … esses nêutrons, então, atingem outros átomos de urânio na vareta, que também se quebram, liberando mais energia e ainda mais nêutrons, que atingem mais átomos de urânio e assim por diante, criando uma reação em cadeia.
Em cadeia, mas controlável … desde que tudo funcione bem e não apareça nenhum tsunami pela frente.
Sem a água do tanque e outras medidas de segurança para controlar o ritmo da reação e absorver a energia produzida por ela, a temperatura gerada pela fissão do urânio é tão alta que o núcleo pode derreter por completo, liberando quantidades imensas de radiação. Esse é o pior cenário possível.
É incrível (e assustador) a quantidade de energia que se pode tirar de um punhado de átomos.Imagine só!
Mas, se pensarmos bem, é a força mais elementar do universo. E nossas vidas dependem dela. O Sol, sem o qual a maior parte da vida na Terra não existiria, nada mais é do que uma bola de gás que funciona como um reator nuclear. Só que em vez de quebrar átomos, ele os une, pela força da gravidade. Átomos de hidrogênio são fundidos no núcleo solar para formar átomos de hélio, e é isso, simplesmente, que faz o Sol brilhar no horizonte e nos aquecer todas as manhãs. (E, apesar de parecer uma bola de fogo, não há chamas no Sol, assim como não há chamas dentro de um reator nuclear … é energia pura.)
Para dar outro exemplo assustador, a bomba atômica que destruiu Nagasaki em 1945, colocando fim à Segunda Guerra Mundial, tinha um núcleo de apenas 4 kg de plutônio. E esses 4 kg de plutônio foram suficientes para devastar uma cidade inteira. A energia produzida pela explosão foi equivalente à de 14 mil toneladas de dinamite. Imagine só, tanta energia, num espaço tão pequeno.
A força do átomo comanda respeito.
A pergunta que não quer calar é: Diante de uma força tão poderosa e potencialmente destrutiva, o que devemos fazer? Nos esforçar para controlá-la e usá-la a nosso favor, ou melhor não correr riscos e deixá-la de lado?
Cerca de 14% da energia que abastece o mundo hoje é produzido em usinas nucleares. É uma fatia considerável, da qual muitos países – entre eles, o Japão – não podem abrir mão da noite para o dia. Ou talvez jamais. Num mundo ideal, claro, o ideal seria que toda a energia do planeta fosse produzida de forma 100% limpa, sustentável e pacífica. Nada melhor do que energia solar ou eólica, que não produz resíduos, não explode, não derrete nem contamina ninguém. Mas a eficiência energética dessas tecnologias, infelizmente, ainda precisa melhorar muito para ser economicamente competitiva com outras fontes. (O que não significa que devemos ignorá-las, mas o contrário: investir e pesquisar cada vez mais para que elas se tornem competitivas no futuro.)
No caso do Japão há um outro complicador: a falta de espaço. Seria logisticamente impossível num país pequeno, superpovoado e superindustrializado como o Japão substituir a produção de energia nuclear por solar ou eólica. Então, só resta uma alternativa no momento aos japoneses: trocar as usinas nucleares por usinas termoelétricas, movidas a combustíveis fósseis. O que aumentaria significativamente as emissão de carbono do país (que já está entre as mais altas do mundo).
Então, o que é mais perigoso: Gerenciar os riscos da energia nuclear, ou contribuir para o aquecimento global?
O ponto final é precisamos de alternativas energéticas limpas e seguras o quanto antes.
Abraços a todos.
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Tenho acompanhado com muita tristeza, à distância, pela internet, o desenrolar das tragédias na região serrana do Rio.
É ao mesmo tempo impressionante e aterrorizante perceber como algo tão elementar e necessário à nossa sobrevivência como a água pode se transformar rapidamente em uma arma de destruição em massa da natureza. Afinal de contas, se pensarmos bem, não aconteceu nada muito extraordinário do ponto de vista climático no Rio … simplesmente choveu. Muito! Mas só isso. Caiu água do céu, como sempre cai.
Não digo isso para banalizar nem minimizar o que aconteceu, claro, mas para chamar a atenção para a seriedade e a gravidade das mudanças climáticas. A tragédia do Rio escancara, de maneira extremamente dolorosa, como pequenas alterações nos padrões climático podem ter consequências desastrosas para o homem, especialmente em ambientes urbanos. Não precisa furacão, não precisa tornado. O mar não precisa virar sertão nem o sertão virar mar. Basta chover mais do que o normal por alguns dias e os problemas já começam a aparecer. As pessoas já começam a morrer.
Não estou dizendo que as chuvas na região serrana do Rio foram “causadas” pelo aquecimento global. Nem vou entrar nessa discussão agora, pois, como já escrevi outras vezes neste blog, não há como atribuir um único evento regional e pontual a uma alteração lenta e gradual que ocorre em escala global. Mas o que posso dizer com um alto grau de confiança (com base em dados científicos) é que eventos como esse tendem a se tornar cada vez mais frequentes daqui pra frente.
Os modelos de previsão indicam que, com a atmosfera mais quente, o clima se tornará “mais extremo” em comparação com o que estamos acostumados. Com relação à chuva no Sudeste brasileiro, especificamente, a previsão é que as precipitações se tornem mais concentradas no tempo e no espaço. Ou seja: em vez de chover X milímetros em 30 dias, vai chover X milímetros em 3 dias. No fim do ano, ou no fim do mês, a quantidade de água que caiu do céu (X milímetros) pode até ser a mesma de antigamente. Mas a velocidade e a distribuição com que ela cai fazem toda a diferença.
Na cidade, o resultado pode ser tragédias como os deslizamentos do Rio ou as enchentes de São Paulo, que fazem travar a maior e a mais rica cidade do País. No campo, o resultado pode ser lavouras inteiras perdidas. As práticas agrícolas são baseadas em um rigoroso calendário de distribuição de chuvas. Se a chuva chega antes ou depois do previsto, ou se chove demais (ou de menos) de uma vez só, vai tudo por água abaixo. (Se você tiver uma planta em casa, faça o seguinte experimento: em vez de regá-la 3 vezes por semana, regue 1 vez só, com o triplo da quantidade de água e veja o que acontece no fim do mês.)
É triste também ver o despreparo e a falta de estrutura das autoridades para lidar com esse tipo de emergência. Chegou a hora de parar de pensar nas mudanças climáticas como um problema do futuro e começar a se preparar agora para os seus efeitos do presente. Porque com ou sem Protocolo de Kyoto, eles virão. Temos de evitar que as mudanças climáticas se tornem piores no futuro mais distante, reduzindo as emissões globais de gás carbônico, mas também temos de nos preparar para as mudanças que já estão em curso e que são inevitáveis para o futuro mais próximo. Por exemplo, retirando as pessoas que vivem em áreas de risco nas cidades e adaptando nossa agricultura aos novos padrões climáticos o mais rápido possível.
A natureza já nos deu alertas suficientes. Vamos ouvi-la.
O aquecimento global é coisa séria. Não é apenas um incômodo, que vai ser resolvido com um filtro solar a mais ou um ar-condicionado mais eficiente. O clima mata. Chuva mata. Calor mata. Pra valer.
Abraços a todos e minha solidariedade às vítimas do Rio.

FOTO: James Balog/National Geographic — Água de degelo esculpiu um cânion de 45 metros de profundidade na Groenlândia.
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Uma notícia já um pouco fria (divulgada no início do mês), mas que pode estar relacionada ao problema do branqueamento dos corais que abordei dois posts atrás: o ano de 2010 deverá ser um dos 3 mais quentes dos últimos 160 anos, desde que as medições instrumentais de temperatura começaram a ser feitas. Talvez o mais quente já registrado … dependendo de como os termômetros se comportarem até o fim deste mês. A análise final deverá ser publicada no início de 2011 pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO). Mais informações neste link.
Abraços a todos.
A calota de gelo do Ártico (popularmente chamado de “pólo norte”, apesar de essa definição não ser exatamente correta — o pólo é um ponto geográfico específico e não uma região) atingiu a terceira menor extensão já registrada nas últimas décadas, desde que a regiõ começou a ser monitorada via imagens de satélite, segundo um boletim publicado pelo National Snow and Ice Data Center, dos EUA.
A marca foi registrada em 19 de setembro, mês que marca o fim da temporada de degelo no Ártico. A calota de gelo encolheu até ficar com míseros 4,9 milhões de km² (não muito mais do que metade do território brasileiro), 2,1 milhões de km²abaixo da média histórica de 1979 a 2000. Isso foi suficiente para abrir temporariamente duas cobiçadas rotas de navegação que normalmente ficam bloqueadas pelo gelo: a Passagem Noroeste, ligando os Oceanos Atlântico e Pacífico por cima da América do Norte, e a Rota do Mar do Norte, ligando a Europa e a Ásia, contornando a costa da Rússia.
Mas a alegria dos navegadores e o terror dos climatologistas durou pouco … Já no início de outubro a extensão do gelo tinha aumentado para 5,4 milhões de km². Ainda assim, fica o alerta de que a cobertura média de gelo em setembro tem encolhido 11,5% por década.
No vídeo acima, é possível ver uma simulação de como a cobertura de gelo do Ártico varia durante o ano. Ele mostra o que aconteceu em 2009, que era o terceiro recorde mínimo … até agora. Um novo vídeo (ainda não disponível no YouTube) com a simulação de 2010 pode ser visto neste link.
Abraços a todos.

FOTO: Reuters/DigitalGlobe
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Muita gente duvida que o ser humano seja capaz de alterar o clima da Terra com suas emissões de gás carbônico. Será mesmo?
Agora há pouco estava pesquisando algumas informações sobre o vazamento de óleo da BP no Golfo do México, para uma reportagem, e dei de cara com essa foto aí de cima … Impressionante!!! É uma imagem de satélite, feita pouco após a explosão da plataforma, e sobre a qual foram aplicados alguns filtros para realçar a visibilidade do óleo e dos materiais dispersantes jogados na água para desfazer a mancha.
Aquele pontinho de fumaça no meio é a plataforma, obviamente. E repare como ela é pequena comparada ao tamanho da mancha (que, no fim das contas, ficou MUITO MUITO maior do que isso, com milhares de km2 de extensão). Repare como um “furinho” feito no leito do oceano pelo homem pode impactar uma área tão gigantesca, matando milhares de animais e contaminando uma enorme variedade de ecossistemas.
Nós somos pequenos. Mas nosso impacto sobre o planeta é ENORME.
Alguns anos atrás, o cientista holandês Paul Crutzen (prêmio Nobel de química em 1995) propôs que o impacto do homem sobre o planeta é tão significativo que os últimos dois ou três séculos deveriam ser considerados o início de uma nova época geológica, chamada Antropoceno.
Infelizmente, essa honra parece ser mais do que merecida. Imagine só!
Abraços a todos.

AP Photo/Kevin Frayer
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O clima não anda muito agradável no planeta Terra ultimamente. Calor extremo na Rússia. Inundações catastróficas no Paquistão. Chuvas intensas também na China. Seca severa em várias regiões da África Subsaariana. E uma secura danada aqui no interior do Brasil também.
Culpa do aquecimento global? Talvez …
Como sempre, não há como estabelecer uma relação direta entre um evento climático específico e as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global de uma forma geral. Isso porque o clima tem uma variabilidade natural, e as mudanças só podem ser vistas na forma de tendências (frequência da ocorrência de determinados eventos ao longo do tempo), e não de eventos isolados. Em outras palavras: uma onda de calor sozinha é perfeitamente natural; duas ou três ondas de calor seguidas em um curto espaço de tempo não é tão natural assim.
A Organização Mundial de Meteorologia emitiu um comunicado na semana passada sobre essas tragédias climáticas, com o seguinte alerta: “Extremos climáticos sempre existiram, mas todos os eventos citados acima (seca na Rússia e inundações no Paquistão, principalmente) são comparáveis ou excedem em intensidade, duração e extensão geográfica os maiores eventos históricos registrados.”
Há vários indícios de que esses extremos climáticos ocorridos nos últimos anos não são apenas eventos isolados, mas parte de uma tendência de mudança climática global – ainda que isso não possa ser provado cientificamente, por enquanto, pois mesmo 5 ou 10 anos é um período muito curto para esse tipo de avaliação. Em outras palavras: Há vários indícios de que as mudanças climáticas não são um problema a ser evitado no futuro, mas um problema a ser enfrentado agora, no presente, imediatamente.
Mesmo que esses eventos não sejam relacionados ao aquecimento global (e é perfeitamente possível que não sejam), eles no mínimo servem como um doloroso exemplo de como as mudanças climáticas podem ser uma arma incontrolável de destruição em massa.
Para muitos tomadores de decisão, que respiram ar-condicionado quase 24 horas por dia, fechados dentro de seus veículos e seus escritórios, e que nunca passaram fome nem sede na vida, pode ser fácil ignorar o aquecimento global. Os cientistas dizem que a temperatura do planeta vai subir alguns graus nas próximas décadas, se não pararmos de lançar gás carbônico na atmosfera … e daí? Vai chover um pouco mais ali, secar um pouco mais acolá, talvez algumas plantações sejam perdidas, algumas cidades inundadas … mas e daí? Uma chuvinha e um calorzinho a mais não pode ser tão ruim assim … ou pode?
Pergunte a essa família ilhada pelas águas no Paquistão (foto acima) se ela está preocupada.
Abraços a todos.

2005 foi mesmo um ano difícil para a Amazônia.
Não bastasse a seca recorde que assolou a região, um estudo divulgado hoje revela que uma sequência de supertempestades tropicais que avançou sobre a floresta bem no comecinho do ano (entre 16 e 18 de janeiro) deixou nada menos do que meio bilhão de árvores mortas pelo caminho. A tempestade tinha 200 km de largura e 1.000 km de “comprimento”. Imagine só!
O estudo, divulgado pela American Geophysical Union (AGU), é assinado por vários cientistas brasileiros e americanos. Eles combinaram imagens de satélite e observações de campo em um modelo matemático que permitiu estimar o número de árvores derrubadas pela tempestade em toda a Bacia Amazônica. A contagem final ficou entre 441 e 663 milhões.
A tempestade não é “culpa do homem”, claro, e pode ser vista como um fator natural de pressão e até renovação da floresta. Os pesquisadores chamam a atenção, porém, para o fato de que o aquecimento global poderá tornar eventos extremos como esses (tanto tempestades quanto secas) mais frequentes … talvez superando a capacidade da floresta de assimilar esse tipo de pancadaria climática. A Amazônia é forte, mas não é imbatível!
O trabalho já foi aceito para publicação na revista Geophysical Research Letters e os autores brasileiros são do INPA e da Unesp, com colegas da Universidade Tulane, Universidade de Windsorm e do Caltech.
Na imagem acima, é possível ver (dois anos depois) clareiras abertas na mata pela tempestade.
Abraços a todos.
2012
2011
2010
2009