Sabe aquela história de que as mulheres já nascem com um número “fixo” de óvulos em seus ovários? (ou, mais especificamente, de ovócitos, as células que amadurecem ao longo da vida para formar os óvulos que são liberados mensalmente no período fértil) Pois então … isso não é exatamente verdade. Vários trabalhos publicados nos últimos anos indicam que as mulheres são capazes, sim, de produzir novos óvulos ao longo da vida. Não com a mesma agilidade dos homens, que produzem espermatozoides continuamente até o fim da vida … mas, ainda assim, o potencial existe e poderá, quem sabe, ser explorado pela medicina.
Em um estudo publicado esta semana na revista Nature Medicine, cientistas confirmam a existência de células-tronco ovarianas, que podem ser cultivadas in vitro para gerar óvulos “frescos”. Em camundongos, esses óvulos já foram transplantados para o útero de fêmeas reprodutoras, que foram fertilizadas e produziram filhotes saudáveis — comprovação de que os óvulos são férteis. O mesmo experimento não pôde ser feito até o fim com seres humanos, por uma combinação de questões éticas e técnicas, mas tudo indica que as células-tronco germinativas humanas existem e são, sim, tão viáveis para fins reprodutivos quanto as dos camundongos.
Não está claro ainda até que ponto essas células-tronco são ativas, no sentido de produzir novos óvulos ao longo da vida das mulheres. Elas são raras, e talvez permaneçam “dormentes” a maior parte do tempo nos ovários. O simples fato de elas existirem, porém, abre uma série de possibilidades para o estudo e o tratamento da infertilidade feminina.
“Além de abrir um novo campo de pesquisa sobre biologia reprodutiva humana, que era impensável menos de dez anos atrás, a existência dessas células em mulheres pode oferecer novas oportunidades para expandir ou melhorar as atuais estratégias de preservação da fertilidade”, escrevem os pesquisadores no artigo da Nature Medicine, coordenados por Jonathan Tilly, da Faculdade de Medicina de Harvard.
A Corte Europeia de Justiça tomou uma decisão esta semana que eu simplesmente não consigo compreender: proibiu o patenteamento de invenções baseadas no uso de células-tronco embrionárias humanas (CTEs). Ou seja: cientistas que desenvolverem novos protocolos e novas tecnologias para a transformação de células-tronco em neurônios, células cardíacas, células produtoras de insulina, ou qualquer outra célula que tenha aplicação prática em pesquisa ou tratamento não terão o direito de patentear suas descobertas. Podem pesquisar, sem problemas. Podem receber dinheiro público para pesquisar, sem problemas. Podem publicar suas descobertas, sem problemas. Mas não têm direito a propriedade intelectual nem podem ganhar nenhum dinheiro com elas. Têm de entregar tudo de mão beijada em domínio público, para o bem da humanidade, e passar bem, obrigado. Se cientistas de outros países quiserem copiar a invenção e patenteá-las em seus respectivos países, paciência, sinto muito.
A decisão me parece incoerente por vários motivos. Em primeiro lugar, porque não me parece lógico tornar ilegal o patenteamento de produtos que foram desenvolvidos legalmente. Se é permitido fazer pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, e até receber financiamento público para isso, como é que pode ser proibido patentear os resultados derivados dessa mesma pesquisa? Simplesmente não faz sentido. A decisão da Corte é baseada num julgamento moral de que as pesquisas com CTEs ferem a dignidade humana, por implicarem na destruição de embriões humanos. Ok, essa é uma opinião de muitos, especialmente dentro da Igreja Católica, com a qual pode-se ou não concordar. Mas se a Corte considera indigno tirar células de um embrião humano, então é isso que deveria ser proibido para começo de conversa, e não o patenteamento! (Proibir as pesquisas seria muito pior, mas pelo menos teria uma lógica por trás.)
Se bem que, na prática, proibir patentes é quase como proibir pesquisas. O resultado disso é que nenhum cientista mais na Europa vai se empenhar para desenvolver tecnologias (incluindo possíveis tratamentos) com base em células-tronco embrionárias humanas. Pesquisas básicas, até vá lá. Mas pesquisas aplicadas, acho difícil. A ideia de que a ciência é um bem da humanidade, e que portanto os cientistas deveriam fazer suas pesquisas e entregar suas descobertas de graça ao mundo, como frades franciscanos, é muito nobre em teoria. Na prática, porém, não passa de um sonho. Fazer pesquisa custa dinheiro. Desenvolver tecnologia custa dinheiro. Transformar essa tecnologia em produto custa dinheiro. Produzir esses produto em escala industrial e colocá-lo no mercado custa dinheiro. No caso de novos medicamentos e novos tratamentos, especialmente, custa MUITO tempo e MUITO. Quem vai pagar por isso?
Se quisermos novas drogas e novas curas, temos de aceitar que isso não virá de graça. Mesmo se a pesquisa que deu origem à descoberta tenha sido feita 100% numa instituição pública, com dinheiro 100% público, alguém vai ter de produzir essa descoberta e colocá-la no mercado. E não é a universidade que vai fazer isso. É uma empresa! Ao proibir os cientistas de patentear suas descobertas, a Corte europeia está, na verdade, beneficiando a indústria privada, que poderá se apropriar do conhecimento produzido pelos cientistas de graça, sem pagar royalties nem a eles nem a suas instituições (um retorno que seria garantido por meio das patentes). Mais uma vez, não faz sentido. Os cientistas não vão continuar a pesquisar de graça. Eles vão parar de pesquisar. Ou vão mudar de continente.
Seria o mesmo que eu dizer o seguinte: que a partir de hoje vou pedir demissão do Estadão, mas vou continuar a trabalhar como jornalista por conta própria, produzindo matérias de graça, pelo bem da humanidade (porque, afinal, a informação é essencial à democracia e à liberdade, e portanto deveria ser gratuita). Também abro mão dos direitos autorais de todas as minhas reportagens — quem quiser copiar e reproduzir pode fazê-lo à vontade, não precisa me dar crédito nem pagar nada. Não só isso, mas o Estadão se transformará numa entidade filantrópica e continuará a produzir o jornal e distribuí-lo diariamente de graça, pelo bem da humanidade. Um gesto muito nobre em teoria. Mas totalmente irrealista na prática. Eu amo meu trabalho, me orgulho do que faço e tenho plena consciência da importância do jornalismo para a sociedade, mas eu ainda preciso ir ao supermercado e pagar as contas no fim do mês. Sinto muito. O mesmo vale para os cientistas.
Poderia-se pensar talvez em algumas exceções. Por exemplo: o Instituto Butantan, que é uma instituição pública do Estado de São Paulo, desenvolve uma vacina. Ou a Fiocruz faz o mesmo no Rio de Janeiro. Ou a Embrapa desenvolve uma nova cultivar de soja, ou de feijão. Esses produtos chegarão ao mercado por um preço muito abaixo do que se fossem produtos de uma empresa privada, mas não serão de graça. E podem ter certeza de que serão muito bem protegidos por patentes, e quem quiser produzí-los fora do País terão de pagar royalties. A não ser que a sociedade brasileira esteja disposta a pagar impostos para desenvolver tecnologia de graça para os outros.
Patentear e cobrar royalties por descobertas não é bom apenas para os cientistas que as fizeram, é bom para toda a sociedade que se beneficia delas.
Abraços a todos.
…..
A notícia sobre a decisão da Corte pode ser lida aqui: Corte da UE veta patente de células-tronco com embrião destruído
Informações mais detalhadas, incluindo um histórico do caso e repercussão com cientistas da Europa, podem ser obtidas aqui (em inglês): European Court bans stem cell patents
Todos esses assuntos que surgiram no noticiário recentemente têm uma pergunta em comum por trás deles: Quando começa a vida?
Ou melhor: Quando começa o indivíduo?
A ciência oferece uma série de informações relevantes para esse debate, mas não uma resposta definitiva.
Do ponto de vista puramente biológico, não há dúvida: A vida começa na fertilização, quando o espermatozóide e o óvulo (que, por si só, já são células vivas) se fundem para formar um embrião. Esse embrião primordial de uma única célula, chamado zigoto, então, começa a se dividir em 2, depois 4, depois 8, depois 16 células e assim por diante, até chegar aos trilhões … e essas células começam a se organizar e se diferenciar em diferentes tecidos, até formar um ser humano completo, com olhos, braços, pernas, coração, pulmões, rins e assim por diante. Tudo bem bonitinho, no seu devido lugar. Imagine só!
O período da primeira à oitava semana de gestação é o chamado “estágio embrionário”. O sistema nervoso do embrião começa a se formar na terceira semana, com a formação do tubo neural (que eventualmente se transformará na medula espinhal e no cérebro). Na semana seguinte começam a se formar os primeiros órgãos, no processo chamado de organogênese. Lá pelo dia 22, um aglomerado de células cardíacas começa a pulsar, formando um coração primitivo.
Só a partir da nona semana, ou do terceiro mês, é que o embrião (medindo ainda apenas alguns centímetros) passa a ser chamado de feto. Desse ponto em diante, todos os órgãos vitais já estão presentes de alguma forma, ainda que muito primitiva, e o desenvolvimento passa a ser focado mais em crescimento do que em formação de novas estruturas.
Então não há dúvida: o embrião, desde a sua primeira célula, é uma forma de vida … é um ser humano em formação. Mas em que ponto, exatamente, essa forma de vida pode ser considerada um indivíduo propriamente dito? Uma entidade própria, individual, com direitos individuais? Desde a concepção? A partir da formação do cérebro? Quando o coraçãozinho primitivo começa a pulsar?
São perguntas de enorme complexidade ética e moral. Do ponto de vista das células-tronco embrionárias, a questão é um tanto mais simples, pelo fato de os embriões terem sido produzidos em laboratório e estarem fora do útero. Algo que só se tornou possível 32 anos atrás, quando Robert Edwards desenvolveu a técnica de fertilização in vitro (FIV) – feito pelo qual recebeu o prêmio Nobel de Medicina na semana passada. Merecidamente.
Nesse caso, a pergunta principal é: Destruir um embrião microscópico de 100 células, que foi produzido in vitro e está congelado numa clínica de fertilidade, é o mesmo que matar um ser humano adulto? Ou mesmo um feto? Muita gente pensa que sim … Mas já abordei isso num post anterior, então não vou repetir a discussão aqui.
A discussão sobre o aborto é baseada nos mesmos conceitos, porém num contexto infinitamente mais complicado. E esse conceito é o útero. O embrião (ou feto, dependendo do tempo de gestação) não está congelado num botijão de nitrogênio líquido de uma clínica de reprodução assistida. Ele está dentro do útero, a caminho de se tornar um ser humano – ainda que a gestação não tenha sido planejada. Então é vida. Mas é indivíduo?
Como já disse no início deste post, acho que não há resposta científica para isso. Porque a definição de indivíduo não é científica. Biologicamente, a única distinção que poderia fazer algum sentido, acho, seria com relação à capacidade do embrião ou feto de sobreviver fora do útero. Se o embrião é incapaz de sobreviver fora do útero, então ele pode ser considerado ainda parte da mãe, indissociável dela. Só a partir do momento em que ele pode sobreviver por conta própria, então, ele se tornaria um indivíduo próprio, dissociado dela – o que seria por volta do quinto mês de gestação.
Nesse cenário, a pergunta do ponto de vista jurídico e moral passa a ser: Em que ponto o direito do embrião de nascer supera o direito da mãe de não querer que ele nasça? Em casos de estupro, por exemplo, decidiu-se que a vontade da mãe deve prevalecer sobre a do feto. Por isso ela tem o direito de abortar.
A legalização do aborto seria, essencialmente, uma extensão desse direito da mãe para outras situações além do estupro e do risco de morte para a gestante (as únicas duas situações permitidas por lei atualmente). O problema é: qual deve ser o novo limite? Até que ponto da gestação a mulher deve ter o direito de escolher se deseja ou não concluir aquela gestação?
Um possível divisor de águas seria este citado acima, referente à capacidade do embrião ou feto de sobreviver fora do útero. Enquanto ele é “parte da mãe”, a mãe teria o direito de decidir se deseja dar prosseguimento à gestação ou não. Me incomoda a ideia de o Estado ditar regras sobre o que a mulher pode ou não fazer com algo que está crescendo dentro do seu corpo, originado de seus próprios genes e suas próprias células.
Mas cinco meses, talvez, seja tempo demais. Um limite mais plausível, talvez, fosse três meses, que é o período crítico natural de qualquer gestação. Muitos abortos espontâneos ocorrem nas primeiras 12 semanas. Às vezes tão cedo que a mulher nem sabe que estava grávida. Nesse período, o corpo faz um “check-up” do embrião/feto e, caso haja alguma falha grave de desenvolvimento, a gestação é automaticamente abortada.
Então, talvez, fosse razoável usar esse divisor de águas biológico como um divisor de águas ético também, dentro do qual a mãe poderia decidir sobre o destino da gestação. E não apenas quando ela for uma vítima de estupro ou tiver sua vida ameaçada. Mas em qualquer situação.
Na maioria dos países onde o aborto é permitido, esse é o limite adotado.
Há muitas opiniões conflitantes (e igualmente válidas) sobre esse assunto. E as mulheres não vão parar de abortar só porque é proibido. É uma realidade social. Então me parece necessário achar uma solução intermediária, em que todos possam ter suas crenças e suas opiniões respeitadas. Quem é contra o aborto nunca fará um aborto, obviamente. Mas quem é a favor poderia ter esse direito assegurado, dentro de determinados limites.
Apenas uma reflexão.
Abraços a todos.
Esse vídeo mostra os estágios de desenvolvimento embrionário e fetal. Eu, você, sua mãe e todos os outros seres humanos do planeta passaram por isso.
Foto: ROBSON FERNANDJES/AE – Pesquisador observa células-tronco no microscópio.
.
A Sociedade Internacional para Pesquisas com Células-Tronco (ISSCR, em inglês) lançou no início de junho um site de informações especificamente voltado para tirar dúvidas de pacientes interessados em se submeter a terapias com células-tronco (A Closer Look at Stem Cell Therapies). O site, aparentemente, foi um sucesso, refletindo o enorme interesse e esperança que as pessoas têm com relação a essas terapias (quase todas elas, por enquanto, experimentais). Segundo um comunicado enviado ontem pela ISSCR a seus associados, o site recebeu mais de 67 mil visitantes nos últimos 3 meses. E o país de origem com o segundo mais número de visitantes foi o Brasil, atrás dos Estados Unidos e à frente da Grã-Bretanha.
A grande procura de brasileiros por essas informações não é uma surpresa. Pesquisadores de referência nessa área no País recebem e-mails quase que diariamente de pacientes e parentes de pacientes pedindo informações sobre tratamentos experimentais com células-tronco. Especialmente quando sai alguma notícia na imprensa sobre pessoas que dizem ter se curado com elas! A internet está cheia de sites de clínicas e hospitais na China e em outros países que oferecem terapias com células-tronco, e que relatam resultados fantásticos dessas terapias. Portanto é mais do que compreensível que as pessoas fiquem esperançosas e corram atrás desses tratamentos, por mais experimentais (ou até arriscados) que sejam. Não faltam exemplos de famílias que chegaram a vender tudo o que tinham para viajar para a China e receber injeções de células-tronco.
Eu mesmo, que não sou médico nem cientista, mas já escrevi várias matérias sobre esse assunto no Estadão, frequentemente recebo e-mails e consultas de pacientes me perguntando se esses tratamentos são verdadeiros e se são seguros. O caso mais recente foi o do Edival, de uma família humilde de Fortaleza, que estava numa dúvida desesperadora se deveria levar seu irmão (portador de esclerose lateral amiotrófica em estágio avançado) para receber injeções de células-tronco numa clínica da Alemanha, por US$ 7.500 cada. Ele sabia que a técnica não era comprovada, que não havia nenhuma garantia de resultados, e tinha medo de que se irmão, já muito fragilizado pela doença, não sobrevivesse à viagem (detalhe: era inverno na Alemanha) … mas, se não fosse, tinha medo da culpa que carregaria pelo resto da vida por não ter tentado. Em respeito à sua privacidade, não vou entrar nos detalhes, mas posso dizer que ele foi, que o irmão sofreu muito, e que não melhorou absolutamente nada.
O site da clínica alemã, assim como todos os outros que oferecem essas terapias, porém, está cheio de relatos de pacientes que dizem ter se beneficiado das células-tronco. Pode até ser. Mas há muitas ressalvas que precisam ser feitas antes que se possa aceitar esses relatos como prova de alguma coisa. E é esse, justamente, um dos objetivos principais do site da ISSCR — que tem uma versão traduzida para o português no site da Rede Nacional de Terapia Celular.
Uma dessas ressalvas — a número 4 numa lista de 10 — remete a um dos assuntos mais polêmicos que já abordei neste blog. O efeito placebo. Vou resumir apenas o título do que diz a ISSCR: “Só porque as pessoas dizem que as células-tronco as ajudaram, não significa que ajudaram de fato.” O problema é o mesmo da homeopatia: sem um estudo controlado comparativo, não há como saber 1) se houve alguma melhora clínica de fato, ou 2) se essa eventual melhora foi efeito das células-tronco, ou se foi efeito das terapias complementares (tipo acupuntura e fisioterapia, que são administradas junto com as células), ou se a pessoa teria melhorado de qualquer maneira, naturalmente, independentemente de qualquer tratamento. Se as pessoas já se sentem melhor com uma pílula de farinha, imagine com uma injeção de células-tronco! O efeito placebo pode ser fortíssimo numa situação dessas.
Enfim … vou resumir o que dizem os especialistas da seguinte forma: A única terapia com células-tronco testada e aprovada cientificamente e clinicamente até agora é o transplante de medula óssea, para o tratamento de doenças do sangue. Há muitas outras terapias promissoras sendo pesquisadas por aí, algumas em animais, outras já em seres humanos, mas são todas experimentais. E terapias experimentais não podem ser cobradas. Portanto, se alguém te cobrar para fazer qualquer coisa com células-tronco que não seja um transplante de medula óssea, não aceite e não faça. Ou faça, mas tenha consciência de que 1) não é um tratamento comprovado; 2) não há garantia nenhuma de resultados; e 3) há risco de efeitos colaterais, potencialmente sérios.
Claro que uma pessoa que está presa a uma cadeira de rodas ou sofre de uma doença terminal vai tentar tudo que for possível para se curar, por menores que sejam as chances ou maiores que sejam os riscos. Não há como condenar isso. Mas vender falsas esperanças e fazer com que famílias vendam tudo o que têm para pagar um tratamento “made in China” (ou mesmo “in Germany”) que não vai trazer benefício nenhum é condenável em qualquer lugar do mundo.
Abraços a todos.

.
Na semana passada o FDA autorizou – aparentemente em definitivo – o início do primeiro experimento clínico envolvendo o uso de células-tronco embrionárias em seres humanos. Nos próximos meses, a empresa de biotecnologia Geron, da Califórnia, selecionará cerca de 10 pacientes, vítimas de lesões medulares, para receber injeções de “células progenitoras de oligodendrócitos”.
Os oligodendrócitos são células que se enrolam como uma capa isolante em volta dos nervos, formando as chamadas “bainhas de mielina”, necessárias para a transmissão de sinais elétricos ao longo do sistema nervoso. Em muitos casos de lesão medular, esse “encapamento” de mielina se desintegra, causando paralisia, mesmo que os nervos propriamente ditos não tenham sido danificados.
A estratégia da Geron, portanto, foi usar células-tronco embrionárias (CTEs) para produzir células progenitoras de oligodendrócitos (CPOs) in vitro, com a esperança de que, uma vez injetadas no local da lesão, essas CPOs “amadureçam” e se transformem em oligodendrócitos de fato, capazes de “reencapar” os nervos afetados e recuperar, ao menos parcialmente, as capacidades motoras dos pacientes. (Veja um vídeo produzido pela empresa aqui, mostrando como a técnica foi testada em ratos.)
Para entender como isso é possível – e porque esse experimento já causou e certamente ainda vai causar muita polêmica –, é preciso entender o que são, exatamente, as células-tronco embrionárias (CTEs) – e porque elas causam tanta polêmica.
Pois bem … as células-tronco embrionárias são as células primordiais que se diferenciam dentro de um embrião para dar origem a todos os tecidos do organismo adulto. Elas são formadas cerca de cinco dias após a fusão do espermatozóide com o óvulo (fertilização), num estágio em que o embrião é chamado de blastocisto.
A foto acima é de um blastocisto humano. As células-tronco são aquela massinha de células dentro do embrião. São elas que vão formar todo o organismo do futuro bebê, enquanto que as células da “casca” darão origem à placenta e outros tecidos de suporte à gestação. Note que não há bracinhos, nem perninhas, nem cabeça, muito menos coração ou cérebro nesse estágio. É apenas uma bolinha microscópica de células.
Nesse estágio, as células-tronco ainda estão completamente indiferenciadas. Uma boa analogia para entender isso é pensar nelas como cartas curingas dentro de um baralho. A carta curinga é indiferenciada – ou seja, pode se transformar em qualquer carta que você quiser – enquanto que as outras cartas do baralho são diferenciadas – um ás de paus é um ás de paus, e não há como mudar isso.
Maravilha! Mas tem um probleminha: as células-tronco não gostam muito de ser controladas. Prezam pela espontaneidade. Você coloca elas na posição de um 5 de copas e, de repente, elas viram um 8 de espadas. E você não quer isso acontecendo no seu jogo, muito menos dentro do seu organismo.
O que os cientistas da Geron fizeram, portanto, foi desenvolver um protocolo de cultura celular (uma fórmula, digamos assim) que induz as CTEs a se diferenciar especificamente em CPOs, e não em qualquer outro tipo de célula. As células que serão injetadas nos pacientes, portanto, não serão células-tronco embrionárias propriamente ditas (o que seria extremamente arriscado, pois não haveria como controlar a diferenciação delas dentro do organismo), mas células semidiferenciadas, já “marcadas” para se transformar em oligodendrócitos, especificamente.
A semente da discórdia
A grande polêmica em torno disso tudo é que, para obter as células-tronco embrionárias, é preciso destruir um embrião. E muitas pessoas consideram isso eticamente inaceitável. Algo equivalente ao aborto.
Não há dúvida de que as células-tronco embrionárias têm o potencial de gerar um ser humano (como acabei de explicar). Do ponto de vista ético, porém, é importante ressaltar que os embriões usados em pesquisa são embriões produzidos por fertilização in vitro, em clínicas de fertilidade, e descartados pelos seus genitores. Eles não foram gerados dentro de um útero, muito menos retirados de dentro de um útero. Foram gerados manualmente por um técnico de laboratório, que injetou um espermatozóide dentro de um óvulo com um seringa, olhando por um microscópio.
Do ponto de vista biológico, portanto, as células são idênticas. Mas e do ponto de vista ético, também? Em outras palavras: Um blastocisto gerado in vitro no laboratório tem os mesmos direitos que um blastocisto gerado in vivo no útero? Destruir um blastocisto produzido in vitro para extrair células-tronco equivale moralmente a matar um ser humano?
Torço para que o experimento da Geron dê certo. Mas a resposta a essas perguntas independe disso.
Abraços a todos.
DICA: Neste link dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos é possível ver um vídeo de um embrião humano se desenvolvendo in vitro desde a fertilização até o estágio de blastocisto. É um pouco longo, mas assista até o fim que vale a pena. Dá para ver claramente as células de multiplicando e se organizando dentro do embrião.

Gostaria de reproduzir abaixo um email que recebi do Felipe Ramos, um jovem brasileiro que está passando por um tratamento experimental com células-tronco na China. Eu conheci o Felipe alguns meses atrás, por telefone, quando o entrevistei para uma reportagem que estava escrevendo sobre esse assunto para o Estadão. Ele sofreu um acidente de carro em 2007 que o deixou paralisado da barriga para baixo, e acredita que essa terapia chinesa é a única esperança de recuperar seus movimentos.
Falar sobre esse tipo de terapia é muito complicado emocionalmente. Tem muita gente dizendo que funciona, que ficou melhor, mas não há nenhuma comprovação científica de que as supostas células-tronco que são injetadas nos pacientes realmente têm algum efeito terapêutico. Talvez até tenham, mas não há como saber, pois os procedimentos não são controlados, supervisionados nem reportados de acordo com os protocolos científicos tradicionais. Sabemos de alguns casos que parecem ter dado certo, noticiados como “milagres” na internet, mas praticamente nada sobre todos os outros casos que não deram em nada — ou que podem até ter trazido algum efeito colateral.
Enfim, há uma série de ressalvas que precisam ser feitas, mas que não cabem todas aqui nesse espaço. Publico esse email do Felipe (que ele me autorizou a divulgar) apenas como uma reflexão. Será que vale a pena, e é seguro, submeter-se a um procedimento experimental como esse? Não critico de maneira alguma a iniciativa dos pacientes que buscam essa opção. Se eu estivesse numa cadeira de rodas, acho que também buscaria todas as alternativas possíveis para me curar — com ou sem comprovação científica. Ao mesmo tempo, porém, me preocupa ver o caso de famílias que vendem tudo (ou o pouco) que têm para viajar para a China ou algum outro lugar distante do mundo e pagar por um tratamento sem eficiência comprovada. Sem falar no custo emocional, que também é altíssimo.
Torço para que o tratamento do Felipe dê certo, e que os médicos chineses que o estão operando um dia publiquem os resultados de seus experimentos de uma forma transparente, de modo que possam ser analisados pela comunidade científica internacional e, quem sabe, reproduzidos em outros lugares do mundo, para o benefício de todos.
Abaixo, o email do Felipe:
Ola!!!!!
Tudo bem por ai???
Por aqui ta tudo otimo!!
Algumas noticias minhas:
Hj foram colhidas celulas do nariz e da coluna, na coluna foi uma puncao… Acho q agora esta perto de comecar o tratamento… acho que so falta a retirado de celulas da bacia…. chega de exames… nao aguento mais agulhas…. ja chega a eletroneuromiografia q fiz…. e vou ter que repetir apos a cirurgia… Vamos levar os exames embora para algum medico dai ver… Ja que aqui ninguem conta nada para a gente….
Hj fiz uma terapia aqui bem legal… tomei varios tapas na cabeca e pelo corpo como se fosse para estimular… Amanha comeca a acumputura… Tenho feito fisio aqui todos os dias… faz bicicletinha, fica de pe com a tabua ortostatica, aperta bolinhas e exercicios passivos de membros inferiores…
Entao…. Nao sabemos ao certo a data da cirurgia… sabermos q provavelmente sera na proxima semana.. acompanhada de suas puncoes…. Mando noticias….
Muito obrigado a todos que ajudaram neste tratamento mesmo que em oracoes e pensamentos positivos!!!!
Bjos
2012
2011
2010
2009