ir para o conteúdo
 • 

Herton Escobar

FOTO: PAULO VITOR/AE

.

Hoje vou escrever sobre aquele que é, talvez, o tema mais delicado e mais polêmico no campo da bioética e do relacionamento da sociedade com a ciência de uma forma geral: as pesquisas com animais.

Ninguém gosta de ver imagens como esta aí de cima. Eu também não gosto. Mas o fato é que, sem as pesquisas com animais, a medicina moderna simplesmente não existiria. Todos os remédios que você, ou qualquer pessoa que você ama, já tomou na vida foi desenvolvido com base em pesquisas com animais. Garantido. (Ressaltando aqui que estou me referindo a medicamentos comprovados e não aos chazinhos da vovó para dor de barriga ou às ervas medicinais que você compra na feira.)

Da mais simples aspirina ao mais moderno antidepressivo ou quimioterápico, tudo passou por animais antes de chegar ao homem. Nenhuma das terapias contra o câncer, nenhuma das drogas antiaids, dos antihipertensivos ou redutores de colesterol … nem um simples colírio existiria hoje sem a experimentação animal.

O mesmo vale para vacinas e procedimentos médicos e cirúrgicos. Tudo precisou ser testado primeiro em animais para saber: 1) se funciona 2) se é seguro, e 3) qual a dosagem ideal, ou técnica ideal, etc. Em alguns casos é possível partir diretamente para testes clínicos em seres humanos, mas são casos excepcionais — em que se está tentando melhorar o uso de uma droga já existente, por exemplo.  Nenhuma autoridade séria vai autorizar um teste em seres humanos de algo que não tenha sido testado em animais antes. Primeiro porque seria extremamente arriscado e antiético. Segundo, porque sem as pesquisas com animais você nem saberia o que testar nas pessoas para começo de conversa. (Para cada medicamento que você compra na farmácia, pode ter certeza de que algumas dezenas, centenas ou até milhares de compostos foram testados, até chegar a um que realmente funciona.)

Por mais incômodo que isso possa ser para a nossa consciência, portanto, o fato é que devemos muito da nossa qualidade de vida hoje às pesquisas com animais. Imagine um mundo sem vacinas, sem farmácias e com a medicina limitada ao que se praticava 100 ou 200 anos atrás … A raça humana não seria extinta, mas a vida certamente seria muito mais sofrida (como era 100 ou 200 anos atrás, e ainda é, do ponto de vista da saúde, em muitos lugares onde a população não têm acesso a medicamentos modernos e serviços públicos de qualidade).

A primeira consideração que precisa ser feita nesse debate, portanto, é a seguinte: Seria melhor não ter de fazer experimentos com animais? Sim, sem dúvida! Mas qual o preço disso? Estamos dispostos a pagar com vidas humanas para evitar o sacrifício de ratos e camundongos?

Ser contra pesquisas com animais é negar todos os benefícios conquistados pela ciência aplicada à medicina. Sem o uso de animais, a única alternativa em grande escala é fazer experimentos diretamente em seres humanos … ou simplesmente parar de pesquisar. E, para ser fiel às suas convicções, nunca mais usar qualquer tipo de medicamento industrializado. Nem vacinar seus filhos. E se tiver câncer, sinto muito, vai ter de se virar com o chazinho da vovó.

Dito isso, é preciso fazer um esclarecimento importante: Ser a favor das pesquisas com animais não significa ser a favor de maus tratos ou indeferente ao sacrifício dos animais que são usados nessas pesquisas. De maneira alguma! Eu conheço vários pesquisadores que preferem não trabalhar com animais porque não se sentem à vontade com isso, apesar de reconhecerem a necessidade e a importância desse trabalho.

Também não significa que os cientistas devem ter liberdade total para fazer o que bem quiserem com animais. Todos os países que fazem pesquisa científica séria, incluindo o Brasil, possuem legislações específicas que regulamentam o uso de animais em laboratório. Todas as instituições de pesquisa são obrigadas a ter comitês de ética multidisciplinares, incumbidos de avaliar e aprovar (ou não) todo e qualquer projeto de pesquisa envolvendo o uso de animais. Há várias regras que precisam ser seguidas. A mais básica delas é que os animais devem ser tratados com respeito e o sofrimento deles, minimizado ao máximo. Todos os procedimentos devem ser feitos da forma mais indolor possível, com o uso de sedativos. O pesquisador precisa provar que seu estudo é relevante e que o uso dos animais é imprescindível para a sua realização. E deve sempre usar o menor número de animais possível. Cabe às instituições, às autoridades e aos próprios cientistas fiscalizar o cumprimento dessas regras, denunciar e punir aqueles que as violarem.

Claro que sempre vai haver aqueles que cometem abusos. De uma forma geral, porém, é um tema levado muito a sério pela comunidade científica. Ninguém tem prazer em fazer pesquisa com animais. Faz-se porque não há alternativa.

Em alguns casos, sim, é possível fazer apenas experimentos in vitro ou simulações em computador. Mas, na maioria das pesquisas biomédicas, não tem jeito … nenhuma cultura de células ou programa de computador consegue simular o funcionamento de um organismo inteiro, com a complexidade de seus órgãos, tecidos, e suas milhares e milhares de moléculas interagindo umas com as outras em tempo real a todo momento. Nenhuma cultura de células consegue imitar isso. É muito comum uma droga ou técnica funcionar in vitro, mas não funcionar in vivo. Sem explicação. E quem aqui gostaria de ser operado por um médico que só treinou com bonecos de plástico na faculdade?

Ou usamos “modelos animais” (que é o termo científico correto), ou fazemos experimentação direta em seres humanos. Ou paramos de pesquisar. São essas as opções.

Mas por que estou me arriscando nesse assunto agora? Enfiando a mão nesse vespeiro bioético?

A revista Nature publicou na semana passada os resultados de uma pesquisa com quase 1 mil cientistas da área biomédica (biologia aplicada à medicina), perguntando sobre a influência que os grupos militantes de defesa dos animais tiveram sobre suas pesquisas nos últimos anos. Muitos pesquisadores sofrem ameças e são vítimas de atentados por parte de ativistas radicais, que são contra suas pesquisas. Nos casos mais graves, cientistas já foram agredidos fisicamente e tiveram suas casas e laboratórios depredados.

Mais de 90% dos entrevistados pela Nature concordaram que as pesquisas com animais são essenciais para o avanço da ciência e da medicina. Mas veja só: 33% reconheceram ter “preocupações éticas” sobre o uso de animais em suas pesquisas. Isso, a meu ver, é algo extremamente positivo. Pois mostra que os cientistas realmente levam isso a sério e se preocupam com o que estão fazendo com os animais. Não são indiferentes.

Acho que a discussão, portanto, não pode ser polarizada entre simplesmente “contra ou a favor”. Devemos, sim, buscar alternativas, regulamentar e reduzir ao máximo o uso de animais. Mas não podemos escapar do fato de que nossa sobrevivência depende, ainda, em grande parte, do sacrifício deles.

Abraços a todos.

(Uma última observação: Por favor apaguem de suas memórias aquelas imagens aterrorizantes de macacos com a cabeça aberta e outros animais sendo “torturados” em jaulas … São imagens de casos absurdos, em geral antigas, tiradas não se sabe aonde, que não representam de maneira nenhuma o que se passa no dia a dia dos laboratórios. Como eu disse, infelizmente, sempre haverá aqueles que desrespeitam as regras e cometem abusos, e devem ser severamente punidos legalmente por isso. Mas não é disso que estamos falando aqui. Na foto acima do post, por exemplo, uma pesquisadora da UFRJ aplica uma injeção num rato para testar o potencial efeito terapêutico de uma proteína sobre lesões da medula espinhal. Para isso, a medula do rato teve de ser lesionada cirurgicamente, para simular o que ocorre nos seres humanos (por isso são chamados “modelos animais”). Esse é um exemplo típico do que ocorre nos laboratórios. Não há tortura. Os animais são tratados com respeito e o sofrimento é sempre o mínimo possível.)

comentários (51) | comente

Resultado de um teste que detectou uma deleção de quatro bases no DNA de uma criança com síndrome de Lesch-Nyhan. (Crédito: Stephen Kingsmore)

.

Como jornalista, eu sempre parto do princípio de que informação nunca é demais. Ou quase nunca … Há alguns casos em que não saber talvez seja melhor do que saber. E a genética é um desses casos que deve ser avaliado com cuidado.

As tecnologias de sequenciamento genético, assim como o nosso conhecimento sobre a genética humana, estão avançando numa velocidade extraordinária. O que antes custava alguns milhões de dólares, agora custa apenas alguns milhares. E o que levava meses para fazer, agora leva algumas poucas semanas, ou dias, ou até horas. Com uma gota de sangue ou uma simples amostra de saliva já é possível identificar, rapidamente, com o clique de alguns botões, dezenas ou até centenas de mutações genéticas relacionadas a doenças específicas.

Num futuro não muito distante, sequenciar DNA será algo tão rotineiro na medicina quanto tirar sangue ou se vacinar. Não tenho dúvida.

A pergunta é: O que vamos fazer com essas informações? Você quer mesmo saber tudo que está escrito no seu DNA?
A resposta a essa pergunta vai depender de muitas variáveis. Vai depender do tipo de informação que você está procurando, a razão pela qual você a procura, a confiabilidade dessa informação e a possibilidade (ou não) de fazer alguma coisa a respeito caso você a encontre. Por exemplo: se você descobre que tem uma combinação de genes que aumenta o risco de arterioesclerose, você pode mudar sua alimentação, praticar mais exercícios e fazer examos rotineiros para evitar problemas cardíacos no futuro. (não que alguém precise de um exame de DNA para saber disso, mas vá lá … apenas como um exemplo) Nesse caso, ótimo!

Mas e se o risco for para Alzheimer, e você não puder fazer nada a respeito? Vai passar o resto da vida se preocupando com uma doença sem cura, que poderá ou não se manifestar daqui 20, 30 ou 40 anos? Porque a medicina genética é uma ciência de probabilidades, não de certezas … Raramente pode-se dizer que “se você tem esse gene, você terá essa doença”, com 100% de certeza. Em geral é: “você tem 15% mais chances de desenvolver essa doença”, que poderá ou não se manifestar ou te causar algum problema, dependendo de uma série de outros genes e outros fatores ambientais relacionados ao seu estilo de vida. Não é como um exame de HIV, que o resultado diz simplesmente positivo ou negativo. É algo muito mais complexo.

Sem falar que a grande maioria das doenças (e das nossas características em geral) são poligênicas, influenciadas por vários genes simultaneamente. Estabelecer relações de causa e efeito sobre mutações isoladas, portanto, é algo bastante complicado. (Apesar de que pode ser feito e já está sendo feito com sucesso em diversos casos, especialmente na oncologia, em que certos genes têm relação direta com a evolução da doença e podem ser usados como fatores de prevenção e diagnóstico bastante confiáveis.)

O caso mais complicado, do ponto de vista tanto científico quanto ético, é o da medicina genômica preditiva. Especialmente quando aplicada à reprodução humana. Cientistas relataram recentemente em um estudo na revista Science Translational Medicine o desenvolvimento de um teste genético capaz de diagnosticar 448 mutações ligadas a doenças recessivas

Doenças “recessivas” são aquelas em que a criança precisa ter duas cópias de um gene defeituoso para ter a doença — uma cópia herdada da mãe e outra, do pai. Nos casos em que uma cópia apenas é suficiente para expressar a doença, ela é chamada “dominante”. As recessivas são as mais preocupantes porque a pessoa não sabe que é portadora da mutação. Só percebe quando tem um filho com outra pessoa que, por acaso, tem a mesma mutação. E aí a doença aparece no filho.

Em tese, portanto, casais que planejam ter filhos poderiam usar um teste como esse para fazer um “pente fino” nos seus genomas e saber, de antemão, se a combinação de seus cromossomos oferece algum risco para o bebê. Ótimo! É natural que todo pai se preocupe com a saúde do filho … mesmo antes desse filho existir. Se for possível evitar que a criança nasça com alguma doença séria, melhor.

Mas e se você e sua mulher/marido descobrem que têm, mesmo, uma determinada mutação. O que fazer com essa informação? Ter o filho do mesmo jeito? Usar sêmen ou óvulos de doadores? Adotar? … Você prefere ter um filho que é seu (geneticamente) doente, ou um filho com DNA de outra pessoa, porém saudável?

E quando a criança já está crescendo no útero e você descobre que ela tem uma doença grave? O que fazer? (No Brasil não há opção legal, mas em países onde o aborto é permitido, como os EUA, os pais podem optar por interromper uma gestação em caso de síndrome de Down, por exemplo.) Trabalhos científicos publicados recentemente mostraram que já é possível diagnosticar a síndrome de Down com base numa simples amostra de sangue da mãe (que contém células e DNA do feto), assim como várias outras informações genéticas do feto.

Uma vez que essas tecnologias saírem dos laboratórios e chegarem aos consultórios, o que fazer com essas informações? Os pacientes estão preparados para lidar com elas? Os médicos estão preparados para aconselhá-los sobre elas? Como isso tudo deve ser regulamentado? Do ponto de vista ético, os pais têm o direito de escolher os filhos que querem ter?

“A capacidade de detectar centenas ou até milhares de características genéticas em um único exame de sangue, no início da gravidez, poderia transformar os testes genéticos pré-natais de algo incomum em algo rotineiro. Essa possibilidade desafia todas as sociedades a decidir sobre para quais finalidades e de quais maneiras elas querem que esses testes sejam usados, levantando questões dificílimas sobre aborto, direitos dos deficientes, eugenia e consentimento informado, entre outras coisas”, escreve Henry Greely, da Escola de Direito de Stanford, em um artigo publicado na revista Nature.

São perguntas difíceis, mas inevitáveis. Com o avanço do conhecimento e da tecnologia genômica, elas virão, e teremos que lidar com elas.

Abraços a todos.

comentários (15) | comente

22.dezembro.2010 23:11:46

PLACEBO, SEM ENGANAÇÃO

Algum tempo atrás escrevi um post sobre o efeito placebo que causou bastante polêmica aqui no blog. Pois aqui vai mais um pedaço de lenha na fogueira para esquentar (e complicar) ainda mais o debate.

Que o efeito placebo existe não há dúvida. Pacientes tomam pílulas de açúcar achando que é remédio e melhoram de saúde de verdade, como se estivessem tomando um remédio de verdade. Vários estudos clínicos comprovam isso. Como a pílula de açúcar  (ou farinha) não tem princípio ativo, o benefício clínico do placebo é, na verdade, uma reação do próprio organismo, orquestrada pelo cérebro do paciente, que foi induzido a pensar que estava recebendo um tratamento de verdade. Por isso, imaginava-se que o efeito placebo só existiria se o paciente fosse “enganado” dessa forma … Ou seja: se ele acreditasse de fato que estava tomando um medicamento de verdade.

Mas não!

Segundo um estudo da Universidade de Harvard, publicado hoje eletronicamente na revista PloS One, o efeito placebo pode funcionar até mesmo quando o paciente sabe que está tomando apenas uma pílula de açúcar. Imagine só!

Os pesquisadores fizeram algo muito simples: selecionaram 80 pacientes com síndrome do intestino irritável (uma disfunção gastro-intestinal crônica, chamada IBS em inglês) e dividiram-os em dois grupos. Um grupo não recebeu medicamento nenhum, apenas acompanhamento médico padrão. O outro recebeu, além do mesmo acompanhamento médico padrão, um “tratamento” placebo com pílulas de açúcar – com o detalhe importantíssimo de que os pacientes foram claramente informados de que eram apenas pílulas de açúcar, sem nenhum tipo de princípio ativo. “Pílulas placebo feitas de uma substância inerte, como pílulas de açúcar, que  em estudos clínicos produziram melhoras significativas nos sintomas de IBS, por meio de processos de auto-cura corpo-mente”, para ser mais exato, usando a terminologia que foi usada no estudo.

Ou seja: os pacientes tinham a informação de que o efeito placebo havia sido benéfico em estudos anteriores de IBS, só que dessa vez eles estavam sendo informados previamente de que as pílulas eram somente isso mesmo — pílulas de açúcar. Então, a dúvida dos pesquisadores era: Será que o efeito placebo se manifestará da mesma forma?

Três semanas depois veio a resposta: 59% dos pacientes que tomaram a pílula de açúcar melhoraram, comparado a 35% dos pacientes do grupo controle, que tiveram apenas acompanhamento médico. Não só isso, mas a melhora clínica observada no grupo placebo foi comparável a de pacientes tratados normalmente com os medicamentos top de linha para IBS.

Imagine só! Mesmo sabendo que as pílulas continham apenas açúcar, os pacientes tiveram um benefício clínico tão significativo quanto alguém que toma medicamentos de verdade. Então pra que gastar dinheiro com remédio?? Toma uma limonada por dia e faz pensamento positivo que está tudo certo!

Ok, não é tão simples assim. Como já escrevi no post anterior, o efeito placebo tem suas limitações e nunca vai substituir por completo os medicamentos. O que esse estudo mostra, porém, é que o efeito placebo pode, sim, ser usado de maneira ética e eficiente na medicina, sem a necessidade de enganar os pacientes. Se um estudo clínico mostra que o placebo pode ser tão eficiente quanto um medicamento (o que acontece com frequência) isso deve ser visto como algo positivo e não como um resultado negativo, para ser varrido para debaixo do tapete (o que também acontece com frequência). É um mau negócio para a indústria farmacêutica, mas um ótimo negócio para a medicina!

Aliás, pensando bem, talvez nem a limonada seja necessária, já que 35% dos pacientes do grupo controle melhoraram sem tomar absolutamente nada — nem mesmo placebo. Imagine só!

Abraços a todos.

.

Esse cartoon americano faz referência a um fato que é citado no estudo: 50% dos médicos americanos dizem já ter receitado placebos aos pacientes … Ou seja: ele receita alguma coisa só para o paciente se sentir melhor, mesmo que ele não precise. ("skittles" é uma balinha americana, tipo jujubinha)

comentários (38) | comente

05.dezembro.2010 00:46:12

SOBRE O DIREITO DE MORRER

FOTO: Valeria Gonçalvez/AE

Notícia de hoje no Estadão: “Justiça Federal derruba liminar e libera prática da ortotanásia no País”

Uma coisa eu nunca entendi nessas discussões sobre eutanásia, ortotanásia, e até suicídio … Como é que o Estado pode me proibir de encerrar minha própria vida? Afinal, o dono da minha vida sou eu, apenas eu, e mais ninguém! E se eu, por algum motivo qualquer, não quero mais viver, então quem é o Estado para dizer que eu não posso acabar com a minha própria vida? Eu por acaso sou obrigado a viver?? Mesmo que esteja sofrendo numa cama de hospital, sem qualquer esperança de cura, ligado a um monte de aparelhos??

É claro que a eutanásia e a ortotanásia não podem ser banalizadas. É claro que o Estado e a medicina têm de fazer sempre o máximo possível para salvar um paciente … Mas e se o paciente não quiser ser salvo? É claro que deve haver regras claras para evitar abusos e delírios. É preciso ter certeza absoluta que não há mais opções de tratamento, de que não há mais esperança de cura, e que o paciente não está pedindo para morrer por puro desespero, induzido pela dor ou pela tristeza. Nenhuma dessas cautelas, porém, justifica uma proibição da morte, na minha opinião.

Espero nunca me encontrar numa situação dessas, e lamento por aqueles que são confrontados com uma decisão tão difícil. Mas acho que as pessoas têm o direito de morrer, se assim quiserem. Só isso.

Apenas uma reflexão.

Abraços a todos.

comentários (10) | comente

INFOGRÁFICO: Marcos Muller/AE (Copyright Agência Estado)

  • .
  • A polêmica eleitoral sobre a legalização do aborto no Brasil.
  • O prêmio Nobel para o inventor da fertilização in vitro, dado na semana passada.
  • O impasse judicial sobre financiamento de pesquisas com células-tronco embrionárias nos EUA.

Todos esses assuntos que surgiram no noticiário recentemente têm uma pergunta em comum por trás deles: Quando começa a vida?

Ou melhor: Quando começa o indivíduo?

A ciência oferece uma série de informações relevantes para esse debate, mas não uma resposta definitiva.

Do ponto de vista puramente biológico, não há dúvida: A vida começa na fertilização, quando o espermatozóide e o óvulo (que, por si só, já são células vivas) se fundem para formar um embrião. Esse embrião primordial de uma única célula, chamado zigoto, então, começa a se dividir em 2, depois 4, depois 8, depois 16 células e assim por diante, até chegar aos trilhões … e essas células começam a se organizar e se diferenciar em diferentes tecidos, até formar um ser humano completo, com olhos, braços, pernas, coração, pulmões, rins e assim por diante. Tudo bem bonitinho, no seu devido lugar. Imagine só!

O período da primeira à oitava semana de gestação é o chamado “estágio embrionário”. O sistema nervoso do embrião começa a se formar na terceira semana, com a formação do tubo neural (que eventualmente se transformará na medula espinhal e no cérebro). Na semana seguinte começam a se formar os primeiros órgãos, no processo chamado de organogênese. Lá pelo dia 22, um aglomerado de células cardíacas começa a pulsar, formando um coração primitivo.

Só a partir da nona semana, ou do terceiro mês, é que o embrião (medindo ainda apenas alguns centímetros) passa a ser chamado de feto. Desse ponto em diante, todos os órgãos vitais já estão presentes de alguma forma, ainda que muito primitiva, e o desenvolvimento passa a ser focado mais em crescimento do que em formação de novas estruturas.

Então não há dúvida: o embrião, desde a sua primeira célula, é uma forma de vida … é um ser humano em formação. Mas em que ponto, exatamente, essa forma de vida pode ser considerada um indivíduo propriamente dito? Uma entidade própria, individual, com direitos individuais? Desde a concepção? A partir da formação do cérebro? Quando o coraçãozinho primitivo começa a pulsar?

São perguntas de enorme complexidade ética e moral. Do ponto de vista das células-tronco embrionárias, a questão é um tanto mais simples, pelo fato de os embriões terem sido produzidos em laboratório e estarem fora do útero. Algo que só se tornou possível 32 anos atrás, quando Robert Edwards desenvolveu a técnica de fertilização in vitro (FIV) – feito pelo qual recebeu o prêmio Nobel de Medicina na semana passada. Merecidamente.

Nesse caso, a pergunta principal é: Destruir um embrião microscópico de 100 células, que foi produzido in vitro e está congelado numa clínica de fertilidade, é o mesmo que matar um ser humano adulto? Ou mesmo um feto? Muita gente pensa que sim … Mas já abordei isso num post anterior, então não vou repetir a discussão aqui.

A discussão sobre o aborto é baseada nos mesmos conceitos, porém num contexto infinitamente mais complicado. E esse conceito é o útero. O embrião (ou feto, dependendo do tempo de gestação) não está congelado num botijão de nitrogênio líquido de uma clínica de reprodução assistida. Ele está dentro do útero, a caminho de se tornar um ser humano – ainda que a gestação não tenha sido planejada. Então é vida. Mas é indivíduo?

Como já disse no início deste post, acho que não há resposta científica para isso. Porque a definição de indivíduo não é científica. Biologicamente, a única distinção que poderia fazer algum sentido, acho, seria com relação à capacidade do embrião ou feto de sobreviver fora do útero. Se o embrião é incapaz de sobreviver fora do útero, então ele pode ser considerado ainda parte da mãe, indissociável dela. Só a partir do momento em que ele pode sobreviver por conta própria, então, ele se tornaria um indivíduo próprio, dissociado dela – o que seria por volta do quinto mês de gestação.

Nesse cenário, a pergunta do ponto de vista jurídico e moral passa a ser: Em que ponto o direito do embrião de nascer supera o direito da mãe de não querer que ele nasça? Em casos de estupro, por exemplo, decidiu-se que a vontade da mãe deve prevalecer sobre a do feto. Por isso ela tem o direito de abortar.

A legalização do aborto seria, essencialmente, uma extensão desse direito da mãe para outras situações além do estupro e do risco de morte para a gestante (as únicas duas situações permitidas por lei atualmente). O problema é: qual deve ser o novo limite? Até que ponto da gestação a mulher deve ter o direito de escolher se deseja ou não concluir aquela gestação?

Um possível divisor de águas seria este citado acima, referente à capacidade do embrião ou feto de sobreviver fora do útero. Enquanto ele é “parte da mãe”, a mãe teria o direito de decidir se deseja dar prosseguimento à gestação ou não. Me incomoda a ideia de o Estado ditar regras sobre o que a mulher pode ou não fazer com algo que está crescendo dentro do seu corpo, originado de seus próprios genes e suas próprias células.

Mas cinco meses, talvez, seja tempo demais. Um limite mais plausível, talvez, fosse três meses, que é o período crítico natural de qualquer gestação. Muitos abortos espontâneos ocorrem nas primeiras 12 semanas. Às vezes tão cedo que a mulher nem sabe que estava grávida. Nesse período, o corpo faz um “check-up” do embrião/feto e, caso haja alguma falha grave de desenvolvimento, a gestação é automaticamente abortada.

Então, talvez, fosse razoável usar esse divisor de águas biológico como um divisor de águas ético também, dentro do qual a mãe poderia decidir sobre o destino da gestação. E não apenas quando ela for uma vítima de estupro ou tiver sua vida ameaçada. Mas em qualquer situação.

Na maioria dos países onde o aborto é permitido, esse é o limite adotado.

Há muitas opiniões conflitantes (e igualmente válidas) sobre esse assunto. E as mulheres não vão parar de abortar só porque é proibido. É uma realidade social. Então me parece necessário achar uma solução intermediária, em que todos possam ter suas crenças e suas opiniões respeitadas. Quem é contra o aborto nunca fará um aborto, obviamente. Mas quem é a favor poderia ter esse direito assegurado, dentro de determinados limites.

Apenas uma reflexão.

Abraços a todos.

Esse vídeo mostra os estágios de desenvolvimento embrionário e fetal. Eu, você, sua mãe e todos os outros seres humanos do planeta passaram por isso.

comentários (16) | comente

Arquivo

Blogs do Estadão