Com vocês, o fóssil de uma pulga “gigante” que chupava sangue de dinossauros peludos entre 125 e 165 milhões de anos atrás, segundo um estudo publicado na revista Nature. É um de nove espécimes coletados na China, com tamanhos que variam entre 1,4 e 2,0 cm para fêmeas e 0,8 e 1,5 cm, para machos. Ou seja: “gigantes”, se comparados às pulgas atuais.
A morfologia alongada e robusta de suas bocas sugere que essas pulgas eram inicialmente parasitas de animais peludos “reptilianos” (talvez dinossauros plumados que existiam na mesma época), de pele grossa, e que só mais tarde passaram a chupar sangue de mamíferos e aves. Imagine só!
Imagine só o seguinte: Alguém pede para que você entre numa sala de cinema e diga se há vida lá dentro. Você entra na sala e ela está vazia. O que você responde?
Não há vida?
Claro que há!
Não há seres humanos. Mas há muita vida microscópica (em quantidades que podem variar de acordo com as condições de limpeza de cada cinema … mas que certamente não chegam a zero). As paredes, as cadeiras, o carpete, o ar, a pipoca que caiu debaixo do banco … tudo está coberto de bactérias, fungos e outras formas de vida microscópica. Não só no cinema, mas na sua casa, no seu banheiro, na sua cozinha, no seu restaurante favorito, no seu carro, na redação do jornal O Estado de S. Paulo na qual estou escrevendo este post, na sua pele … tudo coberto de microrganismos.
Nós, em geral, não prestamos muita atenção neles, a não ser que nos causem algum problema. Mas eles estão lá, invisíveis, bem diante dos nossos olhos e debaixo do nosso nariz. Sempre! Pode confiar.
Pensei nisso recentemente quando viajei pelo Deserto do Atacama, no norte do Chile. Um dos lugares mais incríveis deste planeta. E o mais seco de todos, com certeza. De uma beleza assustadora. Uma desolação sem fim, onde você dirige por horas e horas sem ver NADA além de areia e rocha em todas as direções. Nem um pingo de verde a vista. Nada que se mova, além do vento. Nenhuma planta, nenhum pássaro, nenhum lagartinho que seja. Um lugar, aparentemente, morto. Sem vida.
Isto é … sem vida macroscópica.
Mesmo sem ter como ver ou saber, eu tinha certeza de que havia vida ali em algum lugar. Vida microscópica. Tal qual na sala de cinema vazia.
Pois então … pesquisadores espanhóis e chilenos coletaram recentemente amostras de solo salgado da região do Salar Grande, no Atacama, e descobriram um camada de microrganismos (bactérias e arqueias) vivendo 2 metros abaixo da superfície. Felizes da vida, apesar das condições “desumanas” de seu hábitat de preferência. Muito, muito mais agressivas do que a de uma pipoca no chão de uma sala de cinema. Porém, muito mais agradáveis do que na superfície do deserto, onde quase nada consegue sobreviver à combinação destruidora de calor, secura e radiação solar.
A pesquisa, publicada em dezembro na revista Astrobiology, foi feita para testar um equipamento chamado LDChip, ou Chip de Detecção de Vida (em inglês), que os pesquisadores esperam um dia usar para pesquisar vida em Marte — que tem paisagens incrivelmente parecidas com as do Atacama. (Ou é o Atacama que tem paisagens incrivelmente parecidas com a de Marte?? … depende do nível de antropocentrismo do observador) Quem garante que por baixo daquela camada superficial “morta” do Planeta Vermelho também não haja um monte de micróbios valentes vivendo alegremente e esperando para serem descobertos? Imagine só!
Abraços a todos.
Sabe aquela história de que as mulheres já nascem com um número “fixo” de óvulos em seus ovários? (ou, mais especificamente, de ovócitos, as células que amadurecem ao longo da vida para formar os óvulos que são liberados mensalmente no período fértil) Pois então … isso não é exatamente verdade. Vários trabalhos publicados nos últimos anos indicam que as mulheres são capazes, sim, de produzir novos óvulos ao longo da vida. Não com a mesma agilidade dos homens, que produzem espermatozoides continuamente até o fim da vida … mas, ainda assim, o potencial existe e poderá, quem sabe, ser explorado pela medicina.
Em um estudo publicado esta semana na revista Nature Medicine, cientistas confirmam a existência de células-tronco ovarianas, que podem ser cultivadas in vitro para gerar óvulos “frescos”. Em camundongos, esses óvulos já foram transplantados para o útero de fêmeas reprodutoras, que foram fertilizadas e produziram filhotes saudáveis — comprovação de que os óvulos são férteis. O mesmo experimento não pôde ser feito até o fim com seres humanos, por uma combinação de questões éticas e técnicas, mas tudo indica que as células-tronco germinativas humanas existem e são, sim, tão viáveis para fins reprodutivos quanto as dos camundongos.
Não está claro ainda até que ponto essas células-tronco são ativas, no sentido de produzir novos óvulos ao longo da vida das mulheres. Elas são raras, e talvez permaneçam “dormentes” a maior parte do tempo nos ovários. O simples fato de elas existirem, porém, abre uma série de possibilidades para o estudo e o tratamento da infertilidade feminina.
“Além de abrir um novo campo de pesquisa sobre biologia reprodutiva humana, que era impensável menos de dez anos atrás, a existência dessas células em mulheres pode oferecer novas oportunidades para expandir ou melhorar as atuais estratégias de preservação da fertilidade”, escrevem os pesquisadores no artigo da Nature Medicine, coordenados por Jonathan Tilly, da Faculdade de Medicina de Harvard.
Reportagem especial sobre um colapso da pesca no litoral de São Paulo, publicada ontem no Estadão. Se você gosta de comer um peixinho fresco quando vai à praia, leia:
Na falta de peixe, pescadores viram maricultores
Infelizmente, está cada vez mais difícil se alimentar de maneira ambientalmente e/ou socialmente responsável nesse mundo. Temos de ser realistas: não há como alimentar 7 bilhões de pessoas sem impactos significativos sobre o planeta. Seja na terra, seja na água, para produzir alimentos em grande escala é preciso ocupar espaços, consumir recursos (naturais e financeiros), gerar resíduos.
Muito se falou nos últimos anos sobre os impactos do agronegócio na Amazônia, por exemplo. Sobre como a expansão da fronteira agrícola e da pecuária estavam impulsionando o desmatamento da floresta e do cerrado. Os ecossistemas marinhos vivem um drama semelhante, até mais grave, que não é novidade, mas que se passa de maneira mais silenciosa, debaixo da superfície, escondido dos olhos da maioria das pessoas. Todo mundo já viu alguma foto de uma floresta desmatada. Mas quem já viu a foto de um recife de coral morto, coberto por algas? Ou de um leito marinho destruído por redes de arrasto? Ou de uma imensidão azul vazia onde deveria haver peixes?
Infelizmente, acho que a maioria das pessoas só vai se dar conta desse drama quando começar a faltar peixe no supermercado. Porque o alimento que vem do mar não é plantado ou produzido, como a soja ou a carne de boi. Ele é um produto extrativista. Ou seja: é um alimento produzido não por nós, mas pela natureza. Os barcos de pesca são como colheitadeiras numa fazenda oceânica: eles não produzem nada, só fazem a colheita. O problema é que estamos colhendo tantos peixes que não sobram “sementes” suficientes no mar para produzir novas safras nos anos seguintes. Uma hora, vai acabar. E essa hora, infelizmente, já está próxima para muitas espécies.
A boa notícia (do ponto de vista da conservação) é que, na pesca, quando a situação fica crítica, quem sucumbe primeiro não é o peixe, mas o pescador. Quando os estoques de uma determinada espécie se tornam muito baixos, à beira da extinção, a pesca daquela determinada espécie deixa de ser economicamente viável. Assim, os barcos se voltam para algum outro recurso, e a espécie ganha uma trégua (ao menos momentânea) para se recuperar e se safar da extinção. “A pesca acaba antes do peixe”, como diz o pesquisador Marcus Carneiro, do Instituto de Pesca de São Paulo.
É nesses casos que se pode entender perfeitamente o significado da palavra “sustentável”. Uma atividade sustentável é aquela que garante a renovação de seus recursos para gerações futuras. Ou seja: é uma atividade perpétua, que se mantém viável a longo prazo. A pesca sustentável é aquela que não acaba com seu próprio peixe e continua a ser produtiva (e lucrativa) ano após ano, década após década, século após século, sem prazo para terminar. Uma pescaria insustentável é aquela que acaba com seu próprio peixe e, inevitavelmente, acaba decretando sua própria falência. Qual delas você acha que faz mais sentido?
Abraços a todos.
Trinta mil anos atrás, um esquilo siberiano da espécie Urocitellus parryii coletou sementes e frutos de uma planta chamada Silene stenophylla e os levou para sua toca subterrânea. O que aconteceu com o esquilo depois disso, não se sabe. Mas o material vegetal que ele coletou ficou preservado no solo congelado (permafrost) da tundra siberiana. E agora, 30 mil anos depois, cientistas russos descongelaram essas sementes e frutos e trouxeram a planta de volta à vida no laboratório. Literalmente.
Amostras descongeladas de tecido placentário extraído dos frutos da planta foram cultivadas em laboratório e induzidas a formar novas plantas inteiras, num processo conhecido como organogênese (formação de órgãos). Algo que é feito rotineiramente em laboratório para clonar plantas agrícolas de interesse. Só que a planta, nesse caso, tinha 30 mil anos de idade. Imagine só!
As plantas clonadas se desenvolveram perfeitamente. Primeiro, foram cultivadas e propagadas in vitro, depois transferidas para vasos com terra, floresceram, foram fertilizadas, produziram sementes que germinaram e deram origem a mais plantas, e assim por diante. Segundo os pesquisadores, essas plantas são “os mais antigos organismos multicelulares vivos”.
A Silene stenophylla não é uma espécie extinta. Ela ainda existe, apesar de ter mudado um pouco de aparência (fenótipo) nos últimos 30 mil anos. Mas é certo que sementes e frutos de muitas espécies que não existem mais também estão preservados no permafrost siberiano (cuja camada de solo congelado pode ter centenas de metros de espessura … a amostra usada no estudo estava “apenas” 38 metros abaixo da superfície). Então, a princípio, nada impede que esse procedimento seja refeito para recriar alguma espécie extinta.
Sabe-se lá o que mais esses esquilos pré-históricos andaram guardando em suas tocas!
O estudo está publicado na edição desta semana da revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA.
FOTO: Save the Tasmanian Devil Program
O câncer, apesar de ser extremamente comum, é uma doença “individual”, que “nasce” dentro de cada pessoa, individualmente, por conta de alguma combinação infeliz de fatores genéticos e ambientais (por exemplo, exposição demasiada à fumaça de cigarro ou à radiação solar). E, desse jeito, já causa o estrago que causa no mundo inteiro. Agora, imagine se, além disso, o câncer fosse uma doença transmissível, que pudesse ser passada de um indivíduo para outro, como um vírus da aids ou da hepatite, por exemplo. Que pesadelo seria!
Pois no mundo dos demônios da Tasmânia isso não é pesadelo. É realidade. Uma realidade infernal, por assim dizer, que ameaça seriamente a sobrevivência da espécie.
O demônio da Tasmânia, para quem não sabe, não é apenas um personagem de desenho animado. É um bicho de verdade! Um mamífero marsupial (dotado de bolsa abdominal, como a do canguru, na qual os filhotes se desenvolvem) de até 12 kg que só existe na ilha da Tasmânia, na costa sudeste da Austrália. A espécie, cujo nome científico é Sarcophilus harrisii, é considerada ameaçada de extinção, em grande parte por conta de um câncer que vem se espalhando pela população há mais de 15 anos. Em uma década, segundo informações da Lista Vermelha da IUCN, a população já foi reduzida em mais de 60%.
O “tumor facial do demônio da Tasmânia”, ou DFTD (em inglês), como a doença é conhecida, começou como um câncer “normal”, resultado de uma combinação de mutações genéticas que levou uma célula a se multiplicar descontroladamente dentro de um animal. A diferença é que, antes desse animal doente morrer, ele transmitiu a doença para outros demônios (termo que uso aqui sem qualquer intenção de ofender a espécie), que passaram-na para outros demônios, e assim por diante. Como se as células tumorais fossem um vírus, transmitido por meio de mordidas. (Os demônios da vida real não giram como tornados, como o personagem Taz dos desenhos animados, mas são mesmo bichos endiabrados, que mordem uns aos outros com frequência.)
Uma vez dentro do organismo, as células tumorais passam a se multiplicar e formar novos tumores, levando o animal à morte no prazo de alguns meses. A doença causa tumores horríveis no rosto e na boca dos demônios, que ficam completamente desfigurados. O sistema imunológico dos animais infectados deveria ser capaz de destruir as células invasoras, mas por alguma razão ainda desconhecida, elas conseguem se manter vivas e proliferar, como uma metástase contagiosa.
Numa tentativa de entender melhor a doença (e identificar eventuais pontos fracos para derrotá-la), pesquisadores sequenciaram os genomas completos da espécie e do câncer que a aflige. Comparando as duas sequências, eles identificaram 17 mil mutações no genoma das células tumorais, que agora serão estudadas em detalhe para saber quais delas são as mais importantes na evolução e na proliferação da doença.
Segundo os pesquisadores, os dados genéticos indicam que a DFTD “nasceu” em um demônio fêmea, que viveu (e morreu) antes de 1996, quando o primeiro caso da doença foi identificado. Todos os tumores detectados na população desde então são formados por células “filhas” desse primeiro tumor “mãe”. É o mesmo câncer, passado de um animal para outro há mais de 15 anos. Imagine só!
O estudo foi publicado na revista Cell. Já pensaram se essa moda pega entre os tumores humanos?
Há um único outro caso de câncer transmissível conhecido: o “tumor venéreo canino”, ou CTVT, que é transmitido sexualmente entre cachorros. Estudos indicam que a doença “nasceu” milhares de anos atrás, dentro de um lobo ou de um cachorro do leste da Ásia.
FOTO: PLoS One
Pesquisadores da Alemanha publicaram esta semana na revista PLoS One a descoberta de quatro novas espécies de camaleão nas florestas de Madagascar, na África. A menor delas, batizada de Brookesia micra, não passa de 30 mm de comprimento (foto). Os camaleões já são animais superinteressantes em tamanho “normal”. Em versão miniatura, então, mais interessantes ainda. Imagine só!
Alerta, alerta: Os terráqueos não estão mais chegando …
O governo americano do presidente Obama apresentou hoje sua proposta de orçamento para a Nasa em 2012: US$ 17,7 bilhões (isso mesmo, Bilhões, com B de bola). É dinheiro pra caramba … mas o clima na comunidade científica e de exploração espacial é de preocupação. O orçamento proposto representa uma redução de 0,3% em relação ao orçamento do ano passado, e 0,3% de quase US$ 18 bilhões é muito dinheiro mesmo. Quem saiu perdendo na lista de prioridades foi o Planeta Vermelho: a proposta de Obama é cancelar as duas próximas missões planejadas para Marte, que seriam realizadas em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA).
O orçamento do programa de exploração marciana, especificamente, será reduzido de US$ 587 milhões para US$ 361 milhões, segundo informações do Washington Post. Em bom português, o governo americano está propondo dar o cano nos europeus. O programa cortado seria o ExoMars, que prevê (ou previa) o lançamento de duas sondas para Marte, em 2016 e 2018, com o objetivo de pesquisar se um dia houve vida no planeta.
Parte da culpa é do James Webb Space Telescope, o futuro substituto do Telescópio Espacial Hubble, cujo custo de construção está correndo muito acima do planejado. O orçamento para o projeto deverá aumentar de US$ 476 milhões em 2011 para US$ 659 milhões, em 2014, segundo informações da BBC.
FOTO ACIMA: Dois engenheiros da Nasa aparecem em meio a três exemplos de veículos-robôs que já pousaram (ou estão para pousar) em Marte. O menorzinho, na frente, é um backup do Sojourner, que pousou em Marte em 1997. À esquerda da foto está um protótipo dos robôs Spirit e Opportunity, que pousaram em Marte em 2004. E à direita está um protótipo do robô Curiosity, que está a caminho de Marte neste momento, com previsão de pouso para agosto deste ano. (legenda completa, em inglês, neste link)
Albert Einstein. Stephen Hawking. Richard Feynman.
Você já deve ter ouvido algum desses nomes por aí (no mínimo o do Einstein) e não precisa ser capaz de explicar o que cada um deles fez como cientista para saber que são (ou foram) pessoas importantes, que descobriram coisas superinteressantes e relevantes. Afinal, honestamente: Quantas pessoas sabem de verdade o que é a relatividade geral? Ou entendem o conceito de espaço-tempo? Ou sabem explicar o que significa a equação E=mc²? Certamente apenas uma minoria da população (que estudou física na faculdade). Mas a maioria sabe que foi Einstein quem “inventou” essas coisas. E que essas coisas são revolucionárias … produtos de uma mente brilhante.
Essa talvez seja a melhor maneira de explicar a importância da física teórica, sem precisar explicar os resultados produzidos por ela. Uma ciência supercomplexa, que beira às vezes a filosofia, e que quase ninguém fora os próprios físicos teóricos é capaz de entender, mas que todo mundo admira. Uma ciência cujo objetivo central é elucidar algumas das questões mais fundamentais da nossa existência: Como surgiu o Universo? Qual será o futuro do Universo? Qual é a estrutura da matéria (incluindo aquela da qual os nossos corpos são feitos)? Perguntas que não têm necessariamente nenhuma aplicação prática nas nossa vidas, mas para as quais todos nós gostaríamos de saber as respostas. Nem que seja por pura curiosidade.
“As pesquisas fundamentais que mudam a maneira como entendemos o mundo nascem da curiosidade, e não de objetivos direcionados”, disse o físico teórico Peter Goddard, diretor do renomado Instituto de Estudos Avançados de Princeton, que esteve semana passada em São Paulo para a inauguração do Instituto Sul-Americano de Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR), no Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp.
Eu tive o prazer de passar várias horas no IFT na semana passada, preparando uma reportagem especial sobre o projeto do ICTP-SAIFR (uma sigla terrível, tenho de reconhecer) e sobre a física teórica em geral. Afinal, não há como entender a importância de um instituto se você não entende o que vai se fazer lá dentro para começo de conversa! O resultado, publicado ontem no Estadão, vocês podem conferir na imagem acima e nos links: Missão: descrever as leis da natureza, LHC fecha o cerco sobre o bóson de Higgs, mais este infográfico sobre Cosmologia e Física de Partículas.
Abraços a todos.
PDF da reportagem: Estado-FisicaTeorica
O Brasil já é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo (30 milhões de hectares), atrás apenas dos Estados Unidos (69 milhões de hectares), de acordo com o último relatório do ISAAA, divulgado na semana passada.
É uma notícia que pode ser interpretada de diversas maneiras. Com orgulho e satisfação por um grande número de agricultores e cientistas que confiam na biotecnologia molecular como uma ferramenta importante para o aumento da produtividade e a redução dos impactos ambientais da agricultura. Com vergonha e descontentamento por um grande número de ambientalistas, que desconfiam dos transgênicos como algo nocivo ao meio ambiente e às práticas tradicionais da agricultura orgânica e familiar. Com dúvidas e suspeitas pela maioria dos consumidores, que de fato não entende o que é um alimento transgênico, mas, bombardeada com mensagens de terror ao longo dos anos, tende a ver a tecnologia como algo aparentemente perigoso. “Será que estou comendo transgênicos?” Pode ter certeza que sim. “Será que isso vai fazer mal à minha saúde ou ao meio ambiente?” Praticamente todas as evidências científicas indicam que não.
Há muitas razões ideológicas para ser contra os transgênicos. Do ponto de vista científico e econômico, porém, está cada vez mais difícil elaborar um argumento convincente contra eles.
Vamos a alguns fatos …
Os transgênicos atualmente no mercado são alimentos que foram geneticamente modificados para serem resistentes a pragas ou pesticidas específicos. Dito isso, atenção: praticamente tudo que você come é geneticamente modificado, no sentido de que são plantas e animais profundamente modificados de suas formas originais da natureza, ao longo de séculos (ou até milênios) de cruzamento e seleção. São “produtos” inventados pelo homem. Aquela espiga de milho amarelo e suculento que você compra no supermercado, por exemplo, não existe na natureza (o milho selvagem original é um capim que você jamais reconheceria como “milho”). O mesmo vale para o arroz, o feijão, a laranja, a uva, a vaca, a galinha, o porco, e assim por diante. Tudo profundamente modificado pelo homem desde a invenção da agricultura. A soja, por acaso, nem é nativa das Américas, muito menos do quente Cerrado brasileiro. É uma planta nativa de clima temperado na Ásia, trazida para cá, modificada, melhorada e adaptada ao longo de várias décadas de pesquisa pela Embrapa. Não existe soja “natural” no Brasil.
A diferença dos transgênicos atuais é que eles foram modificados com a inserção de genes extraídos de bactérias, e não de plantas (um cruzamento tecnológico que não ocorre normalmente na natureza). A soja RR, por exemplo, tem o gene de uma bactéria que a torna resistente ao herbicida glifosato. O gene “ordena” a síntese de uma proteína, que é sintetizada pelas células e circula pelo organismo da planta, “imunizando-a” contra os efeitos do herbicida. Assim, o glifosato pode ser aplicado sobre toda a lavoura, aniquilando as ervas daninhas, porém sem prejuízo para a soja. A ideia, com isso, é facilitar o manejo da plantação e reduzir a quantidade de pesticidas aplicados sobre a lavoura.
Já o algodão Bt tem o gene de uma bactéria que o torna resistente ao ataque de lagartas. O gene codifica uma proteína que é tóxica para o inseto, que morre ao se alimentar da planta.
Parece assustador, não é? Mas tanto os genes quanto as proteínas em questão são absolutamente inofensivas para os seres humanos. A bactéria Bt, por exemplo, é extremamente comum na natureza e você certamente já comeu milhões delas inteiras na sua vida sem qualquer problema. Tanto que ela é usada como pesticida natural em plantações orgânicas. A diferença no transgênico é que a planta produz a própria “vacina” internamente, em vez de a vacina ser aplicada sobre ela.
Estas e outras plantas transgênicas semelhantes já são plantadas e consumidas por seres humanos em larga escala há cerca de 15 anos, sem qualquer problema (de saúde ou ambiental), em vários países, com aprovação de todas as agências reguladoras necessárias.
Do ponto de vista da saúde humana, simplesmente não há lógica científica para preocupação. Do ponto de vista ambiental, os riscos (por exemplo, desenvolvimento de ervas daninhas ou insetos resistentes) não são exclusivos dos transgênicos – são riscos inerentes à agricultura, que sempre existiram, e que podem ser manejados sem maiores segredos. Do ponto de vista econômico e comercial, basta dizer que os agricultores brasileiros, americanos, argentinos, etc, não são idiotas. Eles não estão plantando transgênicos por obrigação ou por falta de alternativa. Estão plantando porque querem.
O argumento das campanhas antitransgênicos sempre foi o de que “precisamos de mais testes para ter certeza”. Mas a verdadeira intenção sempre foi proibir os transgênicos e ponto final.
É normal novas tecnologias serem recebidas com receio pela sociedade, especialmente quando elas mexem com coisas “sagradas” como os alimentos ou a reprodução humana. Quando a fertilização in vitro foi inventada, muitos interpretaram isso como algo absurdo … até pecaminoso. Imagine só, produzir um embrião humano “de proveta”, fora do corpo da mulher! Hoje é a coisa mais normal do mundo, e milhões de famílias são gratas por isso.
Quando a engenharia genética começou a ser desenvolvida décadas atrás, também houve muita preocupação sobre seus potenciais riscos, inclusive dentro da comunidade científica. Hoje, microrganismos, plantas e animais transgênicos são usados rotineiramente em milhares de laboratórios e indústrias ao redor do mundo, com segurança, para uma série de aplicações práticas e de pesquisa. Por exemplo, a produção de insulina para diabéticos. Agora, imagine só, botar um gene de bactéria numa planta que a gente come … que absurdo! (como se as plantas não tivessem milhões de bactérias crescendo sobre elas de qualquer maneira, e a gente não tivesse bilhões de bactérias vivendo dentro de nós de qualquer maneira)
Na agricultura, a revolução é um pouco mais recente, mas parece estar caminhando para o mesmo destino. Para sair da categoria do “estranho” e entrar para o clube dos “normais”.
Abraços a todos.
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