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Herton Escobar

Caros amigos-leitores,

Como a maioria de vocês deve saber, passei todo o ano de 2011 viajando pelo mundo, produzindo uma série de reportagens especiais sobre ciência e meio ambiente para o Estadão. Por causa disso, não consegui escrever no blog com a frequência que costumava … mas agora estou de volta ao Brasil e prometo que em 2012 o blog voltará ao seu “normal”.

Obrigado pela leitura e feliz ano novo a todos!

Para se feliz, deixe a imaginação fluir.

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Caros amigos-leitores,

A última reportagem da minha série Repórter Viajante foi publicada ontem no Estadão. Ela trata de um tema que está longe de ser novidade na Ásia, mas sobre o qual eu honestamente nunca tinha ouvido falar até cinco meses atrás, mergulhando na Indonésia, quando um pesquisador do Instituto Smithsonian, que é biólogo marinho mas também apaixonado por pássaros, ficou sabendo que eu viria para o Nepal e me perguntou: “Por que você não escreve sobre a crise dos abutres?”

“Crise dos abutres???”, perguntei.

Cinco meses depois, eis aqui a resposta à minha própria pergunta.

OBS: Agora eu digo abutres, mas até duas semanas atrás eu ainda estava traduzindo o termo “vultures”, em inglês, como “urubus”, em português. Até que tive a grande ideia de mandar um email para o ornitólogo Luís Fabio Silveira, curador de aves do Museu de Zoologia da USP, e ele elegantemente me passou uma correção. Saibam vocês que urubu é uma coisa, abutre é outra. Os dois são aves de rapina e os dois se alimentam de carniça, mas, fora isso, pertencem a linhagens completamente diferentes, do ponto de vista evolutivo. Imagine só!

Apenas um dos muitos enganos que cometemos em relação a essa aves, como vocês poderão perceber na reportagem. Os textos estão copiados abaixo.

Abraços a todos.

Links de organizações relacionadas à matéria: SAVE (Saving Asia´s Vultures from Extinction), Vulture Rescue, Bird Conservation Nepal, Royal Society for the Protection of Birds, The Peregrine Fund, IUCN Red List (Gyps bengalensis), Parahawking

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ABUTRES EM PERIGO

Com três espécies criticamente ameaçadas de extinção, países asiáticos lutam para reverter mortandande em massa causada pela introdução de uma droga veterinária 15 anos atrás

Dhan Bahadur Chaudhary encontrou uma maneira incomum de demonstrar seu amor pela vida selvagem. Há cinco anos ele compra vacas velhas da comunidade, que ninguém mais quer, lhes dá abrigo e alimento, e depois aguarda ansiosamente para que elas morram. De preferência, em intervalos regulares, pelo menos uma por semana.

Ele é o gerente do Restaurante de Abutres de Nawalparasi, no centro-sul do Nepal, um dos seis “estabelecimentos” desse tipo criados recentemente no país pela organização Bird Conservation Nepal (BCN). Os abutres são os fregueses. Os seres humanos são os garçons. E as vacas, a refeição.

No Nepal, um país de maioria hindu, a vaca é um animal sagrado, protegido por lei. Matar uma delas, por qualquer motivo, é crime. Por isso Chaudhary precisa esperar que os animais morram naturalmente. O preço pago por vaca é irrisório: $250 rúpias nepalesas (pouco mais do que R$ 5). Ainda assim, vale a pena para os fazendeiros. “É um alívio para eles, pois eles não têm o que fazer com a vaca depois que ela fica velha”, explica Chaudhary.

Centenas de abutres frequentam o restaurante cada vez que uma refeição é servida. O recorde de movimento é de 270 pássaros – bem mais do que os 70 que costumavam aparecer no início do projeto, em 2006. O que é um bom sinal. O número de ninhos no entorno do restaurante também aumentou: de 17 para 67.

As carcaças são limpas até o osso pelas aves em cerca de 30 minutos. Enquanto o abutres de acotovelam sobre a vaca morta para bicar um pedaço de carniça, turistas de espremem dentro de uma cabana ao lado para tirar fotos.

Os recursos do turismo ajudam a manter o restaurante funcionando. Mas a motivação do projeto passa longe do entretenimento. Por trás do espetáculo sangrento, desenrola-se uma das histórias mais dramáticas – e pouco apreciadas – de luta pela sobrevivência da biodiversidade atua.

O Gyps bengalensis está criticamente ameaçado de extinção, assim como duas outras espécies de abutres asiáticos: o Gyps indicus (abutre-de-bico-longo) e o Gyps tenuirostris (abutre-de-bico-estreito). Todos reduzidos a menos de 10% — ou até 1% — de suas populações “originais”. Comuns até o início da década de 1990, seus números começaram a despencar vertiginosamente cerca de 15 anos atrás, sem explicação. Principalmente na Índia, no Nepal e no Paquistão, suas principais áreas de ocorrência.

De início, muita gente provavelmente achou bom se ver livre dessas aves carniceiras. Até que o mau cheiro das carcaças tornou impossível ignorar o problema.

Os números são assustadores. O Gyps bengalensis, que até pouco tempo era considerado a ave de rapina mais abundante do mundo, está à beira da extinção, com um declínio populacional de 99,9% na Índia e mais de 90% no Nepal. As outras duas espécies estão em situação semelhante, praticamente com um pé na cova.

“Não consigo pensar em outro bicho que tenha sofrido um declínio tão grande em tão pouco tempo”, afirma Chris Bowden, gerente do Programa de Abutres da Royal Society for the Protection of Birds (RSPB), na Inglaterra. “A situação é realmente crítica.”

O declínio não demorou a ser notado já na década de 90, especialmente nas regiões mais populosas da Índia, onde o sumiço dos abutres teve efeito semelhante ao de uma greve de garis em São Paulo. Sem as aves carniceiras para fazer o serviço de “limpeza”, vacas mortas começaram a se acumular e apodrecer por todos os lados, tanto nas cidades quanto no campo.

Demorou, porém, para cientistas descobrirem o que estava matando os abutres. Especulou-se muito sobre alguma infecção por vírus ou bactéria, tipo gripe aviária. Mas não. O diagnóstico só veio em 2004, com um trabalho de “autópsia” publicado na revista Nature: intoxicação por diclofenaco, um analgésico e antiinflamatório introduzido como droga veterinária na região em meados da década de 1990 – não por coincidência, na mesma época em que os abutres começaram a “desaparecer”.

O diclofenaco é inofensivo para as vacas e seres humanos, mas letal para os abutres. Basta comerem a carne de um animal que tenha sido tratado com a droga até três dias antes que os abutres invariavelmente morrem de falência renal, também no prazo de dois a três dias. Neles, o diclofenaco causa gota visceral, uma doença caracterizada pelo acúmulo de cristais de ácido úrico nos rins. Só na Índia, estima-se que mais de 30 milhões de aves tenham morrido dessa forma.

Por alguma razão fisiológica não identificada, só os abutres do gênero Gyps parecem ser intoxicados pela droga. Para outras aves – incluindo outras espécies de abutres – não há problemas registrados.

Alimentação Saudável

Em resposta à crise, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção de diclofenaco para uso veterinário. Mas ainda não conseguiram erradicar a droga da cadeia de consumo (mais informações nessa página).

A lógica por trás dos “restaurantes”, portanto, é garantir uma fonte de alimento constante e livre de diclofenaco para os abutres. Além do impacto causado pela droga, a quantidade de carcaças disponíveis para os abutres diminuiu consideravelmente nos últimos anos, à medida que as pessoas passaram a enterrar ou queimar os animais mortos em vez de jogá-los no meio do mato ou na beira de rios, como se fazia antigamente. Bom para os seres humanos, do ponto de vista sanitário, mas ruim para os abutres.

“O mais comum agora é enterrarem a carcaça”, diz o biólogo Ramji Gautam, professor de zoologia no Câmpus de Prithwi Narayan, em Pokhara, onde há também um restaurante de abutres. “Com isso, sobra pouca comida para eles, já que aqui não há grandes manadas de animais selvagens dos quais eles possam se alimentar, como na África.”

Quando visitei o restaurante de Nawalparasi, no início deste mês, Chaudhary tinha 14 vacas em estoque e esperava receber mais dez nos próximos dias. Na época da reprodução dos abutres, que vai de outubro a março, o ideal é servir de uma a três carcaças por semana, segundo o naturalista. “É quando eles precisam de mais alimento.”

Chaudhary diz com orgulho que este é “o primeiro restaurante de abutres de base comunitária do mundo”, destacando os vários projetos sociais e de geração de renda que são desenvolvidos com a população local. Tão importante quanto alimentar os pássaros, diz ele, é ajudar as pessoas e educá-las sobre a importância ecológica dos abutres.

“Antigamente a gente punha veneno nas carcaças, só por diversão”, conta o agricultor Bhakta Bahadur Rana, de 62 anos, vizinho do restaurante. Quando os pássaros começaram a ficar escassos e o mau cheiro e as moscas das carcaças comeaçaram a invadir as casas, porém, a atitude da comunidade mudou. “Agora eles sabem que os abutres são nossos amigos”, afirma Chaudhary.

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AVES SÃO PACÍFICAS E BENÉFICAS AO HOMEM

“Cuidado para não assustá-los. Eles são tímidos e ficam estressados com facilidade”, avisa o veterinário Binay Shrestha, em voz baixa, à medida que nos aproximamos da gaiola. Parece estar falando de algum passarinho exótico, e não dos abutres de quase 5 quilos e 2 metros de envergadura empoleirados do outro lado da grade. Estranho. Minha impressão era de que eu deveria ter medo deles, e não o contrário.

Contrariando as crenças populares, porém, os abutres são aves pacíficas e inofensivas ao homem. Não fosse pelo fato de comerem carniça – um serviço ecológico essencial –, certamente seriam admirados como as grandes aves de rapina que são (da mesma família das águias e gaviões), e não temidos como símbolos místicos de morte e mau agouro. Especialmente porque não causam a morte de ninguém, só limpam a sujeira.

“Suas garras não são tão fortes, já que não precisam caçar nem carregar presas pelo ar”, explica Shrestha, responsável pelo Centro de Conservação e Reprodução de Abutres do Parque Nacional de Chitwan, no sul do Nepal. “Seu bico também não é dos mais fortes, e ele raramente é agressivo.”

Os abutres são oportunistas. Ficam circulando pelo ar, planando nas correntes térmicas mais altas, e quando detectam um animal descem rapidamente para se alimentar, antes que outro carnívoro chegue e os empurre para fora da mesa. Só brigam mesmo entre eles próprios, na hora das refeições. Quando ameaçados, regurgitam tudo que tiverem no estômago e voam rapidamente para longe. A fuga é seu principal mecanismo de defesa.

“As pessoas têm uma impressão totalmente equivocada desses pássaros”, diz o treinador de aves londrino Scott Mason. “Você tem de enxergar o que elas são por dentro, e não apenas julgá-las pela aparência. Os abutres têm personalidades incríveis e podem ser extrememante afetuosos.”

Mason é o inventor de uma atividade chamada “parahawking”, em que as pessoas voam de parapente acompanhadas por aves de rapina treinadas. Entre elas, dois abutres da espécie Neophron percnopterus (abutre-egípcio), de bico amarelo e plumagem branca, indiscutivelmente mais carismáticos do que o sisudo Gyps bengalensis. “São embaixadores que usamos para educar as pessoas sobre os abutres de uma forma geral”, explica Mason, que há dez anos voa quase que diariamente em Pokhara, na região central do Nepal, e viu a quantidade de abutres declinar radicalmente nesse período. Cada cliente que voa com sua equipe recebe uma palestra sobre o risco de extinção dos Gyps, e parte do dinheiro arrecadado é doado para projetos de conservação.

Apólice de Seguro

Já em Chitwan, o acesso ao Centro de Reprodução é restrito. Inaugurado em 2008 pelo governo do Nepal, em parceria com as ONGs Bird Conservation Nepal e National Trust for Nature Conservation, o centro cuida de 60 abutres-de-dorso-branco, dos quais 14 já estão em idade reprodutiva. A esperança é que no ano que vem nasçam os primeiros filhotes. E que, quatro ou cinco anos mais tarde, esses filhotes possam ser soltos na natureza, em “zonas livres de diclofenaco”.

Com as populações selvagens ainda em queda, a reprodução em cativeiro é vista como uma apólice de seguro indispensável ao futuro da espécie. Há outros quatro centros de reprodução em operação, três na Índia e um no Paquistão, com 351 pássaros em cativeiro e 36 filhotes nascidos desde 2008 (das três espécies ameaçadas de Gyps).

Os abutres-de-dorso-branco colocam só um ovo por ano, e o filhote leva de quatro a cinco anos para atingir a maturidade. São reprodutores lentos, o que os torna ainda mais vulneráveis à extinção.

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DROGA FOI PROIBIDA, MAS USO ILEGAL CONTINUA

Descobrir que o que estava matando os abutres era uma droga veterinária, e não uma doença contagiosa, foi um “alívio” para pesquisadores e ambientalistas, “pois era uma causa que podíamos eliminar”, relembra Chris Bowden, da Royal Society for the Protection of Birds.

Desde a publicação do estudo na Nature que identificou o diclofenaco como causa de morte, em 2004, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção e comercialização da droga – mas apenas para uso veterinário. O diclofenaco continua a ser produzido para uso humano, e muitos se aproveitam dessa brecha para continuar a aplicar a droga em animais. A fórmula é a mesma, só muda o rótulo.

Como substituto para uso veterinário, passou-se a indicar o meloxicam, um antiinflamatório equivalente que é inofensivo para os abutres. Convencer as pessoas a trocar de droga, porém, não tem sido fácil. O diclofenaco é barato, eficiente e tem a confiança de veterinários e fazendeiros. “É um produto testado e aprovado há vários anos”, diz Sagar Paudel, veterinário da Bird Conservation Nepal (BCN). “Por isso é tão difícil convencer a pessoas a mudar.”

Ainda mais quando a razão para mudar é proteger uma espécie que não inspira muita simpatia na população. Um dos maiores desafios de salvar os abutres é convencer as pessoas de que eles merecem ser salvos. “Todo mundo sabe que os abutres estão desaparecendo, mas nem tudo mundo os quer de volta”, reconhece Ishana Thapa, diretora de Conservação da BCN.

Preconceitos culturais e religiosos à parte, os abutres prestam um serviço ecológico essencial aos seres humanos e ao meio ambiente, alimentando-se das carcaças de animais mortos antes que elas se tornem vetores para a disseminação de doenças. Só na Índia, segundo Bowden, estima-se que os 40 milhões de abutres que existiam no país até o início da década de 90 consumiam 12 milhões de toneladas de carniça por ano.

Prognóstico Complicado

Com a proibição do diclofenaco, alguns sinais positivos começam a aparecer. “As populações não estão se recuperando, mas pelo menos o ritmo de queda diminuiu”, diz, cauteloso, o pesquisador Munir Virani, diretor de programas da organização The Peregrine Fund para o sul da Ásia e a África.

Em 2009, o governo do Nepal lançou um plano de ação de cinco anos para proteção dos abutres, com ênfase em conscientização, fiscalização e a criação de “áreas livres de diclofenaco”, onde aves selvagens ou nascidas em cativeiros possam viver sem risco de intoxicação.

Pesquisas indicam que basta uma quantidade muito pequena de diclofenaco para dizimar populações inteiras de abutres, já que centenas de aves podem se alimentar de uma mesma carcaça. Estatisticamente, ainda que só 1% das carcaças no ambiente estivesse contaminada com a droga, isso já seria suficiente para causar toda a mortandade registrada nos últimos 15 anos.

Então, todo cuidado é pouco. “Com tão poucos abutres restantes, se deixarmos um pouco de diclofenaco ‘escapar’ na natureza já poderá matar todos eles”, alerta Ishana, da BCN.

Situação Brasileira

O diclofenaco é autorizado para uso veterinário no Brasil desde os anos 1990, para aplicação em bovinos, suínos e eqüinos. A restrição é para cães e gatos, para os quais o diclofenaco é altamente tóxico, segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Os abutres Gyps não ocorrem no País e não há registro de problemas de intoxicação com urubus ou outras espécies de aves nacionais.

 

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30.novembro.2011 10:14:28

Acabo de ler na Agência Fapesp: Ricardo Brentani, diretor-presidente da FAPESP, morre aos 74 anos

Em meus 10 anos de jornalismo científico, tive o privilégio de entrevistar centenas e centenas de cientistas do mais alto escalão, tanto do Brasil quanto do exterior. Incluindo vários ganhadores do Prêmio Nobel e outras honrarias desse tipo. E posso dizer que pouquíssimos comandavam tanto respeito quanto o Dr. Brentani. Um italiano durão, de língua afiada e personalidade forte, que sempre falava o que pensava. Mas que, mesmo assim, conseguia ser uma companhia agradável e divertida. Cientista e administrador extremamente competente. E que fez MUITO pela ciência brasileira. Vou sentir falta das nossas entrevistas.

 

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Hoje foi publicada no Estadão a sexta reportagem especial da série Repórter Viajante, sobre o impacto do aquecimento global sobre as geleiras do Himalaia – um dos temas mais “quentes” e polêmicos relacionados às mudanças climáticas, por causa de um erro cometido pelo IPCC (órgão internacional de cientistas que assessora as Nações Unidas sobre esse assunto) em seu último relatório, prevendo as geleiras corriam sério risco de desaparecer até 2035.

Dizer que essa previsão era furada, foi fácil. Fazer uma previsão cientificamente consistente para corrigí-la, não foi nada fácil. A relação entre o aquecimento global e o derretimento das geleiras do Himalaia é uma história extremamente complexa (assim como todas as outras sobre as quais eu escolho escrever, por alguma razão sadomasoquista que foge à minha própria compreensão).

Depois de muita apuração, vi-me diante de um desses cenários clássicos de “copo meio cheio, meio vazio”.  Por um lado havia uma boa notícia: a confirmação de grande parte do gelo “eterno” do Himalaia parece ser mesmo eterno e que as geleiras não vão, mesmo, desaparecer – nem nos cenários mais críticos de que aquecimento da atmosfera. Por outro lado, isso não significa que as mudanças climáticas trazidas pelo aquecimento não terão impactos significativos sobre a região – especialmente sobre os povos tradicional das montanhas, que têm uma relação de sobrevivência muito íntima com a natureza. Só porque as geleiras não vão desaparecer por completo, não significa que não haja razão para preocupação.

Então, o que fazer? Abrir a matéria focando na metade meio cheia ou meio vazia do copo? Acabei optando por focar na metade meio cheia por dois motivos: 1) porque era mais “hard news” (considerando que o IPCC acaba de publicar uma correção oficial ao seu relatório e que amanhã começa mais uma reunião internacional do clima, em Durban), e 2) porque eu sou um otimista incorrigível. A metade meio vazia, porém, ganhou um texto próprio, baseado nas minhas observações pessoais e conversas com os povos locais ao longo de quase 30 dias caminhando pelas montanhas da região.

Os textos publicados estão reproduzidos abaixo, para facilitar a leitura.

Com relação ao erro do IPCC, não tive espaço para entrar em detalhes sobre porque isso aconteceu, mas quem se interessar pode ler esse artigo publicado algum tempo atrás no fórum Climate Change & The Media, da Universidade de Yale. Bastante informativo. O referido capítulo do relatório que trata das geleiras do Himalaia pode ser acessado aqui:IPCC AR4 Cap. 10.6.2 The Himalayan glaciers

Acho que o mais importante nesse caso é ressaltar que o erro do IPCC nesse caso foi um tanto grotesco, sim, mas foi um erro pontual, em um pequeno capítulo, dentro de um relatório de quase mil páginas, envolvendo milhares de fontes e trabalhos de referência. Ou seja, não invalida de maneira nenhuma as conclusões gerais da ciência relacionada ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Todo ser humano, toda empresa e toda organização comete erros: eu, você, o Estadão, a Folha, o IPCC, etc.

O importante é reconhecer esse erros e corrigí-los quando eles são detectados (e nisso o IPCC merece um puxão de orelha, pois foi bastante orgulhoso e resistente na maneira que lidou com essa situação — em especial seu presidente, Rajendra Pachauri). Uma coisa é certa: o processo de edição e revisão do próximo relatório (previsto para 2013 ou 2014) será muito mais rígido. E isso é ótimo!

Abraços a todos.

E seguem as matérias …

FOTO: A geleira do Monte Lantang Lirung, no Parque Nacional de Lantang. Uma das muitas que está derretendo rapidamente na região. (note o rastro profundo deixado pelo recuo do gelo)

HIMALAIA DIVIDIDO: ENTRE O SOL E O GELO

Assim que leu o relatório de 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) dizendo que as geleiras do Himalaia corriam “sério risco” de desaparecer até 2035, Koji Fujita sabia que algo estava errado. “Isso é loucura”, pensou o pesquisador japonês, um dos cientistas com mais experiência de campo nessa região alta e gelada do mundo. Ele sabia que a situação era ruim, mas não tão ruim assim. O problema é que nem ele nem ninguém tinha dados suficientes para dizer o que estava acontecendo de fato com a capa de gelo das montanhas naquele momento – muito menos o que viria a acontecer com ela no futuro.

Agora, passados dois anos desde que o erro no relatório do IPCC foi revelado e confirmado, no final de 2009, e um dia antes da abertura de mais uma conferência da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (a COP 17, em Durban, na África do Sul), o cenário é outro. Muitas das nuvens de desconhecimento que impediam os cientistas de enxergar o futuro das geleiras do Himalaia com um mínimo de claridade foram assopradas para longe pela força de novas pesquisas, realizadas com base em imagens de satélite, modelos computacionais e muitas horas de trabalho de campo no ar rarefeito das montanhas mais altas do planeta.

Muitas dúvidas ainda persistem, claro. Nuvens escuras e tempestuosas, adensadas por uma série de dificuldades políticas e logísticas que tornam o estudo das geleiras do Himalaia um desafio tão complexo quanto o das igualmente gélidas profundezas do oceano ou do espaço sideral. Mas um faixo de luz já se abre no horizonte, iluminando ao menos algumas conclusões sobre o estado de saúde do chamado “terceiro pólo” – a maior concentração de gelo e neve fora das regiões polares.

A principal delas é que os cientistas que acusaram o IPCC de estar errado estavam certos: as geleiras do Himalaia não vão, mesmo, desaparecer. Não todas elas, pelo menos. Nem em 2035, nem depois. Mesmo diante das previsões mais pessimistas de aquecimento da atmosfera, os dados indicam que grande parte da capa de gelo do Himalaia permanecerá à salvo do derretimento, protegida por um cobertor de ar frio que sopra permanentemente sobre seus picos mais altos. “As percepções de risco são um tanto exageradas”, avalia Fujita, professor da Universidade de Nagoya, recém-chegado de uma expedição de pesquisa às montanhas do Butão.

“As grandes geleiras não vão desaparecer, nem nos cenários climáticos mais catastróficos”, garante Arun Shrestha, do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (Icimod, em inglês), organização regional de pesquisa com sede em Katmandu, no Nepal.

Acima dos 5.400 metros de altitude, aproximadamente, a temperatura média nas montanhas do Himalaia nunca passa de zero – ou seja, é sempre congelante. Essa linha pode flutuar para cima ou para baixo de acordo com as condições climáticas, mas grande parte do gelo do Himalaia está suficientemente acima dela para garantir sua sobrevivência a longo prazo, explica Shrestha. No Nepal, metade das geleiras estão acima de 5.500 metros. Mesmo que aqui embaixo vire uma sauna, lá em cima continuará sendo um congelador. Uma rara boa notícia perdida nessa tempestade de maus presságios associados às mudanças climáticas.

O que não significa que a situação seja boa. O problema, na verdade, está mais embaixo.

MORRENDO DE CALOR

A má notícia é que muitas geleiras menores, em altitudes mais baixas, estão de fato derretendo em ritmo acelerado. Muitas já foram extintas, muitas outras deverão morrer de calor ainda nas próximas décadas, e as implicações disso para a biodiversidade e para os povos tradicionais das montanhas são enormes. “O risco maior é para as populações de altitudes médias, que dependem da água de nascentes para sobreviver”, avalia Shrestha.

As nascentes, que brotam por todos os lados nas montanhas, são abundantes, mas não são eternas. Elas são abastecidas por reservas naturais de água subterrânea que, por sua vez, são abastecidas pelo derretimento periódico de gelo e neve no topo das montanhas. Se a neve diminui e as geleiras derretem por completo, as nascentes secam. Simples assim.

Um estudo recente publicado na revista Annals of Glaciology pelo geógrafo Graham Cogley, da Universidade de Trent, no Canadá, estima que a região do “Grande Himalaia” – incluindo as montanhas associadas do Karakoram, sobre as quais flutuam as tumultuosas e altamente militarizadas fronteiras do Afeganistão, Paquistão, Índia e China – tinha aproximadamente 21 mil geleiras em 1985, contendo 4 trilhões a 8 trilhões de toneladas de gelo e cobrindo uma área do tamanho do Estado do Rio de Janeiro (43 mil km2). Desde então, Cogley estima que  um quinto dessas geleiras já pode ter desaparecido.

Outras centenas ou até milhares de geleiras poderão derreter nas próximas décadas, dependendo dos padrões de temperatura e de uma série de outros fatores climáticos, físicos e geográficos. Entre 1985 e 2010, segundo Cogley, o ritmo médio de degelo foi de 1,7% ao ano. No pior dos casos, a massa de gelo na região poderá ser reduzida entre um terço e dois terços até 2035, completa o pesquisador – fazendo, ele mesmo, a ressalva de que seus números são provavelmente “pessimistas demais”, devido às várias incertezas que permeiam os cálculos.

HOMEM VS. NATUREZA

Uma visita às montanhas do Himalaia na faixa dos 4 mil a 6 mil metros de altitude revela cenas dramáticas de geleiras em condições aparentemente mórbidas. Mesmo para um leigo que as vê pela primeira vez, parece óbvio que elas estão encolhendo. Algumas estão retrocedendo ao ritmo de mais de 50 metros por ano, segundo o Icimod. As evidências estão escancaradas nos enormes rastros de pedras trituradas que as massas de gelo deixam pelo caminho ao retroceder. Sulcos com dezenas de metros de profundidade, parecendo trincheiras cavadas por um gigante de gelo em guerra com o clima.

Segundo os cientistas, não há dúvida de que o aquecimento da atmosfera está influenciando esse degelo. Por outro lado, é preciso levar em conta que essas geleiras estão derretendo naturalmente há mais de 150 anos, desde o fim da chamada Pequena Era do Gelo, um longo período de temperaturas baixas que manteve a Terra resfriada – e as geleiras saudáveis – até 1850. Em seu trabalho, Cogley diz que as geleiras são “grandes demais para o clima atual”, e provavelmente continuariam a encolher por mais algumas décadas independentemente da influência humana sobre o clima.

“O fato de que a maioria das geleiras está em retração é um sinal claro de resposta a algum tipo de mudança climática. Se essa mudança está relacionada ao aquecimento global causado pelo homem ou a processos naturais é uma discussão em aberto”, diz o pesquisador Dirk Scherler, da Universidade de Potsdam, na Alemanha. Uma opinião compartilhada por vários cientistas ouvidos pelo Estado.

As geleiras, assim como o oceano, respondem de maneira “atrasada” às variações climáticas. Seu comportamento atual pode ser uma reação a condições climáticas de décadas atrás, assim como sua resposta às condições atuais poderá ser sentida só décadas a frente.

Outra mensagem enfatizada pelos pesquisadores é que é difícil (e frequentemente incorreto) fazer previsões generalizadas para o Himalaia. As condições geográficas e climáticas variam bastante ao longo da cordilheira, tanto no eixo vertical quanto horizontal. E as respostas dessas diferentes composições às mudanças climáticas variam igualmente ao longo do tempo e do espaço. Nas montanhas mais a oeste, por exemplo, que ficam em latitudes mais elevadas, muitas geleiras estão aumentando em vez de encolhendo.

Só a cordilheira central do Himalaia se estende por 2.400 quilômetros, do Rio Indus, no oeste, ao Brahmaputra, no leste. Mas a influência das montanhas sobre o clima, a cultura e a economia da região se estende por uma área muito maior, englobando várias outras cordilheiras e bacias hidrográficas associadas, das montanhas nevadas do Afeganistão até os desertos do Planalto Tibetano e as florestas de Mianmar.

RECURSOS HÍDRICOS

Um dos pontos mais sensíveis às mudanças climáticas na região é a conexão entre as geleiras no topo das cordilheiras e os rios que fluem pelos vales e planícies montanha abaixo. As geleiras funcionam como represas naturais, acumulando água congelada no inverno e liberando água líquida durante o verão.

A importância disso para o abastecimento humano varia de acordo com as condições climáticas, geográficas e os padrões de ocupação humana. As regiões mais vulneráveis, segundo os cientistas, estão na parte oeste do Himalaia, onde a influência das monções é menor e a dependência na água das geleiras, maior – principalmente nos meses de seca.

“O impacto (do derretimento sobre os recursos hídricos) nas regiões mais áridas poderá ser significativo”, avisa o cauteloso Fujita. Nas regiões naturalmente mais úmidas, irrigadas pelas monções, diz ele, nem tanto.

Tudo muito variável. Não é à toa que quando perguntei a Cogley o que eu veria ao caminhar pelas montanhas e observar as geleiras da região ele respondeu: “Uma grande bagunça”.

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SINAIS ILUMINADOS DE MUDANÇA CLIMÁTICA

“Isso não era para estar assim”, comenta o guia nepalês Nara Bhujel, olhando incomodado para a névoa que encobre nossa trilha a caminho do Monte Everest, no Parque Nacional do Sagarmatha, no Nepal. “Nessa época já era para o céu estar limpo.”

É 12 de novembro e estamos passando por uma floresta de cascatas semicongeladas entre as vilas de Khunde e Dhole, a quase 4 mil metros de altitude. Felizmente, foi um dos poucos dias de tempo fechado que tivemos nas duas semanas de caminhada até o Acampamento Base do Everest. Nos outros dias, céu azul e sol forte o tempo todo, com quase nenhuma nuvem no céu e paisagens incríveis despontando a cada curva nas montanhas. O que também não deixa de ser estranho. Tantos dias seguidos de tempo bom não costuma ser a regra nessa região.

Pode ter sido sorte. Pode ter sido o aquecimento global.

Na paisagem iluminada pelo sol, os sinais de mudança climática se tornam evidentes. “As montanhas costumavam ter muito mais neve. Não tinha tanta rocha exposta, assim”, diz a guia da expedição, Andrea Cardona, que já fez a trilha até o Everest 14 vezes nos últimos anos. Um comentário que eu ouvi de vários moradores locais, ao longo de um mês caminhando pelas trilhas montanhosas do Nepal.

A impressão geral entre os povos tradicionais das montanhas é de que o clima “enlouqueceu” de uns dez anos para cá. Os invernos não são mais tão frios como costumavam ser. A quantidade de neve diminuiu. A chuva não cai mais quando costumava cair. As plantas estão florescendo fora de época. E várias nascentes estão secando.

“Antes, na minha vila, a neve vinha até aqui. Agora, só vem até aqui”, afirma Bhujel, apontando primeiro para o seu joelho e depois, para o seu tornozelo. “Está tudo errado”,  resume o colega Dorji Tamang, que trabalha com expedições na região há mais de dez anos. “Não dá para prever mais nada.”

No Parque Nacional de Langtang, ao norte de Katmandu, a história é bem semelhante. Tão semelhante que os moradores parecem ter combinado suas falas. “Quando a gente planta, não chove nada. E depois que a gente colhe, chove um montão”, relata Tensing Lama, da vila de Langtang, um enclave de agricultores e mochileiros espremido entre duas fileiras de picos nevados no centro do parque, a 3.500 metros de altitude.

O resultado prático é que as plantações de batata – item básico de sobrevivência na dieta das montanhas – não se desenvolvem. E os agricultores sofrem. “Está tudo ao contrário”, afirma Lama, confuso.

“Eles não sabem necessariamente associar o que está acontecendo ao aquecimento global. Mas basta você explicar que tudo se encaixa”, diz Roshan Sherchan, da organização WWF Nepal, que desenvolve projetos sociais de adaptação às mudanças climáticas na região.

A imprevisibilidade das chuvas se encaixa com perfeição nos modelos de mudança climática, que prevêem distorções temporais nos padrões de precipitação em todo o planeta. A quantidade de água que cai do céu pode continuar a mesma, mas a periodicidade com que ela cai deverá ficar mais concentrada e esporádica, produzindo mais tempestades e menos chuvas periódicas – do tipo que os plantadores de batata precisam.

Os ventos também têm dado sinais de “loucura” em Lantang. No último inverno, moradores relatam que um vento “forte e rodopiante”, parecido com um tornado, baixou sobre a vila, arrancando os telhados de várias casas. Piemba Cho Tine, de 35 anos, conta que foi sugada de dentro de sua residência e jogada a uns 20 metros de distância. Ela, felizmente, não se machucou, mas seu marido e seu filho mais novo, de 1 ano, não tiveram a mesma sorte. Ambos morreram esmagados, debaixo de uma cama, quando o vento derrubou uma parede de pedras sobre eles.

“Tinha muita neve descendo da montanha, com pedras e pedaços de coisas rodopiando pelo ar”, conta Piemba, que agora sobrevive das doações de turistas e da pequena plantação de batatas que cultiva com a ajuda de seus três filhos sobreviventes, de sete, oito e nove anos (foto acima). “Nunca vi uma coisa dessas.” Assim como muitos moradores mais simples das montanhas, sem acesso a televisão, rádio ou internet, Piemba nunca ouviu falar de aquecimento global. Mas acha muito estranho o que anda acontecendo com o clima ultimamente.

MENOS NEVE, MENOS GELO

A algumas horas de caminhada dali, na vila de Kianjin Gumba, as bordas das geleiras que descem do Langtang Lirung, o pico mais alto do parque (7.227 metros), recuam visivelmente montanha acima. Ao olhar para elas, pensei: “Quando voltar para Katmandu vou procurar um pesquisador que possa me explicar o que está acontecendo aqui”. Mas não foi preciso.

Tshering Lama, proprietária de uma das pousadas mais antigas da vila, me deu uma explicação tão boa e convincente quanto a de qualquer cientista. “Antes, nevava no inverno, quando a terra e o ar estão mais frios, então a neve acumulava e virava gelo. Agora, neva mais tarde, quando a terra e o ar já não estão tão frios, então a neve derrete mais rápido e não vira gelo. Por isso as geleiras estão encolhendo.”

O “normal”, segundo Tshering, era nevar em dezembro e janeiro. Agora, só neva em fevereiro e março. Diferenças pequenas no calendário, mas que podem ser desastrosas para as geleiras e para a agricultura tradicional das montanhas. “A capacidade de adaptação dessas comunidades é muito limitada”, diz o pesquisador Arun Shrestha, do Icimod. “Pequenas alterações podem trazer grandes impactos.”

Enquanto prepara uma sopa de macarrão e batatas para o almoço, Tshering (foto abaixo) aponta para a face rochosa do Lantang Lirung, preenchendo quase toda a vista da janela da cozinha, e comenta, sem ser perguntada: “Quando eu era menina, ela era toda branca, sempre. Não dava para ver nada dessas rochas pretas embaixo.” É como se ela e Andrea tivessem combinado suas falas.

Pode ser coincidência. Pode ser o aquecimento global.

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06.novembro.2011 07:26:12

MENTES E PERNAS INQUIETAS

 

“The explores of the past were great men and we should honor them. But let us not forget that their spirit lives on. Today, it is still not hard to find a man who will adventure for the sake of a dream or one who will search for the pleasure of searching, and not for what he may find.”

O texto acima foi escrito por Sir Edmund Hillary, o primeiro homem a pisar no topo do Monte Everest, em maio de 1953, em parceria com o sherpa Tenzing Norgay. É o último parágrafo de uma introdução que ele escreveu em 2003 para a edição comemorativa de 50 anos de seu livro “High Adventure”, no qual ele faz um relato pessoal de como se tornou alpinista e chegou, eventualmente, ao cume mais alto e desejado do planeta.

Minha frase favorita é a última: “a busca pelo prazer de buscar, e não por aquilo que se vai encontrar“. É algo que ele escreveu certamente com exploradores e aventureiros em mente, mas que se aplica igualmente bem à filosofia de cientistas e jornalistas. Profissões que parecem muito distintas, mas que têm muito em comum na sua essência, naquilo que motiva seus instintos mais primitivos. A curiosidade insaciável, o questionamento, a busca constante pelo conhecimento e pela descoberta. A necessidade de ver, saber, conhecer e entender.

O explorador quer saber como é a vista da montanha mais alta do mundo, o que tem depois da próxima curva ou do próximo morro. O cientista quer saber como o universo funciona, como duas proteínas se encaixam ou como uma célula normal de repente se torna cancerosa. O jornalista quer saber e contar para o mundo como os exploradores e os cientistas pretendem fazer todas essas coisas. E todos queremos ser os primeiros a fazer isso. O primeiro a pisar no topo do Everest. O primeiro a descobrir a cura do câncer. O primeiro a escrever sobre isso para o resto do mundo.

Einstein disse uma vez que “imaginação é mais importante do que conhecimento”. Se não for pretensão demais da minha parte, gostaria de dizer algo que acho mais adequado: “Curiosidade é mais importante do que conhecimento”. O segundo, na verdade, é consequência da primeira. O primeiro passo para ter respostas é perguntar. Imagine só!

Abraços a todos.

 

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Uma amiga minha me recomendou esse vídeo e eu achei sensacional, então repasso a recomendação a todos aqui no blog.

Água engarrafada é algo que sempre me incomodou. Eu cresci em São Paulo bebendo água da torneira filtrada em filtro de barro. E nunca tive qualquer problema com isso. Depois, entre os 16 e 23 anos, vivi nos Estados Unidos, bebendo água direto da torneira, tanto em casa quanto em restaurantes. Até que um dia, de lá para cá, de volta ao Brasil, me dei conta de que todo mundo, inclusive eu, meu pai e minha mãe, estava bebendo água mineral engarrafada, comprada no supermercado. Mesmo sem entender muito bem como isso aconteceu, felizmente eu acordei, comprei um filtro simples de parede e voltei a beber água da torneira. Mais uma vez, sem problema nenhum.

Água é um elemento absolutamente essencial à vida. Sem água você morre, ponto, muito mais rápido do que sem comida. A única coisa que mata mais rápido do que ficar sem água é ficar sem ar. E portanto, se há uma coisa que deveria ser garantida e gratuita para todo ser humano, é água. Se você acha que seria um absurdo pagar para respirar, pense bem … pagar para beber é tão absurdo quanto. Imagine só!

Não sei como as pessoas têm coragem de pagar R$ 3, R$4, até R$ 5 por uma garrafinha de água num restaurante. Se fosse uma garrafa de 1 litro, pelo menos, ainda vá lá. Mas as que servem hoje em dia mal dá para encher um copo de requeijão. A comparação que fazem no vídeo é ótima: você pagaria R$ 2 mil por um sanduíche? Claro que não! Seria um absurdo! … Pois então, R$ 4 pode parecer pouco no seu bolso, mas se você pensar que a água deveria ser de graça, R$ 4 é uma fortuna!

Pagar pela água da torneira faz mais sentido, pois nesse caso você está pagando pelo custo do tratamento e da infraestrutura que traz a água até você, e não pela substância em si (apesar de que, pelos princípios de sobrevivência citados acima, esse serviço deveria ser gratuito também). Mas pagar para beber um copo d´água num restaurante? Tô fora! Se dependesse de mim, todos os restaurantes seriam obrigados a oferecer água filtrada da torneira aos clientes (gratuitamente), como se faz nos EUA. Quero ver se algum prefeito, governador, vereador ou deputado tem coragem de peitar um projeto de lei desses …

Abraços a todos.

 

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Ontem foi publicada no Estadão a quinta reportagem da série Repórter Viajante, sobre o conflito entre seres humanos e elefantes no Sri Lanka. Além das duas matérias principais do jornal impresso (que podem ser lidas aqui e aqui), copio abaixo alguns textos complementares, com uma discussão sobre possíveis soluções para o conflito e uma série de pequenas notas sobre alguns personagens e lugares especiais que conheci durante minha passagem de um mês pelo país.

Produzir essa reportagem foi uma aventura e um desafio incrível, e espero ter conseguido transmitir isso nos textos.

Abraços a todos.

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O problema mais grave do conflito entre seres humanos e elefantes no Sri Lanka é que parece não haver solução simples ou definitiva para ele. Seja qual for o caminho escolhido para lidar com a situação, porém, é certo que ele passará por algumas decisões difíceis. Entre elas, a mais básica e mais complicada de todas: O que fazer com tantos elefantes?

O cenário está posto: A população do Sri Lanka dobrou nos últimos 50 anos, de 10 milhões de habitantes na década de 1960 para mais de 20 milhões, hoje. Com o fim de uma guerra civil que durou 30 anos, em 2009, é provável que ela continuará a crescer. E para onde quer que cresça, vai trombar com elefantes. Estima-se que dois terços dos elefantes selvagens do país vivem “soltos” na natureza, fora de unidades de conservação. Cerca de 12% do território nacional já é ocupado por parques dedicados a esses animais. Não há espaço para a criação de novas áreas protegidas, e, mesmo que houvesse, os elefantes não aceitam ser mudados de lugar.

Em resumo: Ou os humanos encontram uma maneira de conviver com os elefantes, ou uma das espécies terá de recuar. “Não há mais hábitat vago no Sri Lanka. Todo lugar tem gente, todo lugar tem elefantes”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Os parques nacionais são suficientes para abrigar só um terço da população de elefantes. Se quisermos restringir os animais a esses parques, vamos fazer o que com os outros dois terços?”

A resposta mais radical seria sacrificar elefantes para reduzir sua densidade populacional em áreas críticas de conflito. Algo que parece absurdo, especialmente tratando-se de uma espécie ameaçada de extinção, mas já está acontecendo, de maneira muito mais cruel, à medida que elefantes são mortos ilegalmente por agricultores ou morrem de fome após serem transferidos à força para unidades de conservação.

“Estamos gastando uma quantidade gigantesca de dinheiro para cercar elefantes e condená-los à morte”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. “Se é para fazer isso, melhor sacrificá-los. Seria uma morte menos cruel, pelo menos.”

Não é o que os pesquisadores desejam. Nem é algo que seria aceito pela população. Por mais grave que seja o conflito, o elefante é um animal adorado no Sri Lanka, de grande importância cultural e religiosa. Os mesmos agricultores que envenenam ou atiram nos elefantes que invadem suas plantações fazem de tudo para ajudar um elefante que esteja machucado ou que tenham caído num poço, por exemplo. Também são os primeiros a reconhecer que são os humanos que estão invadindo o território dos elefantes, e não o contrário.

A longo prazo, dizem os especialistas, a maneira mais sensata de mediar o conflito será pelo zoneamento e ordenamento territorial, definindo áreas onde seres humanos e elefantes devem viver separados e onde as duas espécies precisam aprender a viver juntas. Uma solução complexa e difícil de ser implementada. Mas talvez a única alternativa a matar elefantes.

“Não temos mais espaço para áreas protegidas exclusivas para animais. Mas temos bastante espaço para o planejamento de áreas mistas”, diz a bióloga Manori Gunawardena, uma das cientistas mais engajadas na conservação de elefantes do Sri Lanka.

A localização dos parques atuais foi escolhida entre as décadas de 1960 e 1980, quando ainda pensava-se que os elefantes eram animais puramente florestais. Consequentemente, os parques foram criados em áreas de florestas. “O que foi ótimo para muitas espécies, mas não para os elefantes”, diz Manori. O hábitat ideal para os elefantes, diz ela, é um misto de florestas, onde eles podem se refugiar durante o dia, e áreas de vegetação mais esparsa, coberta de grama e arbustos, onde eles podem se alimentar durante a noite.

É por isso que as áreas de agricultura rotativa, ou “chena”, são tão atraentes para os elefantes, que podem se alimentar da vegetação secundária que brota nos campos que não estão sob cultivo em determinados anos. A prática de chena é ilegal no Sri Lanka (apesar de amplamente praticada), mas pesquisadores querem regularizá-la, para servir como um “meio campo” de convivência entre homens e elefantes.

Cercas elétricas fazem parte da solução, para estabelecer limites, mas têm de ser colocadas nos lugares certos, ressaltam os pesquisadores. No lugar errado, podem trazer mais problemas do que soluções. No Parque Nacional de Yala, por exemplo, elas impedem o acesso dos elefantes nos períodos de seca a áreas importantes de alimentação que ficam fora do parque. “Elefantes não entendem fronteiras administrativas, só entendem fronteiras ecológicas”, diz Weerakoon. “Estamos pensando apenas como seres humanos. Temos de pensar também como elefantes.”

Inevitavelmente, diz Fernando, as pessoas terão de aprender e se acostumar a conviver com elefantes. Muitas das mortes associadas ao conflito, segundo ele, não são causadas por ataques deliberados, mas por acidentes em que pessoas trombam com os animais, caminhando, dirigindo ou andando de bicicleta à noite sem lanternas. Ou por guardarem grãos dentro de casa, que atraem os elefantes.

“As pessoas não aceitam dividir espaço com os elefantes, por isso não tomam algumas precauções básicas para se proteger”, diz ele. “Se você ocupa uma terra onde vivem elefantes, tem de entender que haverá consequências. Se as pessoas aceitassem isso, tudo ficaria mais simples.”

Eventuais remoções de elefantes, segundo ele, devem ser focadas nos machos individuais que causam os conflitos, e não na manada inteira.

No curto prazo, cada vila e cada agricultor lida com o conflito da maneira como pode. Quem tem dinheiro, coloca uma cerca elétrica em volta da sua propriedade. Quem não tem, dorme em cima das árvores e tenta afugentar os bichos com tiros de rojão, ou de espingardas. Mais sagrado ainda do que um elefante é uma safra de arroz.

 

NÚMERO EXATO DE ELEFANTES É DESCONHECIDO

Ninguém sabe ao certo quantos elefantes selvagens há no Sri Lanka. E talvez seja melhor não saber mesmo, segundo alguns pesquisadores.

O levantamento mais recente, conduzido em agosto pelo Departamento de Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka, contou 5.879 elefantes selvagens no país, dos quais 987 são machos e apenas 122 (2%) têm presas (os chamados “tuskers”). O resultado, porém, é contestado por especialistas de fora do governo, que questionam tanto a metodologia quanto o propósito do censo.

Dezenas de cientistas e ambientalistas se recusaram a participar do estudo depois que o ministro de Vida Selvagem, S.M. Chandrasena, deu uma entrevista sugerindo que 300 elefantes seriam selecionados por meio de censo para serem capturados, domesticados e doados a templos budistas. Assim, o levantamento acabou sendo feito em grande parte por voluntários menos qualificados, como fazendeiros e soldados, em três dias de observação.

Para pesquisadores, o resultado é pouco confiável, pois é baseado numa metodologia simplista de observar elefantes ao redor de lagos e poças d´água (“water hole count”, em inglês). É muito provável que vários elefantes tenham sido contados mais de uma vez, assim como muitos elefantes podem não ter sido contados nenhuma vez. A margem de erro é grande.

“Na África você pode contar elefantes usando uma imagem de satélite. Aqui é muito mais difícil”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. Apesar do tamanho, os elefantes são capazes de se movimentar com extrema agilidade e em silêncio por vegetação densa. “Eles podem estar a 5 metros de distância e você não vai ver nem ouvir nada.”

Seja como for, o número exato pouco importa para os pesquisadores. “Não precisamos saber quantos elefantes existem, a não ser que estejamos prontos para tomar alguma decisão com relação a isso”, argumenta Weerakoon. “Caso contrário, é só uma curiosidade, sem nenhuma aplicação prática.”

Em outras palavras: Cinco mil elefantes é muito, ou é pouco? E se é muito, o que fazer com o “excesso”? “Não acho que o governo nem a sociedade estejam preparados para responder isso”, diz Weerakoon.

A avaliação geral é de que há mais de cinco mil elefantes selvagens no Sri Lanka. O direto do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, H.D. Ratnayake, disse ao anunciar os resultados que a população da espécie está “saudável e crescendo”. Outros especialistas, porém, relutam em fazer essa afirmação.

“Não digo que está saudável, nem que está doente”,  diz Srilal Miththapala, consultor do setor de turismo, que estuda a situação dos elefantes do país há vários anos. “Simplesmente não sabemos. As incertezas são muito grandes.”

“O que sabemos com certeza é que a quantidade de hábitat disponível para esses elefantes encolheu e continua a encolher rapidamente”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Isso é o que mais importa.”

O ministro mais tarde fez uma retratação e disse que foi mal interpretado pela mídia. Nenhum elefante foi capturado.

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O MISTÉRIO DOS “TUSKERS”

Uma das maiores curiosidades científicas sobre os elefantes do Sri Lanka é que apenas 5% dos machos, aproximadamente, têm presas de marfim (os chamados “tuskers”). É o inverso do que ocorre na Índia e outros países asiáticos, onde 95% dos machos são tuskers.  Ninguém sabe dizer com certeza o porquê disso, mas o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka, arrisca uma explicação. “Há poucos tuskers no Sri Lanka porque os cingaleses adoram tuskers”, diz o cientista.

O que ele quer dizer, de maneira irônica, é que a proporção é pequena porque a maioria dos tuskers foram seletivamente removidos da população selvagem ao longo de vários séculos, para serem criados em cativeiro e usados em cerimônias religiosas e outras atividades consideradas “nobres”. Também caçados por esporte (principalmente nos tempos de colônia britânica) ou exportados como animais de trabalho e de guerra (durante os períodos de colonização holandesa e portuguesa).

E como nunca houve uma tradição de reproduzir elefantes em cativeiro ou devolvê-los à natureza, os genes responsáveis pelo desenvolvimento das presas foram desaparecendo da população selvagem, a ponto de se tornarem extremamente raros. Com os tuskers (que normalmente seriam os reprodutores de maior sucesso) removidos do processo evolutivo natural, sobrou para os machos sem presas (não-tuskers) inseminarem as fêmeas e moldarem geneticamente a morfologia padrão da espécie na ilha.

O tusker da foto é um animal cativo da família Millangoda. Ao lado dele, o Sr. Millangoda, de 88 anos, e seu filho, Ananda.

 

ABAYA E O ZOOLÓGICO

O pequeno Abaya, de quase 2 anos e 300 quilos, é a sensação do Zoológico de Dehiwala, em Colombo. O elefantinho esbanja carisma e não rejeita uma banana, mas a história de como ele veio parar no zoológico é triste. Ele é um órfão, vítima do convívio tumultuoso entre seres humanos e elefantes nas zonas rurais do Sri Lanka. Abaya, sua mãe, uma outra fêmea adulta e um outro filhote foram atingidos por um trem quando cruzavam uma linha férrea próxima à vila de Kitulotuwa. Os outros 3 elefantes morreram no acidente.  Abaya foi resgatado com uma fratura na perna e enviado para o Orfanato de Pinnawela. Em abril, ele foi doado para o zoo.

Segundo a diretora-assistente da instituição, H.A. Anoma Priyadarshani, “o zoológico precisa de bebês elefantes para aumentar a visitação” e para “educar as pessoas sobre os elefantes”. “Porque todo mundo adora bebês”, justifica ela. De fato, é difícil resistir ao carisma de um elefantinho. Com Abaya, os visitantes podem chegar perto e interagir diretamente com o animal, o que não é possível com os elefantes adultos do zoológico – que passam a maior parte do tempo acorrentados, pois não há espaço ou infraestrutura adequada para mantê-los soltos, algo que é criticado por ambientalistas e pesquisadores. A instituição tem 6 elefantes adultos: 1 macho de 60 anos, chamado Banbula (enorme!), e 5 fêmeas, além de 1 elefante africano.

 

ORFANATO DE PINNAWELA

A vida em geral é boa para os elefantes no Orfanato de Pinnawela, uma das principais atrações turísticas do Sri Lanka. Fundado em 1975, com um rebanho de 5 elefantes órfãos, o orfanato tem hoje 90 elefantes – incluindo 58 fêmeas e 31 machos (3 deles “tuskers”), sob os cuidados de 40 “mahouts”, como são chamados os tratadores-treinadores. Os animais são bem alimentados (17 toneladas de vegetação consumidas por dia), passam o tempo todo livres e são conduzidos duas vezes por dia até um rio próximo, do outro lado da estrada, para se lavar e se refrescar. O caminho passa por uma rua cheia de lojas, restaurantes e pequenas fábricas de papel orgânico, produzido com as fibras vegetais das fezes dos elefantes.

Mais do que um orfanato, a instituição funciona hoje principalmente como um centro de conservação e reprodução de elefantes. Dos 90 animais que vivem lá, 69 são crias domésticas. O rebanho está cheio de bebês e jovens. Quando estive lá, no início de setembro, havia dois elefantinhos com menos de 1 semana de vida. O problema é que o orfanato está com lotação praticamente esgotada, segundo o curador-associado, Sanjaya Kumar-Ratnayake. “Noventa elefantes são o bastante por agora”, diz ele, de maneira diplomática. Tanto que há anos a instituição não recebe mais elefantes selvagens. O governo estuda uma proposta para criar um segundo orfanato, no sul do país.

 

ELEPHANT TRANSIT HOME

Desde 1995, elefantes órfãos ou doentes resgatados da natureza no Sri Lanka são enviados para a Casa Transitória de Elefantes (ETH, em inglês), onde são cuidados até terem idade suficiente para serem reintroduzidos na natureza (por volta dos 4 a 5 anos, que é a idade de desmame, quando o filhote deixa de depender do leite materno para sua nutrição). É um orfanato também, apesar de não ser chamado assim, mas com formato e objetivos bem diferentes do Orfanato de Pinnawela (que não reintroduz os animais na natureza). Aqui, o público não interage diretamente com os elefantes – apenas à distância – e os tratadores propositalmente não estabelecem relações mais afetivas com os animais, para preservar sua “natureza selvagem” .

A primeira reintrodução foi realizada em 1998, e desde então 77 animais já foram devolvidos com sucesso à natureza. Cinco deles já tiveram bebês, segundo o veterinário chefe da instituição, Vijitha Perera. Durante três anos, os animais são monitorados por meio de coleiras de rastreamento remoto. “Alguns se juntam a manadas selvagens já existentes, outros formam suas próprias manadas”, diz Perera – cujo sobrenome é uma herança da época de colonização portuguesa da ilha. O elefantinho da foto é o Vibheeshana, de seis meses, que caiu num poço quando sua manada foi afugentada por moradores numa vila próxima a Sigiriya, na região central do Sri Lanka. Os mesmos agricultores que expulsaram sua família o resgataram. Quando visitei a ETH ele estava separado dos outros elefantes e recebendo medicamentos, por causa de uma diarreia.

 

“O GRANDE ENCONTRO”

Quer ver dezenas – ou até centenas – de elefantes selvagens de uma vez só? Vá ao Parque Nacional Minneriya, no centro do Sri Lanka. Todos os dias, entre 14h e 18h, durante os meses de seca (maio a outubro),  algo entre 100 e 200 elefantes batem ponto nas lagoas do parque para beber água, se refrescar e se alimentar da grama que cresce no entorno delas. O evento, batizado como “The Gathering” (algo como “O Grande Encontro”), foi recentemente classificado pelo guia Lonely Planet como “um dos dez maiores espetáculos de vida selvagem” do mundo. Um título provavelmente merecido, que certamente deixou a indústria de turismo local bastante feliz, mas que pode ou não ser bom para os elefantes, dependendo de como esse turismo será organizado.

O Grande Encontro de elefantes já é também um Grande Encontro de turistas. O parque recebe entre 200 e 250 visitantes por dia. O que não é muito, quantitativamente falando, mas já começa a causar alguns problemas. As visitas são feitas em jipes, e não há limite para o número de jipes que podem circular pelo parque nem regras específicas sobre como eles devem se comportar diante dos elefantes. Alguns jipeiros mais “audaciosos” chegam perto demais dos animais e às vezes bloqueiam sua movimentação, ou se colocam entre adultos e filhotes. “Pode ser uma bomba relógio esperando para explodir”, diz o consultor de turismo Srilal Miththapala, associado à Câmara de Comércio do Ceilão.  Ele sugere que, com urgência, sejam definidos limites e regras de boas práticas para os jipeiros – antes que algum elefante ou turista se machuque.

Seria uma pena, pois o passeio é realmente especial, e é perfeitamente possível apreciar os elefantes sem perturbá-los.

 

OS “MENDIGOS DA CERCA”

No Parque Nacional de Udawalawe não é preciso pagar entrada para ver elefantes. Na verdade, não é preciso nem entrar no parque. Vários elefantes aprenderam nos últimos anos que ficar parado próximo à cerca elétrica que separa o parque de uma movimentada estrada marginal é uma maneira fácil de conseguir alimento. Motoristas ocasionais e vans cheias de turistas param a todo momento no acostamento para observar os bichos. Os elefantes atraem os curiosos, que atraem os ambulantes e as barraquinhas de frutas que vendem bananas, amendoins e cana-de-açúcar para dar de petisco aos animais.

Tudo muito divertido e curioso. Mas também preocupante. A única coisa separando os turistas e as barraquinhas de frutas dos elefantes é a cerca elétrica, que nem sempre está eletrificada – e, mesmo que esteja, pode ser derrubada pelos elefantes, se eles realmente quiserem ultrapassá-la. Para pesquisadores e naturalistas, é um acidente esperando para acontecer. Ou de um elefante atacar alguém, ou chegar à estrada e causar um acidente de trânsito, ou começar a invadir as comunidades vizinhas em busca de comida. Segundo a bióloga Manori Gunawardena, os elefantes (apelidados de “pedintes” ou “mendigos da cerca”) já aprenderam a relacionar o barulho da estrada com a disponibilidade de comida. “Há uma direta correlação entre o volume de tráfego na estrada e o número de elefantes junto à cerca”, diz ela. Tanto que sempre há mais animais presentes nos fins de semana e feriados.

 

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22.outubro.2011 22:34:29

AVISO

De saída para as montanhas do Nepal. Portanto o blog ficará em hibernação por pelo menos uma semana.

Abraços a todos, e até a volta.

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