FOTO: Células-tronco embrionárias humanas (as redondinhas, no alto) derivadas de embriões de embriões clonados. Crédito: Cell, Tachibana et al.
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
Cerca de dez anos atrás, o cientista sul-coreano Hwang Woo-Suk chocou o mundo duas vezes: primeiro, quando anunciou ter produzido as primeiras linhagens de células-tronco de embriões humanos clonados; e depois, quando descobriu-se que suas pesquisas eram uma fraude completa, configurando um dos maiores golpes da história da ciência. Desde então, muita gente continuou tentando fazer o que Hwang dizia ter feito, e que era o grande sonho da terapia celular – a chamada “clonagem terapêutica” –, só que sem sucesso. Até agora.
Em um trabalho publicado esta semana na revista Cell, cientistas da Universidade de Saúde e Ciências do Oregon relatam a produção dos primeiros embriões humanos clonados, dos quais foram obtidas as primeiras linhagens de células-tronco embrionárias humanas clonadas (geneticamente idênticas ao doadores) do mundo. A técnica empregada no estudo, chamada de “transferência nuclear”, é essencialmente a mesma que foi usada para clonar a ovelha Dolly em 1996, e muitos outros animais de diferentes espécies desde então. Só que com algumas modificações essenciais; entre elas, a adição de cafeína ao líquido de cultura das células.
Um feito notável, do ponto de vista científico, mas que chega tarde demais para estimular novas pesquisas com terapia celular baseadas em clonagem. “Seria um marco da biologia se tivesse sido realizado dez anos atrás”, avalia o pesquisador brasileiro Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “O trabalho é tecnicamente irrepreensível e livra o mundo do mal estar causado pelo Hwang. Dito isso, não podemos ignorar que a ciência avança rápido e que o Shoukhrat Mitalipov (autor principal do estudo), de certa forma, perdeu o bonde da história.”
O “problema” é que, nesse meio tempo, desde a descoberta da fraude coreana, uma outra técnica já foi desenvolvida para obter células-tronco humanas pluripotentes (equivalentes às embrionárias) de forma muito mais simples e sem as complicações éticas relacionadas ao uso de óvulos e embriões humanos para pesquisa.
São as chamadas células-tronco de pluripotência induzida (iPS), geradas pela reprogramação genética direta de células do paciente, sem a necessidade de revertê-las ao estágio embrionário. A técnica foi desenvolvida em 2007 pelo cientista japonês Shinya Yamanaka, e seu sucesso foi tão grande que já em 2012 –apenas cinco anos depois – ele foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina, ao lado do britânico John Gurdon, que inventou a clonagem (e consequentemente descobriu o processo de reprogramação celular) em 1962, usando sapos.
“Depois das células iPS perdeu-se muito o interesse em clonagem terapêutica”, reconhece a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo. “Imagino que com a clonagem você obtenha uma célula mais parecida com a de um embrião, mas ainda é uma técnica muito complicada. Do ponto de vista prático, as iPS são muito mais práticas e importantes para pesquisa.”
Mayana, assim como Rehen e a maioria dos cientistas no Brasil e no mundo, defenderam fortemente a continuidade das pesquisas com células-tronco embrionárias quando as iPS surgiram, argumentando que uma técnica não substituía a outra e que as células embrionárias eram o “padrão ouro” das pesquisas com terapia celular. Eventualmente, porém, também migraram para a nova técnica, que consiste em adicionar quatro genes ao genoma de uma célula adulta para transformá-la em uma célula pluripotente, com capacidade de se transformar em qualquer tipo de tecido.
“A vantagem de simplicidade das iPS é insuperável”, diz a pesquisadora Lygia Pereira, também da USP. “Na clonagem, a reprogramação da célula é uma caixa preta; você faz a transferência nuclear e espera o resultado. O que o Yamanaka fez foi descobrir o ‘abracadabra’ dessa caixa preta, e ele é muito mais simples do que a gente poderia imaginar.”
As pesquisas com células-tronco embrionárias — até agora derivadas apenas de embriões congelados em clínicas de fertilidade — continuam sendo feitas (veja reportagem Células-tronco: Promessa renovada). As células embrionárias “originais” são modelos importantes de pesquisa básica sobre desenvolvimento celular e embrionário e ainda são, de fato, o “padrão ouro” de pluripotência que as células iPS buscam copiar para eventuais aplicações terapêuticas. Como ferramenta básica de pesquisa, porém, as iPS são as mais usadas atualmente.
Cafeína neles. O “abracadabra” descoberto agora pelo grupo do Oregon para fazer a clonagem funcionar inclui algumas modificações pontuais – porém essenciais – ao processo tradicional de transferência nuclear. Entre elas, a remoção prévia, além do núcleo do óvulo, de uma estrutura celular chamada spindle, e a adição de cafeína ao meio de cultura das células. Não se sabe porquê, mas a fusão e a reprogramação das células funcionou muito melhor quando elas foram expostas a cafeína durante o processo.
A eficiência da técnica, no final, foi surpreendentemente alta. Em um experimento, eles conseguiram produzir quatro linhagens de células-tronco de oito óvulos. Em outro, essa proporção foi de 2 para 20 (ainda alta). A diferença, segundo os pesquisadores, parece estar relacionada à qualidade dos óvulos das doadoras, que pode ser influenciada por fatores genéticos e pelos procedimentos de superovulação e coleta. As quatro primeiras linhagens são de óvulos de uma mesma mulher.
Os resultados mostram, segundo os pesquisadores, que não é necessário um número tão grande de óvulos para obter linhagens, algo que era motivo de preocupação para uma eventual aplicação da técnica em grande escala na ciência e na medicina.
Testes complementares comprovaram que as células-tronco derivadas dos embriões clonados são pluripotentes, com uma capacidade de diferenciação equivalente à de células-tronco extraídas de embriões “verdadeiros”, produzidos por fertilização in vitro. A proposta seria usar essas células para produzir tecidos específicos, como células cardíacas, hepáticas e neurônios, para uso no tratamento de uma série de doenças e lesões. A vantagem é que, por serem clonadas, geneticamente idênticas ao paciente, não haveria risco de rejeição.
As células da pele usadas para clonagem no estudo não eram de pessoas adultas, mas de origem fetal.
FOTO: Embriões humanos clonados. Crédito: Oregon Health & Science University/via Reuters
Procedimento não é permitido no Brasil
Uma pesquisa igual à que foi feita no Oregon não poderia ser realizada no Brasil. A clonagem de embriões humanos é proibida no País. A Lei de Biossegurança permite pesquisas com células-tronco embrionárias humanas, mas apenas quando elas são obtidas de embriões congelados, produzidos por fertilização in vitro em clínicas de reprodução humana.
A lei foi aprovada em 2004, em meio a uma acalorada discussão nacional sobre a ética de se usar embriões humanos em pesquisa. As células-tronco são extraídas do embrião quando ele é ainda uma esfera microscópica, com apenas cinco dias de desenvolvimento, mas muitos já consideram isso um ser humano – mesmo que ele tenha sido produzido por clonagem, sem uma fertilização propriamente dita.
Até essa pesquisa do Oregon, ninguém tinha conseguido produzir um embrião humano clonado com mais do que oito células. Para se extrair as células-tronco, ele precisa chegar a mais de cem, no estágio conhecido como blastocisto.
Teoricamente, se esse embrião clonado, em vez de ser destruído para obtenção das células, fosse colocado no útero de uma mulher, ele poderia, eventualmente, produzir uma gestação e dar origem a um bebê clonado. Funciona com várias outros animais (incluindo macacos), mas não se sabe se funcionaria com seres humanos. Há várias leis nacionais e até internacionais que proíbem a clonagem de pessoas e, até onde se sabe, ninguém desafiou essas leis até agora.
As organizações Conservação Internacional (CI) e União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) lançaram o terceiro volume da série Mamíferos do Mundo (um “handbook” com 952 páginas), com fotos, ilustrações e descrições das 479 espécies de primatas conhecidas no planeta. A publicação é da editora Lynx.
A foto da capa (incrível!) dá a entender que a coisa é séria … Tô curioso para saber se incluíram o Homo sapiens na lista.
Notícia que eu sei interessa a muita gente na comunidade científica …
FAPESP anuncia 17 novos CEPIDs com investimentos de US$ 680 milhões
Por Claudia Izique
Agência FAPESP – A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) divulgou os 17 novos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs). Os Centros, que reúnem 535 cientistas do Estado de São Paulo e 69 de outros países – na condição de pesquisadores principais ou associados –, serão custeados pela FAPESP e pelas instituições-sede por meio de financiamento de pesquisadores, pessoal técnico e de apoio e de investimentos em infraestrutura, por um período de 11 anos.
O investimento total estimado é de US$ 680 milhões, sendo US$ 370 milhões da FAPESP e US$ 310 milhões em salários pagos pelas instituições-sede aos pesquisadores e técnicos. Os Centros contarão ainda com fundos adicionais aportados por indústrias parceiras e por outras agências de fomento à pesquisa. Trata-se de um dos maiores investimentos em programa de pesquisa apoiado por agência de fomento já anunciados no Brasil.
As 17 propostas aprovadas envolvem os seguintes temas de pesquisa: alimentação e nutrição; vidros e cerâmica; materiais funcionais; neurociência e neurotecnologia; doenças inflamatórias; biodiversidade e descoberta de novas drogas; toxinas, resposta imune e sinalização celular; neuromatemática; ciências matemáticas aplicadas à indústria; obesidade e doenças associadas; terapia celular; estudos metropolitanos; genoma humano e células-tronco; engenharia computacional; processos oxidantes e antioxidantes em biomedicina; violência; óptica, biofotônica e física atômica e molecular.
Mais informações neste link.
FOTO: Sala onde está sendo guardada uma parte original da coleção de cobras (no canto), junto com novos espécimes que foram adicionados à coleção nos três anos desde o incêndio. Crédito: Herton Escobar/ESTADÃO
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
Três anos após o incêndio que destruiu o prédio das coleções biológicas do Instituto Butantan, os milhares de exemplares de cobras e aranhas que foram resgatados das chamas permanecem acondicionados em ambientes provisórios e, em alguns casos, inadequados, tanto para a preservação do acervo quanto para o trabalho dos pesquisadores que perderam seus laboratórios.
Um novo prédio, projetado especificamente para receber as coleções, já está pronto, mas ainda não foi inaugurado. Enquanto isso, os pesquisadores da Herpetologia (a ciência que estuda répteis) continuam a trabalhar em uma casinha antiga, próxima ao prédio da diretoria do instituto, em condições precárias.
Por falta de espaço, uma parte da coleção que foi resgatada do incêndio fica amontoada do lado de fora da casa, numa varanda coberta (garagem), porém exposta ao sol, à chuva e à sujeira. Outra parte está guardada no canto de um porão úmido e cheio de fungos nas paredes, junto com os cerca de 6 mil animais que foram recebidos pelo instituto e adicionados à coleção nos últimos três anos, desde o incêndio. As prateleiras estão lotadas.
“Nossas condições de alojamento são bastante precárias”, disse ao Estado o biólogo Francisco Franco, curador da coleção de répteis. Tanto que, até hoje, não foi feita uma triagem para saber o que de fato foi perdido e o que foi salvo no incêndio. “Assim que tivermos um espaço adequado vamos fazer esse levantamento bem detalhado”, promete ele.
Sua estimativa é que cerca de 80% da coleção de cobras foi perdida. O acervo era um dos maiores do mundo, com cerca de 85 mil exemplares de centenas de espécies coletadas ao longo dos 120 anos do instituto.
A maior parte do que foi salvo do incêndio está num outro prédio, conhecido como “fazendinha”. O diretor substituto do Butantan, Marcelo De Franco, reconheceu que as condições não são ideais, mas disse que elas atendem às necessidades básicas de segurança para manutenção provisória do acervo.
O prédio novo, segundo ele, “já está pronto”. “Queremos entrar lá em julho, no mais tardar”, disse ele. O projeto é da Secretaria de Estado da Saúde, pasta do governo estadual à qual o Butantan é vinculado.
Segundo o diretor da Divisão de Engenharia e Arquitetura do instituto, Mauricio Meros, o projeto já foi aprovado pelo Corpo de Bombeiros, faltando apenas realizar o treinamento dos brigadistas que trabalharão no prédio e alguns testes de comissionamento dos sistemas anti-incêndio.
Franco, o curador, está ansioso para ocupar o prédio, que é maior e muito mais moderno do que o anterior – que era, essencialmente, um galpão improvisado. “Finalmente teremos instalações adequadas para nossas coleções”, disse. “Infelizmente demorou um pouco mais do que a gente esperava. Prometeram entregar o prédio em um ano; já passaram três.”
Segundo De Franco, o diretor substituto, o atraso foi “por conta da licitação da parte de segurança” do prédio, que terá sistemas sofisticados de prevenção e combate a incêndios – o que não existia nas instalações anteriores, nem dentro nem fora do prédio.
Segundo informações da Secretaria de Saúde o prédio tem 1,6 mil metros quadrados, com dois andares, e custou R$ 5,5 milhões, incluindo os equipamentos e sistemas de segurança. A área onde ficarão as coleções é totalmente isolada dos outros ambientes, e o acervo ficará dividido em sete salas também isoladas umas das outras, para evitar uma perda total em caso de acidente. Cinco salas, de 50 m², abrigarão as coleções de herpetologia e artrópodes (aranhas e escorpiões); outras duas, de 20 m², abrigarão coleções de insetos e banco de tecidos.
“É um prédio muito bem pensado, tanto pelos engenheiros quanto pelos curadores”, elogiou Franco.
A reportagem do Estado foi ao Butantan ontem e pediu para conhecer o interior do prédio, mas o instituto informou que o prédio estava trancado e não havia ninguém com chave para abri-lo no local, porque o projeto é da Secretaria de Estado de Saúde e o prédio ainda não foi oficialmente entregue ao Butantan.
Para entender: As coleções de Zoologia são como bibliotecas biológicas, que os cientistas usam como referência para registrar e estudar a biodiversidade. Os animais coletados são injetados com formol e preservados em vidros com álcool, que precisa ser reposto periodicamente por causa da evaporação. Tipicamente, são preservados vários exemplares de cada espécie, para representar todas as variações morfológicas que podem existir dentro delas (imagine, por exemplo, fazer uma amostragem da espécie humana: um único indivíduo não seria representativo de todas as variações fenotípicas que existem entre os Homo sapiens; seria necessário coletar indivíduos de várias cores, alturas, idades, regiões, etc).
FOTO: Parte externa do novo prédio que vai abrigar as coleções. Crédito: Herton Escobar/Estadão
FOTO: Outra parte da coleção, mantida numa parte externa da casa. Crédito: Herton Escobar/Estadão
Responsabilidades sobre o incêndio ainda não foram totalmente esclarecidas
As causas e as responsabilidades sobre o incêndio ocorrido em 15 de maio de 2010 ainda não foram totalmente esclarecidas.
A investigação do Instituto de Criminalística (IC) da Secretaria de Segurança Pública concluiu em março de 2011 que o incêndio foi acidental, causado pelo superaquecimento de uma pedra de calor usada para aquecer terrários de répteis. Apesar desse laudo, o Ministério Público Estadual interpretou o incêndio como culposo e apontou cinco pessoas como responsáveis, incluindo dois diretores, um engenheiro e dois pesquisadores. (Nota do MP sobre a denúncia)
Aos acusados foi oferecido um acordo para suspensão do processo, mas eles não aceitaram. Consequentemente, em março deste ano, foram denunciados pela promotora Eliana Passarelli e terão de responder a processo na Justiça. “Eles preferiram discutir o mérito, então vamos discutir”, diz Eliana, que considerou que os denunciados foram irresponsáveis e negligentes no exercício de suas funções, criando uma situação de risco que acabou resultando no incêndio.
Os denunciados são Otávio Mercadante (então diretor-geral do Instituto Butantan), Ricardo Braga de Souza (então diretor administrativo), Carlos Correia (engenheiro responsável pela manutenção dos prédios), Otavio Marques e Selma Santos (pesquisadores).
O Estado conversou ontem com Marques e Selma, ambos do Laboratório de Ecologia e Evolução, que fica num prédio em frente ao que pegou fogo. Segundo o laudo do IC, a pedra de calor estava numa sala emprestada do mezanino do prédio (construído de maneira irregular, sem alvará) que era ocupada provisoriamente por eles para manter cerca de 15 cobras vivas, por conta da falta de espaço no próprio laboratório.
Ambos negam qualquer culpa no incêndio. Segundo eles, se havia alguma pedra de calor no prédio, não era deles. “Nunca usamos essas pedras no nosso laboratório”, afirma Marques. “Estou aqui há 22 anos e nunca tinha visto uma pedra dessas”, diz Selma.
Os aparelhos são, na verdade, uma imitação de pedra com uma resistência dentro, que é ligada por fio a uma tomada para produzir calor e ajudar os répteis (animais de sangue frio) a manter sua temperatura corporal. Elas são tipicamente usadas em aquários com terra (terrários), como os do Museu Biológico do instituto, que é aberto ao público. Os animais do laboratório, porém, são mantidos em caixas de plástico duro transparente, com papelão no fundo para coletar os dejetos do animal. “Imagina se a gente colocaria uma pedra quente dentro disso”, questiona Selma.
O laudo do IC traz imagens de fragmentos que seriam da pedra e de resistências carbonizadas, do tipo bastão, como as que se usa tipicamente em ambientes aquáticos (por exemplo, para manter a temperatura da água de aquários). Todo o ambiente do prédio era de altíssimo risco para incêndios, já que os animais da coleção eram mantidos em vidros com álcool e havia um depósito de álcool também nos fundos.
Marques e Selma contam que mantinham na sala um aquecedor (ventilador de ar quente), mas que ele raramente era ligado, porque o ambiente no mezanino já era extremamente quente. “Era um inferno lá dentro, porque ficava muito próximo do teto. Todo mundo reclamava”, relata Selma. Para combater o calor, foram instalados aparelhos de ar condicionado nas salas, mas, segundo ela, “sempre que alguém ligava o ar caía o disjuntor”.
Vários pesquisadores relatam que as instalações elétricas do prédio eram precárias. “Tinha vezes que ficava duas semanas sem luz”, afirma Selma.
O mezanino, com piso de madeira, foi construído de maneira irregular, sem as devidas autorizações da Prefeitura — justificativa, segundo o Ministério Público, para incriminar os dois diretores e o engenheiro do instituto. Otávio Mercadante, o ex-diretor geral, foi procurado ontem pela reportagem, mas não quis se pronunciar.
Segundo o curador da coleção de cobras, Francisco Franco, cuja sala ficava embaixo do mezanino, a construção do piso superior foi “fruto de uma eterna luta por espaço”. “Quando não há espaço suficiente, acaba-se ocupando espaços de forma inadequada”, disse ontem ao Estado.
Marques e Selma dizem que estavam usando a sala no mezanino do prédio das coleções porque havia duas pessoas do Laboratório de Herpetologia usando um espaço no seu laboratório (do prédio em frente), e eles precisavam abrir espaço para um lote de cobras que estava para chegar. “Dissemos à Herpetologia que precisávamos do espaço e eles nos ofereceram a sala no mezanino como solução”, afirma Marques. As cobras estavam lá há cerca de dois meses quando o prédio pegou fogo.
O atual diretor substituto do Butantan, Marcelo De Franco, disse ontem que obra irregular é “algo inconcebível, que não se explica”. “Uma das primeiras coisas que o novo diretor (o médico Jorge Kalil) disse quando assumiu o instituto é que não vai ter mais ‘puxadinho’”, disse. “Estamos fazendo reparos em vários prédios.”
Churrasco. Segundo o inquérito, na noite anterior ao incêndio (que foi detectado por volta das 7h) houve uma festa com churrasco no fundo do prédio, que teria durado até a madrugada. A churrasqueira ficava do lado de fora, mas as pessoas entravam no prédio para usar os banheiros, transitando pela coleção. “Fizemos uma comemoração, mas foi fora do prédio. Nunca houve contato de qualquer fonte de calor com o prédio”, garante o curador Franco.
A promotora Eliana não considerou o churrasco um fato preocupante. “Foi fora do prédio; não aconteceu nada”, disse. “O laudo não deixa dúvidas sobre as causas do incêndio.”
“Quem responde pelo prédio é a administração direta, e quem fez mau uso das instalações foram os dois pesquisadores do outro laboratório”, justifica a promotora. “Estava tudo errado lá. A obra do mezanino era irregular e aquela sala era um escritório para ser ocupado por pessoas, não por animais.”
FOTO: Como era a coleção no prédio antigo, em foto de 2009, antes da instalação de armários compactadores, feita no início de 2010 (pouco antes do incêndio). Crédito: Marcelo Duarte
FOTO: Cena da destruição causada pelo incêndio no interior do prédio, em 15 de maio de 2010. Crédito: Marcio Fernandes/Estadão
FOTO: Observatório Mauna Loa, da NOAA.
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera ultrapassou pela primeira vez (talvez em alguns milhões de anos) a marca de 400 partes por milhão (ppm), vista como um limite emblemático do fracasso dos esforços globais de controlar as emissões do principal gás relacionado ao aquecimento global e às mudanças climáticas.
O anúncio foi feito hoje (10 de maio) pela NOAA, a agência de ciências oceânicas e atmosféricas dos Estados Unidos, que monitora a concentração desde 1958, de um observatório na ilha do Vulcão Mauna Loa, no Havaí, a 3,4 mil metros de altitude. Ontem, a concentração média diária registrada pelos instrumentos do observatório ultrapassou 400 ppm pela primeira vez, fechando o dia em 400,03 ppm.
Antes da Revolução Industrial, no século 19, a concentração era de aproximadamente 280 ppm. Desde então, segundo a NOAA, esse número tem aumentado a uma taxa cem vezes maior do que no fim da última Era Glacial. Segundo a reportagem do jornal The New York Times, estudos científicos indicam que essa concentração é a mais alta dos últimos 3 milhões de anos.
Segundo os cientistas, não há dúvida de que o aumento é causado por emissões resultantes de atividades humanas – principalmente da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão mineral, que emitem grandes quantidades de CO2. A meta da ONU é impedir que a concentração passe de 450 ppm, que é considerado o limite de segurança para evitar mudanças climáticas mais catastróficas. No ritmo atual, esse patamar deverá ser alcançado nos próximos 25 anos, segundo o pesquisador Ralph Keeling, do Instituto Scripps de Oceanografia, em entrevista ao NYT.
O Scripps também monitora as concentrações de CO2 atmosférico e também registrou a quebra da marca de 400 ppm ontem.
Ralph é filho de Charles Keeling, o pesquisador que deu início ao monitoramento de CO2 em Mauna Loa em 1958 e continuou a realizá-lo até sua morte, em 2005. O trabalho, agora conduzido por Ralph, é representado por um gráfico que ficou conhecido como “curva de Keeling”, que mostra a evolução das concentrações atmosféricas de CO2 ano a ano ao longo das últimas cinco décadas.
Desaceleração (temporária?). Vários estudos indicam que há uma relação direta entre a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e a temperatura média do planeta, porque o gás funciona como um “cobertor” que aprisiona calor na atmosfera, contribuindo para o chamado efeito estufa. Curiosamente, porém, apesar de as concentrações continuarem a crescer, o ritmo de aumento da temperatura na última década (2000-2010) foi mais lento do que nas décadas anteriores de 1990 e 1980 – um fenômeno batizado de “hiato do aquecimento”.
“Isso mostra que o CO2 não é a única variável que afeta a temperatura do planeta”, disse ao Estado a pesquisadora Maria Assunção da Silva Dias, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP). O fato de a marca de 400 ppm ter sido ultrapassada nesse momento de hiato, segundo ela, sugere que a relação entre dióxido de carbono e temperatura não é tão rígida quanto se imaginava. “Significa que o sistema é mesmo muito complexo, que há muitas coisas acontecendo dentro dele.”
A desaceleração do aquecimento nos últimos anos pode estar relacionada a fatores como a concentração de materiais particulados na atmosfera, que refletem radiação solar e podem exercer um pressão oposta à do CO2, além de uma menor intensidade de atividade solar e outros fatores que precisam ser melhor estudados e incorporados aos modelos de previsão climática. Pesquisadores da Universidade do Colorado em Boulder, por exemplo, atribuem o hiato a erupções vulcânicas ocorridas na última década, que lançaram grandes quantidades de dióxido de enxofre (SO2) na atmosfera (o dióxido de enxofre reage com outros elementos na atmosfera, produzindo partículas de ácido sulfúrico e água, que refletem a luz solar de volta ao espaço).
O que não quer dizer, ressalta Assunção, que a relação entre o CO2 e o aquecimento global é falsa. Segundo ela, trata-se de um ciclo, perfeitamente compatível com as oscilações naturais de temperatura do planeta. “Uma hora esse ciclo vai acabar e a temperatura voltará a subir como estava subindo nas décadas anteriores”, diz.
A mensagem mais preocupante do anúncio da NOAA, segundo ela, é que as concentrações de CO2 continuam a subir, apesar de todos os alertas da ciência sobre os perigos do aquecimento global. “As emissões continuam a subir a todo vapor, e não parece que nós, como sociedade, teremos condições de segurar isso”, diz.
Foto: Antenas do observatório ALMA, inaugurado no início deste ano. Crédito: ESO/José Francisco Salgado (josefrancisco.org)
Herton Escobar / O Estado de S.Paulo
O maior projeto da história da astronomia brasileira está nas mãos do Legislativo. Dois anos depois de ter sido assinado pelo ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sergio Rezende, o acordo de adesão do País ao Observatório Europeu do Sul (ESO) chegou ao Congresso para ratificação.
O ESO é o maior consórcio de pesquisa astronômica no mundo, formado por 14 países europeus, com vários telescópios e radiotelescópios de última geração instalados no topo dos Andes Chilenos. O contrato de adesão, no valor de R$ 565 milhões em dez anos, faria do Brasil o primeiro membro de fora da Europa e daria a astrônomos brasileiros acesso pleno a todas as instalações do grupo, além de permitir a participação do País na construção do maior telescópio no mundo, o Telescópio Europeu Extremamente Grande (E-ELT), prevista para começar no fim deste ano.
“O encaminhamento do acordo ao Congresso Nacional reafirma o apoio dado pelo governo brasileiro ao setor de astronomia no Brasil”, afirma o secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luiz Elias, em uma carta enviada à presidência da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) em 18 de março.
O projeto foi encaminhado pela Casa Civil ao Congresso há mais de dois meses, em 19 de fevereiro, mas isso não foi anunciado publicamente. O texto deverá passar por quatro comissões no Congresso. A primeira é a de Relações Exteriores e Defesa Nacional, na qual o deputado Emanuel Fernandes (PSDB-SP) atuará como relator. Não há prazo específico para que o Brasil ratifique o acordo, mas o cronograma de construção do E-ELT exigirá agilidade dos parlamentares, caso o Brasil queira fazer parte do projeto – não apenas como usuário científico, mas como construtor e fornecedor de tecnologia. O projeto é orçado em $ 1 bilhão.
O acordo é polêmico. A maior parte da comunidade científica o apoia, mas há pesquisadores que consideram o projeto caro demais, desigual e até desnecessário para a astronomia nacional, que já tem acesso (direto ou via colaboração) a esses e outros telescópios de ponta.
Para os defensores da adesão, é uma oportunidade que o Brasil não pode perder. “A adesão do Brasil ao ESO nos colocará no topo das pesquisas em astronomia no planeta, assegurando-nos ao mesmo tempo participar em colaborações científicas e industriais avançadas, com grandes vantagens para o País”, diz a presidente da SAB, Adriana Válio, do Centro de Radio Astronomia e Astrofísica Mackenzie, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“É impossível ser competitivo com acesso a pouquíssimos instrumentos – e a maioria de baixa performance – como é essencialmente a nossa situação atual”, diz a pesquisadora Beatriz Barbuy, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.
Desenho do projeto do E-ELT. Crédito: ESO
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo / Rio
“As empresas brasileiras não inovam porque não precisam.” Assim o empresário Pedro Passos, co-fundador e presidente da Natura, resumiu a mensagem de sua palestra ontem para uma pequena, porém extremamente seleta, audiência de pesquisadores na Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Centro do Rio.
Passos fazia parte de uma mesa de cientistas e empresários, reunidos para debater os desafios de estimular a pesquisa e desenvolvimento (P&D) para inovação tecnológica nas empresas brasileiras. Segundo Passos, não há estímulo nem necessidade para fazer inovação no Brasil, porque a maioria das indústrias nacionais ou vivem de exportar matérias-primas ou vendem seus produtos somente para o mercado interno, no qual a competitividade é baixa.
“Quem não disputa mercado internacional tem mercado cativo em casa, o que faz com que a empresa não precise inovar”, disse. “No mercado nacional há mais incentivos, o risco é menor, o apetite de inovação é menor, e a empresa pode oferecer um produto de qualidade inferior. Esse é o quadro.”
“Se o Brasil quiser ser mais inovador, tem de abrir suas fronteiras e entrar no mercado global (de tecnologias)”, completou Passos. “Não tem nada errado em ser um exportador de commodities; porém, isso é insuficiente para completar o desenvolvimento que queremos para o País. Fazer mais do mesmo não vai funcionar.”
Outro palestrante, Bernardo Gradin, ex-presidente da Brasken e atual presidente-fundador da GranBio, apontou vários gargalos legais e regulatórios que dificultam a prática da inovação. “Ainda compensa copiar no Brasil, porque o ambiente não protege quem cria”, disse. “Precisamos de melhores políticas públicas para proteger o conhecimento e incentivar a inovação no País.”
Em vez de jogar a culpa toda no governo, porém, Gradin chamou a responsabilidade para o setor e disse que cabe às próprias empresas trabalhar para reverter esse quadro. “Não podemos deixar mais um cavalo selado passar; temos de contribuir para que o modelo regulatório se transforme.”
Corais de profundidade (770 m) e anêmona com caranguejo (920 m) na Elevação do Rio Grande.
Cientistas trazem imagens inéditas da vida e da geologia nas profundezas do Atlântico Sul
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
Rio de Janeiro*
Pesquisadores brasileiros e japoneses apresentaram ontem os primeiros resultados da expedição que realizou os mergulhos mais profundos já executados no Atlântico Sul. A bordo do minissubmarino Shinkai 6500, da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec), eles desceram a mais de 4 mil metros em dois pontos distantes da costa brasileira, trazendo imagens inéditas da biologia e da geologia que compõem os ecossistemas de alta profundidade nessa região do planeta, nunca antes explorada cientificamente.
“A expedição foi um sucesso”, comemorou o biólogo brasileiro Paulo Sumida, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), um dos quatro brasileiros que tiveram o privilégio de mergulhar com o Shinkai nesta primeira etapa da viagem. O navio Yokosuka, no qual eles viajavam, chegou no domingo ao Rio, após duas semanas de pesquisa em alto-mar. (leia a primeira reportagem para saber mais detalhes do projeto)
Pelas janelas e câmeras do Shinkai, os pesquisadores avistaram uma série de organismos que vivem nas profundezas escuras do oceano brasileiro, incluindo peixes, polvos, camarões, caranguejos, anêmonas pepinos do mar e corais.
Foram realizados sete mergulhos: cinco na Dorsal de São Paulo, um grande paredão submerso no borda da plataforma continental do Sudeste, e dois na Elevação do Rio Grande, uma enorme chapada totalmente submersa a 1,5 mil quilômetros da costa do Rio, com montanhas que se elevam cerca de 4 mil metros acima do assoalho marinho, já em águas internacionais.
O plano original era fazer a maioria dos mergulhos nessa Elevação, mas o mau tempo na região obrigou o navio a seguir primeiro para a Dorsal de São Paulo e realizar a maior parte dos mergulhos por lá. Foi onde Sumida realizou o primeiro mergulho, por exemplo, a 4.200 metros de profundidade (leia um relato do pesquisador enviado ao blog na ocasião).
Tudo foi filmado e várias amostras de organismos, rochas e sedimentos foram trazidos de volta à superfície para estudo.
Para a geologia, um dado importante foi confirmar que a base geológica da Elevação do Rio Grande, assim como do Rio de Janeiro, é de rocha granítica – um tipo de rocha que só se forma na superfície – o que é um forte indicativo de que a Elevação esteve conectada ao continente num passado distante, apesar de hoje estar separada dele por mais de 1 mil km de oceano. Diferentemente de elevações como a do Arquipélago de Fernando de Noronha, por exemplo, que tem origem vulcânica.
Pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) até brincaram, dizendo ter descoberto a “Atlântida brasileira”. A expectativa do CPRM é que a Elevação possa ser uma lasca de continente que se “perdeu” quando a América e a África se separaram, há cerca de 200 milhões de anos, criando o espaço que hoje é ocupado pelo Oceano Atlântico.
Amostras de rochas da Elevação coletadas pelo CPRM por meio de dragagens no ano passado já mostravam a presença do granito, mas faltava uma verificação direta para confirmar a descoberta. Segundo Roberto Ventura Santos, diretor de geologia e recursos minerais do CPRM, o próximo passo é fazer perfurações para obter mais amostras e fazer mais análises. “Se encontramos um continente no meio do oceano, será uma descoberta muito grande, que pode ter várias implicações em relação à extensão da plataforma continental”, disse.
A Elevação do Rio Grande está em águas internacionais (fora da jurisdição do Brasil, por enquanto), mas o País pleiteia junto à ONU o direito de explorar as riquezas minerais do local. Se for possível demonstrar que ela tem uma conexão histórica com a costa brasileira, isso poderia ter implicações geopolíticas significativas para o País.
As imagens captadas com o Shinkai no topo da Elevação também mostraram grandes depósitos de areia de quartzo a quase mil metros de profundidade (foto acima), o que surpreendeu os pesquisadores.
“É como se você estivesse olhando para uma praia aqui no Rio”, disse ao Estado o presidente da Jamstec, Asahiko Taira, que veio ao Brasil para ver a apresentação dos resultados e reforçar a parceria com o País. “Temos que explicar como isso é possível.” Uma possibilidade, segundo ele, é que essas “praias” tenham sido formadas pela erosão do granito pelas correntes marítimas, assim como ocorre com o vento na superfície. “Nunca vi uma formação como essa”, completa Taira, ressaltando que ainda é preciso olhar as amostras geológicas em maior detalhe para afirmar qualquer coisa.
Limites da Vida. O objetivo principal da expedição, parte de um projeto global da Jamstec chamado Busca pelos Limites da Vida (Quelle 2013), era procurar por ambientes chamados quimiossintéticos, baseados em microrganismos que sobrevivem totalmente isolados da luz solar, alimentando-se diretamente de substâncias químicas que “exalam” do subsolo oceânico ou crescendo sobre carcaças de baleias que afundam depois de morrer.
Alguns ambientes desse tipo foram encontrados, segundo o Estado apurou, mas os detalhes são mantidos em sigilo por enquanto, para não prejudicar a publicação científica dos dados mais adiante.
Seja como for, as imagens preliminares apresentadas ontem no Rio de Janeiro já representam um marco para a oceanografia brasileira e internacional, considerando que nunca foram realizados mergulhos antes a essa profundidade nesta região. “O Atlântico Sul é uma grande fronteira inexplorada das ciências marinhas”, disse o cientista chefe da expedição, Hiroshi Kitazato. “Tudo que a gente viu é novidade.”
“Encontramos uma grande diversidade de organismos”, comemorou Kitazato. Apesar de não ser uma diversidade tão grande quanto a do mar profundo do Japão (que é um dos maiores hotspots de biodiversidade marinha do mundo), ele disse que foi interessante ver como a composição da fauna variava de acordo com as diferentes camadas de água, à medida que o Shinkai descia. “O povo brasileiro tem muita sorte de ter esses ambientes no seu país”, disse.
O Yokosuka fica no Rio até sexta-feira. A segunda pernada da expedição será sobre a Bacia de Santos, entre Rio e São Paulo.
*Em colaboração com Giovana Girardi, de São Paulo.
FOTOS: Peixe e camarão de profundidade (mais de 4 mil metros) na Dorsal de São Paulo.
MAPA: Simulação do padrões de chuva daqui 140 anos nos meses junho-julho-agosto. Crédito: Goddard Flight Center Scientific Visualization Studio
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
Mais de seis anos se passaram desde a publicação do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), em março de 2007. Desde então, os programas de modelagem climática se tornaram muito mais elaborados, mas as suas previsões, infelizmente, parecem não estar mudando muito.
Um novo estudo, coordenado por um pesquisador da Nasa, William Lau, reforça o alerta de que as regiões mais úmidas do planeta vão receber ainda mais chuva, principalmente na forma de tempestades, e que as regiões mais secas tenderão a ficar ainda mais áridas nas próximas décadas, por conta das mudanças climáticas. Uma das áreas mais afetadas deverá ser o Centro-Oeste brasileiro, onde está concentrada a maior parte da produção agrícola nacional.
O trabalho, aceito para publicação na revista Geophysical Research Letters, utiliza um compilado de 14 modelos climáticos desenvolvidos nos últimos anos para tentar prever o que vai acontecer com as chuvas no planeta nos próximos 140 anos, tomando como referência os meses de junho, julho e agosto, e assumindo um aumento de 1% ao ano na concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2).
“Eles pegaram os 14 modelos que serão utilizados no próximo relatório do IPCC, que são muito mais realistas do que os de 2007, e as previsões permanecem essencialmente as mesmas”, analisa o meteorologista Gilvan Sampaio, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O resumo da história, segundo ele, é que os eventos climáticos extremos – como secas, tempestades e ondas de calor – deverão se tornar mais frequentes, como já vem ocorrendo nos últimos anos. Com relação aos níveis de precipitação, especificamente, algumas regiões já áridas deverão receber ainda menos chuva e permanecer secas por períodos mais longos – incluindo o Nordeste brasileiro, que este ano passa por uma das piores secas de sua história.
“Até gostaríamos de estar errados, mas, infelizmente, parece que estamos certos”, lamenta Sampaio.
Segundo o novo estudo, cada 0,56 °C de elevação da temperatura global em razão do aumento da concentração de CO2 na atmosfera resultará num aumento de 3,9% na ocorrência de chuvas fortes e de 1%, na ocorrência de chuvas fracas. Curiosamente, apesar disso, o volume anual global de precipitação não deverá mudar significativamente, por conta de uma redução de 1,4% na ocorrência de chuvas moderadas. Ou seja: haverá uma intensificação dos extremos, o que é péssimo para o ser humano, tanto no campo quanto nas cidades, pois agrava o risco de eventos extremos como secas e tempestades.
Um vídeo divulgado com o estudo mostra como os níveis de precipitação deverão variar anualmente no trimestre junho-julho-agosto (JJA) pelos próximos 140 anos. Nele, uma grande mancha marrom escura (representando reduções significativas de chuva) se expande e se retrai sobre o Centro-Oeste, sul da Amazônia e partes do Nordeste brasileiro nestes três meses de inverno, que já são naturalmente os mais secos do ano.
“O maior impacto desta figura não é tanto a queda nos volumes de chuva, mas que este volume de chuva diminui até agosto e, possivelmente, até setembro. Ou seja, a estacão seca pode ficar mais longa e as chuvas nesta região começarem mais tarde que o normal”, o que teria forte impacto na agricultura e na geração de energia elétrica nessas regiões, diz o pesquisador José Marengo, coordenador geral do CCST.
Detalhe: as concentrações de CO2 usadas na modelagem do estudo começam em 280 partes por milhão (ppm), bem abaixo da concentração atual, que já está batendo em 400 ppm. O que significa que o estudo é bastante conservador e, consequentemente, ainda mais preocupante. O próximo relatório geral do IPCC (conhecido como AR5, ou 5th Assessment Report) é esperado para o fim de 2014.
IMAGENS: Estúdio 41 / Projeto da nova Estação Antártica Comandante Ferraz.
Dentro do processo de reconstrução da ciência brasileira na Antártida, após o incêndio que destruiu a base de pesquisa do País no continente cerca de um ano atrás, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) colocou recentemente no ar, para consulta pública, a proposta “Ciência Antártica para o Brasil: um plano de ação para o período 2013-2022”.
A proposta foi elaborada por um time de especialistas, coordenado pelo pesquisador Jefferson Simões, diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo ele, “trata-se de um primeiro passo para reestruturação das ações das pesquisas brasileiras na Região Antártica”.
O plano de ação é norteado por quatro grande objetivos, segundo Simões:
1) Ter um programa científico atualizado, que responda questões multidisciplinares e interrelacionados;
2) Usar plenamente todas as plataformas de pesquisas existentes no âmbito do PROANTAR (estação, navios, acampamentos, módulos automatizados), incluindo a nova Estação Antártica Comandante Ferraz,
nossos 2 navios polares e novo módulo Criosfera 1
3) Dar atenção específica para a América do Sul, explorando conexões da Antártica com nosso ambiente,
4) Representar o melhor da ciência brasileira, aumentar a produtividade intelectual do PROANTAR
e principalmente o protagonismo da ciência nacional no sistema jurídico que rege toda a região ao sul do
paralelo 60°S, o Tratado da Antártica! Note o papel político da ciência antártica (veja p. 5 do Plano de Ação).
Mais informações neste link: MCTI abre consulta pública em plano de ação para ciência antártica
Nova base. Em uma notícia relacionada, a Marinha do Brasil e o Instituto de Arquitetos do Brasil vão premiar no dia 7 os vencedores do concurso que escolheu o projeto da nova Estação Antártica Comandante Ferraz. O projeto campeão foi o do arquiteto Fábio Henrique Faria, do escritório de arquitetura Estúdio 41, em Curitiba. (fotos abaixo)
Segundo a Comissão julgadora, composta por cinco arquitetos, “O projeto apresenta uma composição formal singela e ao mesmo tempo marcante. A proposta é compacta, sem deixar de responder à setorização funcional esperada. Destaca-se a adequação à topografia, potencializando visuais a partir dos volumes implantados em níveis diferenciados, a modulação e o sistema construtivo, que favorece a racionalidade da execução.”
O Estúdio 41 receberá um prêmio de R$ 100 mil, além do contrato de R$ 5 milhões para execução do projeto.
2013
2012
2011
2010
2009
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