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“Balmeirense” desde criancinha

Haisem Abaki

26 agosto 2014 | 06:14

“Ieu só torce bara o Seleçón Brasilera, mas gosta da Balllmera bor causa de Da Guia, munto bon jogador e munto calllmo”.
Os efeitos do centenário devem ter trazido o sonho que tive com meu pai. Vi a cena toda, com a expressividade da voz e do olhar e os gestos firmes que ele fazia com as mãos quando alguém perguntava qual era o time dele.
Sei que a tradução não é necessária e hoje percebo que as trocas do “p” pelo “b”, do “i” e do “m” pelo “n”, o “l” longo, a conjugação errada dos verbos e as confusões entre os gêneros masculino e feminino só davam mais clareza à frase do sírio que ainda aprendia a nova língua sem ter vergonha de se comunicar.
Só achava engraçado aquele jeito de falar, já que os colegas da escola e o rádio ligado em volume máximo sempre pronunciavam “Palmeiras”. E logo notei que não era apenas uma simpatia. Nos jogos do time que ele dizia ser “do beriquito”, a narração de Fiori Gigliotti ecoava por toda a casa. Óbvio que o “turco” também admirava “a Sants da Belé”.
Mas os gols verdes eram comemorados com palmas barulhentas. Uma vez fui imitá-lo e fiquei com as mãos ardendo um tempão. Não entendi de onde vinha tanta força. E, quando “a defesa que ninguém passa” tomava algum gol, ele reagia com um longo suspiro. Era mais ou menos um “âffff”, com as mãos abertas e erguidas.
Nas partidas mais difíceis, principalmente nos clássicos, o jeito “leve” de preferir o time “ahdar” (verde em árabe) ficava bem mais agitado. Ele não tirava o olho do relógio no segundo tempo e a partir dos 40 minutos repetia quase sem parar que “este é o hora mas berigosa”.
Às vezes, com o placar apertado e o adversário atacando, gritava um “hállas, hállas” (acabou, acabou em árabe), como se estivesse falando com o juiz. E quando finalmente o homem do apito “atendia”, vinha um “nâshkur Allah” (graças a Deus em… Ah, a essa altura a torcida inteira já sabe qual é a língua). Era também o momento em que eu recebia um montão de “baucis” (beijos arábicos) bem molhados nas bochechas.
Apesar do comportamento “isento”, meu pai sempre afirmava em voz bem alta que “você bode torce bara a time que quiser”. Nunca me obrigou a nada, nem a ser muçulmano e socialista como ele. No futebol nem “brecisava”, “borque” Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Zeca, Dudu, Ademir da Guia, Edu Bala, Leivinha, César Maluco e Nei “combletavam a serviço”. E ainda tínhamos o mestre Oswaldo Brandão, Ronaldo, Fedato…
Aos oito anos, veio o “apoio” decisivo de um corintiano, o japonês da bicicletaria perto da nossa loja. Eu passava na porta e ouvia um “ô palmeirense!” berrado lá de dentro. Até o dia em que depois de uma vitória do Palmeiras sobre o Corinthians parei na calçada e gritei um “ô corintiano!”. Ele me botou pra correr…
Depois, naqueles anos de fila em que às vezes eu voltava bravo do estádio, o já assumido “balmeirense” me aconselhava “baciência borque é só jogo e tudo bassa”. E assim aprendi a seguir adiante (ou avanti!) em tudo na vida, ganhando ou perdendo.
Também não foi necessário muito esforço com os netos do “turco”. Só que não consegui transformá-los em “beriquitinhos”. São dois “borquinhos”. “Balllmera bara sembre!”. A quem veste hoje o manto desta instituição centenária de tantas glórias, um último pedido. “Bor favor, honra a bassado, joga com mais vontade e bara com essa negócio de trocar o A pela B”.