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Gustavo Chacra

O número de 86 empresas brasileiras que enviaram representantes ao Irã para acompanhar o ministro Miguel Jorge pode ter até surpreendido o governo do Brasil, conforme afirmou para mim ontem em Washington o secretário de Comércio Exterior brasileiro, Welber Barral. Mas, na realidade, apenas indica o crescimento da importância econômica do Irã para investidores ao redor do mundo, apesar da ameaça de uma nova resolução com sanções ao regime de Teerã no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em recente entrevista a um programa da rede de TV CNN focado em negócios no Oriente Médio, Jim O’Neill, economista-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs – um dos mais poderosos dos EUA –, incluiu o Irã em uma lista de 11 países que podem integrar uma nova geração de BRICs no futuro, usando o termo cunhado por ele próprio para se referir às economias do Brasil, Rússia, Índia e China. Segundo o economista, os iranianos possuem uma mão-de-obra educada e excelentes recursos naturais, além de um mercado de cerca de 70 milhões de habitantes, sendo muitos deles de classe média.

De olho neste potencial mercado, empresas brasileiras decidiram aproveitar a viagem de Miguel Jorge para analisar a possibilidade de novos investimentos no Irã, aumentando o já crescente comércio bilateral. A iniciativa é arriscada e pode trazer reações nos Estados Unidos, Israel e alguns outros países que adotam sanções unilaterais contra o Irã – as da ONU, em vigor atualmente, não impedem a maior parte dos negócios com Teerã.

ESCOLHA - Por este motivo, companhias brasileiras com investimentos nos EUA terão que decidir se optam por se relacionar com os iranianos ou com os americanos. A Petrobras, depois de pressões, escolheu Washington. Outras sofrerão com o dilema mesmo sem investimentos nos EUA caso tenham ações  nas mãos de fundos americanos. Muitos investidores, contrários a determinadas políticas do regime iraniano, vendem as ações de empresas estrangeiras que negociam com Teerã, mesmo que sejam rentáveis. Outras empresas brasileiras, sem grande presença nos EUA, preferem ignorar as pressões internacionais e arriscam investir no Irã. Entre elas, há as que utilizem o porto de Dubai, nos Emirados Árabes, como entreposto, mascarando as exportações para os iranianos, sem provocar danos a possíveis negócios futuros nos EUA ou em Israel.

As ameaças de retaliações americanas tampouco produzem grandes efeitos. Na verdade, países do Golfo Pérsico, como os Emirados Árabes e Qatar, mantêm excelentes relações comerciais tanto com americanos como com os iranianos. Mais do que isso, a China, o Japão, a Alemanha  e a Coréia do Sul são os principais parceiros comerciais do Irã. Como os chineses têm poder de veto no CS da ONU, muitos analistas consideram improvável que as novas sanções, se aprovadas, tenham um teor que minem as iniciativas de negócios de empresários e governos estrangeiros em Teerã.

Como escrevi ontem, esqueçam, as sanções não resolverão o problema. Mesmo porque, ainda que o regime caia, os “moderados” da oposição iraniana também defendem o programa nuclear. Afinal, na época do Khatami que os planos atômicos avançaram mais.

Dica de Comentário – não respondam a replys já existentes. Escrevam um comentário isoladamente no final, citando as pessoas a quem querem responder. Assim, seus comentários não serão perdidos, como ocorreu em alguns casos

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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O anúncio da China de que apóia uma nova resolução com sanções ao Irã provocou euforia em alguns órgãos de imprensa e meios diplomáticos aqui em Washington. Bobagem. No fundo, nada muda. Os chineses, assim como os russos, apóiam sanções brandas ao regime de Teerã. Não deixarão interferir no emergente comércio entre estes países e os iranianos. Pequim comprará petróleo e venderá seus produtos normalmente. Moscou também não abdicará de seus bons negócios com os persas. Aliás, o China Daily, na sua edição de hoje, coloca o encontro do Obama com o Hu Jintao na capa sem citar em nenhum momento a palavra “Irã” ou “sanções”.

A resolução apenas adiará um problema que se divide entre aceitar o regime iraniano com capacidade de desenvolver armas nucleares ou um arriscado ataque israelense contra instalações iranianas que pode não resultar em nada. Como todos os países, o Irã é realista. Defende apenas os seus interesses. Hoje, os iranianos olham ao seu redor e vêem israelenses, paquistaneses, russos e indianos com bombas atômicas. Sem falar nos americanos, em suas fronteiras ocidental, no Iraque, e oriental, no Afeganistão. E sabem que a melhor forma de se impor é com uma bomba atômica, especialmente porque os norte-coreanos deitam e rolam em desrespeito a resoluções internacionais sem serem importunados – afinal, estão no clube nuclear.

A única saída que não envolvesse guerra ou um Irã nuclear seria uma garantia de segurança para os iranianos ou a imposição de uma barreira. Para atingir o primeiro objetivo, existiriam duas possibilidades. A primeira, defendida pela Turquia e Egito, com o apoio indireto até mesmo do Brasil, prevê um Oriente Médio sem armas nucleares. Esta iniciativa visa o desarmamento de Israel, que possui um arsenal nuclear não declarado. Porém, como os iranianos, os israelenses são realistas. E sabem que a sua melhor defesa em meio a vizinhos hostis é justamente ter bombas atômicas.

A outra possibilidade, completamente improvável, seria dar garantias de segurança ao Irã por outros meios. Como no caso da Turquia, que integra a OTAN. Mas é óbvio que isso não irá ocorrer. A barreira seria a existência de um regime hostil da fronteira com o Irã, como o Iraque de Saddam Hussein. Mas os EUA derrubaram o antigo ditador, abrindo o mundo árabe para a influência iraniana, antes restrita aos xiitas libaneses.

Temos que aceitar de vez que o Irã terá capacidade de ter armamentos atômicos em alguns anos ou concordar com um ataque israelense. Cada país tende a ter a sua opinião. Mas quase nenhuma interessa, a não ser a de Israel e dos EUA. E, com as relações entre os dois países estremecidas, acredito que os israelenses levarão em consideração apenas os seus jogos militares, que já estão realizados, para determinar uma ação militar ou não. Levarão em conta a resposta iraniana, via Hezbollah, com capacidade de matar milhares em Tel Aviv e Haifa. E também, claro, o risco para a já deteriorada imagem de Israel no exterior.

E o Irã, enquanto isso, corre contra o tempo, usando todas as vias diplomáticas possíveis. Afinal, sabe que, uma vez que tiver uma bomba, ninguém mexerá com eles. A opção do ataque israelense será descartada. Portanto, esqueçam a posição da China, da Rússia e muito menos a do Brasil e da Turquia. Daqui dois meses, quando o México estiver na Presidência do Conselho de Segurança da ONU, aprovarão uma resolução inócua que não afete os negócios chineses e russos. Obama venderá a aprovação como uma vitória, Ahmadinejad dará risada, Hu Jintal e Medvedev manterão seu comércio e Netanyahu tomará uma decisão.

Obs. Dizem que os EUA tentam na verdade é ganhar tempo para a coalizão de Bibi cair. Neste caso, já estariam resignados com um Irã nuclear.

Obs2. Desculpem publicar um post em seguida do outro. Mas estou em Washington na cobertura da cúpula nuclear. E tentarei responder ao máximo possível de comentários a partir de agora

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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