Acompanhe em tempo real o quarto dia de manifestações no Egito contra o regime de Hosni Mubarak. No twitter, @gugachacra
20h – Crise econômica ou falta de democracia no Egito? Os dois
Os levantes nos países árabes são causados tanto pela crise econômica como pela falta da democracia, aliada a uma pequena melhora na educação. Nos últimos anos, mais estudantes concluíram o ensino médio e se formaram em universidades. Mas não há empregos suficientes para as suas qualificações. A taxa de desemprego entre os jovens alcança 60% em países como Egito. Eles culpam os regimes, no poder desde antes de eles nascerem. Para complicar, a população como um todo sofre com a inflação dos alimentos. Estes países são importadores de comida. No Egito, o percentual médio gasto com alimentação é de 44% da renda familiar. Na Jordânia, 36%. A tendência é de os preços continuarem aumentando. Esta insatisfação não se refletia em protestos porque havia o temor de repressão. Depois da Tunísia, a barreira ideológica foi superada. A Síria leva vantagem porque o governo, como em Cuba, tem a desculpa do embargo americano
17h – As diferenças entre Irmandade Muçulmana e o HEZBOLLAH
O Hezbollah é xiita. A Irmandade Muçulmana é sunita. A religião do Hezbollah equivale a um terço da população do país onde atua, o Líbano. A Irmandade representa a religião de 90% dos egípcios. O Hezbollah integra o cenário político libanês, com representação no Parlamento e nos ministérios. A Irmandade opera na ilegalidade e seus deputados concorreram como independentes. O Hezbollah nunca defendeu a instalação de um regime islâmico no Líbano, respeitando as divisões sectárias e sendo aliado de facções cristãs. A Irmandade no passado queria a formação de um Estado islâmico no Egito. O Hezbollah possui uma milícia com mísseis capazes de atingir Tel Aviv. A Irmandade se desarmou. O Hezbollah não apenas prega a luta armada para destruir Israel, como travou uma guerra em 2006. A Irmandade não defende atualmente um conflito contra os israelenses. O Hezbollah considera o conflito contra Israel uma prioridade. A Irmandade acha secundário. O Hezbollah é aliado do Irã e da Síria. A Irmandade é inimiga dos dois países, especialmente do regime de Damasco.
15h – As diferenças entre a Irmandade Muçulmana e o HAMAS
Assim como outras organizações sunitas do mundo islâmico, o Hamas é inspirado na Irmandade Muçulmana. Mas o grupo palestino e o egípcio possuem diferenças. O Hamas opera dentro do contexto do conflito entre israelenses e palestinos. Defende a criação de um Estado palestino e até hoje rejeita a existência de Israel, apesar de alguns líderes terem declarado em entrevistas que aceitariam se fosse dentro das fronteiras pré-1967. Para atingir seu objetivo, o grupo palestino utilizou por muitos anos táticas consideradas terroristas, como o uso de suicidas para matar civis. Nos últimos anos, no controle da Faixa de Gaza, adotou o lançamento de foguetes caseiros. A organização também reprime palestinos que discordem de suas posições.
Já a Irmandade Muçulmana abdicou das armas há anos e deixou de se envolver em atividades terroristas. Certas facções são contra a entrada do grupo na política, mas a maioria é a favor. A preocupação maior é com questões domésticas. No passado, eram contra o tratado de paz com Israel e criticavam os EUA. Atualmente, estes tópicos perderam importância, mas podem voltar a ser relevantes
13h30 – Regime do Egito agora afirma que “Iraque é exemplo a ser evitado”, depois de tática “Irã é exemplo a ser evitado” ter fracassado
Em meio ao caos nas ruas, o regime do Egito sempre usou o Irã como o modelo a ser evitado. Assim, reprimia a oposição com o argumento de que a Irmandade Muçulmana pretendia instalar um Estado teocrático – note que a organização egípcia é sunita, e o Irã, xiita. Agora, decidiu adotar o Iraque como modelo a ser evitado. Autoridades egípcias e sírias afirmam que uma guinada radical em direção à democracia pode transformar o país em um novo “Iraques”. Eles não dizem que o Egito não é divido nas mesmas linhas sectárias que os iraquianos e tampouco existe uma ocupação estrangeira, como em Bagdá Mais tarde, eu me aprofundo nas diferenças
12h30 – Entendendo os choques de hoje no Cairo
Os protestos do Egito despertaram a atenção mundial pela espontaneidade do movimento, sem lideranças claras, assim como na Tunísia. Eram mulheres e homens, jovens e velhos, ricos e pobres, médicos e desempregados. Todos tentando agir de forma pacífica. O regime não tinha muito como atuar contra eles. O Exército, desfrutando de uma boa imagem perante a população, tampouco estava disposto a agir. Assim, a saída encontrada por Mubarak e seus aliados foi a de organizar protestos a seu favor, como no Irã em 2009. A ação foi coordenada. E, propositalmente, eles entraram em choque os manifestantes na praça Tahrir. O objetivo é acabar de uma vez por todas com os protestos. Hosni Mubarak concordou em deixar o posto em setembro. Mas quer passar a faixa presidencial para o seu sucessor. Dificilmente será convencido a deixar o cargo antes disso. Apenas sairá forçado. Mubarak não quer ser Ben Ali.
12h – Fiquem atentos a rachas dentro do Exército, especialmente entre as patentes mais baixas
No mundo árabe, são comuns golpes militares levados adiante por majores, capitães e tenentes. Não descartem esta possibilidade no Egito.
Os choques nas ruas do Cairo entre forças pró e anti Mubarak deixam claro qual o objetivo do regime egípcio. 1) Encerrar as manifestações imediatamente. Na avaliação de Mubarak e do próprio Exército, as concessões foram suficientes para este momento 2) Realizar uma transição controlada para maior abertura política. A idéia é de o vice-presidente e chefe da Inteligência, Omar Suleiman, e o premiê, Ahmad Shafik, comandarem o processo. Figuras moderadas como o Nobel da Paz e líder da oposição, Mohammad El Baradei, são aceitas. Até a Irmandade Muçulmana seria tolerada se abdicasse de parte de sua agenda 3) O futuro governo civil teria controle sobre política doméstica, mas não segurança e política externa. As relações com os EUA e Israel são intocáveis
Mas há obstáculos. A) Mubarak não está disposto a renunciar ao cargo antes de setembro e pretende passar a faixa de presidente para o seu sucessor. Não pretende viver no exílio como Ben Ali. B) A situação nas ruas começa a sair do controle dos Exército. C) Muitos opositores discordam de membros do regime, como Suleiman, comandarem o processo de transição. Querem, além da remoção de Mubarak, mudanças imediatas
10h – Tática iraniana-cubana para conter protestos provoca violentos choques no Cairo
O regime egípcio decidiu usar a tática iraniana-cubana para interromper os protestos nas ruas do Cairo e Alexandria. Organizou manifestações a favor de Hosni Mubarak, da mesma forma que Mahmoud Ahmadinejad fez em Teerã em 2009 e Fidel Castro em Cuba. No dois países, os contra-protestos funcionaram. Ao mesmo tempo, o Exército determinou que as manifestações sejam encerradas e pediu para que todos retornem para suas casas e trabalho.Os opositores se recusam e permanecem protestando. Já começaram a haver choques entre as facções pró e contra Mubarak. As conseqüências podem ser lidas nas duas análises abaixo.
2h30 – ANÁLISES PARA O DIA 2 de Fevereiro (com base nas consultorias de risco político)
Curto Prazo – Se protestos continuarem fortes, Exército deve obrigar renúncia de Mubarak já nos próximos dias
O discurso de Hosni Mubarak na noite de ontem (ler post anterior) dizendo que deixará o poder em setembro não deve ser suficiente para impedir os protestos de hoje. Novas manifestações devem ocorrer. Muitos opositores querem a renúncia imediata do líder egípcio, no poder há 30 anos. Não pode ser descartado, por enquanto, que o Exército exija saída de Mubarak nos próximos dias. Mas o presidente não é Ben Ali, da Tunísia, e fará o possível para se manter no poder no curto prazo. Apesar de cada vez mais enfraquecido, ele ainda exerce influência nas Forças Armadas.
Longo Prazo – Deve haver democratização, mas com Exército comandando a Defesa e a Política Externa
No longo prazo, conforme afirmei nos outros dias, o Egito tende a se democratizar, com o Exército mantendo a posição de árbitro e cuidando da defesa e das relações exteriores. O vice-presidente e chefe da inteligência, Omar Suleiman, e o premiê, Ahmed Shafiq, devem comandar a transição. Mohammad El Baradei aos poucos se destaca como solução de consenso da oposição. A Irmandade Muçulmana pretende exercer influência, mas não parece estar em condições de ter um candidato vitorioso nas eleições presidenciais.
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