Os assentamentos de Israel na Cisjordânia não podem ser removidos. Poderia ser descrito como o equivalente a uma limpeza étnica e certamente implicaria em uma guerra civil. Os colonos, cerca de 300 mil (ou mais de 600 mil se levarmos em conta os subúrbios de Jerusalém) devem ter o direito de morar onde estão. Faz décadas que este movimento de construção de colônias começou e seus moradores, em sua maioria, não podem ser classificados como culpados. Ali estabeleceram suas casas porque o Estado do qual são cidadãos considera estas construções legais e até mesmo as incentiva. Foi um erro do passado, mas que não deve ser resolvido com um outro erro.
O ideal, em um acordo de paz, seria a maior parte dos assentamentos ficar do lado israelense da fronteira. Basicamente, os blocos próximos à linha verde seriam anexados por Israel. Em troca, os palestinos teriam terras de boa qualidade em outras áreas que, inclusive, possam aproximar a Cisjordânia da Faixa de Gaza, tornando o Estado palestino mais viável. Não há motivo para querer que todas estas colônias fiquem sob a soberania palestina.
O problema se dá em assentamentos como Ariel, localizados distantes da linha verde, no coração do futuro Estado palestino. Estes, em um acordo de paz, precisariam passar para os palestinos. Isso não significa que os colonos seriam obrigados a abandonar as suas casas. De forma alguma um ser humano pode ser expulso de sua casa. Muitos palestinos foram expulsos do que hoje é Israel em 1948 e muitos judeus foram expulsos de países árabes na mesma época. Estes dois episódios foram crimes contra a humanidade. Não há sentido em isso acontecer novamente.
Estes colonos dos assentamentos que ficarem dentro da Palestina devem ter o direito à cidadania palestina. Caso optem por não ter, precisam encontrar uma fórmula como um greencard para eles poderem residir nas suas casas, mas pagando impostos para o novo governo da Palestina.
A discussão deve deixar de ser sobre o desmantelamento dos assentamentos e passar a ser sobre a soberania dos assentamentos. Exatamente como ocorre em Jerusalém Oriental. A questão não está em remover os árabes cristãos e muçulmanos que ali residem, mas sobre quem administrará esta parte da cidade. Mas este será assunto para um outro post.
Sei que muitos dirão que manter os assentamentos é aceitar um crime. Discordo, é aceitar a realidade. O mundo deveria ter feito algo nos anos 1970, 80, quando a população de colonos era menor. Agora, ficou impossível. Aconteceram mudanças desde 1967. Vale lembrar ainda que, mesmo estas linhas, seriam as do armísticio de 1949, e não da partilha de 1947. Os árabes realmente já perderam território quando comparamos as duas fronteiras. Desta vez, não aconteceria uma perda novamente, mas uma troca. A Cisjordânia teria o mesmo tamanho de agora, mas com um outro traçado. Qual o problema?
Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista
O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
no twitter @gugachacra
O aumento da religiosidade do mundo árabe mediterrâneo, adotando hábito tribais das regiões do Golfo Pérsico, começou com o fim das cidades cosmopolitas como Casablanca a Aleppo. Alexandria, com seus gregos, judeus, cristãos coptas, armênios e muçulmanos, com diversos graus de religiosidade, se transformou em uma gigantesca sucessão de prédios de uma nota só. A diversidade desapareceu.
Podem ter erguido uma deslumbrante nova versão da nova Biblioteca de Alexandria. Mas a importância da segunda cidade do Egito está a séculos de distância da que teve quando destruíram a primeira delas. A universidade, ao lado, mesmo algumas décadas atrás, nos anos 1960 e 70, era um bastião de pensamento, onde as mulheres ainda andavam de cabelos soltos. Hoje, quase todas andam de hijab. O mesmo acontece na secular Damasco, onde as raras meninas sem o véu são cristãs. Conversem com sírios de 60, 70 anos e perguntem a eles como eram as faculdades nas suas épocas. Tentem ver fotos.
Quem fala de Aleppo hoje? Nem em manifestações contra Bashar al Assad, esta que já foi uma das mais importantes metrópoles comerciais do mundo aparece. Mais brasileiros devem ter ouvido falar de Dubai do que de Aleppo. Algo quase inacreditável levando em conta a cultura que já foi produzida no segundo maior centro urbano da Síria.
Tunis, que já foi Cartago, hoje não vai além de um entreposto para turistas europeus seguirem para resorts nas praias. Argel, cidade mítica para a esquerda nos anos 1960, pólo cultural quando a Argélia era francesa, hoje sequer é notada por muitas pessoas que observam o mapa. A Argélia parece ser uma nação que desapareceu, que naufragou em importância.
Haifa talvez seja uma versão ainda forte do cosmopolitanismo do Oriente Médio, onde judeus e árabes convivem harmonicamente. Mas Tel Aviv, por sua relevância econômica, jogou a vizinha do norte para um segundo plano. Jaffa diminuiu ao ponto de se transformar em um bairro de Tel Aviv.
Nablus, antes a grande cidade palestina, viu Ramallah roubar seu lugar. Mas sem adicionar o mesmo charme de uma metrópole secular de gerações de palestinos. Hebron, no centro da disputa entre israelenses e palestinos, é tudo menos cosmopolita.
Beirute sobrevive como a última cidade cosmopolita árabe, com a mistura de religiões, as boas universidades, os bancos, a vida noturna. Mas um fenômeno novo começou a ocorrer desde a eclosão da Guerra Civil. Até os anos 1970, imigravam os mais pobres, do Vale do Beqa, do Monte Líbano, do sul. Hoje os libaneses perdem os seus melhores jovens, que se mudam para Dubai, Doha e Abu Dhabi em busca de melhores salários, voltando ao Líbano apenas nos fins de semana.
Lembrem do filme Casablanca para tentar imaginar o que já foi esta cidade marroquina e o que é hoje. Nem nos roteiros turísticos para Marrakesh e Fez a incluem. O fim destas cidades cosmopolitas árabes aconteceu ao mesmo tempo em que cresceu a religiosidade.
Leiam os blogs do Ariel Palacios (Argentina), Adriana Carranca (Afeganistão), Claudia Trevisan (China), Denise Chrispim (Washington) e o Radar Global
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Símbolo do sistema financeiro internacional, a região de Wall Street aos poucos se transforma em um bairro residencial. Edifícios que antes pertenciam a bancos são convertidos em condomínios familiares. Ao lado da imagem de banqueiros de terno escuro eternizados em dezenas de filmes, casais de jeans e camiseta empurram seus carrinhos de bebês. Outros de moletom de universidade levam seus cães para passear no calçadão diante da Bolsa de Valores. Restaurantes, que funcionavam apenas nos almoços de segunda à sexta, ficam lotados nos jantares de sábado.
Segundo censo do governo dos Estados Unidos, essa área, conhecida como Financial District e seu apêndice Battery Park, registrou o maior crescimento populacional de todas as regiões de Nova York na última década. O aumento se intensificou nos anos seguintes ao 11 de setembro, quando o prefeito Michael Bloomberg, para revitalizar o bairro, deu incentivos fiscais para quem se mudasse para as proximidades do alvo dos atentados terroristas.
Ao mesmo tempo, os bancos, antes concentrados ao redor da Bolsa de Valores, acentuaram uma tendência de décadas e se transferiram para Midtown, no quadrilátero formado pelo Times Square, Grand Central Station e o Central Park. Com a difusão das negociações eletrônicas, fundos de investimento também optaram por zonas mais distantes do tradicional downtown, indo para subúrbios como Greenwich.
“Eu me mudei para o Financial District porque queria morar em um prédio novo e que tivesse academia, piscina, terraço para tomar sol e com isolamento acústico”, afirma Gustavo Meyer, que trabalha no mercado financeiro. “No meu prédio, especificamente, tem até uma secretária comunitária. E, para completar, o prédio tem um cinema e uma garagem no estilo de São Paulo”, diz.
O consultor Paulo Kluber diz que o custo-benefício de viver no Financial District é um dos melhores de Manhattan. “Preciso caminhar três minutos até o escritório. E tudo de importante na cidade está nesta região, como linhas de metrô, bancos, lojas, restaurantes.”
Arquitetura. Se, ao longo de décadas, Wall Street ficou célebre por edifícios comerciais como o da Standard Oil, agora será a vez do maior prédio residencial dos Estados Unidos ser inaugurado a apenas algumas quadras do que já foi o maior centro financeiro do mundo. Com 78 andares, o Beekman Tower foi projetado pelo arquiteto canadense-americano Frank Gehry, de 81 anos, autor de obras como o Museu Guggenheim de Bilbao. Diante da Brooklyn Bridge e da prefeitura, este gigantesco edifício encobrirá a vista do célebre Wooworth Building. Construído há um século, o prédio de estilo neogótico já foi o mais alto do mundo até ser desbancado pelo Empire State, que fica em Midtown.
O aluguel de um apartamento de um quarto no Beekman está estimado entre US$ 3 mil e US$ 4 mil. Para os padrões do bairro, é elevado. Em média, para morar em um lugar do mesmo tamanho no Financial District, é preciso gastar cerca de US$ 2,5 mil.
Além dos edifícios erguidos para servir como residência, há os antigos prédios de escritórios e bancos que viraram condomínios de alto padrão. Um deles é o 20 Exchange Place. No passado, era a sede do Citibank. Hoje, se transformou em um dos mais disputados endereços residenciais de Wall Street. Pelo menos 20 outros grandes prédios também foram convertidos na área.
As atrações do bairro, segundo corretoras como a Manhattan Prime, são as vistas para a Brooklyn Bridge e a Estátua da Liberdade. “No verão, há concertos ao ar livre no Battery Park, que fica à beira do rio Hudson. A Stone Street tem alguns dos mais badalados restaurantes e bares de Nova York. Os cinemas no World Financial Center são os mais modernos da cidade. A maioria das redes de academias possuem filiais na região, que ainda tem a vantagem de ter por perto quase todas as linhas de metrô”, dizem.
Em setembro, o Financial District ganha mais uma atração. No aniversário de dez anos dos ataques terroristas contra as torres gêmeas, será aberto um memorial para as vítimas no Ground Zero. Os novos edifícios do World Trade Center, após brigas burocráticas, devem ficar prontos nos próximos anos. Mas esses serão só comerciais.
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Acompanhei um debate ontem sobre o filme Miral, do diretor Julian Schnabel. O roteiro, baseado em uma história original, trata da vida de uma jovem palestina de Jerusalém durante a Primeira Intifada. Outro dia, me aprofundarei na discussão sobre o filme, que já provocou enorme polêmica nos EUA por ter sido dirigido e produzido por judeus e ser claramente a favor dos palestinos – Israel tentou bloquear a exibição na ONU e agumas entidades judaicas conservadoras agiram da mesma forma para não permitir que o filme passasse em Nova York.
Obviamente, estas iniciativas serviram de publicidade. A liberal comunidade judaica americana, incluindo os mais jovens, lotaram as salas de cinema desde sexta, dia do lançamento, e adoraram o filme. Especialmente porque mostra um lado dos palestinos que poucos conhecem, celebrando o Natal, com meninas de cabelos soltos que beijam homens na boca, com baladas. Também mostra palestinos sendo torturados nas prisões israelenses. A própria autora do livro, ainda hoje, aos 37 anos, traz marcas das chicotadas que recebeu nas prisões de Israel. Claro, sem deixar de fora também a religiosidade, a opressão da mulher e o terrorismo no lado palestino.
Mas o que interessa não é isso, e sim uma questão levantada por Schnabel no debate de ontem na Universidade Columbia e que já havia passado pela minha cabeça e de outros. Nas últimas semanas, muitos perguntam quando os levantes árabes afetarão os palestinos. Na verdade, o que ocorre é o inverso. Os palestinos estão mais de duas décadas à frente.
A Primeira Intifada seria o equivalente dos levantes árabes. Insisto, a primeira, quando não existiam atentados suicidas contra civis. Houve violência, mas eram mais pedras e, verdade, bombas em alguns casos. Porém foi a primeira vez que os palestinos lutaram genuinamente contra a ocupação, atraindo o apoio da opinião pública internacional e mesmo em Israel.
Tanto que os israelenses foram negociar em Oslo um acordo de paz. O erro, na minha opinião, foi negociar com a OLP, de Yasser Arafat, e não com os palestinos que participaram da Primeira Intifada. Arafat vivia no exílio há décadas e não conhecia nada da situação dos palestinos. Nem ele, nem seus assessores.
Naquela época, os palestinos dos territórios possuíam uma ligação muito mais forte com Israel. Havia a ocupação, mas um morador de Gaza podia trabalhar em Tel Aviv. E os dois povos se davam bem. Não havia a mesma desconfiança que existia de um Yasser Arafat. A solução para o conflito, que toda a opinião pública internacional concorda, está abaixo
Basicamente, o Estado palestino seria criado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Israel manteria os principais blocos de assentamentos perto de suas fronteiras. Em troca, daria terras da mesma qualidade em áreas que aproximassem os dois territórios palestinos. Os refugiados palestinos poderiam retornar para o novo Estado, mas não para Israel. Os israelenses reconheceriam que parte dos palestinos foi expulsa na Guerra de Independência (e também deveria haver uma desculpa dos árabes que expulsaram os judeus). Jerusalém continuaria unificada e capital dos dois países. No caso palestino, seria mais simbólica, com a sede da Presidência. A administração, por questões práticas, ficaria em Ramallah.
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Atos a favor de Assad impressionam
Não sei se os atos são pagos ou autênticos. O relato da minha amiga abaixo pode explicar melhor. Mas não ocorreram manifestações a favor do regime das dimensões vistas em Damasco hoje em nenhum dos países com levantes até agora. Bashar al Assad está distante de ser um democrata e, graças ao estado de emergência, reprime a oposição e censura a imprensa. Isso sem falar nas mortes em Daara. Porém é um erro negar a enorme popularidade do líder sírio. O cenário se difere do Egito e da Tunísia.
Ao mesmo tempo, foi irônico ver o embaixador da Síria em Londres dizer que Assad é o presidente mais popular da Síria desde a independência. Em resposta, a apresentadora, Hola Gorani, da CNN, que é filha de sírios, afirmou – “Também não é difícil, nas últimas quatro décadas, foram apenas ele e o pai.
Assad não é mais intocável, mas tem apoio americano
Hoje, segue a cobertura em tempo real da Síria. Bashar al Assad acabou de remover o seu gabinete, seguindo a cartilha de outros líderes, como o rei Abdullah, da Jordânia. Mais tarde, fará um discurso em que deve levantar o estado de emergência e mais reformas. O regime de Damasco, que antes parecia intocável, corre riscos sim de cair. Ainda não acho a maior possibilidade, dado o elevado apoio popular ao presidente como mostram as gigantescas manifestações a seu favor nas principais cidades da Síria.
O líder sírio também conta com respaldo do governo dos EUA, por incrível que possa parecer. A secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou em entrevista no domingo que muitos parlamentares americanos o consideram genuinamente reformista. O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, John Kerry, é amigo pessoal de Assad. Também influencia o temor israelense de ter um Iraque ou uma Líbia em suas fronteiras, abrindo mais uma frente além do Líbano, Sinai e Gaza.
(Parênteses sobre Obama e a Líbia) – Obama não é diferente de outros líderes
Antes de colocar a segunda parte do depoimento de minha amiga estrangeira que vive em Damasco, quero comentar sobre Barack Obama. Em termos realistas, dá para entender a defesa dele da intervenção dos EUA e seus aliados na Líbia e não em outros países. Mas o líder americano foi hipócrita ao dizer que “algumas nações talvez sejam cegas ao ver atrocidades em outros países. Os EUA são diferentes. Como presidente, eu me recusei a esperar pelas imagens de massacre e covas comuns antes de agir”.
Certo, mas o presidente não agiu na Costa do Marfim, onde há 700 mil refugiados e o governo ilegal também ataca civis, ignora o que se passa no Sudão e no Congo e se calou diante da intervenção saudita em apoio à monarquia de Al Khalifa em Bahrein. Ele poderia ter ficado com a primeira parte do seu discurso, quando diz ser inviável os EUA intervirem em outras áreas.
Agora, vamos à segunda parte do depoimento de uma amiga estrangeira Damasco. O nome dela não é citado por questões de segurança
“Foi no Twitter e no Facebook que sírios e sírias encontraram um espaço. Um espaço relativamente seguro onde elas não precisavam necessariamente usar sua identidade verdadeira (embora a maioria o tenha feito). Onde pouco a pouco as idéias foram surgindo, as pessoas foram se conhecendo (ou se “e-conhecendo”, como dizem). Ali também provavelmente estavam os mukhabarats, mas isso não os impediu de começar um movimento.
E foi assim que sírios e sírias começaram a tomar as ruas. Uma vigília na frente da embaixada do Egito em Damasco, onde algumas dezenas de pessoas compareceram para mostrar sua solidariedade com o que acontecia no país vizinho, foi rapidamente dispersada pela polícia. um protesto em frente ao parlamento convocado por uma comunidade do Facebook para o fim de semana de 4 e 5 de fevereiro nunca aconteceu, provavelmente por conta da forte presença da polícia na área.
Poucos dias depois, quando a polícia espancou um homem por conta de uma infração de trânsito em harika, rapidamente centenas de pessoas se uniram em uma demonstração espontânea, gritando “o povo sírio não será humilhado”. A confusão terminou quando o ministro do interior, em pessoa, veio ao local pedir desculpas. E numa vigília na frente da embaixada da líbia em damasco, em 22 de fevereiro, um par de centena de pessoas gritaram em apoio ao povo líbio “traidores são aqueles que espancam seu próprio povo”. Na verdade, esse era um recado a seus próprios governantes. Essa foi reprimida com violência, e algumas pessoas foram presas (veja esse artigo do The Guardian http://www.guardian.co.uk/world/2011/feb/24/syria-crackdown-protest-arrests-beatings).
Mas foi no dia 15 de março (o dia em que fui despertada por meu amigo) que o povo sírio deslanchou um processo sem volta. era feriado em comemoração ao nascimento do profeta Maomé. Depois das preces do meio-dia, pessoas saíram da mesquita dos Omíadas gritando “Deus, Síria, Liberdade, Somente” (uma adaptação do grito em apoio ao governo “Deus, Síria, Bashar, Somente”) e “paz, paz”. no dia seguinte, pessoas se uniram às famílias de prisioneiros políticos em vigília em frente ao ministério do interior. No dia seguinte, a cidade de Dera’a, no sul da síria, foi palco do maior protesto visto até agora, que se estendeu por toda a semana, ininterruptamente, com milhares de pessoas indo à ruas, e um número delas tendo sido mortas pela polícia (os números variam de acordo com as fontes.)
Protestos em solidariedade a Dera’a foram convocados para ontem (25/03) em todo o país. Na quinta à noite, a porta-voz do governo anunciou em rede pública um pacote de reformas que responderiam às demandas dos manifestantes (o anúncio foi oportuno, possivelmente com o intuito de evitar grandes protestos no dia seguinte, já que os maiores protestos têm acontecido às sextas-feiras, após as preces do meio-dia).
Ela também lamentou as mortes de manifestantes em dera’a, enfatizando que o presidente havia expressamente proibido o uso de força, em quaisquer circunstâncias. assumiu que houve erros, e que as mortes seriam investigadas, mas que era sabido que a polícia somente havia reagido para conter “gangues armadas” e a atuação da “inteligência israelense”.
Hoje damasco está calma. Se não fosse pela manifestação de ontem (com alguns resquícios hoje) e o bombardeio de notícias que recebo todos os dias de amigos e parentes, eu não diria que algo anormal esteja acontecendo. É bem verdade que eu não vou para áreas onde é sabido que haverá manifestação.
Muita gente pede minha opinião sobre o que vai acontecer. Acho difícil prever (os maiores especialistas em oriente médio não puderam prever o que já aconteceu, quem sou eu para fazê-lo?) mas sinto que, por um lado, os manifestantes contra o governo continuarão nas ruas até que o presidente caia, se cair. Agora que a “barreira do medo” foi cruzada, não vão parar. Estão impacientes. No entanto, comentem um erro ao recusar-se a reconhecer que o presidente conta com o apoio de uma grande parte da população (ao contrário da túnisia, egito e líbia). Dizem que seus partidários foram pagos para apoiá-lo.
Por outro lado, os partidários do governo agora também estão nas ruas, e contam com a liberdade de poder fazê-lo (ao contrário dos opositores). Estão satisfeitos com o pacote de reformas oferecido pelo governo e não vêem razão para que protestos continuem. Estão indignados com a imparcialidade da mídia internacional (embora não digam nada sobre a mídia nacional, que é totalmente controlada pelo estado), acusando-a de golpe para desestabilizar o país e a região. acho que o maior risco atualmente é a polarização da sociedade síria, e que a violência já não se dê desde o estado, mas entre cidadãos.
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A Síria não era tão diferente do Egito, da Tunísia e da Líbia como diziam analistas, governos estrangeiros e até mesmo Bashar al Assad. Antes imune a protestos, o líder sírio viu manifestações de opositores se expandirem de Daara, na fronteira com a Jordânia, para outras cidades do país, ainda que em menor intensidade. De Washington a Beirute, as discussões são se o regime conseguirá sobreviver, como no Marrocos, ou se naufragará, como o do Cairo.
Apesar de ainda apostarem na manutenção de Bashar no poder, alguns especialistas em Oriente Médio já elaboram cenários sobre a Síria sem um Assad no comando de Damasco em mais de quatro décadas. Com uma população dividida em linhas étnicas e sectárias e situada em uma das vizinhanças mais instáveis no planeta, entre Israel, Líbano e Iraque, a tendência é de que esta nação, com a queda do regime, caminhe para um conflito civil.
De um lado, relatos de opositores falam de dezenas de milhares de pessoas nas ruas. Outros, mais simpáticos ao governo, indicam que os atos a favor de Bashar são bem superiores e as figuras citadas pelas oposição, exageradas. A agência de notícias estatal Sana divulgava ontem em manchete que “atos gigantescos a favor de Bashar demonstravam a importância da unidade nacional diante da campanha estrangeira que ameaça a Síria”, usando a tática de acusar um inimigo externo pela instabilidade.
Relato de brasileira – Uma brasileira que vive e estuda árabe em Damasco descreveu ao Estado o cenário ontem. “A cidade estava em euforia, com carreatas, buzinas por todos os lados e bandeiras da Síria. Vi uma do Hezbollah também. Alguns carregavam fotos do Assad pai (Hafez al Assad, morto em 2000) e filho (Bashar). Jovens, velhos, crianças e homens participavam. Gritavam ‘deus, Síria, Bashar’. A praça dos Omíadas (uma das principais da capital) estava completamente tomada por gente carregando bandeiras”, afirmou.
Para Assad, protestos são bem menores do que no Egito - Em Allepo, segunda maior cidade do país, estrangeiros também descreveram atos a favor de Assad bem superiores aos de opositores. Avi Issacharoff, analista do diário israelense Haaretz, resumiu a incerteza do que se passa na Síria em artigo publicado no sábado. “É difícil estimar a dimensão dos atos contra o governo que ocorreram na sexta. Relatos vindos da Síria são truncados e o número de vítimas assim como o de participantes nestes eventos não estão claros. O certo é que em cidades como Damasco, Aleppo, Latakia e Homs não havia dezenas de milhares de pessoas como em Benghazi, Cairo e Tunis nos primeiros dias de protestos. Apenas algumas centenas de pessoas participaram dos protestos (anteontem, capital e principais cidades)” contra Assad, afirmou.
Ainda assim, qualquer forma de manifestação na Síria é inédita. Com um dos aparatos mais repressivos do mundo árabe e um estado de emergência em vigor há 40 anos, era praticamente impossível protestarem contra o regime. Até agora, o centro das ações contra Assad estão em Deiraa., onde milhares de pessoas foram às ruas nas últimas semanas. Dezenas de pessoas foram mortas pelo regime. O regime de Damasco argumenta que as mortes foram casos isolados e erros. Analistas lembram que Deiraa se difere das demais cidades da Síria por ser controlada por famílias sunitas tradicionalmente hostis ao regime de Assad.
Eurasia vê poucos riscos ao regime - “Os protestos na Síria são geograficamente limitados a Deiraa e não oferecem sério risco ao regime. Muitos sírios nos principais centros populacionais não se opõem a Assad e ele ainda conta com o apoio da elite”, afirmou Ayham Kamel, da consultoria de risco político Eurasia. Caso as reformas anunciadas na quinta-feira não sejam suficientes para acalmar a população, “a tendência deve ser o uso da força”, acrescenta. Ontem o regime libertou 200 presos políticos, em mais uma tentativa de acalmar os opositores.
Reformas conseguirão conter protestos? - “A questão é se a oferta de concessões preventivas, como foi feito pelo sultão de Omã, o rei da Jordânia e o do Marrocos será suficiente para conter os protestos, ou se a fúria diante das mortes em Deraa servirão de estopim para mais levantes”, escreveu Michael Collins, diretor do Instituto de Oriente Médio em Washington, em seu blog.
Segundo o International Crisis Group “há duas opções para Assad. Uma delas envolve uma imediata e arriscada iniciativa política que talvez convença o povo sírio de que o regime está disposto a mudanças dramáticas. A outra envolve uma escalada da repressão, que tem toda a chance de levar para mais violência”.
Sobrevivente - Em outras três vezes em que viu seu regime ameaçado, Assad conseguiu dar a voltar por cima e se fortalecer. De jovem médico, considerado amador, conseguiu demonstrar uma enorme habilidade política para superar as adversidades. Na primeira delas, pouco depois de assumir o poder em 2000, bateu de frente com a velha guarda de seu próprio regime, que tentou derrubá-lo. Quando Saddam Hussein foi deposto no Iraque, muitos disseram que Bashar seria o próximo. Por último, em 2005, analistas diziam que seu poder havia enfraquecido diante da retirada das tropas sírias do Líbano em meio a acusações de que seu governo estaria por trás da morte do ex-premiê Rafik Hariri. Mas ele hoje volta a dar as cartas em Beirute, com um governo aliado ao seu regime.
No início dos levantes no mundo árabe, analistas diziam que a Síria estaria imune aos protestos por três motivos. Primeiro, a posição anti-Israel do país, que estaria em sintonia com a maior parte da população. Hosni Mubarak, do Egito, era o principal aliado dos israelenses no Oriente Médio. Em segundo lugar, mais de um milhão de refugiados iraquianos vivem em Aleppo e Damasco e costumam dizer que o processo de democratização pode levar ao caos, como em Bagdá. Os embates civis no vizinho Líbano também servem de argumento para alguns sírios dizerem ser melhor a estabilidade de um regime autoritário do que a incerteza de uma democracia.
Divisões sectárias - “A Síria possui muitos dos mesmos problemas do Líbano e do Iraque. Embora a maioria dos sírios ser árabe (90%), há importantes minorias étnicas, como a curda. Também há divisões sectárias. Os Assad são alauítas, que representam 12% dos 22,5 milhões de sírios. Os cristãos são 10%, enquanto os sunitas representam 74%”, diz em análise Steven Cook, do Council on Foreign Relations. Com um regime secular, Assad, historicamente, mantém uma aliança com a elite sunita de Damasco e Aleppo.
obs. Reportagem minha publicada na edição impressa de O Estado de S. Paulo
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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
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