Bashar Assad pode durar até 2013 ou cair já nas próximas semanas. As previsões sobre o seu futuro ainda provocam divergências entre analistas, governos e diplomatas. Mas existe praticamente um consenso de que independentemente de quando a sua queda ocorrer, não há mais alternativas para impedir uma sangrenta guerra civil na Síria de caráter cada vez mais sectário. E os alauítas e cristãos, ligados ao regime, devem ser o principal alvo no conflito.
“Nós avaliamos que o Exército e outras forças de segurança devem sofrer deserções em massa e o presidente Assad corre um risco cada vez maior de ser obrigado a deixar Damasco nas próximas semanas”, afirma a consultoria de risco político Exclusive Analysis. Wayne White, ex-chefe da inteligência do Departamento de Estado no Oriente Médio e atualmente no Middle East Institute, em Washington, também aposta que até mesmo “unidades inteiras” do Exército sírio romperão com o regime nas próximas semanas, provocando um efeito dominó que levará a uma rápida queda do líder sírio.
Já Reva Bhalla, analista da Stratfor, discorda. “É um exagero” dizer que uma unidade inteira desertaria. “Os alauítas”, que são da corrente de islamismo de Assad, “dominam as Forças Armadas, as tropas de elite e também controlam os armamentos e munições”, segundo afirmou. Ayhan Kamel, especialista em Síria da consultoria de risco Eurasia, segue na mesma linha diz que “o veto da Rússia e da China no Conselho de Segurança fortaleceram Assad e ele tem condições de sobreviver ao longo de 2012”.
“Certamente o poder de Assad irá erodir, mas uma mudança de regime iminente é improvável. As elites militares e políticas devem concluir (com os vetos no Conselho de Segurança) que ainda mantém alguma força e sua posição externa é sustentável. Isso deve adiar deserções em massa e ajudar o regime a manter uma coerência por um período mais longo”, afirma Kamel em análise enviada para mim. “As recentes operações contra braços militares da oposição e ativistas têm sido de uma certa forma um sucesso tático. Ao mesmo tempo, a intensidade dos choques indicam que será muito difícil conter os levantes”, acrescenta.
Até agora, tem ocorrido um conflito civil em diferentes partes da Síria. Em Homs, o regime lançou na última semana uma ampla operação, matando centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças, segundo ativistas. Não há confirmação independente porque o governo proíbe a livre circulação de jornalistas e observadores. Ao mesmo tempo, há relatos de choques sectários envolvendo alauítas e alguns cristãos e druzos, ligados a Assad, contra a oposição majoritariamente sunita na cidade.
De acordo com Kamel, da Eurasia, “nos próximos meses a Síria viverá uma transição de conflito civil para uma guerra civil e o controle de Assad sobre o país diminuirá. O número de vítimas nos dois lados deve crescer.” Hoje, estima-se em cerca de 7 mil o total de mortos. “Será uma guerra sectária”, afirma Bhalla, da Stratfor. White concorda e diz que não haverá forma de os alauítas não pagarem o preço pelas ações do regime.
“O cenário mais provável depois da queda de Assad deve ser o de um conflito sangrento, especialmente contra os alauítas e, em menor escala, os cristãos, ao longo de meses em cidades como Damasco, Homs, Aleppo, Latakia, Baniyas e Tatus. O futuro governo também deve demorar no mínimo seis meses para conseguir estabelecer alguma forma de segurança no país, particularmente nas regiões montanhosas perto de Latakia, berço dos alauítas”, afirma a Exclusive.
Damasco e Aleppo, que viviam em uma espécie de bolha ao longo de 11 meses de levantes contra o regime, aos poucos começam a ser alvo da crise. No lado econômico, os moradores sofrem com as sanções impostas por países árabes e europeus. Falta comida, eletricidade e as pessoas tentam comprar dólares no mercado negro. Cenas de violência, como o atentado desta sexta em Aleppo, também deixaram a população em pânico. Ainda assim, segundo as consultorias de risco, Assad mantém o controle das duas cidades, da mesma forma que Muamar Kadafi em Trípoli até dias antes da sua queda.
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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacio
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