A operação terrestre de Israel, que certamente foi bem preparada, dependerá em parte da sorte para obter sucesso. Segundo disse ao Estado o historiador militar israelense Michael Oren, existe a síndrome de Qana, em referência à cidade do sul do Líbano. Por duas vezes, operações israelenses em Qana alteraram completamente o destino de toda a campanha militar de Israel contra o grupo xiita libanês Hezbollah. Na primeira delas, em 1996, mais de cem libaneses, sendo a maioria mulheres e crianças, morreram em um ataque de Israel e a um abrigo da ONU. Pressionados pela comunidade internacional, Israel suspendeu a operação Vinhas da Ira. Dez anos mais tarde, a opinião pública internacional mais uma vez se voltou contra os israelenses depois de mais de 30 pessoas – de novo a maioria era criança – serem mortas em outro bombardeio em Qana.
Uma nova “Qana” em Gaza jogaria uma enorme pressão para Israel suspender os ataques e interromper a sua ofensiva para acabar com a estrutura do Hamas. É certo que já morreram quase 500 palestinos, mas, como diz Oren, ainda não teve um episódio simbólico, como Qana ou Jenin, na Operação Muro Protetor de 2002, Cisjordânia, após onda de atentados suicidas.
Existe ainda a possibilidade de israelenses começarem a morrer na batalha. A explosão de um tanque Merkava deixando elevado número de vítimas israelenses certamente levaria à opinião pública de Israel a se levantar contra a operação em Gaza. Conforme diz Oren, esses episódios são imprevisíveis e o resultado de uma operação militar depende muito da sorte. Além disso, não se pode esquecer da possibilidade de o Hezbollah aproveitar que Israel está ocupado em Gaza e lançar uma nova frente no norte.
Israel iniciou a ofensiva por terra uma semana após o início dos ataques aéreos. O teatro de operações se altera completamente com a ação terrestre. A partir de agora, combatentes dos dois lados estarão frente a frente. O objetivo de Israel é eliminar a estrutura do Hamas para lançar mísseis contra o sul israelense. O grupo palestino tentará provocar o maior número possível de baixas no lado israelense e, se possível, capturar algum militar de Israel vivo. No confronto, certamente haverá vítimas dos dois lados. Até agora, mais de 460 palestinos e quatro israelenses morreram – outros 30 já teriam morrido esta noite nas ações por terra.
O conflito se parece cada vez mais com o do Líbano em 2006 e as autoridades de Israel sabem disso. A diferença é que, há dois anos e meio, o Hezbollah conseguiu o tempo todo causar um número de baixas elevado no lado israelense, com seus mísseis atingindo Haifa. O Hamas não tem a capacidade reagir na mesma intensidade, pois é militarmente bem inferior à organização libanesa.
Apesar de enfrentar um grupo mais fraco do que o Hezbollah, Israel terá dificuldades devido à geografia. O sul do Líbano não é tão populoso e vertical como a Faixa de Gaza. Neste momento, israelenses que moram em cidades como Sderot devem ter entrado em seus abrigos anti-bomba construídos com a ajuda do governo. Os palestinos civis de Gaza estão nos seus prédios, sem nenhuma forma de se proteger, já que não existe governo oficial no território, torcendo para que o Hamas não tenha escondido armas em algum dos andares.
Alguns poucos jornalistas poderão acompanhar em Gaza os combates, como os repórteres da Al Jazeera. Mas a maioria terá que ficar aqui, em Israel, sem ver as batalhas de perto. É mais ou menos como um jornalista esportivo assistindo a apenas metade do campo em uma partida de futebol. O problema é que todos os gols acontecem na outra metade. E o jornalista terá que escrever tudo pelas notícias que escuta no rádio.
Sexta-feira é o dia mais movimentado em Jerusalém. Ao meio-dia, os muçulmanos fazem sua mais importante oração semanal que tem como centro a Esplanada das Mesquitas, com a Al-Aqsa e o Domo da Rocha. Horas mais tarde, os cristãos liderados por franciscanos realizam a tradicional peregrinação pela Via Dolorosa que se encerra na Igreja do Santo Sepulcro. Os judeus, no pôr-do-sol, dão início ao Shabat (dia do descanso).
A entrada para não muçulmanos, até mesmo jornalistas, na Esplanada das Mesquitas está proibida. Ontem, a restrição imposta pela polícia israelense atingiu inclusive os seguidores do Islã. Homens com menos de 50 anos não tiveram permissão para rezar nas mesquitas. O motivo era o temor de que as orações e os sermões em um momento de conflito em Gaza pudessem provocar levantes na cidade, colocando em risco a população. Um jovem de cerca de 20 anos que observava os outros muçulmanos de cabelos e barbas brancas deixando a Esplanada das Mesquitas estava indignado com a proibição e afirmou que a história seria diferente se os palestinos, e não os israelenses, fossem os que portassem armas.
A procissão franciscana parecia ignorar completamente que há um conflito militar não muito longe dali. Turistas munidos de máquina fotográfica e filmadoras rezavam em latim e seguiam as instruções dos franciscanos em cada uma das estações da Via Dolorosa.
Não muito distante, um grupo de brasileiros queria assistir ao início do Shabat no Muro das Lamentações, porém observavam equivocadamente a muralha que circunda a Cidade Velha, imaginado que ali fosse a parede restante do templo sagrado para os judeus.
Aos poucos, a praça diante do muro começa a se encher. Os ortodoxos, como sempre, estavam inteiramente de preto e dominavam o cenário. Adolescentes cabeludos com meninas descoladas dançavam e cantavam músicas em hebraico, numa roda, enquanto o sol se punha, em um colorido impressionante que se misturava com as vozes que já iniciavam a reza. Apesar da guerra na Faixa de Gaza, Jerusalém tinha uma sexta-feira quase normal.
obs. Este é um trecho de uma das reportagens que publiquei hoje no jornal.
Em uma estrada que leva à passagem de Erez, usada para entrar na Faixa de Gaza, dezenas de repórteres e câmeras de TV disputavam um espaço no alto de um morrinho em busca do melhor ângulo para filmar. Jornalistas belgas, japoneses, alemães e israelenses faziam expressão de tensão, como se estivessem em meio a bombardeios, como é o caso de seus colegas da rede de TV Al-Jazira, que tem uma equipe em Gaza. Na realidade, estavam no meio de um pasto diante de jovens soldados israelenses com aparência de cansaço.
As tevês israelenses exibiam imagens da cidade mais alvejada pelos foguetes palestinos. O problema é que, apesar das dezenas de Kassam que caíram sobre Sderot nos últimos anos, a cena não é de destruição, pelo menos para quem já viu cidades como Khiam e Bint Jbeil, no sul do Líbano, após uma guerra que não deixou quase nenhum prédio de pé.
No centro de imprensa, membros da chancelaria israelense dão assistência para conseguir entrevistas e concedem todo o tipo de informação. Autoridades e analistas estão disponíveis para responder a qualquer questão.
A dificuldade da cobertura é que não existe o lado palestino. Ou pelo menos do Hamas, já que a Autoridade Palestina pode ser procurada em Ramallah, na Cisjordânia. Alegando razões de segurança, Israel não permite a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza.
A Associação de Imprensa Estrangeira de Israel conseguiu na Justiça que o governo israelense liberasse a entrada de um número reduzido de jornalistas no território palestino.
Em conversa com o Estado, que pediu para ser incluído no grupo, Glenys Sugarman, que dirige a associação, disse que a prioridade será de membros do grupo, que tem um total de 500 filiados – este repórter não integra a organização. Destes, dez poderão se juntar aos jornalistas da Al-Jazira para mostrar o outro lado.
obs. Esta foi uma das reportagens que publiquei hoje no jornal. Uma das análises está liberada mesmo para quem não é assinante no site do jornal.
Acabo de voltar de Sderot. Com a lembrança do texto “John Ward e Juan Lopez”, do escritor Jorge Luis Borges, sobre o encontro de um inglês e um argentino na Guerra das Malvinas, que poderia ser aplicado com certeza à situação na faixa de Gaza.
“O planeta havia sido dividido em distintos países, cada um com suas lealdades, suas queridas memórias de um passado sem dúvida heróico, de certos e errados, de uma mitologia peculiar, de próceres de bronze, de aniversários, de demagogos e de símbolos. Esta divisão arbitrária favorece as guerras. López nasceu na cidade junto ao rio imóvel. Ward, nas cercanias da cidade por onde andou Padre Brown. Estudou castelhano para ler Quixote. O outro professava o amor de Conrad que lhe havia sido revelado em uma aula na rua Viamonte. Teriam sido amigos, mas se viram apenas uma vez cara a cara, em umas ilhas muito famosas, e cada um deles foi Caim, e cada um, Abel. Eles foram enterrados juntos. A neve e a corrupção os conhecem. O incidentes a que me refiro ocorreu em um tempo que não podemos entender”
Neste exato momento, um soldado israelense de 18 anos está preparado para uma ofensiva terrestre na faixa de Gaza. Seu nome pode ser Ehud. Com certeza, é um jovem com sonhos, que escuta iPod, posta vídeos no Youtube, tem namorada, quer estudar nos Estados Unidos, assiste a filmes, torce pelo Manchester United e acabou de terminar um livro. Para ele, seus heróis são Ben Gurion e Menachen Begin. Na sua memória, 1948 é o ano da independência de seu país. O ano de 1967 é o ano da reconquista de Jerusalém, quando os judeus puderam voltar a rezar no Muro das Lamentações. Seu objetivo é defender seus conterrâneos que são alvejados por mísseis diariamente em Sderot.
Do outro lado, está um militante palestino também de 18 anos. Seu nome pode ser Ahmed. Também está preparado para a luta, dentro da faixa de Gaza, à espera dos israelenses. Certamente tem sonhos, gosta de ver filmes, provavelmente não tem iPod, mas com certeza navega na Internet, lê livros e acompanha os jogos do Arsenal. Para ele, seus heróis são o xeque Yassin e Yasser Arafat. Na sua memória, 1948 é o ano do Nakba, da tragédia palestina, quando seus avós e pais perderam as suas terras. O ano de 1967 é o do início dos assentamentos e do fim de qualquer possibilidade de conhecer a Mesquita de Al Aqsa em Jerusalém. Seu objetivo é derrotar o inimigo que, na sua cabeça, roubou suas terras e destrói com bombardeios o seu território.
Os dois vão se encontrar, sem nunca terem se visto, e podem se somar às milhares de vítimas de um conflito que, ao contrário do das Malvinas, dificilmente terminará tão cedo. A tragédia dos dois é bem maior do que a de Ward e López.
obs. Mais relatos sobre o que vi e ouvi em Sderot estarão na edição impressa do jornal.
São 22h40 aqui em Jerusalém. Último dia do ano que começou de forma inusitada. De manhã, ao acordar, desci para tomar café da manhã no hotel. O restaurante estava vazio, a não ser por duas meninas. Até chegarem uns seguranças agitados com fones de ouvido acompanhando um homem baixo, de cabelo branco e meio barrigudo. Era Benjamin Netanyahu. Junto com ele, Benny Begin, filho de Menachen Begin, premiê de Israel que fez a paz com o Egito. Na minha frente, estava o jornal “Haaretz” com uma prévia da entrevista dele que será publicada na edição de amanhã. Por um momento, fiquei na dúvida se eram eles, mas as garçonetes confirmaram a informação. Pensei até em fazer uma pergunta, mas eu ainda nem estava registrado como jornalista aqui e poderia enfrentar problemas com os seguranças.
Não deixa de ser irônico que, semanas atrás, eu estava em uma exposição do Hezbollah onde a figura de “Bibi”, como é conhecido o ex-premiê de Israel, certamente seria comparada ao demônio. Agora, ele estava ali, a poucos metros de distância, em uma outra mesa.
Depois do meu último café da manhã do ano, fiz meu credenciamento no Escritório de Imprensa de Israel e segui para uma cidade palestina para escrever uma reportagem que sairá na edição impressa do Estadão. Assim como artigo sobre o conflito. Amanhã, vou para Sderot e outras cidades nas proximidades da faixa de Gaza.
Feliz Ano Novo.
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