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O que é ser árabe? O que é ser judeu? Aliás, dá para ser judeu e árabe

Gustavo Chacra

24 fevereiro 2010 | 15:35

Certa vez o meu amigo Islam, citado no post abaixo, chegou para mim na Universidade Columbia e pediu que eu o apresentasse para amigas brasileiras. “Mas fale para elas que sou árabe do Mediterrâneo, de Alexandria, não do Golfo”, me instruiu, querendo se diferenciar dos sauditas e kuaitianos. Agora há pouco, recebi a ligação de um amigo que esteve no Egito e ficou chocado com a diferença entre os habitantes do Cairo e um grupo de libaneses viajando para Sharm el Sheikh. “Os libaneses pareciam meus amigos do Dante sócios do Monte Líbano”, disse Fernando, que não tem origem árabe.

Realmente, generalizar a palavra árabe é um equívoco grave. Assim como achar que todos os países são iguais. Um marroquino de Fez é tão distante de um libanês – mesmo muçulmano – quanto um porteño é de um dominicano. Mesmo dentro dos países, há diferenças. Conforme escrevi aqui, não encontrei esfihas nos restaurantes de Beirute, mas vi várias à venda no Vale do Beqa, justamente a região de onde veio a maioria dos imigrantes libaneses para o Brasil.

No Líbano, e mesmo na Síria e na Cisjordânia, dificilmente você verá mulheres usando burka. Aliás, em Beirute, a não ser que seja uma turista saudita, acho impossível ver uma libanesa toda coberta. Claro, muitas vestem o hijab. Mas burka? De jeito nenhum. E, lembro, as mulheres xiitas também ficam com meninos e usam biquíni, especialmente as classes mais altas. Já na Arábia Saudita, mulheres sequer podem dirigir. No Egito, atualmente, a quase totalidade das mulheres cobrem a cabeça, a não ser as cristãs coptas. Nos anos 1970, eram raras as que cobriam. Alguns imbecis islamofóbicos tentam resumir os muçulmanos aos radicais e aos supostos moderados omissos. Basicamente, não sabem nada de nada. Primeiro, como disse dezenas de vezes, os radicais são minoria. E os moderados não são e nem nunca foram omissos.

O Fernando ficou chocado com a pobreza do Cairo. Impressiona mesmo, especialmente no centro, onde ficam os turistas. Eu o havia aconselhado a visitar os sofisticados bairros de Maadi e Heliópolis, mas ele não me escutou, e ficou sem ver outra face do Egito. Mas, de qualquer forma, a cidade das pirâmides realmente é pobre. Por outro lado, quem visitou Dubai, Abu Dhabi ou Doha achará que está no futuro. Dá aquela sensação de quando viajávamos aos Estados Unidos nos anos 1980, quando o Brasil era uma economia fechada e até um tênis ou um relógio de pulso americanos e japoneses eram artigos para os mais ricos. A classe média paulista apelava para o contrabando de Puerto Strossner (hoje, Ciudad Del Este). O Burj al Khalifa é a construção mais alta da história da humanidade, com a vantagem de ter uma arquitetura fantástica, bem diferente de caixotões como o World Trade Center. Aliás, por que dizem que Dubai é cafona? Os franceses não construíram uma torre sem função? E o Empire State em Nova York? Eu já critiquei Dubai antes, mas me arrependo. O edifício é sensacional, assim como o Burj al Arab

Aliás, antes que me esqueça, o mesmo vale para os israelenses. Como definir alguém de Israel? Seria o surfista de Tel Aviv ou o estudante de uma Yeshiva em Jerusalém? Será que o surfista não tem mais em comum com um “Mané da Ilha”, como são chamados os habitantes jovens de Florianópolis? Ou com um snowboarder do Colorado? E o jovem do Yeshiva, não poderia viver em uma comunidade ortodoxa do Brooklyn ou de Once, em Buenos Aires?

Generalizar muçulmanos, árabes, judeus, israelenses, libaneses, egípcios, o que for é imbecilidade. Primeiro, como disse várias vezes, muçulmanos podem ser indonésios, americanos, franceses, libaneses, brasileiros (aliás, nosso grande surfista Jihad, que adoraria Tel Aviv, apesar das ondas pequenas) e, juro, israelenses. Pode usar burka, pode usar biquíni. Pode ser da Al Qaeda, pode ser do Exército dos Estados Unidos. Árabes podem ser judeus, podem ser cristãos, podem ser muçulmanos. Podem comer kibe, podem comer hamburger, podem comer macarrão. Judeus podem ser brasileiros, podem ser egípcios, podem ser libaneses, podem ser americanos, podem ser israelenses.

O Islam, citado acima, nada mais é do que um típico americano de New Jersey, que cresceu sofrendo para entrar nas boates de Nova York. Ele não é mais um árabe do Mediterrâneo. Seus pais eram. Aliás, Alexandria já deixou de ser aquela metrópole mediterrânea dos tempos de Lawrence Durrell, autor do Quarteto de Alexandria.

Aqui, sempre deixo o recado para que não deixem recados islamofóbicos, anti-árabes e anti-semitas. Lógico, como alguém pode não gostar de judeus ou de muçulmanos? Tem quer ser extremamente idiota para condenar alguém por causa da religião. Ou porque alguém da mesma religião cometeu um atentado terrorista ou porque um regime trata mal as mulheres. Já falei várias vezes, até duas décadas atrás, mulheres muçulmanas eram simbolizadas pelas odaliscas. Hoje, são as burkas. As mulheres muçulmanas podem ser várias coisas. Da enfermeira de Londres, a uma professora no Rio, passando por uma mulher mutilada na tribo da Somália.

ENCONTRO DOS LEITORES

Os leitores do blog irão realizar o encontro mensal neste sábado. Eu não participo porque moro em Nova York. Curiosamente, há judeus, árabes, e judeus árabes participando. Claro, também tem muçulmanos, ateus e cristãos. Em comum, todos são brasileiros e adoram debater questões do Oriente Médio, além de ocuparem por mais de dez horas a mesa de um bar na Vila Madalena. Quem quiser participar, envie um comentário com o nome e o email

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