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Guia blogueiro para entender o ISIS e a Guerra do Iraque

Gustavo Chacra

quarta-feira 20/08/14

Para entender o ISIS, é necessário observar suas divisões étnicas e religiosas no Iraque. Etnicamente, os iraquianos se dividem em árabes e curdos, além de minorias armênia, turcomana e assíria. No campo religioso, os iraquianos s dividem em sunitas e xiitas, com minorias cristãs e yazidis.

Árabes Xiitas

Os árabes são majoritariamente xiitas no Iraque. Representam cerca 55% do total da população (incluindo os não árabes), segundo algumas estimativas. Além do Iraque, apenas Bahrain tem maioria xiita. No Líbano, os xiitas talvez sejam a maior pluralidade, superando por pouco cristãos e sunitas, mas não chegam a ser mais de 50% (Irã é persa). No território iraquiano, os xiitas árabes se concentram no sul e na capital Bagdá. Estas regiões são controladas pelo governo.

Árabes Sunitas

Os árabes sunitas totalizam  18% da população iraquiana. Apesar de minoria no Iraque, eles são maioria no mundo árabe, a não ser justamente no Bahrain e no Líbano. No território iraquiano, eles se concentram no centro e no oeste do país, hoje nas mãos do ISIS, além de serem uma importante minoria em Bagdá.

Curdos

Os curdos são majoritariamente sunitas. Mas a etnia, e não a religião, pesa mais na identidade de quase todos eles, a não ser pela minoria seguidora da religião yazidi. Ao todo, são 21% do total e estão concentrados no norte do Iraque, na região autônoma do Curdistão. Nestas áreas, também vivem os turcomanos, que são 2% do total e podem ser tanto xiitas quanto sunitas.

Cristãos

Os cristãos do Iraque, diferentemente da maioria no Líbano e na Síria, não são árabes. São assírios e armênios. A maioria segue a religião Caldéia, com uma minoria seguindo as diferentes Igrejas assírias. Usam um idioma derivado do aramaico, embora quase todos sejam fluentes árabe. Os armênios, por sua vez, tendem a ser ortodoxos, embora também haja católicos. E a língua, claro, é a armênia. Ao todo, apenas 4% da população do Iraque – na Síria, são 10% e no Líbano cerca de 40%.

Apenas para ficar claro

Xiitas árabes – 55%

Sunitas árabes – 18%

Curdos (sunitas com minoria yazidi) – 21%

Cristãos (caldeus, assírios e armênios) – 4%

Turcomanos (sunitas e xiitas) – 2%

 Cada um destes povos possui a sua própria experiência na história iraquiana, especialmente nas últimas décadas.

Os xiitas e curdos têm um sentimento de que foram vítimas de um Estado de apartheid nos anos em que Saddam Hussein estava no poder. O ditador, que era um sunita laico, tendia a proteger os sunitas e os cristãos, enquanto massacrava xiitas e curdos

 . Os sunitas avaliam que são alvo de perseguição no Iraque desde a invasão dos EUA. Washington teria favorecidos os xiitas, aliados do Irã, em detrimento dos sunitas. Pouco representados, eles se levantaram contra o Exército americano e contra o governo central em Bagdá. Faziam parte das forças sunitas tanto grupos seculares baathistas, ligados ao ex-ditador Saddam Hussein, como também facções ligadas à Al Qaeda antes inexistentes no Iraque (Saddam combatia duramente a rede terrorista de Bin Laden, de quem era inimigo). Mas os dois tinham um inimigo comum – os xiitas e os EUA.

Como os EUA e o Iraque derrotaram a Al Qaeda?

Inicialmente, no surge, a partir de 2006, os EUA conseguiram reverter esta oposição de sunitas ao pagar mesadas para líderes tribais sunitas em troca de apoio. Fortes nas áreas sunitas, os líderes tribais se voltaram contra a Al Qaeda no Iraque e também contra os grupos ligados a simpatizantes de Saddam. No fim, conseguiam estabilizar a região com a ajuda de dezenas de milhares militares americanos  e do Exército do Iraque.

Como a Guerra da Síria contribuiu para o nascimento do ISIS?

O Ocidente, a Turquia e países do Golfo apoiaram os rebeldes na Síria contra Bashar al Assad. Estes rebeldes, em sua maioria, porém, compartilhavam dos mesmos ideais que a Al Qaeda, não de uma democracia sueca. Jihadistas do mundo todo começaram a ir para a Síria para lutar contra Assad e perseguir minorias religiosas, como os cristãos, alaítas, drusos e mesmo sunitas moderados, que apoiam e são protegidos pelo regime sírio, enquanto o Ocidente apenas se preocupava em condenar Damasco, praticamente dando sinal verde para o avanço do radicalismo religioso de grupos como o ISIS e a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda.

Mas tem o ISIS e a Frente Nusrah, qual diferença?

Os dois eram aliados e ligados à Al Qaeda. Mas houve um rompimento quando o comando do ISIS decidiu não seguir mais a liderança central da Al Qaeda, se tornando independente. Além disso, as ações do ISIS, crucificando minorias religiosas, estuprando mulheres e matando crianças foram consideradas muito radicais pela Al Qaeda e, consequentemente, a Frente Nusrah.

Mas a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda, ainda existe?

Sim, e é a principal rival do ISIS na luta contra o regime de Assad. Os dois grupos também lutam entre si e praticamente eliminaram do mapa facções menos religiosas da oposição, como o Exército Livre da Síria.

Certo, isso na Síria, mas e no Iraque?

A partir de sua base na Síria, o ISIS conseguiu se fortalecer. E, no Iraque, a prática de mesadas do surge americano havia acabado. E os EUA haviam retirado as suas tropas do território iraquiano em 2o11. As áreas sunitas, mais uma vez, estavam insatisfeitas com o governo central em Bagdá, dominado por xiitas apoiados pelos EUA e pelo Irã. Isso eliminou a resistência à entrada do ISIS, agora mais forte, nos territórios majoritariamente sunitas do oeste do Iraque, próximos da fronteira com a Síria.

Por que os EUA retiraram as tropas?

Esta decisão foi tomada ainda no governo de George W. Bush, em 2008, e levada adiante pela administração Obama. Os dois presidentes defendiam a permanência de tropas remanescentes. Mas o Parlamento iraquiano, em votação, não permitiu a permanência dos militares americanos. Isto é, Obama queria ter deixado cerca de 5 mil soldados baseados no Iraque, mas Bagdá não permitiu.

E a fuga de radicais Abu Ghraib?

Ao menos 500 prisioneiros, antes ligados à Al Qaeda, fugiram da prisão de Abu Ghraib. Entre eles, estão alguns dos mais radicais ex-integrantes da rede de Bin Laden. A maior parte deles acabou se juntando ao ISIS e contribuiu para a tomada de território no Iraque. Este episódio, quase esquecido, foi crucial para o fortalecimento do ISIS.

Quem apoia o ISIS no Oriente Médio?

Figuras independentes do Golfo e habitantes sunitas mais religiosos do interior da Síria e do Iraque. Mas a principal base de suporte vem de radicais sunitas de outras partes do mundo, incluindo dos EUA e da Europa. Há até uma parte dos guerrilheiros do ISIS sequer sabe falar árabe direito e não é da Síria e do Iraque.

Quem são os maiores inimigos do ISIS?

O regime de Assad na Síria, o Irã, o governo xiita do Iraque, os curdos iraquianos, o Hezbollah, os EUA, o Líbano (todas as religiões), Israel, minorias religiosas ao redor do Oriente Médio, Rússia, monarquias do Golfo e, hoje, até a Al Qaeda. Basicamente, todo o mundo.

E de onde eles tiram dinheiro e armas?

O dinheiro vem de doações destas figuras independentes e também da tomada de cidades na Síria e no Iraque. Eles roubaram dezenas de milhões de dólares dos bancos em Mossul, segunda maior metrópole do Iraque. As armas vêm contrabandeadas da Líbia, onde os rebeldes foram armados pela OTAN, do armamento de milícias opositoras na Síria pelo Ocidente e pelo Golfo e também do roubo de armamentos do Exército sírio e iraquiano.

Qual a estratégia para derrotar o ISIS no Iraque?

No Iraque, há uma estratégia com três pilares. Primeiro, os EUA estão lançando bombardeios estratégicos. Segundo, os EUA estão apoiando os peshmerga, como são conhecidos os guerreiros curdos, que servem de Exército do Curdistão, para combater o ISIS a partir do norte. Pressionando o futuro premiê Haider Abadi a formar um governo mais inclusivo, com presença maior de sunitas, curdos e cristãos, se diferenciando do anterior, totalmente controlados por xiitas, há uma expectativa de os sunitas se sentirem mais representados. Desta forma, o Exército do Iraque, com apoio dos EUA, enfrentaria menos resistência nas áreas controladas pelo ISIS e poderia ter o suporte dos líderes tribais.

Qual a estratégia para derrotar o ISIS na Síria?

Não há uma estratégia clara. Alguns falam em armar os rebeldes moderados. Mas estes são irrelevantes. Seria como treinar um time de várzea brasileiro para enfrentar o Barcelona. A única opção viável seria torcer para as Forças de Assad derrotarem o ISIS com a ajuda do Hezbollah e do Irã e apoio da Rússia. Isso já vem ocorrendo. Para os EUA, é impossível apoiar Assad devido ao histórico de crimes contra a humanidade, segundo a ONU, que teriam sido cometidos pelo regime sírio, embora haja um consenso cada vez maior de que ele seja o menor dos males hoje na Síria

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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