1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Esqueça Hamas, Hezbollah e Síria; Israel teme mesmo um Irã com bomba atômica

Gustavo Chacra

quarta-feira 04/02/09

O maior temor dos israelenses é o Irã. Pelo menos é o que fica claro na campanha eleitoral aqui em Tel Aviv. Mesmo sem terem fronteira e sem nunca terem travado uma guerra, os dois países se tornaram inimigos mortais nos últimos anos, a ponto de analistas preverem que uma terceira guerra mundial tenha início [...]

O maior temor dos israelenses é o Irã. Pelo menos é o que fica claro na campanha eleitoral aqui em Tel Aviv. Mesmo sem terem fronteira e sem nunca terem travado uma guerra, os dois países se tornaram inimigos mortais nos últimos anos, a ponto de analistas preverem que uma terceira guerra mundial tenha início em um confronto envolvendo o Estado islâmico e o Estado judeu.

Israel teme o Irã por três motivos – os iranianos estão desenvolvendo um programa nuclear que provavelmente culminará em um bomba atômica; o regime de Teerã dá apoio ao Hezbollah e ao Hamas, duas organizações que entraram em conflito contra os israelenses, além de não reconhecerem a existência de Israel; o presidente iraniano, Mahmoud Ahmedinejad, teria dito que Israel deveria ser varrido do mapa e nega o Holocausto.

O Irã argumenta que o programa nuclear é para fins civis. Mas apenas ingênuos acreditam nisso. Está claro que, em breve, os iranianos realizarão o seu primeiro teste nuclear. O lançamento de um satélite nesta semana com uso de foguetes nacionais que podem ser usados também em armamentos foram um sinal claro de que o mundo terá que se acostumar com uma bomba atômica iraniana.O avanço tecnológico do Irã não deixa dúvidas.

Dizer que o Irã é signatário do acordo de não-proliferação nuclear e poderia sofrer ainda mais sanções caso realmente desenvolva armas nucleares não tem muita validade para os iranianos. Eles preferem observar outros países para ver qual a melhor saída. Índia e Paquistão não foram penalizados depois de testarem armamentos atômicos. E a Coréia do Norte passou a ser mais respeitada. Já o Iraque e o Afeganistão, que não tinham esses arsenais, foram invadidos e seus regimes removidos. Logo, para os iranianos, a lógica é ter uma bomba.

Além disso, os iranianos consideram as grandes potências hipócritas. Primeiro, Israel tem bomba atômica e se recusa a assinar os acordos de não-proliferação. Em segundo lugar, os Estados Unidos, que tanto pressionam os iranianos, são justamente o único país a ter usado uma arma nuclear, contra o Japão. Os americanos ainda invadiram dois vizinhos do Irã – em um ato cujo maior beneficiado foi justamente o regime de Teerã, pois tanto Saddam Hussein quanto o Taleban eram inimigos da República islâmica.

Os iranianos não pensam na segurança de Israel, da Arábia Saudita ou da Jordânia. Eles são realistas e pensam na própria segurança. Querem as armas para se defender.

O segundo ponto é mais delicado. O Irã dá apoio ao Hezbollah e ao Hamas, grupos comprometidos em atacar Israel. Os iranianos dariam as armas para estas organizações? Para o Hamas, certamente não. Já para o Hezbollah, em um quadro de guerra regional, é bem possível que sim.

Os israelenses ainda têm razão quando vêem as declarações de Ahmedinejad. Apesar de muitos tradutores argumentarem que ele não afirmou que pretende “varrer Israel do mapa”, ele defende que os habitantes da Palestina (o que para ele é Israel, Cisjordânia e Gaza) deveriam realizar um plebiscito e decidir como seria o país. O presidente não é claro se os judeus que chegaram a Israel durante o movimento sionista seriam incluídos. De qualquer forma, Israel não aceita ser um Estado que não seja judeu. O plebiscito, de uma certa forma, poderia significar o fim de Israel como Estado judaico. Não interessa tanto se uma pessoa é a favor ou não disso. O fato é que os israelenses querem continuar vivendo em um Estado judaico e um líder estrangeiro se posiciona contra.

A questão do Holocausto é provocação pura do presidente iraniano. Ahmedinejad começou a tocar no assunto depois de uma charge que ironizava o profeta Maomé ter sido publicada em jornais europeus. Para o presidente do Irã, é errado poder falar mal do islamismo e não do judaísmo. Seriam dois pesos duas medidas. Porém ele esquece que negar o Holocausto é simplesmente ignorar um dos maiores genocídios do século 20 e não pode ser colocado na mesma escala de uma charge. Além disso, passa por ignorante.

Esta inimizade entre o Irã e Israel é recente. Antes da queda de Saddam e do Taleban, os iranianos não tinham tanto tempo para pensar em Israel. Os dois países também têm interesses em comum. Ambos são vizinhos de milhões de árabes. O Irã tem petróleo, Israel possui tecnologia. Ao lado da Turquia, são os países com o sistema educacional mais avançado da região. Poderiam ser aliados. Mas não são.

Israel pediu autorização aos Estados Unidos no ano passado para bombardear instalações nucleares iranianas. Não teve. Um ataque ainda não está descartado. Porém já é tarde demais. Os israelenses terão que aprender a viver com um outro país com armas nucleares no Oriente Médio. O Irã terá bomba atômica e poderá destruir cidades como Tel Aviv. Isso não significa que vá destruir. A União Soviética não atacou os Estados Unidos na Guerra Fria. Muito menos o Paquistão e a Índia partiram para uma guerra nuclear. Ao contrário, passaram a dialogar em igualdade de condições.

Apenas comentários que tenham alguma relação com o post serão publicados. Como sempre, comentários anti-árabes, anti-semitas e islamofóbicos serão vetados. Serei rigoroso também em textos com ataques entre leitores. Comentários que coloquem um povo ou uma religião como superiores tampouco entram