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Direto de Beirute – Quer entender a Síria? Leia estas 4 perguntas

Gustavo Chacra

segunda-feira 02/06/14 18:48

Quem vence a eleição?

Bashar al Assad certamente será reeleito presidente da Síria nesta terça. As eleições, apesar de haver opositores, não serão democráticas. Mas, mesmo se fossem, ele provavelmente seria o vencedor por dois motivos – 1) a inexistência de opositores relevantes dentro e fora da Síria 2) parcela relevante (talvez a maioria) da população, especialmente as minorias alauítas, cristãs e drusas, além da classe média laica sunita das grandes cidades, gosta de Assad, o tolera ou ao menos o acha melhor do que os seus adversários, muitas vezes ligados à Al Qaeda.

Quem vence a Guerra?

Bashar al Assad também vence a guerra. Controla todos os centros populacionais sírios, incluindo Damasco. Avançou militarmente, com a ajuda do Hezbollah, do Irã e do Iraque, no último ano. A oposição, a não ser pelos grupos mais radicais, entrou em colapso. Perdeu suas rotas de contrabando de armamentos na fronteira com o Líbano. No campo das relações públicas, mesmo em Washington, analistas e muitos diplomatas avaliam que Assad é a melhor opção para a Síria neste momento. O Ocidente não irá intervir no conflito, da mesma forma que não interviinterferiu até agora. A população americana quer distância da Síria, onde avalia os dois lados como ruins.

Assad está melhor hoje do que estava em fevereiro de 2011?

 Claro que não. Na época, ele controlava toda a Síria, não apenas os principais centros populacionais e partes do país. Damasco chegou a ser escolhida como um dos melhores destinos de 2010 pelo New York Times. Assad jantava com Sarkozy e Carla Bruni em Paris e com Lula em Brasília e recebia John Kerry, Brad Pitt, Angelina Jolie em Damasco. A capital síria e Aleppo eram lotadas de turistas em seus hotéis boutiques e de estudantes de árabe europeus e americanos. Hoje ninguém visita a Síria e ninguém decide aprender árabe no país. Líderes internacionais evitam Assad, que se tornou “tóxico”. No mundo árabe, possui relações com poucos países.

O que vai acontecer agora?

Cada vez menos a Síria será notícia internacional. A Guerra da Síria se “iraquizou”, com as pessoas não se interessando mais para o assunto, assim como não se interessam mais pela Guerra do Iraque. Morrer 50 em um atentado em Aleppo não choca mais ninguém. O conflito prosseguirá, mas cada vez mais nos moldes da Colômbia nos anos 1980 e 90. As principais cidades nas mãos do governo e o interior terra de ninguém. Para o Ocidente, o status quo atual não é ruim. A queda de Assad poderia significar um regime ultra radical ligado à Al Qaeda. Uma vitória total dele pode levar centenas de jihadistas europeus e americanos de volta a seus países, onde cometeriam atentados, como vimos em Bruxelas.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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