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De NY a São Paulo – O metrô de Higienópolis e o perigo do anti-semitismo

Gustavo Chacra

13 maio 2011 | 07:31

no twitter @gugachacra

O anti-semitismo é diferente da islamofobia. Este último é movido principalmente por um desconhecimento dos muçulmanos, alimentado em grande parte pela generalização de que os seguidores do islamismo seriam violentos como os membros da rede terrorista Al Qaeda. Ao longo do tempo, tento escrever demonstrando que o islã é algo muito, mas muito maior do que Osama bin Laden, além de ser uma religião que prega a paz. Seus seguidores variam tanto quanto os do cristianismo.

Um católico irlandês pouco tem a ver com um evangélico de Goiás ou um cristão ortodoxo da Rússia. O mesmo vale para as diferenças entre um xiita iraniano, um muçulmano de origem paquistanesa nascido em Manchester, um americano convertido ou uma libanesa sunita de Beirute. Muçulmano pode ser o Bin Laden, mas pode ser o Nobel da Paz Mohammad Younus, criador das microfinanças que aliviaram a pobreza de milhões na Ásia e na África.

Já o anti-semitismo não é o medo por ignorância, como costuma ser com o islã. É o preconceito na sua mais pura forma. Odeiam judeus apenas por serem judeus. Verdade, muitos também odeiam os muçulmanos apenas por serem muçulmanos. Mas com o judaísmo parece ser mais grave. Nos comentários no blog, que precisam ser barrados, leio pessoas com educação formal, português correto e citando autores nazitas e abertamente anti-semitas atacando os judeus. Leio piadas e escuto situações bizarras. Chegam para mim e, achando que não vou me importar por ter origem libanesa (anti-semitas acham que todos árabes são anti-semitas), xingam os judeus.Isso já aconteceu em um dos clubes mais elitistas de São Paulo e saiu da boca de um vice-presidente.

Nesta semana, o anti-semitismo apareceu na sua forma mais clara no episódio do metrô em Higienópolis, onde parcela da população é judaica. Inicialmente, alguns, como eu, criticaram os argumentos fracos de moradores do bairro.

Porém algumas pessoas, como o comediante Danilo Gentili, do programa CQC, e outros internautas que desconheço começaram a agredir publicamente os judeus, associando a questão de Higienópolis, supostamente um bairro judaico, ao Holocausto. O humorista, parceiro de outro que tirou sarro dos órfãos no dia das mães (Rafinha Bastos), pediu desculpas (Gentili faz piadas sobre judeus, causa reação no Twitter e pede desculpas).  Ele poussui educação formal e sabia do que estava falando. Não era um ignorante que não sabe o drama do maior genocídio do século 20, com o agravante de ter sido o único realizado em escala industrial. Tanto que citou Auschwitz. (Lembro que Gentili é stand up e os melhores nesta atividade são judeus, como Jerry Seinfeld e Larry David. Nenhum dos dois americanos jamais baixou o nível nas suas piadas).

Eu me irrito quando falam que libaneses (ou árabes, turcos, como quiserem) são bandidos ou terroristas. É algo que me afeta porque lembro dos meus avós, pai e tios. Isso levando em conta que eles não foram vítimas de nada. Imaginem como fica um judeu que perdeu parentes no Holocausto ao ler piadas anti-semitas?

O anti-semitismo não foi resolvido, como muitos imaginam, porque Israel nasceu e se transformou em um país do primeiro mundo, uma pátria para os judeus de todas as partes. Na verdade, se agravou. Começamos pelo mundo árabe, onde ataques a judeus são comuns inclusive em países com acordos de paz com Israel, como o Egito. Ou na Síria e no Iraque, onde os judeus viveram bem por séculos. Mesmo no Líbano, com a sua sociedade cosmopolita, já ouvi agressões nojentas ao judaísmo vindas tanto de cristãos como de muçulmanos. O Hezbollah talvez seja hoje a maior organização anti-semita do mundo. Basta ler o meu texto da visita ao museu do Hezbollah no Líbano.

Nos Estados Unidos, em uma das mais prestigiadas universidades do país, escutei estudantes americanos tirando sarro de judeus. Vocês leitores mesmo sabem como é a situação no Brasil e que ficou clara agora no episódio do metrô em Higienópolis. Na Europa, o anti-semitismo se esconde atrás da islamofobia, mas está ali nas mentes de extremistas na França e na Holanda.

Eu diria até que muitos europeus são anti-Israel por serem anti-semitas, enquanto muitos árabes são anti-semitas por serem anti-Israel. O mesmo se aplica a diversos grupos defensores dos palestinos. Eles não querem simpatizar com a causa palestina, mas apenas atacar Israel e os Estados Unidos, que simbolizam, na cabeça deles, o capitalismo – como se os árabes não fossem tão capitalistas quanto, mas isso entra na questão da ignorância.

Se eu soubesse que começaria esta gritaria anti-semita na internet, nem teria escrito sobre o assunto metrô de Higienópolis. Honestamente, me arrependi. Foi um terror ler os comentários ontem. Decidi escrever sobre o tema por discordar da posição de uma organização de moradores e achar necessário comparar com Nova York, cidade onde moro há anos e, se não me engano, com a maior população judaica do mundo (acho que supera Tel Aviv). Também usei os Jardins como exemplo, um bairro onde nasci e cresci e que talvez tenha mais judeus hoje do que Higienópolis – e, para mim, o bairro judaico de São Paulo sempre foi o Bom Retiro. Os exemplos ruins em relação ao transporte público, no meu texto, foram cidades árabes, como Sanaa e Damasco, além da destruída Porto Príncipe. Falando nisso, vamos acompanhar hoje os acontecimentos na Síria, onde os protestos já levaram autoridades judaicas internacionais a se preocuparem com o destino de sinagogas e propriedades de judeus da capital síria. Quem quiser saber mais sobre os judeus sírios, leia o texto abaixo, que escrevi em Damasco e Beirute.

Comunidades judaicas de Damasco e Beirute estão perto da extinção

obs. Este texto é uma homenagem ao Gabriel Toueg, do Portal do Estadão e por muitos anos repórter em Tel Aviv, que me alertou sobre os ataques anti-semitas na internet motivados pelo episódio do metrô

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios