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De Damasco a Beirute – Super liberalismo libanês x Super secularismo sírio

Gustavo Chacra

terça-feira 20/07/10

A relação da Síria com o Líbano avançou nos últimos dois anos. Por décadas, muitos sírios ainda reivindicavam o território libanês com o argumento de que tudo era parte da Grande Síria. Um erro, já que no Império Otomano existia a subprovíncia do Monte Líbano que respondia diretamente a Istambul, e não a Damasco. As cidades costeiras pertenciam a outras províncias.

Como o Uruguai em relação à Argentina, Portugal e Espanha e Austrália e Nova Zelândia, Líbano e Síria são muito próximos. A culinária é quase a mesma, gostam de beber arak, falam a mesma língua e as ligações culturais e familiares aproximam os habitantes destes dois países.

Poderiam até, no passado, terem integrado o mesmo país. Mas isso não aconteceu, décadas se passaram e diferenças surgiram. Em Damasco, perguntar a religião de alguém é falta de educação. A pessoa afirma ser síria e questiona a necessidade de alguém querer saber se ela é cristã ortodoxa, muçulmana sunita ou alauíta. A Síria tem orgulho de ser “árabe”, sempre evitando a palavra “islâmica”. Inclusive, o governo adotou restrições ao uso de vestimentas islâmicas em escolas e prédios públicos, seguindo a França e a Turquia – esta ação seria completamente inaceitável no Líbano.

Já quando desembarcamos em Beirute, a primeira pergunta que qualquer libanês faz é sobre a religião. Responda cristão, que logo vem a segunda – “Maronita, Ortodoxo ou outra?” Os libaneses têm uma necessidade de saber as informações pessoais dos interlocutores. Se são xiitas, sunitas, do sul, do Beqaa, do Monte Líbano.

Os dois países também possuem economias distintas. O Líbano é um dos maiores bastiões do livre mercado e da iniciativa privada do mundo. É o paraíso dos libertários. Ron Paul se sentiria à vontade como em Beirute, onde cada um faz o que quer, até mesmo guerra. A Síria é estatal, com o poder centralizado. Apenas há poucos anos começaram a surgir bancos privados. Quase tudo passa pelo governo.

No domingo, o premiê do Líbano, Saad Hariri, se encontrou pela terceira vez com Bashar al Assad, presidente da Síria, em Damasco. Os dois países aprofundaram as relações e assinaram uma série de acordos. Espero que, com o tempo, cada um aprenda com o outro o que há de melhor – a iniciativa privada libanesa, de um lado, e o secularismo sírio, do outro. Sempre claro, mantendo uma relação ao estilo Austrália-Nova Zelândia.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios