

Todas as tardes os iemenitas se reúnem para o ritual do qat, como é denominada uma planta com efeitos similares aos da folha de coca. Nestes encontros, como em bares paulistanos, eles discutem sobre os principais temas do país, que podem ser de uma partida de futebol ao problema de escassez de água para a agricultura. Com a ajuda dos professores de medicina Zayed Atef e Hadi Saleh, eu participei de dois rituais do qat, em dois dias diferentes, onde foi possível fazer uma espécie de seminário com cerca de 40 iemenitas. Todos eram homens, com mais de 30 anos. Alguns trabalhavam como profissionais liberais, outros como jornalistas e muitos empresários. Poucos estavam envolvidos diretamente com política. Certos participantes concordaram que seus nomes fossem publicados. Mas a maioria pediu anonimato. Em acordo com os dois organizadores, ficou definido que apenas o nome deles apareceria. Nos outros casos, será citada a profissão.
No encontro, eu lançava uma pergunta e os participantes do ritual respondiam e começavam a debater o assunto. A primeira delas era sobre o risco de a Al Qaeda assumir o poder. “Nosso país é uma civilização antiga, não temos terrorismo”, começou um xeque. Um cirurgião gástrico discordou. “Somos muito isolados. Nossa condição econômica é muito débil. Para complicar, estamos ao lado da Arábia Saudita, que é uma rica fonte de energia. Isso nos traz muitos problemas. Os membros da Al Qaeda de países produtores de petróleo se aproveitam da crise econômica iemenita”, afirmou.
Um terceiro participante se envolveu na discussão. “O terrorismo aparece apenas nos meios de comunicação. Querem dizer que somos uma porta para a Al Qaeda. Não é verdade. Há mais membros da Al Qaeda nos países desenvolvidos”, disse. Um engenheiro começou a contar a sua versão da criação da rede de Bin Laden. “A Al Qaeda nasceu para lutar contra a União Soviética no Afeganistão. Eram aliados dos EUA. Quem os educou? Os americanos. Depois do Iraque, em 2003, começaram a imigrar para o Iêmen”, disse.
Mais um participante se manifestou, dizendo que “o Iêmen é um país muito tranqüilo. Existem problemas porque o nosso território é muito grande. Deveríamos investir no turismo. Eles querem que sejamos pobres, que peçamos esmola. Seria melhor que nos deixassem em paz. Temos peixes e metais”. Em seguida, vários acrescentaram que os iemenitas “querem paz”. “Você nunca encontrará outro lugar no mundo como aqui. Convidamos os estrangeiros para visitar as nossas casas”, afirmou um empresário. Buscando dar contexto, um jornalista explicou que “há apenas algumas centenas membros da Al Qaeda no Iêmen”.
No outro ritual, o Estado lançou a pergunta sobre o que os iemenitas achavam da Al Qaeda. “Bin Laden é agente da CIA”, disse um. “Al Qaeda foi formada pelos Estados Unidos”, acrescentou outro. Em um discurso comum no Oriente Médio, alguns levantavam a tese de que a organização na verdade seria controlada por Israel e EUA. “Por que a Al Qaeda nunca ataca Israel? Estranho, não?”, disse um mais jovem. “Caso quisessem ter destruído a Al Qaeda, os americanos o teriam feito em 2001. Eles os mantiveram para poder ficar mais fortes”, afirmou um engenheiro. Em seguida, outros refutavam e diziam se tratar de um problema do mundo islâmico e não adianta culpar israelenses e americanos. Quase todos condenavam a rede terroristas. Porém argumentavam entender as ações contra forças americanas no Iraque. Um xeque reagiu e disse que “não há como justificar os atentados suicidas. O islamismo não aceita estas ações”.
O dono da casa, que dirige a faculdade de Medicina de Sanaa, ilustrou o problema. “Veja a segurança ao redor da minha casa. É para proteger a sede do Banco Mundial. Eles estão com medo de um atentado. A Al Qaeda será covarde se atacar aqui. Eu lutarei contra eles”, afirmou – ao redor da sua casa, há barricadas para proteger o órgão internacional. Outro, resumiu o problema. “A Al Qaeda faz lavagem cerebral”, disse. Para finalizar, no segundo dia do ritual, todos os presentes queriam saber sobre o Brasil, fazendo muitos perguntas sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sobre a economia brasileira.
Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes
A fiscalização no metrô de Nova York aumentou um pouco hoje. Policiais verificavam se havia algo estranho nos vagões. Mas, no fundo, ainda dava para entrar com uma bomba nos trens como ocorreu em Moscou. Ninguém viu que eu levava um kindle e óculos de natação na mochila. Podia muito bem estar com explosivos. No fundo, como já disse outras vezes, tudo parece ser jogo de cena.
Depois de um nigeriano tentar explodir um avião no dia do Natal em Detroit, o governo americano anunciou que faria uma investigação maior para quem viajasse a 14 países do mundo, incluindo o Yemen, onde estive há um mês. Logo, imaginei que fosse enfrentar problemas quando voltasse de Sanaa para os Estados Unidos. Talvez fizessem uma fiscalização maior no aeroporto ou uma entrevista na imigração.
Porém, depois de deixar Sanaa, passei dois dias em Dubai antes de embarcar para Nova York. Dubai que, semanas antes, havia sido palco de um assassinato atribuído ao Mossad pelas autoridades locais. E, ao deixar a cidade árabe, ninguém notou meu visto iemenita. No formulário da alfândega americana, incluí o nome do Yemen como país visitado antes de ir aos EUA. Tanto o funcionário da imigração como o da alfândega, leram o papel. E viram o gigantesco visto do Iêmen, que ocupa uma página inteira. Não me questionaram nada. Um dia depois, entrei em um trem de Nova York para Washington. Diferentemente do que ocorre nos aeroportos, não há detector de metal nem raio-x. Ninguém se manifestou. Agora, acabei de retornar da Colômbia. Nada de novo. Tudo bem, tenho o visto de jornalista. Talvez seja por isso.
O cenário seria bem diferente em países como Israel e o Líbano. No aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, perguntaram o que eu havia feito em cada um dos países que tinham carimbo no meu passaporte. E eu também estava como jornalista. Em Beirute, olharam todas as páginas para verificar se não há sinal de viagem a Israel.
Independentemente de qualquer coisa, terroristas podem com facilidade explodir o metrô no Times Square e na Grand Central Station aqui em Nova York ao mesmo tempo. Ou o trem de Nova York para Washington. Seriam mega atentados que paralisariam o país e provocariam dezenas de mortos. Queria entender o porquê de jogarem a pasta de dente fora para embarcamos em um vôo de Chicago para Boston, mas não passarem a bagagem e os passageiros de trens da capital dos EUA para a cidade mais rica do mundo. Ambas, aliás, que foram alvos dos atentados de 11 de Setembro.
O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009
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Estou em Cartagena, na Colômbia. Mas, como escrevi, estive antes em Sanaa, no Yemen. E nestes dias publicarei alguns textos sobre a minha viagem. Além disso, consegui publicar fotos no novo sistema. As mulheres de preto e os homens são de Sanaa. A menina sozinha estuda na Universidade Americana de Beirute. O objetivo, além de relatar a história abaixo, é mostrar que o mundo árabe é bem heterogêneo. Escrever generalizações como árabes odeiam os judeus ou todas as mulheres usam burkas é uma burrice. Há árabes que odeiam judeus sim, assim como WASPs nos EUA e quatrocentões de São Paulo. Sem falar em alguns alemães. São os famosos anti-semitas. Não sei se a menina patricinha de Beirute odeia ou não. Muito menos as duas de Sanaa, que sequer sei a idade. Apenas posso garantir que quem diz que todos os árabes odeiam e perseguem judeus é anti-árabe.
Os homens iemenitas são tradicionalistas. Vestem roupas brancas com facões na cintura. Seria o equivalente do terno e gravata no Brasil. As facas possuem diferentes modelos e materiais. Algumas, importadas da China, podem ser compradas por US$ 20. As melhores são fabricadas no mercado antigo da cidade. Quanto mais antigas, mais caras. E podem alcançar os milhares de dólares. Ironicamente, o presidente Ali Abdullah Saleh prefere se vestir de terno e gravata.
As mulheres de Sanaa se cobrem inteiramente de preto, incluindo o rosto. Nada a ver com as libanesas, que adoram usar biquíni. São raras as que usam até mesmo apenas um lenço na cabeça, como no Cairo ou em Damasco. Tampouco usam véus caros, como as de Dubai. Estão mais para as sauditas. Apesar disso, diferentemente do que ocorre na Arábia Saudita, elas dirigem e podem andar sozinhas e sem a companhia do marido. Nos restaurantes, há divisão. Uma sala para mulheres, outra para homens. Mas famílias podem comer juntas, o que é comum nas quintas e sextas, durante o fim de semana iemenita.
O jornalista Gustavo Chacra, 33, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano e do Terremoto no Haiti. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009
Estive recentemente no Yemen por uma semana, onde preparei uma série de reportagens que foram publicadas no Estadão deste domingo. Quem quiser, pode ler todas no próprio jornal. Ao longo desta semana, em meio também a posts sobre Lula em Israel, as publicarei aqui no blog. Vale a pena ler, já que fui o único repórter brasileiro a visitar o Yemen nos últimos tempos, especialmente depois que o país voltou a dominar as manchetes. O texto de hoje busca dar uma ideia geral de como está o Yemen. Quem tiver dúvidas, pode perguntar. Além disso, o blog também mudou e a minha foto, se já era ruim, piorou. Mas a diagramação ficou bonita
Obs. Percebi que está demorando para abrir a página dos comentários. Por favor, me avisem se encontrarem problemas
Um governo fraco, às voltas com milícias separatistas, uma população religiosa, conservadora e armada, desemprego na casa dos 40%, tráfico de drogas em expansão e um sistema tribal cujo poder se sobrepõe ao do Estado. Isolado e pobre, o Iêmen converte-se no novo foco da Al-Qaeda.
Em vilas do interior, a rede terrorista já opera com liberdade, a ponto de a missão iemenita na ONU aconselhar estrangeiros a não viajar para um raio além de 30 quilômetros ao redor da capital, Sanaa. Veteranos do Iraque e do Afeganistão juntam-se a jihadistas sauditas e ex-prisioneiros de Guantánamo neste país considerado o mais pobre do mundo árabe, localizado na ponta da Península Arábica, a poucos quilômetros da Somália – outra nação que atrai fundamentalistas.
O crescimento da Al-Qaeda no país não surpreende. A rede terrorista comandada por Osama bin Laden realizou no Iêmen o primeiro atentado que lhe deu projeção internacional, em outubro de 2000 – um ataque com uma lancha-bomba contra o destroier USS Cole, que matou 17 americanos, no Golfo de Áden.
Desde então, vários episódios ligando o Iêmen a ações terroristas – principalmente sequestros e mortes de estrangeiros que se aventuraram pelo interior do país – foram registrados. Nos últimos meses, o Iêmen entrou definitivamente no radar dos serviços antiterror do Ocidente. Primeiro, quando veio à tona que um clérigo americano de origem iemenita, Anwar al-Awlaki, servia de confidente do major Nidal Malik Hasan, que matou 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, em novembro.
Depois, no mês seguinte, quando um estudante nigeriano tentou explodir um avião que pousava no aeroporto de Detroit no Dia de Natal. O terrorista, que foi detido, disse ter recebido os explosivos no Iêmen, onde havia estudado árabe meses antes.
Mesmo antes desses episódios, consultorias de risco político como a Eurasia e a Stratfor já advertiam seus clientes de que a Al-Qaeda na Península Arábica oferecia mais riscos do que os braços da organização no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão.
Durante uma semana, a reportagem do Estado conversou com empresários, médicos, jornalistas e comerciantes. Todos condenam a rede de Bin Laden, mas admitem que há o risco de a Al-Qaeda transformar o país num santuário do terror – como o Afeganistão do Taleban.
Acordo rompido. Uma das razões disso é a ausência do Estado no interior, onde o conservadorismo e o atraso são maiores do que nos centros urbanos. As áreas rurais são controladas por tribos que não raro apóiam-se na Al-Qaeda para obter recursos.
Até os episódios do fim do ano passado, o presidente Abdullah Saleh mantinha uma espécie de acordo com a rede terrorista. O regime evitava combater a organização no interior e a Al-Qaeda não levava adiante atentados. “A Al-Qaeda sabe como jogar com essa situação”, afirma o advogado Saleh Adani. “Se a situação econômica continuar ruim, eles terão um ambiente propício.”
Esse acordo tácito era de interesse do governo porque seu objetivo prioritário é combater os milicianos houthis, de uma tribo que segue uma corrente islâmica próxima à dos xiitas. O Exército também precisava destinar recursos para lutar contra movimentos separatistas do sul do Iêmen – o país se unificou em 1994.
As Forças Armadas conseguiram eliminar alguns líderes do grupo. O risco, agora, é que as novas operações contra a Al-Qaeda e o apoio americano tenham um efeito inverso, com a rede ganhando adeptos locais.
A Al-Qaeda também pode se aproveitar das tribos para agir contra o governo. No episódio do levante dos houthis ficou claro as dificuldades de derrotar uma milícia no interior. A vitória ocorreu apenas com a ajuda dos americanos – contrários à aliança dos houthis com o Irã – e dos sauditas, irritados com os rebeldes que cruzava sua fronteira.
Para a Al-Qaeda, o episódio serviu de lição. Se o governo de Saleh ficar ao lado dos americanos, o grupo pode atrair as milícias por meio do comércio de drogas, dinheiro e apoiando causas, como o separatismo do sul. “O combate aos houthis é mais urgente do que à Al-Qaeda. Eles mostraram que têm armas em um conflito que durou seis meses. Qualquer tribo pode fazer o mesmo – e a Al-Qaeda tem conexão com muitas tribos”, diz o engenheiro Taraf Musa. “Juntos, serão um adversário ainda pior.”
Os iemenitas em Sanaa, em geral, têm medo da rede terrorista, apesar de o conservadorismo religioso ter vários defensores. “A Al-Qaeda atua em vilarejos. Somos contra eles, pois atacam crianças”, disse um empresário.
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Al-Qaeda mudou e o terrorismo assumiu uma nova face. Hoje, suas células podem estar em Londres, Sanaa ou mesmo dentro de uma base militar no Texas. São como franquias que seguem as ordens de líderes como Nasir al-Wahashy, comandante da Al-Qaeda na Península Arábica, tido como mais poderoso do que Osama bin Laden.
Recentemente, ele escreveu em uma revista islâmica um artigo aconselhando os militantes a realizar ataques mais simples, incluindo bombas improvisadas – justamente como ocorreu no fracassado atentado em um avião que aterrissaria em Detroit, nos EUA.
“Previmos que a maior parte dos ataques seria realizada por franquias jihadistas regionais, e não pelo comando da Al-Qaeda”, diz uma análise recente da consultoria de risco Eurasia, que acredita que essa tendência continue em 2010.
A descentralização do terror é resultado do uso da tecnologia. O nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, responsável pelo atentado de Detroit, assistia aos vídeos do clérigo radical americano Anwar al-Awalaki no YouTube. O major Nidal Malik Hasan, que matou 13 pessoas em uma base militar no Texas, trocava e-mails com Awalaki. Ninguém precisou treinar em campos da rede terrorista.
INIMIGOS
O nigeriano Abdulmutallab, de 23 anos, foi universitário em Londres. Filho de um banqueiro , nunca teve problemas financeiros. Como muitos jovens, decidiu estudar árabe no Iêmen, de onde só saiu em dezembro, depois de se reunir com o clérigo Awalaki. Passou por Etiópia, Gana, Nigéria e Holanda até tentar detonar os explosivos escondidos em sua cueca durante o voo.
Dias depois, o médico jordaniano Humam Khalil Abu Mulal al-Balawi, casado com uma jornalista turca e informante dos EUA, se explodiu em uma base americana no Afeganistão, matando sete agentes da CIA.
Os quatro envolvidos nesses três episódios – o atentado de Detroit, o massacre no Texas e o ataque à base da CIA – faziam parte da Al-Qaeda e todos possuíam alguma ligação com os EUA. O nigeriano tinha o visto. O jordaniano era um informante da CIA. O major pertencia ao Exército. O clérigo era cidadão americano.
Apesar de composta por muçulmanos, a organização de Osama bin Laden nunca contou com muita simpatia no mundo islâmico, seja árabe ou não. O Irã, que é persa, sempre considerou a Al-Qaeda um inimigo, especialmente porque Teerã segue a corrente xiita do islamismo, enquanto a rede terrorista é sunita e adota, dentro do sunismo, uma vertente radical denominada wahabismo.
Saddam Hussein, um secular que incluía cristãos em seu governo, também temia o radicalismo religioso da Al-Qaeda. O mesmo valia para Yasser Arafat, casado com uma cristã e assessorado por muitos não-muçulmanos. A Arábia Saudita, apesar de conservadora, preferiu priorizar suas relações com os EUA e entrou em choque com os seguidores de Bin Laden na Guerra do Golfo.
Hoje, a monarquia saudita é a maior inimiga da rede terrorista. Nem mesmo em um país dividido como o Líbano a Al-Qaeda obteve sucesso. Todos os libaneses se uniram, em 2007, na ofensiva do Exército contra o Fatah al-Islam, que havia dominado um campo de refugiados no norte do país. O líder da operação, o general Michel Suleiman, é hoje presidente do Líbano.
FALIDOS
Apenas dois países deram guarida a Bin Laden: Sudão e Afeganistão, ambos nos anos 90. Em outros, como Iêmen, Iraque, Somália e Paquistão, os jihadistas entraram à revelia do governo. “A Al-Qaeda considera países fracos a melhor saída para fixar suas bases. O Iêmen oferece a locação ideal para operar sem interferência externa”, disse Bruce Riedel, do Brookings Institution, de Washington.
A maior prova de que a Al-Qaeda procura Estados falidos é que suas tentativas de penetrar no Líbano e na Síria fracassaram. Ocorreram atentados na Jordânia e no Egito, mas a repressão se intensificou. Israel foi alvo de apenas uma ação da Al-Qaeda em sua história – mesmo assim, sem maiores consequências. As tentativas de seguidores de Bin Laden de se infiltrarem na Faixa de Gaza foram repelidas pelo Hamas. Os palestinos dizem que a organização prejudica seu objetivo de criar um país.
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima
Obs. Reportagem minha publicada na edição impressa do Estadão de domingo (05/01/2010)
No mundo árabe, com as raras exceções do sectário Líbano e do Iraque pós-Saddam, os governantes podem ser classificados entre os chegaram ao poder por serem herdeiros de monarquias e os integrantes de regimes republicanos que resultaram de golpes militares. Os rei Abdullah, da Arábia Saudita, membro do primeiro grupo, pertence à família real, assim como seu homônimo, da Jordânia. O mesmo se aplica ao sultão Qaboos, de Omã, e os mandatários dos Emirados Árabes, Bahrein, Qatar, Marrocos e Kuwait.
No lado das Repúblicas, estão o presidente do Egito, Hosni Mubarak, o líder líbio, Muammar Kadafi, o argelino, Abelaziz Bouteflika, o sírio Bashar al Assad – que inovou, e também herdou o poder do pai como se fosse um monarca – e o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, que passou a chamar a atenção em um momento no qual a importância de seu país, como novo bastião da Al Qaeda, cresce internacionalmente, especialmente depois do fracassado atentado em um avião que aterrissava em Detroit. O nigeriano, responsável pela tentativa de ataque, diz ter recebido ajuda de membros rede terrorista baseados no Iêmen.
Criado em academias militares, a biografia de Saleh, hoje pró-EUA, lembra em parte à de Mubarak. Assim como o líder egípcio, participou de golpes militares para derrubar monarquias. No seu caso, dirigida por imãs, no norte do Iêmen. Durante o início de sua carreira política, da mesma forma que o mandatário do Cairo, integrou um regime arabista. Inclusive, nesta época, no fim dos anos 1960 e começo dos 1970, o Iêmen do Norte era aliado do Egito, que ajudou os republicanos iemenitas a combaterem as forças monarquistas amparadas pela Arábia Saudita. As semelhanças prosseguem com os dois assumindo o poder depois do assassinato do antecessor com uma diferença de três anos entre um e outro. Saleh assumiu a Presidência em Sanaa, capital do então Iêmen do Norte, em 1978, aos 36 anos. Bem mais jovem do que Mubarak, que virou presidente em 1981, aos 53.
Como presidente, Saleh tentou levar adiante o seu principal objetivo – o de unificar o norte e o sul do território, governado, desde 1967, por um regime marxista aliado da União Soviética. A unificação ocorreria em 1990, depois do fim da Guerra Fria. Apesar de hoje serem o mesmo país, os dois Iêmen não compartilharam a mesma história recente. O norte era parte do Império Otomano e conquistou a independência depois da Primeira Guerra. Era governado por uma família de imãs de uma dinastia da corrente Zaidi do islamismo, próximo dos xiitas. Em 1962, foram derrubados por militares iemenitas inspirados pelo egípcio Gamal Abdel Nasser. Os arabistas, apesar de controlarem Sanaa, lutaram uma longa guerra civil contra os antigos monarquistas, que contavam com o apoio de Riad. O sul teve uma história distinta, sempre ao redor do porto de Aden, no oceano Índico, controlado pelos britânicos desde 1839. A independência do sul, há 42 anos, levou ao poder grupos que instalaram o único regime marxista no mundo árabe.
As economias também eram distintas. O sul, justamente devido à presença de Aden, por décadas se baseou no comércio marítimo. Com o comunismo, se tornou dependente da União Soviética. O norte tinha o café como produto predominante na sua pauta de exportações, mas decaiu com as guerras civis e secas nas últimas décadas. O PIB também recebia boas contribuições de trabalhadores iemenitas baseados em países do golfo Pérsico.
Líder da unificação, Saleh, reeleito presidente até 2013, governa hoje a economia mais pobre de todo o mundo árabe, com uma renda per capita inferior à da Faixa de Gaza. Para complicar, as reservas de petróleo estão secando e os iemenitas enfrentam dificuldades para diversificar a economia. Uma das esperanças para melhorar as finanças do país são as descobertas de gás na região de Marib. Na política externa, Saleh se aliou à Arábia Saudita para combater os o grupo Houthis, no norte do país. Também enfrenta problemas antigos com separatistas no sul. E, desde 2001, se tornou próximo dos EUA no combate à Al Qaeda, visitando George W. Bush três vezes na Casa Branca. Agora, depois do episódio em Detroit, seu país se torna chave na Guerra ao Terror. Os EUA devem ampliar a ajuda militar para Saleh e especula-se que os americanos, em coordenação com as Forças Armadas do Iêmen, iniciem ofensivas aéreas contra a rede terrorista.
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