No Brasil, muitos estudantes repetem de ano. Eu mesmo fui reprovado no primeiro ano do colegial (atual ensino médio) do colégio Pueri Domus, de onde também fui “convidado a me retirar” por indisciplina no ano seguinte. Na época, eu apenas pensava em jogar pólo aquático no clube Paulistano e, acreditem, ler o que o Giles Lapouge e o Issa Ghorayeb escreviam sobre política internacional no Estadão, além de sair com as jovens adolescentes de São Paulo no litoral norte. No fim, passei na FUVEST duas vezes (larguei a USP nos dois casos) e na Cásper Líbero (onde sou formado em jornalismo)
Caso houvesse nascido nos EUA, com um histórico escolar como o meu, jamais seria aceito nas melhores universidades para a faculdade – eu fiz mestrado na Universidade Columbia, uma das dez melhores do mundo, e pesou minha experiência profissional e também as notas na Cásper Líbero. Quer dizer, não sei.
Quem sabe, se eu fosse americano, teria me saído melhor se tivesse estudado aqui. Porque morei na Carolina do Sul no segundo colegial e todas as minhas notas foram A ou A- (as mais altas). Nunca saberei. Afinal, no sistema brasileiro, não interessa o que você fez na escola. Se estudar, em um cursinho ou mesmo sozinho, pode ser aprovado no vestibular da FUVEST , como aconteceu comigo, ou da FGV. Nos Estados Unidos, o estudante precisa enviar as suas notas escolares, o resultado do SAT (similar ao ENEM), quatro cartas de recomendação de professores, um texto dizendo porque pretende estudar em determinada universidade e até mesmo vídeos postados no YouTube, como exige a Tufts, de Boston. Conta também na decisão se o aluno sabe tocar algum instrumento musical, exerceu liderança estudantil, foi um bom atleta ou se fala outros idiomas e viveu no exterior.
Para ser aprovado em Yale ou Princeton, duas das melhores universidades americanas, o estudante precisa estar entre os 5% melhores no SAT (basicamente, gabaritar), ter apenas A e A- no histórico, saber francês ou espanhol, cartas elogiosas dos professores, estar no time de alguma modalidade esportiva, tocar piano e ter sido representante de classe. Claro, provavelmente este estudante já leu muitos clássicos e terminou a high school resolvendo derivadas em cálculo 2. No Brasil, com esforço, mesmo com notas ruins e sendo expulso de escola, dá para passar no vestibular da USP. Não interessa para ninguém seu título do campeonato paulista de vôlei, suas apresentações de violino, os quadros que pintou ou seu nível intermediário de alemão. Importa apenas o vestibular e o ENEM.
Existem outras diferenças também. Nos EUA, quase ninguém repete de ano. A pessoa pode tirar uma nota baixa, como C ou D, mas raramente um F (equivalente a repetir). Esta avaliação indica que o estudante não aprendeu bem o conteúdo e dará um sinal para universidade onde ele pretende estudar. Nas escolas brasileiras, os estudante recebem notas como 3,5, e 4, que avermelham o nosso boletim. Mesmo quando passamos de ano, recebemos um 6 e meio. Os CDFs tiram nove e às vezes dez. Infelizmente, pelo menos na minha época, eram ironizados pelos colegas que não o escolhiam para o handball na educação física. O jovem se vingava depois, ao ser aprovado em engenharia de produção na Poli. Porém o capitão do basquete, pagando um bom cursinho, acabava na mesma classe, apesar de sua nota 5,8 em química.
Na minha opinião, com sistema estudantil no segundo grau brasileiro, o vestibular é única forma de competição honesta. Porém considero o formato americano melhor porque valoriza outros talentos do estudante. De qualquer maneira, ver o nome na lista da FUVEST ou receber uma carta de admissão de uma Ivy League como a Columbia são dos momentos mais marcantes da vida de qualquer estudante. Ainda mais lembrando de quando a coordenadora Maria Odete diz que ligará para os seus pais para dizer que não há mais condições de aguentar a sua bagunça. Ou ver um boletim com todas as notas vermelhas.
ENCONTRO DOS LEITORES
Os leitores do blog irão realizar o encontro mensal neste sábado. Eu não participo porque moro em Nova York. Curiosamente, há judeus, árabes, e judeus árabes participando. Claro, também tem muçulmanos, ateus e cristãos. Em comum, todos são brasileiros e adoram debater questões do Oriente Médio, além de ocuparem por mais de dez horas a mesa de um bar na Vila Madalena. Quem quiser participar, envie um comentário com o nome e o email
Os clubes quase não fazem mais carnaval em São Paulo. E, mesmo no interior, estão em queda. Até os anos 1980 e começo dos anos 1990, muitos paulistanos optavam por ficar na capital paulista e aproveitar os bailes. O do Paulistano era bom na segunda-feira. O Pinheiros levava vantagem na terça. O Corinthians disputava com a Portuguesa a liderança na zona leste. Diz a piada que, certa vez, o clube luso decidiu denominar o seu baile de “carnaval para a frente”. As pessoas seguiram pela marginal e acabaram no Corinthians. O baile do São Paulo também levava fama de moças bonitas. O extinto Olympia organizava o seu, tido como mais “liberal”, para usar uma palavra educada. Na zona norte, o comando era do clube Espéria, com direito a banho de piscina no final, para desespero dos salva-vidas.
Não existia sambódromo no Anhembi. Os desfiles ocorriam na avenida Tiradentes. A Vai-Vai e a Camisa Verde e Branco eram as escolas mais poderosas em São Paulo, apesar de sermos motivo de gozação para os cariocas. Quem podia viajava para desfilar no Rio em uma época em que a Portela apenas começava a decair diante do racha interno que levou à fundação da Tradição. O Império Serrano ainda desfrutava de respeito e o bicheiro Castor de Andrade transformava a Mocidade em uma das potências do samba – assim como o seu Bangu no futebol, finalista do brasileiro de 1985, quando acabou derrotado para o Coritiba.
Adolescentes gostavam de viajar para o interior. Ficavam amontoados na casa do tio de alguém ou mesmo em uma fazenda. À noite, seguiam para os bailes. Inevitavelmente, depois de bebidas, lança-perfume e mulheres bonitas, se envolviam em brigas com os locais, irritados com a arrogância de nós paulistanos, que desrespeitávamos as moças de Itú, Orlândia, Araçatuba e Campinas. Aliás, dizem que os paulistas são “os americanos” do Brasil. Teoricamente, ninguém gosta da gente, somos visto como invasores. E os cariocas seriam “os europeus”, decadentes, mas ainda mais civilizados. Na minha opinião, puro preconceito.
A década de 1990 começou com a moda de viajar para Salvador e para o litoral paulista. Os clubes da capital reduziram de quatro para um o total de bailes. Na Bahia, jovens de São Paulo costumavam dizer que beijavam mais de 30 mulheres em um dia no Chiclete com Banana. As meninas diziam ter sido no máximo um ou dois, e ainda assim os mesmos da noite anterior. Obviamente, a matemática não batia. Mas a propaganda chegou a Buenos Aires, onde morei. Sempre vem aquela pergunta dos argentinos se “és verdad que és possible hacer sexo con 50 chicas en un fin de semana? Porque yo estuve en Bucios y sali solamente con una. Y no pasó de los besos. Pero era una chica buena, como las de Recoleta, sabes?”.
Enquanto isso, em Juquehy, Pitangueiras, Lazaro e Feiticeira, os paulistas da capital lotavam as praias, mas ficavam quase sem opção de pular carnaval. No fim, acabavam assistindo aos desfiles na Globo com o Fernando Vanucci. A Manchete, com narração do Paulo Stein, nestes tempos, havia perdido a força dos anos das novelas Pantanal, Dona Beija e Ana Raio e Zé Trovão. Dava para dar risada também com o Gala Gay e o Clovis Bornay nas transmissões da Bandeirantes. Mas o melhor de tudo era acompanhar a apuração e torcer por uma vitória da Salgueiro, que aconteceu em 1993 com o histórico Explode Coração. E a Portela seguia na fila sem ser campeã, como o Palmeiras. Sei de gente que prefere a apuração ao desfile. Gostam de escutar “quesito, bateria. Escola de Samba, Acadêmicos do Grande Rio. Dez, nota Dez”.
Neste ano, pelo menos pelo termômetro Facebook, em meio a mafiawars e farmvilles, a onda é ir ao carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos blocos na Lapa, Santa Tereza e outros bairros históricos. Interessante como alguns paulistas possuem nostalgia de um lugar e um tempo que não viveram. Dizem querer voltar às raízes. Se assim fosse, deveriam ir aos carnavais de clubes. Os cariocas, irritados com a invasão paulista, anunciam datas erradas da saída dos blocos para despistar. Foi o que me disse um amigo diplomata aqui em Nova York. O que nos faz lembrar da música “Nós vamos invadir sua praia”, levando a farofa e a galinha, do Ultraje a Rigor, do Roger, inacreditavelmente, o maior QI do Brasil.
Também virou moda vir para Nova York. A cidade já está lotada de brasileiros e a Bloomingdales e a Barney’s se empolgaram com a perspectiva de aumento nas vendas. O restaurante Baltazar, um dos preferidos dos visitantes brasileiros, se tornará uma espécie de filial do Spot. Os brasileiros que vivem na cidade se dividem em dois grupos- 1) o dos que organizam blocos, com americanos, e pulam carnaval no Queens, Brooklyn ou mesmo Manhattan; 2) o dos que esquecem se tratar do carnaval e ficam se perguntando porque ninguém está respondendo email nestes dias. Ou dos chatos como eu que, longe do carnaval, ficam criticando os que estão no Brasil.
Quando morei nos Estados Unidos duas vezes nos anos 1990, durante a minha adolescência, desenvolvi uma imagem idealizada do Brasil na época. No inverno americano, achava que todos os meus amigos brasileiros estivessem na praia, em piscinas, tomando sol, indo a boates (baladas ou discotecas, dependendo de década de nascimento da pessoa), ficando com meninas. E eu no meio de um frio subúrbio da Carolina do Sul, fazendo intercâmbio, em um tempo em que ainda se recebiam cartas e ninguém possuía endereço de email. Notícias, apenas através da classificação do Campeonato Paulista e da reportagem do Palmeiras no Estadão que a minha mãe colocava no correio todas as segundas-feiras para eu receber uma semana mais tarde. Até hoje, lamento não ter visto aquele jogo do Romário contra o Uruguai nas Eliminatórias da Copa, no Maracanã. Ou o Palmeiras sendo campeão brasileiro depois de 20 anos.
Na época pré-internet, sentíamos saudades dos jogos de handball na educação física, de arroz e feijão, de guaraná, de escutar o jogo do Palmeiras no rádio, das feiras nas ruas, do sonho de valsa, do leite condensado, do sabonete Phebo (juro, é comum, e vendem em supermercados brasileiros daqui). Nos anos 1980, como escrevi aqui outro dia, as filiais da Varig e do Banco do Brasil em Paris e Nova York eram oásis. Sei de histórias de brasileiros, desesperados de saudade, que se emocionavam ao ouvir a voz em português da telefonista da Embratel. Alguns guardavam exemplares da Manchete encontradas em alguma banca de Londres como se fossem um tesouro.
Quase nunca, naquela época, pensávamos na dobradinha de biologia, da lasagna requentada no domingo, que o Palmeiras era sempre humilhado pelo São Paulo, que raramente o nosso sabonete era Phebo em São Paulo. Também esquecíamos daqueles verões no litoral paulista, onde chovia todos os dias da primeira quinzena.
Agora, graças à internet, sei que, no réveillon, as pessoas demoraram até dez horas para voltar da praia para a capital. Vejo todos os dias a nuvem com o raio na previsão do tempo do meu celular. Em Nova York ou Beirute, sabemos que São Paulo não é nenhum paraíso. Hoje, por exemplo, não para de nevar em Nova York. As escolas fecharam, o trânsito está o caos e as pessoas sofrem para não deslizar nas calçadas. Por outro lado, neve não é chuva. Ainda mais para brasileiros, que nasceram distantes de temperaturas mais baixas. Apesar de todos os contratempos, a neve embeleza a cidade. Parece que Nova York está enfeitada, em dia de casamento.
Em Beirute, o tempo está nublado, com 16 graus. Buenos Aires também tem nuvens, mas faz mais calor. A chuva deve dominar São Sebastião, no litoral paulista, durante toda a semana. Paris neva, como Nova York. San Francisco, como sempre, está perfeita. Sol, com 12 graus. No Rio, chove hoje, mas faz sol amanhã e sexta. Bogotá deixa a rotina dos 16 graus para um forte calor. Dubai, acreditem, está com sol e apenas 19 graus (talvez alguns graus a menos no topo do Burj al Khalifa) – nunca viaje para lá no verão do hemisfério norte. Jerusalém está agradável, com 15 graus. Para completar, apesar de nevar em Nova York, sei que deve chover em São Paulo. O sofrimento não é tão grande quanto em 1993. Não precisarei ficar com inveja de quem está na praia.
Os americanos costumam dizer que bilhões de pessoas ao redor do mundo assistem ao Superbowl, muitas vezes descrito como o evento esportivo de maior audiência no mundo. Sabemos que não é bem assim. No Brasil, nos anos 1980, era comum algumas pessoas perderem um domingo à noite para ver jogos do Denver Broncos ou do Dallas Cowboys no Show do Esporte na TV Bandeirantes. Era uma época em que Luciano do Valle conseguiu difundir alguns esportes americanos no Brasil, como a Fórmula Indy, e levar adiante o mito Maguila e a seleção brasileira de Masters.
Atualmente, no Brasil, imagino que o Superbowl seja transmitido na TV a cabo e tenha uma audiência de “nicho”, como costumam dizer no marketing. Seriam adolescentes e jovens adultos que viveram nos EUA ou ganharam interesse pelo futebol americano através de videogames ou mesmo assistindo a partidas na TV. Mas estamos longe de dizer que milhões de brasileiros param para ver o Superbowl. Não é muito diferente na Europa, na África, no Oriente Médio. O evento certamente possui menos audiência do que uma final de Copa do Mundo e provavelmente bem menos do que a final da Copa dos Campões na Europa.
Porém, nos EUA, é o grande evento esportivo do ano, apesar de o futebol americano não ser necessariamente o esporte mais popular do país. Na verdade, existem três grandes esportes. O baseball sempre foi descrito como o maior passa-tempo dos americanos. Os times jogam bem mais de cem vezes na temporada, quase sempre com estádios lotados. Os craques costumam ter nomes hispânicos, como Alex Rodriguez, ou asiáticos, como Matsui. No passado, também tinham os italianos, como Joe DiMaggio. O basquete teve seu auge nos anos 1980 e 1990, com uma gerações de gênios, como Larry Bird, Magic Johnson e, acima de tudo, Michael Jordan – este último, certamente um dos maiores atletas da história da humanidade, independentemente do esporte. E, claro, existe o futebol americano, marcado pelos quarterbacks, que possuem a função de armar as jogadas de seus times, como o craque Peyton Manning, em campo hoje pelo Colts, Tom Brady, marido da Gisele Bündchen, ou heróis do passado, como Joe Montana.
Definir o mais popular fica difícil. Depende da cidade e da geração. O baseball certamente é o esporte mais acompanhado em Nova York, onde há o Yankees, melhor equipe dos EUA, e em Boston, com o mítico Red Sox. Los Angeles e San Antonio preferem o basquete. Dallas, Denver, Indianápolis e muitas outras cidades americanas são fãs do futebol americano. Nas universidades e nas high-schools, não há discussão. O futebol americano é disparado o mais popular e uma série de cerimônias, como o home coming, são celebradas ao redor de partidas. Universidade como Notre Dame construíram seu nome com os seus times futebol americano. O basquete possui alguma importância, enquanto as partidas universitárias de baseball são praticamente ignoradas. Os craques do futebol americano cursaram universidades, onde são recrutados para jogar em times profissionais. Os de baseball, muitas vezes, são buscados em peneiras em San Pedro do Macuri, conhecida como a terra dos “peloteros” na República Dominicana. A final do futebol americano, conhecida como Superbowl, apenas tem mais audiência por ser um jogo único, enquanto no basquete e no baseball as disputas são definidas em uma série de partidas.
Porém, ironicamente, o esporte mais praticado dos EUA não é nenhum dos três acima. É o futebol nosso, denominado “soccer” pelos americanos. Contribui, claro, o fato de ter adeptos dos dois sexos e ser mais simples de ser disputados, sendo necessária apenas uma bola – neste quesito, apenas o basquete pode ser equiparado.
Por este motivo, como escrevi aqui certa vez, não é difícil prever que os EUA, em breve, se tornem uma potência mundial deste esporte. Precisaria ocorrer com o futebol o que vem sucedendo com o snowboard. Até uma década atrás, os melhores atletas das neves optavam pelo esqui na hora de competir, considerando o snowboard uma atividade marginal. Hoje, isso mudou. O esqui virou dos “nerds”, como me disseram em Aspen, enquanto o snowboard atrai os grandes talentos. Consequentemente, os principais ídolos americanos na Olimpíada de inverno, que começa nesta semana no Canadá, usam pranchas e não esquis.
No futebol, os atletas ainda são os nerds. Não houve essa mudança. Mas, aos poucos, alguns dos grandes talentos decidem marcar gols em vez de fazer touchdowns, homeruns ou cestas. Será questão de tempo para um Michael Jordan ou um Peyton Manning, na high school, digam que querem entrar no time de futebol, e não no basquete ou no futebol americano. Neste dia, os EUA poderão conquistar uma Copa do Mundo. No snowboard, iniciado em Vermont nos anos 1980, esta mudança não demorou nem uma década. Sem falar na capacidade americana de montar times, como o de hóquei em 1980, o de vôlei, em 1984, e o de pólo aquático, no ano passado.
O futuro de hoje se tornou mais avançado do que o futuro imaginado no passado recente, de menos de 30 anos atrás, em filmes como De Volta para o Futuro ou brinquedos do Epcot Center em Orlando. Não existem carros e skates voadores circulando pelas ruas ou ares de Nova York e São Paulo, mas a modernidade de hoje superou as previsões do passado. Mesmo George Jetson, do desenho animado de Hanna-Barbera situado em um longínquo 2062, não tinha um Blackberry, um Iphone ou o Nexus One, lançado nesta semana com o objetivo de ser o mais moderno celular já fabricado. Qualquer pessoa que o possuir, ou um de seus concorrentes, terá mais acesso a informações do que agentes da CIA (serviço secreto americano) ou o presidente dos Estados Ronald Reagan nos anos 1980. Mesmo Bill Gates, homem mais rico do mundo e um dos pioneiros da informatica, na virada do século, não portava um aparelho tão moderno como os celulares atuais.
Do Atari X-box
Quando Michael J. Fox saiu de 1985 para viajar aos dias atuais – na verdade, para 2015 –, em filme lançado há exatos vinte anos no Brasil, ele usava um relógio com calculadora, que era uma das sensações daqueles anos de Guerra Fria. Hoje passaria completamente despercebido. No Brasil, 25 anos atrás, pais da classe média compravam para seus filhos um Atari ou um Odissey, que podem parecer vídeo-games da idade da pedra para um adolescente com um X-box. No filme, os roteiristas previram este avanço em De Volta para o Futuro. Em uma cena em um bar do futuro que teria como tema os anos 1980, Marty McFly – o personagem de Fox – tenta exibir seus dotes em um fliperama, mas acaba se tornando motivo de gozação para dois meninos futuristas acostumados a games de realidade virtual, no qual não precisam usar as mãos. Porém, ao contrário do que imaginaram os roteiristas, vídeo-games como o Wii, um dos mais modernos dos dias de hoje, utilizam não apenas as mãos, mas o corpo inteiro. O conceito de modernidade mudou.
Das Fichas da Telesp ao Iphone
Em 1985, quando é ambientado o filme gravado no fim da mesma década, as pessoas ainda utilizavam os telefones fixos. Os pais atendiam as ligações dos namorados das filhas. Os filhos precisavam telefonar dos orelhões para pedir para os pais o buscarem no clube ou no shopping, com as extintas fichas da Telesp. Brasileiros expatriados se comunicavam com as família por cartas ou através do telefonema semanal com a voz ao fundo dizendo para desligar “logo porque ficará caro”. Vivendo neste ambiente, Robert Zemeckis e Steven Spielberg, responsáveis por De Volta para o Futuro, não imaginaram que os telefones se tornassem artigos individuais, com um celular para cada pessoa da família. Era uma época em que se usava a extensão, com o irmão podendo escutar a conversa da irmã. Em países como o Brasil, uma linha telefônica custava milhares (ou milhões?) de cruzeiros ou cruzados na bolsa do telefone.
Por este motivo, na casa dos McFly no futuro, a filha atende o telefone e diz que é para o pai. Isto é, eles ainda dividem o aparelho da casa, sem a existência do celular. O interlocutor do de McFly aparece em um TV, de tela plana, com seu nome e dados familiares abaixo, similar ao Skype. Em outra ligação, seu chefe anuncia sua demissão por fax e vários papéis são espalhados pela casa em receptores distintos, como as extensões dos telefones. Não havia, nos anos 1980, a noção do e-mail, a não ser em meios científicos mais avançados. Celulares, como o Nexus One, com capacidade para tirar fotos de alta resolução e digitar e-mails através da voz, tampouco passavam pela cabeça das pessoas que imaginavam o futuro nos anos 1980.
Hotmail e Orkut são retrô
No futuro real, em que vivemos, os celulares estão espalhados por todas as classes sociais. Nos EUA, são raros os jovens com menos 30 anos que adquirem telefones fixos. Recentemente, a Newsweek questionou em reportagem sobre a necessidade de ter um aparelho em casa. Alguns dormitórios de universidades aboliram as linhas telefônicas fixas, já que ninguém as usava. Conforme escreveu o cronista Antonio Prata no caderno Metrópole do Estado, citando o seu pai e também escritor Mario Prata, “o telefone fixo foi uma invenção que não deu certo”. Os mais novos, que vivem com os pais, ainda possuem linha fixa da família em casa. Mas trocam com os amigos apenas os números de celulares. Os pais perderam o controle sobre quem conversa com os filhos. Todos enviam mensagens de texto ou até mesmo falam enquanto estão em seus quartos, durante a madrugada. Estudo do JP Morgan realizado com adolescentes demonstrou ainda que muitos sequer utilizam o telefone para se comunicar. O contato com os amigos pode ser feito diretamente através do Playstation-3. As mudanças são tão velozes nas comunicações que em poucos anos até novidades como o hotmail, Yahoo! e o Orkut se tornam retro diante do Gmail, Google e do Facebook.
Comparando o Woodstock , nos anos 1960, com o concerto Lollapalooza em Chicago, no ano passado, a colunista Gail Collins, do New York Times, que esteve em ambos, afirmou que a atual geração não conseguirá se desconectar completamente do mundo externo, como na década de 1960. “Para qualquer ponto que eu olhava, 50% das pessoas estavam lendo ou digitando textos”, escreveu sobre o evento em Chicago. Esta imagem não foi prevista por nenhum futurista das décadas de 1970 e 80.
Do papel repelente de poeira ao Kindle
No filme, também se fala em um papel repelente de poeira. Isto é, as pessoas não teriam mais que se preocupar com o acúmulo de pó nos seus livros. O problema é que a ciência não está preocupada em criar papéis que não acumulem pó. E sim em abandonar o papel totalmente. Pela primeira vez na história, a Amazon anunciou ter vendido mais livros virtuais do que impressos. Estudantes das principais universidades americanas, como a Columbia e a NYU, de Nova York, desfilam pelos campus em Manhattan com seus Kindles e Nooks, repletos de livros digitais que usarão nos seus cursos. A sala do Xerox perdeu importância nos campi de Princeton, Harvard e Stanford. Este texto será lido por muitos leitores em um meio que não é o papel.
Revista Manchete na Varig de Paris
O cientista descrito como “Doc” em De Volta para o Futuro carrega um exemplar do dia seguinte do USA Today. Em nenhum momento existe a preocupação em mostrar algum órgão de informação on-line, com atualização automática. Eles não previam este modelo de imprensa nos anos 1980. Não se falava em internet. O New York Times costumava chegar com alguns dias de atraso ao Brasil e, mesmo assim, somente a poucas bancas da avenida Paulista e por um preço mais de cinco vezes maior do que na Madison Avenue. Brasileiros no exterior visitavam as filiais da Varig na Champs Elisee, em Paris, e na Quinta Avenida, em Nova York, para conseguir um exemplar da Veja ou da Manchete de duas semanas antes. No intercâmbio, adolescentes brasileiros sofriam para saber como andavam o Palmeiras e o Corinthians no Campeonato Paulista. Agora, jornais como o Estado e a Folha podem ser lidos até mesmo na sua forma impressa, com direito a anúncios, na internet, de Roma a Damasco, antes mesmo de estarem na porta das casas em Higienópolis. O filho de McFly no futuro assiste a uma TV com seis canais ao mesmo tempo e começava a surgir a noção do cabo nos EUA. No Brasil, ainda era uma ficção. Hoje, jovens nascidos depois dos anos 1980 sequer chamam a TV Globo de canal 5 em São Paulo, porque o número da emissora pode variar de acordo com a operadora contratada.
Japão dominaria o mundo
O chefe de McFly é um japonês. Na verdade, era uma busca de mostrar que o Japão dominaria a economia mundial nos 30 anos seguintes. Nos anos 1980, os americanos estavam preocupados com a invasão japonesa e o crescimento da economia do país oriental. Hoje, depois de quase duas décadas com a economia estagnada, o Japão deixou de ser visto como uma ameaça. O que ninguém previa, em 1985, era a emergência da China, novo alvo de temor de alguns americanos.
Carros voadores também aparecem no filme. Aliás, mesmo antes dos carros, já se pensava em um futuro em que carruagens poderiam voar, conforme mostra o livro Yesterday’s Tomorrow, que relata uma série previsões feitas no passado sobre como seria o futuro em diferentes épocas. Pelo menos por enquanto, a previsão de carros voadores, como os de De Volta Para o Futuro, está descartada, apesar de empresas pequenas como a Moller produzirem veículos capazes de voar. Os obstáculos são econômicos e de segurança. A tendência da indústria automobilística é construir carros com menor consumo de combustível. Além disso, depois do 11 de Setembro, o problema da segurança se intensificou. Com milhões de carros voadores circulando pelo mundo, não seria muito difícil para um terrorista cometer um atentado lançando o veículo contra um estádio lotado. E seria quase impossível controlar as fronteiras ou parar um criminoso.
Estas previsões de como sobre como será o mundo em daqui a algumas décadas não são um fenômeno dos anos 1980. Julio Verne talvez tenha sido um dos que mais acertou sobre como seria o futuro, antecipando até mesmo os submarinos, em obras como “Vinte mil Léguas Submarinas” ou “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, ambos do século 19. H.G. Wells, em 1895, escreveu “A Máquina do Tempo”, onde descrevia como seria a civilização no ano 802.701. Edward Bellamy, em seu “Looking Backward”, publicado no fim do século 19, conta a história de um jovem que viaja de 1887 para o ano 2000, onde encontra uma sociedade igualitária.
Steve Jobs e Chanel
Um erro comum das previsões de futuros feitas no passado foi a existência de robôs com formas humanas em casa ou do uso de elevado número de botões. Nos anos 1980, quanto maior a quantidade de botões, mais moderna era considerada a máquina. Esta noção terminou com o lançamento do Ipod, da Apple, em que Steve Jobs conseguiu colocar em uma pequena caixa milhares de músicas que podem ser tocadas apenas com o uso de dois botões, optando por uma solução minimalista – algo próximo ao que Coco Chanel fez na moda no século 20. O Iphone levou o mesmo conceito para a telefonia. O Nexus One, da Google, planejava uma nova revolução, mas tem sido visto por analistas como apenas mais um celular inteligente, apesar de alguns novos avanços. De qualquer forma, será mais um aparelho que mesmo há cinco anos, em um passado recente, tirando nerds do Silicon Valley ou pesquisadores do MIT, poucos poderiam sonhar que fosse existir em 2010.
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