A Al Qaeda sempre usou suicidas em seus grandes atentados ao redor do mundo. O Taleban jamais atacou fora de sua área de atuação, no Afeganistão e no Paquistão. O suspeito pela fracassada tentativa de atentado em Nova York é americano de origem paquistanesa. Se tiver sido a rede terrorista de Osama Bin Laden, conforme apontam alguns indícios, seria um divisor de águas. A organização estaria deixando de usar suicidas nos seus ataques no Ocidente pela primeira vez. É estranho, pois o uso de pessoas dispostas a morrer facilita a logística. O veículo poderia ter sido explodido em movimento no Times Square, elevando o número de vítimas. Será que não arrumaram ninguém desta vez?
Caso seja o Taleban, também seria uma mudança brusca, com o grupo passando a atuar de forma global. Assim, a milícia afegã-paquistanesa estaria se aproximando ainda mais da Al Qaeda, dificultando o trabalho dos americanos no Afeganistão. Aliás, depois de mais de oito anos de guerra, o máximo que os EUA teriam conseguido seria atrair a questão do Taleban para o seu território
Se responsável for da Al Qaeda, podemos dizer que a rede hoje é mais fraca do que nove anos atrás, antes do 11 de Setembro. A organização de Bin Laden foi incapaz de realizar um ataque simples de carro-bomba no Times Square. No Líbano, por exemplo, explodir um veículo em atentado chegou a se tornar clichê de tão simples de 2005 a 2007. Basta lembrar a dimensão da explosão que matou o ex-premiê Rafik Hariri. Pense bem, de aviões sendo lançados contra as duas torres do World Trade Center, mais o Pentágono, a Al Qaeda se reduziu para um vagabundo carro com combustível e fogos de artifício. Bem distante do temor de um terrorismo nuclear, temido pelo presidente Barack Obama.
Mesmo assim, os EUA precisam ficar atentos. Um atentado no Times Square ou em qualquer outra parte de Nova York, onde moro, continua muito fácil de ser realizado por radicais islâmicos, supremacistas ou mesmo um louco.
Na fracassada tentativa da noite de sábado, parece que o paquistanês-americano agiu sozinho. Mas ainda é muito cedo para termos certeza.
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes
O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –
Ariel Palacios (Buenos Aires) – http://blogs.estadao.com.br/ariel-palaci… –
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-cam… –
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trev… –
e Adriana Carranca (pelo mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carr…
As pessoas tendem a achar algumas doenças mortais piores do que outras. Um amigo meu, de 50 anos, apareceu mais magro durante visita que fiz ao Brasil. Perguntei o que aconteceu. “Estava jogando Playstation com um amigo meu e senti uma pontada nas costas. Depois, veio para a frente. Pedi para ele ligar para o Incor. Estava enfartando de novo. Agora, parei de beber e voltei a fazer esporte”, disse este meu amigo, com três stents, em meio a risadas de outros presentes, que culparam os hábitos deste ex-atleta pela doença. Horas depois, soube que um amigo do meu irmão estava com câncer no estômago. Seus amigos jamais tiram sarro, como no caso do cardíaco. A sensação é diferente. A doença do coração, assim como o diabetes, não nos faz enxergar as outras pessoas como doentes graves. Talvez porque não fiquem com aparência de doentes, como alguém em meio à quimioterapia. Quem nunca deu uma bronca em um diabético comendo doce ou em um cardíaco fumando escondido dos filhos? Com o câncer e AIDS, temos uma maior cautela e evitamos brincadeiras. Dificilmente chegaríamos a um amigo portador de HIV e falaríamos em tom de gozação para ele não esquecer de usar camisinha, como fazemos com o diabético no caso do adoçante. Não tem muita lógica, mas é assim.
Na questão da bomba atômica, há um cenário parecido. O Irã nuclear seria como o câncer. Deixa todos com medo, sejam os regimes árabes, Israel, europeus ou os Estados Unidos. Mas eles esquecem que o Paquistão já possui uma bomba nuclear e o governo é bem mais instável do que em Teerã. O Paquistão oferece riscos, como o diabetes, mas não temor, também como o diabetes. Aliás, os EUA, França, Índia, Israel, China, Rússia e Coréia do Norte possuem armas nucleares e oferecem riscos maiores e menores, dependendo do caso. O ideal, como no caso das doenças, seria que ninguém tivesse e até mesmo o presidente Barack Obama diz sonhar com um mundo livre de bombas atômicas. Mas estas armas existem, assim como o câncer, a AIDS, o diabetes e doenças cardíacas. O Irã, inevitavelmente, terá a bomba atômica. E, como ocorre no caso do câncer, precisamos aprender a conviver com o Irã nuclear. Publicações como a revista Foreign Affairs e agências de risco como a Stratfor já realizam análises considerando inevitável o Irã atômico. Pode ser um diagnóstico errado, mas é a tendência.
O Paquistão tem um inimigo declarado com quem já travou guerras na sua fronteira – a Índia. Verdade, o Irã tem dois inimigos declarados, os EUA e Israel. Mas não tem divisa com eles. Travou guerra com o Iraque, mas hoje as relações entre os dois países são boas. O Paquistão pode não ser mais uma ditadura, mas o governo tem pouca estabilidade, havendo risco de as armas caírem em mãos erradas. O Irã é um regime totalitário, mas há menos instabilidade. E, se o regime cair, a tendência é que entre um movimento mais moderado, como o dos jovens opositores. No Paquistão, a alternativa parece ser o radicalismo.
Notem que usei o exemplo do Paquistão. Mas, como escrevi aqui diversas vezes, duvido que algum país use armas atômicas, incluindo o Irã. No caso das doenças, a AIDS pode ser evitada, se a pessoa tomar precauções. Já o diabetes, mesmo com hábitos saudáveis, pode atingir qualquer um (não sou especialista). Mesmo os que se cuidam. Logo, não consigo entender por que as pessoas temem o Irã e a AIDS, mas não o Paquistão e o diabetes.
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