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Gustavo Chacra

O Hezbollah tem um museu para celebrar o que a organização considera suas vitórias contra Israel. Eu o visitei no mês passado, quando estava no Líbano. E esta reportagem foi publicada hoje, na edição impressa do Estadão. A partir de amanhã, começo a postar fotos. Construído no alto de uma montanha de onde os militantes do grupo se escondiam e preparavam operações contra os israelenses e seus aliados cristãos e xiitas durante a ocupação do sul Líbano, encerrada no ano 2000, a obra choca não apenas pelo acervo, como também pela arquitetura.

Não há nada de amador no museu do Hezbollah, que, junto com seus aliados cristãos, provocou o colapso do governo de união nacional do Líbano na semana passada. “Nós vamos construir um teleférico, um hotel e até um campo de paintball para as pessoas terem a sensação de como é lutar contra os israelenses”, diz o guia. Mesmo sem estes anexos, o museu já pode ser considerado um dos símbolos do poderio do Hezbollah, uma espécie de Estado dentro do Estado no Líbano.

Na chegada, os turistas são levados para um cinema com cerca de 300 lugares, onde exibem um filme da história da organização narrado pelo próprio xeque Hassan Nasrallah. Há turistas do Golfo, como sauditas, e também iranianos. Alguns libaneses e até mesmo um casal formado por um jovem argentino e uma francesa. “Soube por pessoas em Beirute sobre o museu e quis visitar”, disse Nicolas, de Bahía Blanca, que está viajando pela África e o Oriente Médio.

Nasrallah relata no vídeo como o grupo surgiu, as primeiras operações nos anos 1980 e nos 1990. Cenas mostram veículos militares israelenses explodindo, soldados chorando e alguns mortos. O ápice se dá no momento em que são exibidas imagens dos libaneses do sul celebrando a retirada israelense no ano 2000. E, em tom de ameaça, o líder do Hezbollah diz – “Se vocês bombardearem o aeroporto Rafik Hariri, nós bombardearemos o aeroporto Ben Gurion. Se vocês atacarem nossos portos, nós atacaremos os seus portos”.

Uma espécie de caracol que lembra em parte o vão central do Museu Guggenheim de Nova York, só que ao ar livre, é o ponto alto da gigantesca obra. As pessoas circulam ao redor de armas israelenses, além de restos de mantimentos. Um tanque Merkava, com o seu cano entortado como ironia, fica no centro. Há inscrições da sigla em hebraico da IDF (Forças de Defesa de Israel) como se fossem ruínas. Restos de bombas, de mísseis e peças de artilharia também são exibidos, assim como capacetes de soldados israelenses que teriam sido mortos. Há dezenas de jipes, tanques e blindados de Israel que foram destruídos.

Um telhado de vidro quebrado serve para mostrar que Israel não seria tão seguro. Há um cartaz dizendo que “Israel não é invencível”. Saindo do caracol, os visitantes entram nas trincheiras do Hezbollah. Os armamentos do grupo, como mísseis Katyusha, são expostos como se estivessem prontos para ser utilizados. Outros são pequenos, do tamanho de uma mala. Fica claro não ser difícil para os membros do grupo esconderem estes armamentos durante uma guerra, como em 2006, e disparar de qualquer lugar.

Um salão interno exibe uma série de informações sobre Israel. Há fotos com dizeres que indicam que os israelenses seriam covardes e medrosos, cartazes com todas as divisões do Exército israelense, enlatados de atum com embalagem em hebraico, vestimentas das forças especiais, imagens de uma série de alvos militares dentro de Israel e frases de líderes israelenses indicando que o Hezbollah seria vitorioso. Yitzhac Shamir teria dito que “o Hezbollah provou que existem outros árabes”, mais difíceis de ser derrotados do que os Exércitos do Egito, Jordânia e Síria. “Israel não estava preparado” para lutar contra o Hezbollah, é a frase sob a imagem de Shimon Peres.

Além do museu, o Hezbollah, com ajuda do Irã, construiu um parque exatamente na fronteira com Israel. Há uma réplica em tamanho reduzido da mesquita de Al Aqsa. Churrasqueiras, balanços para as crianças e torres com lunetas para observar Israel. A entrada é gratuita. No dia que visitei o local, não havia nenhum turista. Literalmente, estava vazio.

Nas ruas das vilas do sul do Líbano e também de Dahieh, em Beirute, há lojas que vendem souvinires da organização. Uma bandeira custa cerca de US$ 5; o chaveiro, US$ 1. Há cartazes de Nasrallah e também de Khomeini, assim como camisetas da organização e outras do Líbano.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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Rima Fakih, a libanesa naturalizada americana que venceu o concurso de miss Estados Unidos, não imaginava, ao ser eleita, que provocaria tanta polêmica. Inicialmente, pensava ser apenas a primeira vencedora de origem árabe e islâmica. Mas, no dia seguinte, já era descrita como terrorista a prostituta por alguns comentaristas conservadores americanos. As acusações irritaram  os libaneses, que saíram em sua defesa.

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A xiita Rima, vencedor do concurso de miss USA

Muçulmana xiita, Rima já desfilou de biquíni e dançou de forma sensual em concursos de bares de Detroit. Quando se mudou para Nova York, do Líbano, chegou a estudar em colégio católico. Bem diferente da imagem internacional da mulher xiita, ligada a vestimentas conservadoras como o niqab ou a burka.

Na verdade, como Rima, existem muitas mulheres no Líbano. Em Beirute, não é incomum uma jovem muçulmana, xiita (veja foto de Haifa Wehbe, também xiita e símbolo sexual do Líbano, abaixo) ou sunita, estudar na Universidade Saint Jouseph ou ir a alguns dos liceus franceses dirigidos por padres católicos. Também vão às praias no verão, entram no mar ao lado de homens e adoram as baladas desta que é considerada a cidade com a melhor vida noturna do mundo árabe pelo New York Times.

haifa-wahbi-3Haifa Wehbe, também xiita e símbolo sexual do Líbano

Ao mesmo tempo, não se pode esquecer que, no Líbano, existem mulheres conservadoras. Algumas xiitas, sunitas e druzas fazem questão de se cobrir e, em alguns casos, são obrigadas. Certas jovens cristãs ainda casam virgens por pressão familiar ou opção própria. Mas, em uma mesma família, pode haver uma mulher com roupas liberais, como Rima, e outra com o véu cobrindo a cabeça. São os contrastes libaneses que sempre marcaram a diversidade do país.

Alguns dos parentes de Rima integram o Hezbollah. Para os libaneses, algo comum. A organização é vista no país como um partido político, integrante da coalizão governamental e que realiza ações sociais, possuindo até mesmo uma rede de TV, a Al Manar. Nos EUA, o Hezbollah é considerado um grupo terrorista que busca destruir Israel. Como ela foi eleita miss em território americano, teve que explicar o papel de seus parentes e, também, uma suposta participação em um strip tease. Queriam saber se ela era terrorista e prostituta.

Mas, no Líbano, estas acusações pegaram mal. No Facebook, os libaneses  e libanesas defenderam arduamente Rima. O mesmo fizeram comentaristas de TV e jornais em Beirute, incluindo a Al Manar, do Hezbollah. Na terra dos cedros, podem aceitar de tudo, menos falar mal de suas belas mulheres.

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Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –
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O investidor libanês Nicolas Nassim Taleb ganhou bilhões nos Estados Unidos sempre apostando contra a corrente. Segundo a sua teoria, ninguém consegue prever nada que realmente tenha importância. Ele lembra que, no dia 10 de setembro de 2001, nenhuma pessoa previu que no dia seguinte ocorreriam os maiores atentados da história.

Todo o conhecimento empírico, segundo ele, é inútil. As pessoas podem passar anos vendo apenas cisnes brancos para concluir que “todo o cisne é branco”. Esta teoria passa a ser furada quando descobrem a existência de um cisne negro. Logo, a única conclusão possível é a de que “nem todos os cisnes são brancos”.

Sua teoria de que as pessoas não conseguem prever nada vem de sua adolescência durante a Guerra Civil Libanesa, quando seu avô, um cristão ortodoxo, era ministro da Defesa. Na época, ele diz que escutava todas as semanas previsões sobre o futuro do conflito de pessoas diretamente envolvidas, de analistas, de jornalistas. E todos sempre erravam ou, casualmente, por sorte, acertavam.

Seu ceticismo em relação a previsões vai contra os seguidores da Teoria dos Jogos, como Bruce Bueno de Mesquita, citado aqui. O professor da Universidade de Nova York acredita conseguir acertar com 95% os grandes eventos internacionais – no caso da crise iraniana, ele diz que o regime de Teerã irá adquirir a capacidade de fabricar a bomba atômica, mas não a produzirá. Taleb discordaria. Poderia afirmar que existe a chance de o Irã quebrar a teoria de que armas atômicas são para dissuadir e, de repente, bombardear Israel. Ou então de que realmente os fins iranianos são pacíficos. De acordo com o mega investidor, não dá para saber. Tudo pode acontecer, até realmente ocorrer. O melhor é apostar contra a corrente, pois os ganhos financeiros seriam maiores. “Melhor perder um pouco todos os dias e ganhar tudo de uma vez, quando o cisne negro surge, a ganhar um pouco todos os dias e perder tudo de uma vez”. O 11 de Setembro não avisa. Eu mesmo vim para São Paulo renovar meu visto um dia antes de colocarem um carro-bomba no Times Square. Alguém antecipou a data exata da ação? (muita gente já previu um atentado naquele local, mas não quando).

Apesar de seguidor da Teoria dos Jogos, tendo a acreditar mais no Taleb. As lições nos ensinaram que podemos ter surpresas na política internacional. Neste ano, já tivemos algumas, como o crescimento na votação dos liberais democratas na Inglaterra e a liderança de Antanas Mockus, do Partido Verde e meio excêntrico, nas eleições colombianas. Também vimos uma organização local, como o Taleban, levar adiante uma tentativa de atentado terrorista global, em Nova York. Neste mesmo ataque, um suicida desistiu de se matar. Sem falar no vulcão da Islândia, que paralisou a aviação europeia, e os terremotos no Haiti e no Chile. E se houver um em San Francisco? Quando me perguntam se haverá uma nova guerra no Oriente Médio neste verão, não sei o que responder.

Seguindo a teoria dos jogos, um conflito entre o Hezbollah e Israel seria uma situação em que os dois lados sairiam perdedores. No caso de Israel versus Irã, poderia haver ganhos para os israelenses, mas há risco de perdas. O certo é que, ao não agir, certamente perderão. Portanto, pela lógica da teoria dos jogos, não haveria uma guerra de Israel contra os xiitas libaneses, mas há risco de uma contra os iranianos. Isso se não levarmos em conta pressões de outras partes, como o governo americano impedindo uma ação unilateral de Israel que colocaria em risco seus interesses no Iraque, no Afeganistão e em outras partes do golfo Pérsico.

Mas acabamos sempre caindo no Taleb. Quem ganhou com a guerra de Israel contra o Hezbollah em 2006? Quem a previu? Quem ganhou com a guerra do Hamas no fim de 2008? Quem a previu? A teoria dos jogos não serviu para nada. No Oriente Médio, tudo é muito incerto. Certa vez, em entrevista durante a Guerra de Gaza, o historiador e hoje embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, me disse que detalhes determinam o destino de uma guerra. Um bombardeiro errado, que atinja uma creche, muda toda a história.

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O Hezbollah não existia quando Israel invadiu o sul do Líbano no fim dos anos 1970 para combater guerrilhas palestinas. Nos anos seguintes, o grupo xiita, ainda sem nome definido, começou a emergir nesta área libanesa. Três motivos levaram à criação do Hezbollah. 1) A Revolução Islâmica no Irã, que decidiu apoiar os xiitas libaneses e treiná-los para lutar na guerra civil e também contra Israel. 2) A marginalização dos xiitas na sociedade libanesa, dominada, até os anos 1970, pelos cristãos maronitas e, em menor escala, sunitas e druzos. 3) A ocupação israelense do território libanês.

Ao longo dos anos 1980, o Hezbollah foi acusado de uma série de ataques e sequestros de estrangeiros. O grupo estaria inclusive por trás dos mega atentados contra os marines americanos e a embaixada dos EUA em Beirute – a organização nega envolvimento. Na década seguinte, lutou contra os israelenses e seus aliados cristãos e xiitas (isso mesmo que vocês leram) da milícia denominada Exército do Sul do Líbano.

Diferentemente do Hamas e outros grupos palestinos, o Hezbollah jamais realizou um atentado terrorista suicida em Israel. O grupo é acusado de ter cometido dois ataques em Buenos Aires, contra a Amia e a Embaixada de Israel. Muitos analistas, eu incluído, acreditam que na verdade as ações possam ter sido um acerto de contas da Síria com Menem (que é sírio), com a participação de neonazistas argentinos – há um em cada esquina de Buenos Aires.

No ano 2000, em meio à pressão domestica, Israel desocupou o sul do Líbano, permanecendo nas Fazendas de Shebaa – os israelenses argumentam que o território é sírio. A Síria e o Líbano dizem ser libanês. A ONU inicialmente dizia ser sírio, mas hoje investiga para definir. O certo, apenas, é que não se trata de território israelense.

O Hezbollah, nestas duas décadas de ocupação de Israel, nasceu e cresceu. Mais complicado, o Irã, nos últimos anos, elevou sua influência no Oriente Médio depois de os EUA terem ajudado Teerã ao derrubar Saddam Hussein, maior inimigo da história iraniana, do poder e substituí-lo por um regime próximo dos iranianos. Assim, o grupo libanês passou a receber mais ajuda. Em 2006, provocou Israel ao matar e sequestrar soldados israelenses, provocando uma retaliação que arrasou partes do Líbano, e provocou a morte de dezenas de civis e militares do outro lado da fronteira, inclusive em Haifa.

Hoje, o grupo xiita é aliado de facções cristãs libanesas moderadas, incluindo o líder cristão maronita Michel Aoun e o presidente Michel Suleiman. Além da milícia, possui rede de TV (Al Manar), creches e hospitais. As regras políticas libanesas também garantem aos xiitas (e todas as religiões) cadeiras no Parlamento. Estas acabam divididas entre o Hezbollah, e os seus aliados AMAL. Os xiitas têm direito ainda a determinados ministérios.

Não dá para saber qual o percentual de xiitas no Líbano, pois é proibido realizar censo. Acredita-se que seja pouco mais de um terço, superando os cristãos maronitas como a maior pluralidade do país. A quase totalidade destes xiitas, e muitos cristãos, apóiam o Hezbollah – com fraco suporte entre sunitas e druzos. Eliminar o Hezbollah implica em destruir toda esta parte da sociedade libanesa. Mais fácil seria transformar o Hezbolah. E a única forma seria pressionar o grupo para ser desarmado, integrando suas forças ao Exército libanês. O difícil é fazer isso em um momento em que se fala de guerra em Israel. Os israelenses contribuiriam bem mais se saíssem das Fazendas de Shebaa, tirando o principal argumento do grupo xiita para carregar armas. Um novo conflito serviria apenas para destruir Beirute e causar grandes estragos até mesmo em Tel Aviv. E qual o objetivo? Uma nova guerra em 2014, como uma Copa do Mundo? Insisto, Israel já ocupou o sul do Líbano por mais de 20 anos e não conseguiu nada. Na época, tinha apoio de parte da população local. Também tentou bombardear o sul do Líbano, em 2006, destruindo quase todas as vilas perto da fronteira. Tampouco deu certo. Uma nova guerra? Não dará certo. O Hezbollah continuará existindo.

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Enquanto as economias dos PIGS (sigla em inglês usada para descrever Portugal, Itália, Grécia e Espanha) afundam, do outro lado do Mediterrâneo, no Oriente Médio, região conhecida por guerras e conflitos religiosos, as perspectivas econômicas são positivas para 2010. Israel, Líbano e mesmo os territórios palestinos devem apresentar crescimento elevado neste ano e conseguem atrair investidores estrangeiros. E, diferentemente dos vizinhos do golfo Pérsico, o otimismo não pode ser atribuído ao petróleo, escasso no denominado levante.

Nos anos 1980, o pendulo estava a favor do Mediterrâneo europeu. Espanhóis, italianos, gregos e portugueses passavam a integrar a União Européia. Já as economias de árabes e israelenses do Mediterrâneo estavam em crise. O Líbano seguia estagnado em meio a uma guerra civil. Os palestinos não existiam como uma economia autônoma. E Israel tentava combater a hiper-inflação.

Assim como na América Latina, a crise de décadas atrás levou os países do Oriente Médio a ser mais responsáveis com as contas, enquanto os europeus do sul recebiam os benefícios da zona do Euro. Com a crise de 2008, o cenário começou a se inverter. Gregos, portugueses, espanhóis e italianos enfrentam dificuldades pagar as suas obrigações internacionais em uma de suas maiores crises financeiras em décadas. Já Israel se transformou em um dos mais avançados centros de tecnologia do mundo, com mais ações sendo negociadas na NASDAQ (bolsa de valores eletrônico) do que qualquer outro país do mundo, a não ser os Estados Unidos. Empresas tecnológicas produzem nos subúrbios de Tel Aviv softwares usados ao redor do mundo, inclusive nos vizinhos árabes.

Israel – O PIB de Israel, em 2009, não chegou a se reduzir, chegando a crescer 0,7%. Apesar de baixo, foi positivo, diferentemente da maior parte das economias desenvolvidas – os israelenses são considerados por muitos analistas econômicos como primeiro mundo, quando não se incorporam os territórios palestinos sob ocupação. No último trimestre do ano passado, em um claro sinal de recuperação, a economia se elevou 4,9%. O desemprego está em 7,4%, longe de ser considerado o ideal. Mas a inflação e as finanças estão sob controle há alguns anos. Para dar mais segurança aos investidores, desde 2005, o  economista Stanley Fischer, ex-vice diretor do FMI, assumiu o comando do Banco Central.

Líbano - O Líbano, depois de ver parte de seu território ser arrasado em uma guerra justamente contra Israel em 2006, aos poucos retorna aos tempos de “Suíça do Oriente Médio”, como era descrito o país até os anos 1970 por seu sólido sistema bancário. O PIB, no ano passado, registrou um crescimento de 8%. E o número não pode ser atribuído ao conflito de quatro anos atrás, já que as perdas daquele ano foram recuperadas no seguinte. Para este ano, a Economist Inteligence Unit prevê uma elevação um pouco menor, de 6%.

Segundo relatório do FMI, “devido a uma rígida supervisão das  finanças, o setor financeiro doméstico do Líbano teve pouca exposição à crise internacional e continua líquido”. Os bancos continuam recebendo remessas de países árabes ricos em petróleo e, acima de tudo, da rica diáspora libanesa, que inclui Carlos Slim – o homem mais rico do mundo, segundo a Forbes, que é filho de libaneses. Estes expatriados, segundo o Banco Mundial, são fundamentais para a economia libanesa. Não apenas pelo envio de dinheiro, como também por suas viagens ao país, aquecendo o turismo.

Palestinos - Na Cisjordânia, a situação ainda é precária. Apesar disso, de acordo com relatório do Banco Mundial publicado na semana passada, “há evidentes sinais de crescimento” neste território palestino, ressaltando que o mesmo não pode ser dito da Faixa de Gaza, que está sob bloqueio israelense.

Mas se houver guerra… - Os sinais positivos para as economias do Mediterrâneo oriental podem se reverter rapidamente, segundo analistas, em caso de uma nova guerra. Nas últimas semanas, tanto no Líbano como em Israel, surgiram especulações sobre a possibilidade de um novo conflito na fronteira entre os dois países. Neste caso, além dos danos materiais, haveria o risco de investidores quererem tirar seu dinheiro da região. Sem falar nos cancelamentos de turistas que queiram visitar sítios históricos em Jerusalém ou passear nas praias de Beirute.

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Ao longo de toda a semana, a suposta transferência de mísseis Scuds da Síria para o Hezbollah tem dominado os debates de Beirute a Tel Aviv, de Ramallah a Damasco. A notícia surgiu primeiro em um jornal kuwaitiano. Depois, repercutiu em declarações do presidente de Israel, Shimon Peres. O regime de Bashar al Assad e a organização libanesa negaram. Os Estados Unidos suspeitam de que seja verdade. Enviaram o senador John Kerry para a Síria e convocaram um diplomata sírio em Washington para dar explicações. Na Itália, o premiê libanês, Saad Hariri, acusou Israel de mentir sobre o episódio.

Independentemente de ser verdade ou não, a acusação da transferência dos mísseis reascendeu a tensão na fronteira do Líbano com Israel, em um momento em que os israelenses também observam o recrudescimento nos disparos de foguetes vindos de Gaza e, agora, também do Sinai.

ISRAEL - Israel teme o Hezbollah. Afinal, a organização libanesa é a mais poderosa milícia armada do mundo e inimiga declarada dos israelenses. Os Scuds fortalecem ainda mais o grupo xiita. Mesmo sem estas armas, o Hezbollah possui capacidade para alvejar Tel Aviv e Haifa com seus atuais mísseis de localidades tão distantes como o norte do vale do Beqaa. Com elas, cresce a ameaça psicológica. Os Scuds foram usados por Saddam Hussein contra os israelenses na Guerra do Golfo – um conflito que, sob qualquer ponto de vista, Israel foi apenas uma vítima. Agora, em Tel Aviv, certamente os habitantes temem que em um conflito com o Irã o Hezbollah use estas armas.

LÍBANO – O que esquecem é da dinâmica da política interna libanesa. O Hezbollah é  xiita e também libanês. E, para ter legitimidade interna, depende de acordos com os cristãos ligados a Michel Aoun e algumas facções sunitas e druzas. Sabem que uma nova guerra contra Israel, em nome do Irã, arrasaria a imagem da organização em Beirute, especialmente na ala cristã, onde conta com relativa simpatia. Além disso, não podemos esquecer que os iranianos foram covardes nas guerras do Líbano e Gaza. Em nenhum momento o regime de Teerã teve coragem de bater de frente com Israel para defender seus aliados Hamas e Hezbollah. Por que os palestinos e os libaneses ajudariam o Exército do Irã caso Israel decida bombardear instalações iranianas para frear o programa nuclear?

SÍRIA – Assad, na Síria, sabe que os EUA precisam dele. O subsecretário de Estado dos EUA, Jeffrey Feltman, que nunca simpatizou com Damasco nos seus tempos de embaixador americano em Beirute, defendeu a manutenção da aproximação com os sírios em depoimento a deputados em Washington e o diálogo de Kerry com Assad será mantido em segredo. Sabendo disso, a Síria faz seus tradicionais jogos, provocando um aqui, agradando outro ali, enquanto restaura sua influência no Líbano. E esta, hoje, independe do Hezbollah. Os sírios se aliaram novamente ao líder druzo Walid Jumblatt e mantém amizade pessoal com o presidente Michel Suleiman. Os dois são poderosíssimos no Líbano. Para que armar ainda mais o Hezbollah? Para ter uma força ainda mais poderosa no Líbano que pode futuramente se voltar contra a Síria? Não faz sentido. Mas, na região, tudo é como no filme Poderoso Chefão. Nunca se sabe.

Falta ainda discutir afirmação de Hariri, negando a transferência. E o premiê está longe de ser um amigo da Síria, a quem acusa de ter matado seu pai em atentado em 2005. Além disso, o Hezbollah invadiu a sua casa (de Saad) e queimou seu canal de TV. Por que ele iria proteger os sírios e o grupo xiita? Segundo Haaretz, porque o primeiro-ministro, que é um dos homens ricos do mundo, teme que uma nova guerra afete seus investimentos bilionários em Beirute. Pode ser verdade. Mas, no Líbano, todos, incluindo Hariri, voltaram a levantar a história de que Israel quer mais uma vez estragar o verão libanês, com suas praias paradisíacas, sua vida noturna incomparável naquela parte do mundo e a chegada de um número recorde de turistas. Aliás, como também se espera em Tel Aviv, outra cidade fantástica. Espero apenas que libaneses e israelenses não sejam atraídos para um conflito de Teerã, estragando os dias de sol no Mediterrâneo.

Obs. Por favor, pediria que os leitores com blogs sobre política externa ou baseados no exterior enviassem  os seus links para mim através dos comentários. Coloquei aqui no final o pedido. Assim, terei certeza de que leem o blog mesmo

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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