Guga Chacra – Estadão.com.br

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O Iraque está virando a Síria e a Síria vai se transformar no Iraque. Com a diferença de que Bagdá tem petróleo de sobra e Exército treinado pelos EUA. Damasco, não. Mais importante, os xiitas iraquianos, que estão no poder, são majoritários. Os alauitas e os cristãos, que dominam o regime de Bashar al Assad, compõem uma minoria equivalente a um quinto da população.

O Iraque, que serviria para ser o símbolo da democracia árabe, aos poucos descamba para uma ditadura de Nouri al Maliki, onde a minoria sunita é perseguida e seus rivais eliminados. Apesar de laico, ele conta com o apoio dos radicais do Exército Mahdi, de Moqtada al Sadr, que será o Hezbollah de Bagdá. E, neste caso, os americanos não podem fazer nada. Acabaram de ser defenestrados – é, não foi Obama que quis tirar as tropas, mas os iraquianos que os expulsaram – e não serão bem vindos em décadas. Isso sem falar que 98% da população americana não quer mais ouvir falar neste país.

A Síria já tem focos de guerra civil em áreas como Homs. Damasco vivencia cenas de Iraquecom os atentados terroristas recentes, apesar de ainda estar relativamente calma. O medo dos sírios é de a capital ficar como Bagdá de anos atrás ou Beirute dos anos 1980. E este cenário tem tudo para se converter em realidade nos próximos meses.

O Irã pode perder um aliado fundamental se Assad cair ou ficar encalhado em uma guerra civil por meses ou talvez anos. Ao mesmo tempo, pode ganhar com o fortalecimento de um aliado xiita no Iraque. Verdade, há diferenças entre persas e árabes. Mas Maliki viveu em Teerã e os xiitas iraquianos possuem mais proximidade cultural com os iranianos do que os sauditas. São mais liberais nos seus costumes, longe do medievalismo de Riad. Mulheres iraquianas podem andar sozinhas, como no Irã, não sendo tratadas da mesma forma que animais, como ocorre na Arábia Saudita.

A Síria não será de ninguém no curto prazo. Por culpa de Assad, da oposição, dos EUA, da Rússia, da França, da Arábia Saudita, da Turquia e do Líbano, a chance de uma solução pacífica acabou. Milhares de sírios ainda vão morrer nos próximos meses. Vai ser feio e sanguinário. Talvez, de uma violência não vista desde o Beirute em 1982.

 Acostumem – o Iraque será uma ditadura aliada não subalterna do Irã e a Síria terá uma guerra civil. Quem perde com isso? Israel e Líbano

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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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Já escrevi aqui antes sobre a Guerra Fria no Oriente Médio e os conflitos que não envolvem diretamente Israel. Existe uma tendência a acharem que, nesta região do planeta, radicais islâmicos odeiam e querem destruir a civilização avançada israelense, que seria um bastião do Ocidente com árvores verdes  e empresas tecnológicas de ponta no meio de regimes demoníacos e decadentes em desertos ricos em petróleo.

Obviamente, esta visão é completamente equivocada. Primeiro, os países da região não são e tampouco sempre foram amigos. Os dois maiores conflitos no Oriente Médio, desde a Segunda Guerra, não envolveram os israelenses.  O mais mortífero foi a Guerra do Irã contra o Iraque, na década de 1980. Foram, segundo o Global Security, 675 mil mortos (algumas estimativas falam em mais de 1 milhão). Apesar do ódio que Ahmadinejad tem do Estado judaico, os israelenses, em 61 anos de existência, jamais mataram um iraniano, enquanto 300 mil foram mortos pelo regime iraquiano de Saddam Hussein – que fique claro, mesmo em 2010, o ditador iraquiano é mais odiado em Teerã do que todos os israelenses somados. O segundo colocado é a Guerra do Iraque atual. Os Estados Unidos mataram dezenas de vezes mais árabes do que Israel.

Ainda hoje, há conflitos envolvendo os países da região, ou mesmo embates domésticos. O Egito e o Hezbollah são rivais. O regime de Hosni Mubarak, ontem mesmo, determinou a prisão de 26 membros da organização libanesa no Cairo. Aliás, o governo egípcio apoiou Israel na Guerra de Gaza. No início dos bombardeios contra o Líbano em 2006, as monarquias saudita e jordaniana também se calaram. Riad e Teerã ainda disputam a supremacia na região. Os sírios, desde 1948, vêem com ressalvas os jordanianos.

Dizer que todos os países são radicais islâmicos tampouco é verdadeiro. Há três diferentes formatos de países no mundo árabe. Primeiro, há os conservadores islâmicos, como a Arábia Saudita e o Kuwait, que são, ironicamente, os principais aliados dos americanos, sem esquecer que 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram sauditas e nenhum iraquiano. O segundo grupo é formado por regimes seculares, como a Síria, o Egito e a Cisjordânia. No caso sírio, ninguém se interessa pela sua religião. O presidente Bashar al Assad, oficialmente alauíta, sequer jejua no Ramadã. Finalmente, existe o Líbano, que é sectário.

Israel é sim um dos países mais avançados em tecnologia do mundo. Talvez, esta seja hoje a característica mais marcante da economia israelense. Se escrevi outro dia que dormimos na questão da resistência pacífica palestina, estamos em um sono profundo ao ignorar a economia de Israel. Também trouxeram avanços impressionantes na agricultura. Isso não significa que o mundo árabe seja atrasado e desértico. O Líbano é bem mais verde do que Israel. Os palestinos sempre plantaram as suas oliveiras ao redor de Nablus, Jerusalém e outras partes do território. Visitei Gaza e vi as plantações de morango e flores – muitas destruídas na guerra.

Países do golfo investem pesado em universidades, importando o que há de melhor nos EUA e na Europa. A engenharia em lugares como Dubai e Doha supera a do Ocidente. Abu Dhabi possui o maior fundo de investimentos soberano do mundo. E Beirute ainda carrega o posto de cidade mais cosmopolita do Mediterrâneo oriental, apesar de todas as guerras e conflitos. O Oriente Médio é uma matriz, com países tendo defeitos e qualidades. Não muito diferente da América Latina, onde há o Chile e a Venezuela. Ou na África, com o Zimbábue e o Congo sendo o oposto da Namíbia e da Botsuana.

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –

Ariel Palacios (Buenos Aires) - http://blogs.estadao.com.br/ariel-palaci…O criador do ‘deme dos’ iria ao banco dos réus por sequestro de empresários

Patricia Campos Mello (Washington) - http://blogs.estadao.com.br/patricia-cam…Goldman Sachs vendeu “monte de porcaria”, “lixo” e “negócio de m….”

Claudia Trevisan (Pequim) - http://blogs.estadao.com.br/claudia-trev…Expo 2010 leva o mundo a Xangai

e Adriana Carranca (pelo mundo) - http://blogs.estadao.com.br/adriana-carr…Michael Moore ao vivo, hoje, no programa Larry King, da CNN





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Costumam dizer que não existe democracia no mundo árabe. E não existe mesmo. Isto não significa que todos os regimes sejam ditaduras repressoras. Há diferenças entre um país e outro. O Líbano realiza periodicamente eleições, com oposição forte e ativa. Também possui separação dos poderes e imprensa livre. O problema está no sistema sectário. O presidente precisa ser cristão maronita, o premiê, muçulmano sunita, e o presidente do Parlamento, xiita. O Parlamento e os ministérios também são divididos de acordo com a religião. Além disso, o Hezbollah, que também é um partido político, controla um Exército independente das Forças Armadas libanesas.

Os territórios palestinos tiveram uma experiência de eleições no começo de 2006. O Hamas saiu vencedor, mas os EUA, os principais países europeus e Israel não aceitaram o resultado por considerarem o grupo palestino como terrorista. Nas outras nações árabes, há variação em graus de democracia. Alguns são mais abertos, como o Qatar. Outros, mais fechados, como a Arábia Saudita. Porém nenhum deles é democrata.

O Iraque, que até sete anos atrás possuía o mais sanguinário ditador da região, Saddam Hussein, tenta se tornar agora o primeiro país árabe realmente democrático. O risco é acabar com um sistema sectário, como o Líbano. Afinal, como os libaneses, os iraquianos são divididos entre etnias e religiões. Eles podem ser curdos ou árabes. Os primeiros são majoritariamente sunitas. Já os árabes podem ser xiitas (maioria) ou sunitas, além de uma minoria cristã.

Nas eleições de hoje, há coalizões sectárias e outras seculares. O ideal seria que alguém do segundo grupo vencesse. E estas alianças são justamente as favoritas. Nuri al Maliki, atual premiê, lidera a Estado da Lei. O problema é que, nos últimos tempos, ele tem marginalizado seus aliados sunitas – o primeiro-ministro é xiita. Seu principal rival é do ex-premiê Ayad Alawi, da coligação Iraqiya, com presença tanto de sunitas e xiitas e talvez seja o melhor para o Iraque. O risco seria se um grupo mais conservador, como a Aliança Nacional Iraquiana, que inclui o líder radical xiita Moktada al Sadr vença. Será o encaminhamento para o isolamento dos sunitas e do incremento do sectarismo iraquiano.

Caso o Iraque se transforme em uma verdadeira democracia, poderá servir de modelo para outros países árabes, como a Síria e o Egito, que possuem sociedades parecidas. Seria, claro, mais complicado na conservadora Arábia Saudita e nos ricos Bahrein e Qatar. De qualquer forma, independentemente do resultado, não deixa de ser um momento histórico ver árabes votando com liberdade. Estas cenas, até agora, apenas foram vistas nos territórios palestinos e no Líbano.

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O assassinato de um líder do Hamas em Dubai repercute cada vez mais. Para quem não sabe, no mês passado, o palestino Mahmoud al-Mabhouh estava hospedado em um hotel na cidade árabe quando foi morto. Em imagens gravadas por circuito fechado, aparecem os assassinos entrando no hotel e também no andar do integrante da organização palestina. As fotos dos 11 suspeitos, com seus nomes, também foram divulgadas. Seis nomes seriam de israelenses de origem britânicas, e um de um cidadão de Israel com origem americana. Porém as fotos dos passaportes não batem com a dos israelenses, que estão indignados com a situação.

Ninguém sabe ao certo quem seriam os responsáveis e o episódio abre espaço para todo o tipo de teorias da conspiração. Claro, o Mossad já realizou operações similares, especialmente nos anos 1970 e 1980. Na década seguinte, houve a fracassada tentativa de matar Khaled Meshal, principal líder do Hamas, na Jordânia. Os integrantes do Mossad injetaram um veneno no militante palestino, mas foram pegos por autoridades jordanianas. Apenas foram soltos depois de entregarem o antídoto e de Israel libertar o xeque Ahmed Yassin, líder espiritual da organização.

Existe uma possibilidade de realmente chegarem aos suspeitos desta vez, como na Jordânia. Dubai não é o Líbano, onde dá para entrar, fazer o serviço com calma, e ir embora . Além disso, os Emirados Árabes são importantes aliados americanos e ficaram extremamente irritados com o episódio. Até hoje, Dubai, Abu Dhabi e os outros emirados estabeleceram uma política de neutralidade nas questões mais importantes do Oriente Médio, nunca entrando em confronto direto com o Irã, Iraque ou Arábia Saudita. Verdade, há restrições a produtos israelenses, mas os dois países não são inimigos, como seria o caso, para ficar em um exemplo fácil, da Síria e de Israel (sem esquecer, porém, di estranho assassinato, em Damasco, do comandante militar do Hezbollah há dois anos).

Honestamente, acho improvável que algum governo árabe tenha levado adiante a ação. Qual seria o país? O Egito pode não ter excelentes relações com o Hamas, mas o senhor Mubarak quer mais é distância da questão palestina, e não mais envolvimento. A Jordânia tampouco teria o porquê de se meter nesta questão, apesar da antipatia em relação ao Hamas. A CIA? Difícil.

Segundo o diário israelense Haaretz, o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, “não negou diretamente o envolvimento no assassinado de Mabhou em um hotel de Dubai, dizendo apenas que Israel tem uma política de ambigüidade em questões de inteligência e que não há provas de que Israel esteja por trás do assassinato”.

Deixa aqui uma pergunta polêmica – O que é melhor? 1) assassinar um inimigo, da forma como foi morto o líder do Hamas, sem nenhuma outra vítima envolvida, ainda que desrespeitando a soberania de um terceiro país ou 2) invadir um país inteiro, como no caso dos EUA no Iraque, apenas para derrubar um ditador inimigo, deixando como resultado mais de cem mil mortos, sendo a maioria absoluta de civis, além de provocar a morte de três mil de seus jovens militares

obs. O blog vai ter uma plataforma mais moderna para comentários nos próximos dias, similar à do Link. Segundo o pessoal do portal do Estadão, será mais fácil para vocês postarem e para eu publicar. Acreditem, na plataforma atual, eu tenho que publicar um comentário por vez e todos vão para o final da página. Naqueles dias de temas mais polêmicos, preciso descer mais de cem. Agora, será mais fácil

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