Neste dias em que estive no Haiti e, depois, ao continuar escrevendo sobre o assunto, notei uma necessidade de muitos leitores de discutir a questão da ajuda israelense aos haitianos. Não consegui entender e sequer ver relação disso com o conflito no Oriente Médio. Muitos países do mundo ajudaram. Com Israel, não foi diferente. Apesar de o país ter uma imagem ligada ao militarismo, os israelenses são uma das nacionalidades mais avançadas em medicina, resgate, tecnologia. Graças ao desenvolvimento militar, conseguiram enviar um hospital de campanha espetacular para ajudar os haitianos. A Espanha e o Brasil também enviaram. O nosso foi barrado no aeroporto de Porto Príncipe pelas tropas americanas e demorou 24 horas para conseguir pousar. O argumento americano foi de elevado tráfego aéreo, mas aeronaves carregando jornalistas conseguiram pousar, e a brasileira não.
Ao mesmo tempo, alguns criticaram a falta de apoio dos árabes, como se o episódio fosse uma competição, e não uma tragédia que matou em 30 segundos mais pessoas do que todas as guerras somadas até hoje envolvendo Israel e seus vizinhos árabes – na região, só os dez anos de combates entre iranianos e iraquianos mataram mais.
Honestamente, no Haiti, das últimas coisas que eu pensava era nesta competição. Como afirmei aqui, não pesquisei sobre a ajuda dos árabes. Vi dois cargueiros do Qatar pousando no aeroporto e sei que o contingente da Jordânia na MINUSTAH é um dos maiores. Oficialmente, soube que a Arábia Saudita doou US$ 50 milhões em ajuda humanitária por meio de um fundo da ONU. Obviamente, libaneses, palestinos e iraquianos, dependentes de ajuda externa, não possuem a menor condição de contribuir com ajuda ao Haiti.
Independentemente de qualquer coisa, a ajuda israelense é positiva porque mostra um lado de Israel muitas vezes fora da mídia. Mas que, no fundo, tem admiração até mesmo dos árabes. Ao contrário do que imaginam ou dizem muitas pessoas, palestinos, sírios e libaneses não acham que Israel seja apenas uma máquina de guerra. Os palestinos admiram o sistema jurídico israelense, suas universidades, seus hospitais. Os libaneses também acham marcante o nacionalismo israelense e sempre se sentiram à vontade com a comunidade judaica na diáspora.
O mesmo vale inversamente. Os israelenses não acham que os palestinos sejam apenas sinônimo de terrorismo. Outro dia, li que parte da identidade nacional israelense está no hommus. Mas que qualquer cidadão de Israel sabe que os melhores hommus são feitos pelos palestinos – isso, claro, porque a fronteira com o Líbano ainda está fechada.
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima
“Pó coronel, a droga da internet caiu de novo. Será que não tem ninguém da engenharia para arrumar?”, reclamou um jornalista na hora do fechamento para o coronel Alan Santos, responsável pela comunicação social do Exército em Porto Príncipe. Era mais um episódio de um big brother que misturou jornalistas e militares na base brasileira na capital haitiana. Não foi fácil, no começo, a “ocupação” do quartel-general brasileiro no Haiti pelas tropas de jornalistas armados com seus blocos, câmeras e laptops e sem um lugar para ficar em um país arrasado. Fui um dos dois primeiros a chegar, ao lado de repórteres da Folha e de O Globo. Era o início da cobertura do terremoto que deixou dezenas de milhares de mortos.
Ao desembarcar em Porto Príncipe, não tinha idéia de onde poderia dormir ou comer. Os dois melhores hotéis, o Montana e o Christopher, haviam desmoronado, soterrando centenas de pessoas, incluindo a cúpula das Nações Unidas no Haiti. Os restantes estavam condenados, sem falar no risco de tremores secundários. A única salvação era a base militar brasileira, para onde rumei. É uma área ampla, com uma série de prédios pré-fabricados que não sofreram danos no terremoto. Dentro, além dos mais de mil militares, estavam provisoriamente 70 haitianos feridos e os corpos de 14 soldados esperando o translado para o Brasil.
Ao chegar, fui encaminhado, como os outros repórteres, para a sala do G7, como é conhecido o departamento de comunicação social. No começo, os militares não queriam permitir que utilizássemos o sinal de wi-fi e tivemos que nos revezar em um computador para enviar os nossos relatos sobre o terremoto. Tampouco garantiram que teríamos uma cama para dormir. Dissemos que ficaríamos em qualquer lugar, mas que precisávamos dormir na base, certamente o lugar mais seguro e um dos poucos intactos de Porto Príncipe. Quando arrumaram a acomodação, já haviam chegado também repórteres da rede Globo, BAND, Zero Hora e TV Brasil. E a situação da internet tinha se normalizado. O Exército disponibilizou uma rede de wi-fi especialmente para os jornalistas. Em poucas horas, as Forças Armadas já davam todo o apoio logístico para o nosso trabalho, incluindo caronas em carros de patrulha pelas ruas de Porto Príncipe.
Na hora do jantar, um soldado nos levou para o refeitório. E explicou que, de um lado, comiam cabos, soldados e sargentos. Do outro lado, coronéis e generais. No meio, oficiais como capitão, major e tenente. “A comida é a mesma, mas vocês devem se sentar com os oficiais”, disse um sargento. Tudo bem. Comemos arroz, feijão, carne cozida com batata e bebemos suco. Faltava ainda conhecer o quarto. Ou melhor, a tenda com cerca de dez colchões estirados no chão que praticamente dobraram no dia seguinte. Ao contrário do Big Brother da TV, em vez de sair, entravam novos participantes. SBT, IG e revista Veja. Sem falar nos tradutores, que não tinham mais casas. As suas caíram com o terremoto. Todos juntos no mesmo quarto. A não ser pela BAND. Mais prevenido, o repórter Fabio Panuzzio e o cinegrafista Nivaldo Lima levaram as suas barracas e até mesmo uma panela de pressão para cozinhar arroz e feijão e acamparam ao lado da tenda da imprensa. O guia deles, Junior, um haitiano de uns 13 anos, dormiu com a gente e teve que aguentar o ronco de um repórter da concorrência. As mulheres foram acomodadas em um alojamento um pouco melhor, divididas em quartos com dois beliches cada.
E, claro, há a questão do banheiro. Eram vários, espalhados pelo quartel. Deveríamos usar um que era denominado “Uruguai”. Mas, como em todo acampamento de adolescentes, os jornalistas foram descobrindo outros melhores, ainda que um pouco mais distantes do quarto. Com pouco espaço na mochila, muitos, como este repórter, esqueceram da toalha. Sem falar na pasta de dente, que não pôde nem embarcar no aeroporto JFK, em Nova York. Tomávamos banho e nos enxugávamos com a camiseta que havíamos utilizado durante o dia para depois vestir a roupa dentro do box do chuveiro . Eu ainda recebi, depois, uma toalha de rosto, trazida pelo Lourival Santanna. Com os dias, fomos nos adaptando. A equipe do SBT descobriu, por exemplo, que nas acomodações da engenharia serviam doce de leite e coca-cola. No dia seguinte, até mesmo os canais concorrentes já estavam jantando com os engenheiros responsáveis pelos resgates. Em um momento, os militares notaram que, enquanto assistiam a uma reportagem do terremoto no Jornal Nacional, o repórter Rodrigo Alvarez, da rede Globo, estava na mesa ao lado.
Como em um programa de TV, rapidamente foi determinado que um americano da BBC seria o inimigo. Ele estava desde o início na base, mas não falava nada de português. Cometeu o pecado de pedir para um repórter brasileiro fazer silêncio quando entrou no ar. Alguns, brincando, pediam ao coronel para mandar “o gringo embora” porque os americanos não nos deixariam entrar na embaixada deles. “Por que ele não vai para lá?”, afirmavam em tom de gozação. Claro, o tratamento dispensado a uma fotógrafa americana também hospedada na base era diferente, já que ela era bonita. Ou, como diriam os soldados, “acho que vocês já estão há muito tempo neste quartel”. Durante todo o período, não ocorreu nenhum conflito. Jornalistas e militares ficaram amigos. E o coronel virou quase nosso editor. “Vamos fechar que já está tarde”, disse, apressando os repórteres a enviarem suas matérias para poder trancar as portas da sala do G7. Não adiantava. Os repórteres continuavam trabalhando do lado de fora e despertavam antes mesmo da alvorada militar, às 6h da manhã.
OBS1. Matéria minha publicada no caderno Aliás do Estadão
OBS2. Este post será o último diretamente ligado ao Haiti. Lógico, não esquecerei os haitianos e acompanherei de perto o que acontece na ilha de Hispaniola. Mas voltarei com outros assuntos. Demorei um pouco porque minha experiência no Haiti foi algo que me marcou muito. Insisto, o Haiti não fica no Oriente Médio. Em posts anteriores, infelizmente, comentaristas levaram para este lado. Um pouco, por falha minha, que deixei passar. Peço desculpas. Mas evitem comentários relacionando o conflito árabe-israelense com o terremoto no Haiti. Também peço desculpas por não responder aos comentários. Teoricamente, estou de folga. Mas não consigo parar com o blog. Neste, volto a responder
Há uma semana, conversei com Mensy Desfeignes, uma haitiana de 17 anos que vive desabrigada com a família no estádio nacional de Porto Príncipe. Bem vestida e fluente em inglês e outras línguas, a menina, apelidada de Kym pelos seus pais, pertence a uma família de classe média. Eu a descrevi como uma Patricinha não no sentido pejorativo, mas no de ser bonita e arrumada. Longe de ser alienada. Assim como a maioria dos haitianos, seus pais perderam tudo no terremoto, inclusive a casa. Agora, eles dependem da ajuda humanitária distribuída aos sobreviventes.
Na conversa com o Estado, Kym relatou a sua história e deu o número do telefone de sua irmã, Gaele, que mora em Nova York. “Tente avisá-la que estamos bem”, pediu. Desde terça-feira, quando retornei de Porto Príncipe para Nova York, vinha tentando ligar para a irmã. Todas as vezes, a mesma mensagem – “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Depois de muita insistência, o telefone tocou três vezes na sexta-feira pela manhã e deu caixa postal. Minutos depois, o número de Gaele aparecia no identificador de chamada do celular. Era ela retornando a ligação.
“Sou um repórter brasileiro que esteve no Haiti e encontrou a sua família. Sua irmã, a Kym, pediu que eu avisasse que todos estão bem. Seu pai, sua mãe, ela e o seu irmãozinho sobreviveram e não ficaram feridos”, afirmei. “Você viu a minha família? Como eles estão, como eles estão?”, gritava de felicidade a jovem estudante de enfermagem. Repeti mais uma vez que todos estavam bem, até ela se acalmar. A haitiana já tinha recebido informações desencontradas sobre o que havia ocorrido com os parentes. E ficou triste por saber que sua família agora vive desabrigada. Sua casa, o quarto onde viveu, todas as suas memórias desmoronaram no terremoto do dia 12 de janeiro.
“Agora, vou tentar trazê-los para cá. Para morar comigo. Não será fácil, mas talvez a Kym consiga. Ela se formou com honra, em primeiro lugar, na escola dela. Podemos tentar uma bolsa de estudos. O inglês dela é perfeito. Minha irmã é muito inteligente, você deve ter percebido”, contou Gaele. Moradora do Brooklyn, ela diz que pretende ir em breve para o Haiti, para ver a família. Mas não sabe se terá condições por causa das aulas e de sua filha de quatro anos. Tampouco tem idéia do que a espera na cidade onde cresceu. “Como eles estão vivendo no estádio? Quem cuida deles?”, perguntou a haitiana. Respondi que o local tem a segurança das tropas brasileiras e recebe ajuda humanitária fornecida pelo Exército dos EUA. Na verdade, quando conversou comigo, Kym havia reclamado. “Não era para estar aqui, nesta fila, morando neste estádio, implorando por comida e água”, disse na semana passada.
Mensy e Gaele deram sorte por eu ter conseguido avisar sobre a sua família. O terremoto em Porto Príncipe deixou dezenas de milhares de haitianos residentes em Nova York desesperados para conseguir informações de seus familiares no Haiti. A maioria deles não sabe o paradeiro de seus parentes. Na capital haitiana, o inverso acontece. Sobreviventes buscam uma forma de avisar que estão bem para pais, filhos, irmãos e irmãs que vivem nos Estados Unidos. E também para sonhar com um visto que os retire do devastado Haiti. Mas a comunicação ainda é precária e mais de dez dias depois do terremoto a falta de informação ainda deixa as pessoas ansiosas para receber e enviar notícias.
Viagem
Milhares de moradores de Porto Príncipe buscam refúgio no interior do Haiti, sem tentar partir para outros países do Caribe e mesmo os EUA, como nos anos 1990. Diferentemente do que vem sendo alertado pela ONU, são raros até mesmo os casos de haitianos que tentam atravessar para a República Dominicana, também localizada na ilha de Hispaniola, apesar de haver pacientes sendo tratados em hospitais dominicanos, conforme verificou o Estado ao viajar da capital haitiana para Santo Domingo.
A estrada de Porto Príncipe até a fronteira estava livre. Foram necessários 45 minutos para atravessar os cerca de 50 km que separam a capital haitiana da República Dominicana. Logo depois de sair dos subúrbios de Porto Príncipe, já quase não é possível ver destruição. Alguns mercados estavam abertos em vilas nos arredores da cidade. Em um grande lago, a poucos minutos da divisa, meninos pescavam e brincavam em águas relativamente limpas. Uma caravana de ajuda humanitária, com proteção militar das forças da ONU, seguia na pista oposta, em direção à capital haitiana.
Na fronteira, havia uma fila de cerca de dez carros. Todos eram de jornalistas ou de membros de organizações humanitárias atravessando para encher o tanque de gasolina. Alguns também estão alojados do lado dominicano, atravessando todos os dias para fazer reportagens e trabalhar no Haiti. Para sair do território haitiano, não é mais preciso passar por imigração. Na região do limbo, que separa os dois lados, estavam cerca de cem haitianos acampados. Em determinado momento, para dispersar uma confusão, a Polícia Nacional do Haiti utilizou cacetetes.
Os guardas do lado dominicano, com armas, apenas observam quem está dentro do carro. Eles não pediram passaporte a nenhum dos jornalistas que acompanhavam a reportagem do Estado. Em um bar na primeira cidade depois da fronteira, dominicanos disseram não ter ocorrido nada com eles porque “são católicos protegidos por Deus”. “Os haitianos fizeram um pacto com o demônio”, afirmou um deles, citando os rituais vudus. Outro acrescentou que até mesmo “a TV americana está dizendo isso”. Perguntei como eles justificavam o terremoto em El Salvador, um país que o cristianismo está até no nome. Não souberam responder.
Apesar de não haver até agora um fluxo de haitianos na fronteira, os dominicanos temem ainda uma imigração em massa de moradores do país vizinho. Mas será difícil ela ocorrer. Historicamente, a República Dominicana combate a imigração ilegal de haitianos. Ao longo da estrada, há reforços com postos de controle para verificar se há moradores do Haiti. Além disso, a própria população costuma delatar para as autoridades se ver um haitiano. E, devido à diferença da língua, fica complicado para um nativo do Haiti se misturar aos dominicanos. Ao mesmo tempo, a República Dominicana contribui com ajuda humanitária e colocou seu território à disposição de outros países para enviar mantimentos. Muitos hospitais estão lotados com pacientes transferidos do Haiti logo depois do terremoto.
Sem opção de cruzarem outra fronteira, os haitianos buscam abrigo em casas de amigos e parentes no interior do território, pouco afetado pelo terremoto. A maior parte deixou Porto Príncipe já na sexta e no sábado, quando pessoas circulavam com malas pela cidade. O problema é que muitas destas cidades, apesar de intactas, são pobres e não vem recebendo ajuda humanitária, direcionada para Porto Príncipe. Haitianos com parentes nos EUA formam uma fila de cerca de 500 metros do lado de fora da Embaixada americana na capital para tentar imigrar. Por enquanto, não começou o fenômeno de barcos tentando cruzar o mar do Caribe para chegar a Flórida. No aeroporto de Santo Domingo, principal rota de saída da ilha de Hispaniola, onde estão os dois países, não havia ontem nenhum haitiano tentando embarcar.
Marcas
Miguel, motorista dominicano que me levou junto com outros dois jornalistas de Porto Príncipe para Santo Domingo, ligou para a filha assim que cruzamos a fronteira para a República Dominicana. E começou a chorar compulsivamente. Achei estranho. Nos dias em que estávamos no Haiti, conversei com ele várias vezes sobre a final da liga dominicana de baseball e não imaginei que estivesse afetado neste ponto. Na verdade, tampouco sabia que eu também estava ficando um pouco marcado pelas cenas que presenciei.
Por email, meus editores em São Paulo, meus pais em Dubai e amigos em Nova York perguntavam se eu estava bem enquanto fiquei no Haiti. Respondia que sim. Estava mesmo. Eu dormia no máximo três ou quatro horas. Não porque tivesse pesadelos. Na verdade, sequer me lembro do que sonhava. Apenas não sentia sono em um quarto com outras 15 pessoas entrando e saindo. Na base militar brasileira, todos os jornalistas e militares pareciam estar bem. Quando cheguei a Porto Príncipe, um dia depois do terremoto, eu estava ainda excitado, querendo trabalhar e ver os estragos causados pelo tremor. Vi os primeiros corpos, as casas destruídas, as pessoas desabrigadas e os feridos sendo tratados em tendas de emergência montadas por agências humanitárias.
Conversei com soldados que perderam amigos. Outros que se salvaram por um segundo, como o capitão Guerson, que pulou do segundo andar da base do Forte Nacional no momento exato do colapso do edifício. E ainda viu dois de seus soldados serem tragados pelo desmoronamento da construção. Um tradutor haitiano me contou que havia acabado de enterrar o irmão, mas já estava a postos trabalhando na base brasileira, ainda que não tivesse conseguido informar aos pais o paradeiro dos filhos – um vivo e um morto. As pessoas me descreviam o terremoto como se fosse um episódio cotidiano ou um filme que tinham acabado de assistir no cinema, como 2012.
Ao chegar ao aeroporto de Santo Domingo para retornar a Nova York, depois de deixar os jornalistas Rodrigo Lopez e Fernando Henk, de Porto Alegre, em um hotel da capital dominicana, fiquei pela primeira vez sozinho em todos estes dias. Fiz o check-in, passei pela segurança e sentei em um restaurante do terminal. Nesta hora, meu irmão me ligou. Pedi para desligar dando uma desculpa qualquer. Uma amiga ligou em seguida e começou a fazer perguntas. Senti vontade de chorar. Não queria falar do Haiti. Mais tarde, depois de retornar a Nova York, melhorei, a não ser quando li o email da Janaína Lage, minha concorrente da Folha que virou uma grande amiga na cobertura, onde ela contou como foi o seu retorno ao Rio no avião da FAB. Mas lembro que eu e a Janaína não estávamos na hora do terremoto e já viajamos preparado para ver o que encontraríamos. Além disso, estive anteriormente em zonas de conflito. Por isso, imagino que muitos fiquem como o Miguel. “Nunca mais volto para lá”, disse o motorista, rejeitando uma oferta ótima de repórteres alemães que queriam contratá-lo.
Um dia depois de passar pela Cité Soleil pela última vez, já estava no Central Park andando depois de escrever uma matéria para a edição impressa sobre a travessia por terra do Haiti para República Dominicana. Nas fotos, o parque símbolo de Nova York e o bairro mais pobre de Porto Príncipe podem parecer dois lugares completamente distantes no tempo e no espaço, sem nada em comum. Verdade, são bem diferentes mesmo. Mas existem pontos que os aproximam, como veremos adiante.
A favela haitiana nasceu pobre e ficou ainda mais miserável depois do terremoto. Um amontoado de lixo, de corpos, de escombros, de saqueadores e de desabrigados, onde o braço de um morto vale menos do que um pedaço de pau. Afinal, o segundo serve como arma na luta pela sobrevivência, enquanto o primeiro simboliza o incomodo da morte e da tragédia aos olhos dos que escaparam do terremoto por não estarem sob um teto às 16h53 de uma tarde ensolarada de Porto Príncipe, uma cidade litorânea sem nenhuma avenida à beira-mar com sorveteria, ou uma praia com ondas, por mais sujas que pudessem ser. Não tem calçadão, não tem malecon, não tem corniche, não tem quadras de vôlei, não tem surfistas. Na verdade, parece estar mais distante do mar do que Ulaanbaatar, na Mongólia, considerada a capital mais continental do planeta – isto se levarmos em conta que o mar Aral seja um mar, pois, caso contrário, o título ficaria com Astana, no Cazaquistão.
Os hotéis existentes em Cité Soleil eram para a prostituição portuária. Hoje, a placa de neon serve apenas para separar as pernas do corpo de algum hóspede ou funcionário que por um segundo de atraso não conseguiu atravessar a porta que o permitiria viver, ou sobreviver, no caso dos haitianos. No final, seu corpo ficou atravessado por uma marquise decadente de uma zona da luz vermelha de uma cidade caribenha que não atrai mais turistas, apesar de ter sido o principal destino da região nos anos 1960. O jornal haitiano, jogado no chão de uma calçada inexistente, talvez nem exista mais. Honestamente, não sei se a redação ficou de pé e quantos repórteres ainda possuem condições de escrever sobre a tragédia que assolou o país já marcado por ditaduras sangrentas como a de Papa Doc.
O Central Park continua como sempre. Um grupo de meninas americanas, de Ohio ou Illinois, apenas para usar os exemplos tradicionais, tirava foto diante de um lago com as águas descongelando devido à surpreendente temperatura de 7 graus para o frio inverno nova-iorquino, normalmente bem abaixo do zero. Dois casais de brasileiros passaram tentando encontrar o edifício Dakota, onde John Lennon morreu assassinado há três décadas. Fica ali, na rua 72, pouco antes do San Remo, que serve de residência para o Bono e a Madonna quando estão em Nova York. Não muito longe do 15 Central Park West, o edifício mais caro da cidade e personagem de documentário, na esquina da 62. O Museu de História Natural está a oito quarteirões para cima.
O Metropolitan e o Guggenheim, que abrirá nesta semana uma exposição do jovem artista londrino Tino Sehgal, se localizam do outro lado do parque que serviu de cenário para filmes por mais de oito décadas, no aristocrático e WASP Upper East Side, com hotéis como o Pierre e o Plaza, onde se hospedam bilionários sauditas, estrelas de cinema e banqueiros brasileiros. E também a loja de brinquedos F.A.O. Shwarz, onde estas mesmas pessoas compram brinquedos para seus filhos. A Universidade Columbia não margeia o parque, pois seus portões estão cinco quarteirões depois do final, na 116 com a Broadway. Todas construções sólidas. Algumas, do século retrasado, quando urbanistas souberam transformar a região norte de Nova York em uma área valorizada, apesar de longe de Wall Street, que, como o nome diz, servia de muro para o fim da vila onde holandeses e judeus vindos do Recife deram origem a esta que seria, ao lado de Paris, a cidade mais desejada do mundo.
Mas apenas na superfície estas duas cidades estão distantes. As duas, com pouco mais de oito anos de diferença, sofreram tragédias que marcarão eternamente as suas histórias. A 80 quarteirões do Central Park, dois aviões atingiram World Trade Center, matando 3 mil pessoas, bem perto de Wall Street. Eram estruturas supostamente ainda mais sólidas do que as dos prédios da Quinta Avenida, onde moravam algumas das vítimas. A solidariedade internacional voltou os olhos para a cidade. Inclusive alguns americanos que tradicionalmente olhavam torto para o cosmopolitismo nova-iorquino largaram tudo para vir ajudar no salvamento das vítimas. Agora, foi a vez dos haitianos se tornarem o centro das atenções mundiais. Se tropas foram enviadas ao Afeganistão para defender os americanos, outras desembarcaram no Haiti para ajudar os haitianos, já defendidos pelos brasileiros e outros integrantes das forças da ONU.
Além disso, as duas cidades se aproximam por serem os dois maiores centros populacionais haitianos do mundo. Isto mesmo, depois de Porto Príncipe, Nova York é maior metrópole haitiana do planeta. São 100 mil habitantes nativos, conforme registra reportagem da New Yorker, à venda em uma banca diante do Lincoln Center, a um quarteirão do Central Park. Isso sem falar nos americanos filhos de imigrantes do Haiti. Uma das haitianas é Gaele, irmã de Kym, sobre quem escrevi aqui. Hoje, tentei quatro vezes ligar para ela. Em todas, a mesma mensagem, depois de dois toques – “The person you have called is unavailable right now. Please, try again latter” (A pessoa para quem você ligou agora não está disponível. Por favor, tente mais tarde). Seria a conexão final entre o Central Park e a Cite Soleil.
Obs. Leiam as reportagens do Lourival Santanna e do Leandro Colón na edição impressa. Destaque para uma sobre a vaidade das haitianas. Eu já estou aqui no Central Park, mas o Estadão continua em Cité Soleil
O jornalista americano Gay Talese escreveu no seu livro “O Reino e o Poder”, sobre a história do New York Times, que os jornalistas preferem “ver países em ruínas e navios a pique do que uma cena sadia, que compõe boa parte da vida”. Eu me lembrei disso quando estava em uma fila de jornalistas para cruzar a fronteira israelense para entrar em Gaza para ver os resultados dos bombardeios. E agora, lutando com outros jornalistas por um espaço em qualquer monomotor para viajar de Santo Domingo para Porto Príncipe na manhã seguinte ao terremoto.
Nós queríamos ver a guerra, o resultado do terremoto, os corpos, a fome, a tragédia. Mas dizer que preferimos isso à normalidade da vida como afirma Talese? Difícil dizer. Moro na mesma cidade que ele, Nova York. A terça-feira do terremoto, uma semana atrás, começou como um dia sem notícia. Pude até almoçar com calma, algo raro quando se trabalha com três horas de diferença no fuso horário. No início da noite, ainda escrevi uma reportagem sobre uma distante briga do Google com o governo chinês. Tudo mudou com a ligação do editor de Internacional, Roberto Lameirinhas, falando sobre o terremoto Haiti. Na hora, eu disse que queria cobrir o terremoto. Procurei passagens na internet e vi uma para Porto Príncipe. Cancelaram o vôo, obviamente. No dia seguinte, bem cedo, embarcava no avião para Santo Domingo com outros jornalistas. Quando vi, estava no centro das notícias do mundo. “Terremotos e guerras”, como diz Talese.
E o Haiti é pior do que Gaza, onde estive no ano passado. Dez vezes pior. Também é pior do que o sul do Líbano depois da guerra do Hezbollah contra Israel. E do que Beirute nos anos posteriores à guerra civil. Vi cenas que nunca imaginei que seriam possíveis. Em 24 horas, deixei Manhattan, considerada a região mais disputada do planeta, para ver corpos carbonizados, outros abandonados na rua, incluindo um bebê largado em uma cartolina. Pessoas sem comida, sem água, sem nada. Bairros inteiros destruídos. Não há perspectiva para este país se reerguer rapidamente. Nem com a ajuda dos heróicos soldados brasileiros e de outros países da MINUSTAH que arriscam a vida para tentar encontrar sobreviventes. Ou com a chegada dos reforços americanos e de agências humanitárias.
Ver todas estas coisas e escrever as reportagens, com a pressão do horário do fechamento, do texto claro, com a internet caindo, e correndo o risco de erros de digitação por causa da velocidade são alguns dos principais desafios de qualquer jornalista. Em uma situação dessas, não dá tempo de se organizar muito e, para facilitar a locomoção, o ideal é trazer apenas uma mochila, com o computador e comidas de emergência dentro. Vim praticamente apenas com a roupa do corpo e sem a pasta de dente e o desodorante, proibidos pelos americanos no aeroporto. A escova eu esqueci em Santo Domingo e tive que escovar com a mão, usando pasta emprestada. No banho, me enxugava com a camiseta. Por sorte, consegui abrigo e comida na base militar brasileira, o melhor lugar para ficar em Porto Príncipe. Todos jornalistas brasileiros estão aqui. Globo, SBT, Band, Estado, Folha, TV Brasil, IG.
Nestas horas, os repórteres tentam se ajudar. Não existe rivalidade e todos trabalham juntos na sala de imprensa e saem em grupos para a rua. Temos nossos pontos de vista. O Fabiano (Folha) e o Rodrigo (Zero Hora) cobriram a crise em Honduras de dentro da embaixada; o Gilberto (O Globo), o terremoto na China; e eu, a guerra em Gaza, conflitos no Líbano e também passei por Tegucigalpa. O Lourival Santanna, meu colega do Estadão no Haiti, deve ter umas dez guerras nas costas, incluindo Iraque e Afeganistão. O que importa é mostrar a história destas pessoas do Haiti com os nossos olhos. Muitas delas foram queimadas ou enterradas sem identificação. Nunca saberemos quem foram, suas memórias, se tinham filhos, se tinham mãe, quem era a namorada, qual o último livro que havia lido, o que comeu no seu último jantar e seus planos para fim do dia interrompido antes do anoitecer pelo terremoto. Outras centenas ou milhares podem estar sob escombros, incluindo estudantes de medicina. Por estas histórias, pegamos filas em Gaza e embarcamos em monomotores de Santo Domingo para Porto Príncipe. Em Manhattan, não veríamos estas cenas. Nem mesmo no 11 de Setembro.
OBS 1. Pediria aos leitores que enviassem todas as questões e críticas à cobertura para eu poder responder no post de amanhã. Já esclareço que, conforme escrevi no texto de ontem, o termo patricinha foi utilizado para descrever uma menina arrumada e de classe média, não alienada. Tanto que citei as qualidades dela, como, por exemplo, ser poliglota. Meu objetivo, como a maioria absoluta dos leitores percebeu, foi aproximá-la do Brasil. Muito menos quis diminuir a Kym, tanto que a achei a pessoa mais especial que conheci em Porto Príncipe. Liguei para a sua irmã Gaele para relatar que o resto da família está bem. O recado diz que o telefone está desligado e não dava para deixar mensagem na caixa postal. Tentarei de novo amanhã. Além disso, a foto dela foi publicada na edição impressa do Estadão, em reportagem que também abordei a história dela
OBS2. A partir de agora, a cobertura do Estadão em Porto Príncipe fica nas mãos do Lourival Santanna e do Leandro Colón. Amanhã, no blog, também contarei a história da travessia da fronteira
OBS3. Há muitos leitores novos, que não me acompanhavam nos tempos de Oriente Médio e, depois, em Nova York. Eu respondo a todos os comentários sempre e existe até um grupo de leitores que se reúne em São Paulo. No Haiti, fiquei sem tempo para responder a perguntas. Por este motivo, insisto, enviem mais uma vez. Porém não serão publicados ataques pessoais, nem contra leitores e, apenas para manter a tradição, os que forem anti-semitas, islamofóbicos, anti-árabes, racistas ou que coloquem um povo como superior ou inferior. Críticas são bem vindas. Vídeos não serão publicados
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