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Guga Chacra – Estadão.com.br

A administração de Barack Obama corretamente condena a repressão de Bashar al Assad contra os opositores. Apesar do silêncio do presidente, membros do Departamento de Estado tampouco escondem o temor com o radicalismo sunita de facções armadas da oposição.

Mas se na Síria o comportamento americano pode ser aceitável, assim como foi no Egito, na Tunísia e no Iêmen, embora um pouco mais polêmico na Líbia, em Bahrain o envolvimento do governo Obama é deprimente se levarmos em conta questões de direitos humanos e não de interesses geoestratégicos.

Afinal, o regime de Manama, e assim deve ser classificada a monarquia ditatorial com requintes de apartheid da família Al Khalifa, na qual uma minoria sunita trata a maioria xiita como cidadãos de segunda classe, segue torturando e matando opositores pró-democracia.

Pior, os EUA não apenas ficam calados, como também recebem o ministro do Interior desta ditadura em meio a repressão em Washington. Rashid bin Abdullah Al-Khalifa esteve neste fim de semana na capital americana, onde se reuniu com os diretores da CIA e do FBI, membros do alto escalão do Departamento de Estado, deputados e senadores, incluindo John McCain, do Partido Republicano. Neste ano, o governo Obama vendeu bilhões em armamentos para o regime bairenita.

Tudo bem um presidente ter interesses realistas na sua política externa, como Richard Nixon. Seria natural querer proteger a Quinta Frota americana, baseada naquele país onde a ditadura local tem sido uma boa aliada em questões econômicas e políticas.

O problema é quando governantes, como Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, se dizem defensores dos direitos humanos. Eles não são. Se fossem, não teriam medo de condenar a repressão de Bahrain. Os dois são hipócritas. Se fosse George W. Bush, haveria protestos ao redor do mundo. Mas como é Obama, tudo bem…

 

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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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O ativista de direitos humanos Abdulhadi al-Khawaja, preso por defender a democracia em Bahrein, está em greve de fome há mais de 70 dias e pode morrer a qualquer momento caso não seja libertado pela monarquia Al Khalifa. Enquanto isso, Felipe Massa, Bruno Senna e outros pilotos estarão competindo no GP de Fórmula 1.

Ao todo, 60 pessoas foram mortas na repressão do regime de Bahrein, com apoio de tropas sauditas, aos opositores. Dezenas foram e ainda são torturados e centenas estão nas porões das prisões em uma guerra suja contra a democracia.

Com 1 milhão de habitantes nativos e cerca de 300 mil expatriados, Bahrein é uma ilhota-país ligado por uma ponte à Arábia Saudita. Apesar de ser majoritariamente xiita, é governado por uma monarquia absolutista de origem sunita, nas mãos da família Al Khalifa.

Praticamente inexistem liberdades democráticas e as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe. Os xiitas são alvo de uma política de Apartheid.

Mesmo antes de eclodir a Primavera Árabe, os xiitas e também muitos sunitas de Bahrein clamavam por mais direitos em uma sociedade ditatorial. No ano passado, depois da queda de Hosni Mubarak no Egito e de Ben Ali na Tunísia, eles intensificaram os protestos pacíficos contra o governo. Este respondeu com o massacre da praça da Pérola, que contou com a ajuda das forças de Riad.

A Arábia Saudita teme a queda do regime em Bahrein porque o país está próximo da Província com maior produção de petróleo e justamente uma área de presença xiita. Naturalmente, as manifestações que já existem e são reprimidas com violência, poderiam aumentar. Também existe a questão de o Irã influenciar os opositores, apesar de os xiitas bairenitas serem mais moderados do que os do regime vizinho.

Para completar, a Quinta Frota da Marinha americana, responsável pela segurança dos interesses dos EUA no Golfo Pérsico, fica baseada em Bahrain. Mesmo assim, nesta semana, diante da provável morte de Khawaja, o tom americano ficou um pouco mais crítico.

Um grupo de quatro senadores republicanos e democratas dos Estados Unidos, incluindo Marco Rubio, cotado para vice na chapa de Mitt Romney, pediram ontem a libertação imediata de Al Khawaja. A administração de Barack Obama, por meio da porta-voz Victoria Nuland, também pediu para a monarquia respeitar os “direitos humanos universais”.

No Brasil, observamos uma campanha pela libertação de Sakineh no Irã. Mas ninguém parece dar bola Khawaja.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

 

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Bruno Senna e Felipe Massa, não corram em Bahrein neste fim de semana ou, pelo menos, protestem de alguma maneira contra a repressão. Saibam que, enquanto vocês estiverem nas pistas, seres humanos serão submetidos à tortura nos porões da repressão da Guerra Suja da monarquia Al Khalifa contra a oposição.

Mohammed Ahmed, de 15 anos, foi alvo de tiros nesta semana. Sadeq Al Ghasra, 18, acabou de ser preso e torturado. Outros 20 jovens também foram detidos depois de atacados com bombas de gás lacrimogêneo. Abdulhadi Alkhawaja entrou na sua décima primeira semana de greve de fome para protestar.

Ao todo, mais de 60 pessoas foram mortas pela repressão em um ano. Este país possui 1 milhão de habitantes. No Brasil, com uma população 200 vezes maior, morreram 300 ao longo dos 20 anos de regime militar.

Se a Síria larga na pole position da repressão no mundo árabe, Bahrain vem em segundo lugar. Esta monarquia absolutista nas mãos da família Al Khalifa, de origem sunita, comanda um país sem liberdades democráticas mínimas, onde os xiitas, majoritários, são tratados como cidadãos de segunda classe.

Há anos, e não apenas durante a Primavera Árabe, estes xiitas lutam por mais direitos. Em 2011, saíram às ruas e tomaram a praça da Pérola, como os egípcios na praça Tahrir no Cairo. Mas, com a ajuda de tropas sauditas, exterminaram as manifestações, servindo de exemplo para Bashar al Assad repetir as ações em Homs.

Os Estados Unidos se silenciaram. Afinal, a sua Quinta Frota, responsável pela segurança dos interesses americanos na estratégica região do Golfo Pérsico, está baseada neste reino, que leva este nome porque, no mundo árabe, reis absolutistas se escondem atrás destes títulos para não serem chamados de ditadores. Também há a relação entre os opositores xiitas (há também sunitas) e o Irã – o que não reduz em nada as demandas por democracia. Nós jornalistas, infelizmente, também erramos ao não dar o destaque necessário para esta onda de violência.

Bruno e Felipe, tenham a nobre atitude de Johan Cruyff e não disputem a corrida de domingo ou carreguem uma faixa em forma de protesto ainda que decidam estar na linha de largada. Não sejam coniventes com a tortura. Não façam propaganda para o regime dos Al Khalifa. Lembrem, eles perdem apenas para Assad na hora de reprimir seus adversários.

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