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Gustavo Chacra

no twitter @gugachacra

Quantos iranianos estiveram envolvidos no 11 de Setembro? E sauditas?

Quantos xiitas estiveram envolvidos no 11 de Setembro? E sunitas?

Qual país não permite a ida de mulheres para as Olimpíadas, Irã ou Arábia Saudita?

Onde não há eleições para absolutamente nada, Irã ou Arábia Saudita?

Quando foi o último atentado suicida em que um iraniano se matou? E saudita?

Cite uma cineasta iraniana. Cite uma saudita

Quantos atentados suicidas o Hezbollah (xiita) cometeu dentro de Israel?

Quantos atentados suicidas o Hamas (sunita) cometeu dentro de Israel?

A Al Qaeda é sunita ou xiita? E Bin Laden?

Qual país islâmico tem arma nuclear, Irã ou Paquistão? Qual é xiita? Qual é sunita?

Bin Laden estava escondido no Paquistão ou no Irã?

Agora, responda rápido, você tem mais medo do Hezbollah ou da Al Qaeda na Península Arábica? Por que?

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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Basta observar as divisões no Líbano para entender como anda o conflito na Síria. Os recentes choques em Beirute e Trípoli deixam claro que temos, de um lado, os sunitas. De outro, a favor de Bashar al Assad, as demais religiões presentes nestes países. No caso libanês, xiitas e cristãos. No caso sírio, alauítas e cristãos.

Nas ruas de Beirute, hoje, virou moda observar as pessoas barbadas e dizer que são salafistas prontos para irem lutar na Síria a favor da oposição. E é verdade. Estes grupos seqüestraram uma causa justa, de derrubar uma ditadura sanguinária. São como o Hamas. A organização palestina roubou um ideal, de ter um país, para impor suas regras e usar o terrorismo contra o adversário.

Ao mesmo tempo, o Hezbollah e seus aliados cristãos são hipócritas ao se posicionarem ao lado dos sírios. O grupo xiita libanês sempre se descreveu como “uma resistência contra a ocupação israelense”. Até 2000, sem dúvida, pois Israel ocupava ilegalmente o sul do Líbano. Mas se retirou, a não ser por Ghajar e Shebaa.

Os cristãos de Michel Aoun tem o argumento real de que correm o risco de desaparecer e, por este motivo, precisam se aliar ao antigo algoz Assad. Entendo o medo deles. Mas é um erro defender a ditadura vizinha. Apoiar a democracia e respeitar as diferenças religiosas seria a melhor alternativa. Tratem os sunitas da mesma forma que tratam os xiitas, como amigos.

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Trípoli é uma cidade complicada no Líbano por ser praticamente uma Síria em miniatura. Os sunitas são majoritários e se dividem entre os defensores e inimigos de Assad. Alguns, especialmente entre os opositores, são salafistas. Nesta segunda maior metrópole libanesa, também vivem alauítas e cristãos.

Um dos líderes salafistas foi preso, provocando levantes. O Exército precisou intervir. Desta vez, conseguiu. Mas o cenário deve se deteriorar. Trípoli se transformou em um pólo de atração para militantes que querem entrar na Síria e lutar contra Assad. Quanto mais eles vierem, mais os libaneses, especialmente os cristãos e os xiitas, ficarão irritados.

Obviamente, no médio prazo, as divisões dentro do Líbano se agravarão. Mas, ao contrário da Síria, há líderes claros em cada um dos grupos sectários libaneses. Hassan Narallah, do Hezbollah, e Nabi Berri, da AMAL, dominam os xiitas. Saad Hariri e o premiê Najib Mikati são as forças sunitas, apesar de antagônicas. O mesmo se aplica aos cristãos de Michel Aoun (pró-Assad, por incrível que pareça) e de Samir Gaegea, anti-Damasco. Os druzos têm Walid Jumblatt e, em escala bem menor, Arslan.

Para completar, o presidente Michel Suleiman desfruta de enorme legitimidade e é respeitado pelas Forças Armadas, também predominantemente cristãs.

Todas estas figuras mantêm canais de negociação e devem ser incentivados a negociar para evitar a contaminação do conflito no Líbano. Eles têm o poder para atingir este objetivo. E, aplicando teoria dos jogos, tanto Nasrallah quanto Hariri perderiam muito em um conflito.

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Escrevi na semana passada e falei na TV que a Síria não tem solução no curto prazo. Todas as estratégias para superar a crise fracassarão e teremos Guerra Civil. Mas ainda dá para evitar o alastramento para o Líbano antes que seja tarde.

Meu irmão, Robert Chacra (sim, texano, acreditem), acabou de celebrar os dez anos de casado com uma viagem para Beirute e outras regiões libanesas. Obviamente, o país dos cedros ainda encanta por ser um dos mais sofisticados, cosmopolitas e maravilhosos do mundo. Mas há tensão no ar.

Primeiro, a quantidade de refugiados sírios andando pelas ruas é alarmante. Aos poucos, pode começar a lembrar os palestinos dos anos 1970 e todos sabem o que aconteceu depois. Em segundo lugar, apesar de ter crescido 5% em 2011, graças à remessas do exterior, a economia tende a sofrer com a crise no país vizinho.

Mais grave é o cenário para os alauítas da região de Trípoli, no norte do Líbano – não confundam com a capital da Líbia. Eles são uma minoria dentro da cidade e vivem separados dos sunitas ironicamente por uma rua chamada “Síria”. No passado, houve choques na segunda maior cidade libanesa.

Agora, de acordo com o que o meu irmão apurou e relatos de outras fontes com quem converso no Líbano, eles apenas não são alvo de um massacre porque o Exército libanês os protege. Mas até quando? E, na Síria, os alauítas, que são uma vertente ultra-liberal em questões sociais do islamismo (e é a religião de Assad) correm um risco cada vez maior de genocídio no futuro.

Hoje ninguém fala. Mas ao longo da Guerra Civil síria começarão falar que “precisamos proteger os alauítas e os cristãos”. Eu falo hoje. Protejam os alauítas e os cristãos antes que seja tarde. E não permitam que a Guerra Civil se espalhe para o Líbano. Ainda dá tempo.

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A entrevista do xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, para o Julian Assange, fundador do Wikileaks, para uma rede de TV patrocinada pelo Kremlin por si só já é notícia, independentemente do que venha a ser discutido.

O entrevistador é o homem que mais divulgou segredos do governo americano na história recente. O outro lidera o que Washington considera a maior organização terrorista do mundo. Para completar, a Rússia por quase cinco décadas foi o maior inimigo dos Estados Unidos.

Ao longo da entrevista, dois pontos me chamaram a atenção. Nasrallah defendeu um Estado no que hoje é Israel e Palestina incluindo judeus, muçulmanos e cristãos. Em nenhum momento ele afirmou que os israelenses deveriam sair. Neste sentido, ele seria a favor de um Estado binacional em todo o território,

Agora, e esta é uma avaliação minha com base em uma série de visitas ao Líbano, entrevistas e leitura de livros de membros do Hezbollah e também de especialistas, a organização libanesa prega sim a destruição de Israel. Nasrallah apenas sabe, melhor do que qualquer líder árabe, fazer relações públicas.

No caso da Síria, Nasrallah argumenta que Assad sempre “esteve ao lado da resistência libanesa e palestina”. Se vocês entenderem resistência como Hezbollah e Hamas, ele está correto. O líder sírio realmente apóia estas duas organizações.

O líder do Hezbollah também diz que tentou mediar um diálogo entre a oposição e Assad. Mas, segundo ele, os opositores não quiseram conversa. Não duvido que seja verdade, mas Nasrallah sabe muito bem quem está no comando do regime em Damasco. E sabe melhor ainda o fim que teve o comandante militar de sua organização, Imad Mughnyeh

Vejam a íntegra da entrevista aqui

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Como os libaneses cristãos vêem a crise Síria? Bom, o Patriarca Cristão Maronita, Beshara Rai, afirma que o regime de Bashar al Assad é o mais próximo da democracia na região. De acordo com a maior autoridade cristã libanesa, os seguidores desta religião correm o risco de desaparecer se o líder sírio for deposto.

“Todos os regimes do mundo árabe têm o islã como religião oficial, menos a Síria (e o Líbano). Ele (o regime de Assad) se destaca por dizer que não é um Estado islâmico. O que mais se aproxima de uma democracia no mundo árabe é a Síria”, disse o patriarca.

O presidente Michel Sleiman, também cristão, conforme mandam as leis libanesas, segue na mesma linha e apóia Assad. O mesmo se aplica a Michel Aoun, principal líder político cristão em Beirute. Ironicamente, ele ficou 15 anos no exílio por sua oposição a Damasco, mas formou uma aliança com os sírios e o Hezbollah depois da retirada das tropas sírias do Líbano em 2005.

Ao mesmo tempo, Samir Gaegea, que representa uma parcela importante dos cristãos libaneses, lamentou o posicionamento do Patriarca, do presidente e, como não poderia deixar de ser, de seu inimigo Aoun. O antigo senhor de guerra, que passou uma década em um calabouço em Beirute, afirma que Damasco é responsável pelo enfraquecimento dos cristãos libaneses. Segundo ele, o regime sírio, na época de Hafez al Assad, teria matado dois presidentes (ambos cristãos), Bashir Gemayel e Rene Mawad.

Entre a população cristã, pelo que venho conversando, o posicionamento depende de qual grupo político a pessoa segue. Os simpatizantes da 8 de Março, como é chamada a coalizão de Aoun com o Hezbollah, tendem a ser pró-Assad. Já os membros da 14 de Março, do sunita Saad Hariri, mas com a presença de cristãos como Gaegea, são contra o regime sírio.

No geral, os libaneses cristãos não se esquecem das atrocidades cometidas por Assad no Líbano ao longo das quase três décadas de ocupação. Ao mesmo tempo, especialmente entre os cristãos ortodoxos e armênios, existe uma solidariedade com os cristãos sírios, que são majoritariamente a favor do regime. Além disso, sempre existiram grupos cristãos, como o Marada, dos Frangieh, que eram aliados de Damasco.

Vale lembrar que o Líbano é o país do mundo com a maior proporção de cristãos árabes – cerca de 40%. O presidente, metade do Parlamento, do Ministério e o chefe das Forças Armadas são obrigatoriamente cristãos. Não existe lugar no Oriente Médio (e isso inclui Israel, óbvio) onde os cristãos tenham mais liberdade e mais poder do que em Beirute.

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