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Gustavo Chacra

no twitter @gugachacra

A Turquia tem importância para os Estados Unidos em política externa. Integra a OTAN, exerce influência sobre a Síria e o Iraque e possui fronteira com o Irã e uma série de ex-repúblicas soviéticas. Para completar, é uma das democracias emergentes, como o Brasil, Índia, África do Sul e México. Não pode ser descartada nos dias de hoje.

Israel tem importância na política interna americana. Não existe país que seja tão querido pelos americanos. As duas nações desfrutam dos mesmos valores e se consideram mais do que amigos. Os judeus são uma importante minoria, com milhões eleitores. Na última eleição presidencial, os dois vice-presidentes disseram amar Israel. Um em cada cinco membros do Congresso visitaram Jerusalém em agosto.

Neste momento, Israel e Turquia enfrentam uma crise diplomática, colocando os EUA em conflito entre seus interesses externos (Turquia) e internos (Israel). Tudo começou com o conflito em Gaza e se agravou com a recente publicação de um relatório sobre a flotilha. Basicamente, segundo a ONU, o bloqueio do território palestino é legal (posição igual à de Israel), mas algumas mortes foram causadas pelo uso excessivo da força, com disparos por trás e múltiplas vezes (posição favorável à da Turquia). Na avaliação do governo turco, Israel deveria pedir desculpas pelas mortes. Os israelenses se recusam. Em resposta, a Turquia expulsou o embaixador de Ancara e rompeu os contatos militares.

A administração de Barack Obama precisa balancear seus interesses externos com os internos, ainda que tenhamos eleição no ano que vem. Não será fácil. Uma saída é manter o discurso do diálogo e não adotar nenhum dos dois lados. São duas democracias adultas e quem não necessitam de ninguém dizendo o que precisam fazer. Mas o momento é o pior possível para Israel, com certos grupos egípcios se levantando contra os acordos de paz e os palestinos indo à ONU para pedir o reconhecimento do Estado. Sem falar no maior complicador, do outro lado da fronteira no Golã, onde uma guerra civil pode eclodir na Síria.

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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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O   @gugachacra  foi escolhido como um dos twitters mais influentes da América Latina pela revista Foreign Policy e é o único brasileiro incluído nesta categoria

A Turquia expulsou o embaixador de Israel em Ancara, suspendeu todos os acordos militares com os israelenses, não reconhecerá mais o bloqueio naval a Gaza e dará suporte a todas as vítimas da flotilha. De acordo com comunicado da Embaixada turca em Washington, o país pretende processar na Justiça soldados e oficiais de Israel e não descarta levar a questão para o Conselho de Segurança da ONU.

Em um claro desafio a Israel, “a Turquia tomará todas as medidas necessárias para garantir a liberdade de navegação no Mediterrâneo oriental”, o que implica em permitir que barcos turcos viajem para Gaza, furando o bloqueio de Israel e colocando os dois países em rota de colisão, segundo afirmou o chanceler turco, Ahmet Davutoglu.

 A decisão adotada pelo governo turco ocorre depois de publicação anteontem de relatório da ONU sobre a flotilha de Gaza, realizada em maio de 2010, dizendo que o bloqueio de Israel ao território palestino é legal, mas a reação dos militares israelenses, mesmo sendo recebidos com hostilidade e violência por membros da tripulação, foi excessiva, culminando na morte de nove turcos. De acordo com a investigação das Nações Unidas, cinco dele foram alvejados por trás. Os soldados israelenses também dispararam contra órgãos vitais de sete vítimas múltiplas vezes.

Segundo a Turquia, Israel deveria se desculpar publicamente pela morte dos turcos e pagar indenizações. “Reafirmamos que não normalizaremos as relações com os israelenses enquanto não recebermos um pedido de desculpas e o pagamento de compensação pelo que eles fizeram”, diz comunicado da Embaixada turca nos Estados Unidos.

Em Israel, o gabinete do primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, buscou evitar atritos ao publicar comunicado dizendo que “o Estado de Israel quer encontrar uma forma de superar as discordâncias com a Turquia e se esforçará neste sentido”. O governo também lamenta as mortes dos nove turcos na flotilha, mas não aceita pedir desculpas pelos atos de seus soldados. Segundo Israel, eles agiram em legítima defesa. Mas não houve reação às medidas anunciadas pela Turquia.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, se reuniu ontem com Davutoglu para tentar contornar a situação e evitar um agravamento ainda maior da crise, mas não obteve sucesso. Ela também tem insistido para que Netanyahu peça desculpas à Turquia. Em editorial, o New York Times agiu na mesma linha. O conflito entre os dois países coloca os americanos em uma situação delicada por ambos serem aliados importantes de Washington na região e são fundamentais para a estabilidade do Oriente Médio e do Norte da África durante a Primavera Árabe. Tanto a Turquia quanto Israel possuem fronteira com a Síria. E os turcos são o braço mais importante na nova estratégia americana para conter o Irã.

Nos últimos meses, os EUA vinham tentando uma reaproximação entre os dois países e, até a divulgação do relatório da ONU, haviam conseguido um relativo sucesso.

O bloqueio a Gaza foi imposto depois de o Hamas assumir o controle do território e intensificar uma campanha de lançamentos de foguetes contra o sul de Israel. De acordo com os israelenses, esta era uma das poucas alternativas para impedir o contrabando de armas para a organização palestina através do Mediterrâneo. Os palestinos e ativistas pró-Palestina ao redor do mundo classificam o bloqueio como punição coletiva. A ONU, conforme diz o relatório, acha o bloqueio legal.

A Turquia sempre foi um dos principais aliados de Israel no Oriente Médio desde a independência do país, em 1948. Por décadas, as duas nações mantiveram alianças estratégicas nas áreas de inteligência e militar. Alguns dos principais destinos de turistas israelenses eram as praias turcas e Istambul.

Mesmo com a chegada do AKP, de viés mais islâmico, ao poder em Ancara, no início da década passada, não provocou atrito. Mas as relações começaram a se deteriorar depois da Guerra de Gaza, em janeiro de 2009, quando o premiê da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, discutiu publicamente com o presidente de Israel, Shimon Peres, em Davos, na Suíça.

Os turcos, na época, mediavam a paz entre Israel e a Síria e estavam próximos de um acordo. O problema é que, dias antes de tornar as negociações públicas, os israelenses iniciaram a campanha contra o Hamas em Gaza, sem consultar ou avisar a Turquia, irritando Erdogan.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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O texto de hoje é uma homenagem ao maior historiador libanês, Kamal Salibi, que morreu ontem em Beirute. Sua obra “A House of Many Mansions” talvez seja a melhor para entender o Líbano e até mesmo o Oriente Médio, onde “muitas mansões tentam ocupar o terreno de uma mesma casa”

O Oriente Médio virou definitivamente a terra do cada um por si. Não existe mais nenhuma aliança entre países e todos apenas se preocupam com a sua opinião pública interna. E dane-se o resto do mundo, os países vizinhos, a ONU ou quem quer que seja.

O último episódio foi o relatório da ONU sobre a flotilha de Gaza, em maio do ano passado. Os investigadores das Nações Unidas consideraram o bloqueio israelense ao território palestino como sendo legal. Mas disseram que, apesar de os militares israelenses terem sido recebidos com hostilidade pelos manifestantes e terem a sua segurança em risco, a reação foi excessiva, culminando nas nove mortes. O governo turco, também de acordo com a investigação, poderia ter feito mais para impedir a ação organizada dos membros da flotilha.

Com a publicação deste relatório, a Turquia exige que Israel peça desculpas pelas mortes. Isso não vai acontecer. Em resposta, os turcos expulsaram o embaixador israelense de Ancara e dizem que este é apenas o primeiro passo. Basicamente, as duas maiores potências da região e aliadas por décadas rumam para uma inimizade.

Israel também já está com as relações estremecidas com o Egito.  O atual governo egípcio não se dá bem com a Arábia Saudita. Riad que é o maior rival de Teerã em Bahrain ao mesmo tempo que tenta isolar Bashar al Assad na Síria. O regime de Damasco, por sua vez, se distancia da Turquia e toma bronca até do Irã. Isso não quer dizer que os iranianos e os turcos vivam uma lua de mel.

Nos tempos de primavera árabe, o Oriente Médio virou a terra do cada um por si. E isso inclui as três nações não-árabes – Israel, Turquia e Irã. Devagar, toda a região vira uma imensa Beirute da Guerra Civil, dividida em facções que pouco se interessam pelo destino dos outros, mas apenas na sua sobrevivência. Curiosamente, o Líbano sempre foi o país árabe com mais liberdade e o com mais conflitos.

Obs. A Turquia fica parte na Europa, parte no Oriente Médio. Apenas para não reclamarem depois

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