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Gustavo Chacra

Alguns dividem o mundo em blocos, como Ocidente, mundo islâmico, africanos, latinos e outras denominações raciais e geográficas. Outros preferem ver o mundo como um conjunto de Estados nacionais, onde cada nação defende os seus próprios interesses ou, em alguns casos, do regime que a governa.

A segunda linha tende a fazer mais sentido e explicaria, por exemplo, a aliança da Alemanha com o Japão na Segunda Guerra, dos alemães com os Otomanos na Grande Guerra ou de Cuba com a União Soviética na Guerra Fria. Também facilita o entendimento do conflito pelas Malvinas/Falklands entre ingleses e argentinos em 1982.  A questão iraniana também pode ser explicada através do realismo. Basta pegar alguns dos personagens principais e entender.

EUA – Até hoje, os americanos são traumatizados pela tomada da Embaixada em Teerã, quando eclodiu a Revolução Islâmica. Também ligam, apesar da falta de provas conclusivas, os iranianos aos atentados contra os marines e a Embaixada em Beirute, no início dos anos 1980. Estas imagens se consolidaram na cabeça da população americana. Sem falar que o judaísmo, nos EUA, com seus cerca de 6 milhões de seguidores, desfruta de enorme simpatia. E ninguém tolera Mahmoud Ahmadinejad questionando o Holocausto. Portanto, os EUA temem um Irã nuclear.

IRÃ - Os iranianos, especialmente os que estão no poder, guardam rancor dos americanos pela derrubada Mohammed Mossadegh, eleito democraticamente premiê iraniano nos anos 1950, derrubado do poder em golpe patrocinado pela CIA. Posteriormente, os EUA apoiaram a sanguinária ditadura do xá Reza Pahlevi. Atualmente, o regime de Teerã viu os EUA invadirem e matarem centenas de milhares de pessoas nos seus dois vizinhos – a oeste no Iraque, a leste, no Afeganistão. Obviamente, o Irã pretende ter a capacidade de desenvolver a bomba atômica para se defender.

OS OUTROS - E temos os coadjuvantes. A Rússia tem negócios com o Irã, mas passou a enxergá-los como rivais no mercado de gás para a Europa e mudou a sua posição sobre sanções. Antes, os russos controlavam o setor. Agora, os iranianos fizeram um acordo para construir um gasoduto através da Turquia. Desta forma, também dá para entender a posição dos turcos, que, além disso, buscam ampliar a sua posição no Oriente Médio. A China preferia o Irã intacto para continuar comprando petróleo, mas os EUA ofereceram vantagens em determinados pontos das relações econômicas com Pequim, que aceitou uma nova resolução. Israel também teme o Irã por motivos não muito diferentes dos EUA, assim como a França e a Inglaterra.

BRASIL - O Brasil tem interesses comerciais com os iranianos. Mas isso apenas não explicaria a posição brasileira. O governo considera hipócrita a política nuclear dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que possuem armas atômicas e tentam, ainda assim, intensificar as inspeções em países como o Brasil no novo Tratado de Não Prolirefaração (TNP).

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão –
Ariel Palacios (Buenos Aires) – http://blogs.estadao.com.br/ariel-palaci… –
Patricia Campos Mello (Washington) – http://blogs.estadao.com.br/patricia-cam… –
Claudia Trevisan (Pequim) – http://blogs.estadao.com.br/claudia-trev… –
e Adriana Carranca (pelo mundo) – http://blogs.estadao.com.br/adriana-carr…

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O anúncio da China de que apóia uma nova resolução com sanções ao Irã provocou euforia em alguns órgãos de imprensa e meios diplomáticos aqui em Washington. Bobagem. No fundo, nada muda. Os chineses, assim como os russos, apóiam sanções brandas ao regime de Teerã. Não deixarão interferir no emergente comércio entre estes países e os iranianos. Pequim comprará petróleo e venderá seus produtos normalmente. Moscou também não abdicará de seus bons negócios com os persas. Aliás, o China Daily, na sua edição de hoje, coloca o encontro do Obama com o Hu Jintao na capa sem citar em nenhum momento a palavra “Irã” ou “sanções”.

A resolução apenas adiará um problema que se divide entre aceitar o regime iraniano com capacidade de desenvolver armas nucleares ou um arriscado ataque israelense contra instalações iranianas que pode não resultar em nada. Como todos os países, o Irã é realista. Defende apenas os seus interesses. Hoje, os iranianos olham ao seu redor e vêem israelenses, paquistaneses, russos e indianos com bombas atômicas. Sem falar nos americanos, em suas fronteiras ocidental, no Iraque, e oriental, no Afeganistão. E sabem que a melhor forma de se impor é com uma bomba atômica, especialmente porque os norte-coreanos deitam e rolam em desrespeito a resoluções internacionais sem serem importunados – afinal, estão no clube nuclear.

A única saída que não envolvesse guerra ou um Irã nuclear seria uma garantia de segurança para os iranianos ou a imposição de uma barreira. Para atingir o primeiro objetivo, existiriam duas possibilidades. A primeira, defendida pela Turquia e Egito, com o apoio indireto até mesmo do Brasil, prevê um Oriente Médio sem armas nucleares. Esta iniciativa visa o desarmamento de Israel, que possui um arsenal nuclear não declarado. Porém, como os iranianos, os israelenses são realistas. E sabem que a sua melhor defesa em meio a vizinhos hostis é justamente ter bombas atômicas.

A outra possibilidade, completamente improvável, seria dar garantias de segurança ao Irã por outros meios. Como no caso da Turquia, que integra a OTAN. Mas é óbvio que isso não irá ocorrer. A barreira seria a existência de um regime hostil da fronteira com o Irã, como o Iraque de Saddam Hussein. Mas os EUA derrubaram o antigo ditador, abrindo o mundo árabe para a influência iraniana, antes restrita aos xiitas libaneses.

Temos que aceitar de vez que o Irã terá capacidade de ter armamentos atômicos em alguns anos ou concordar com um ataque israelense. Cada país tende a ter a sua opinião. Mas quase nenhuma interessa, a não ser a de Israel e dos EUA. E, com as relações entre os dois países estremecidas, acredito que os israelenses levarão em consideração apenas os seus jogos militares, que já estão realizados, para determinar uma ação militar ou não. Levarão em conta a resposta iraniana, via Hezbollah, com capacidade de matar milhares em Tel Aviv e Haifa. E também, claro, o risco para a já deteriorada imagem de Israel no exterior.

E o Irã, enquanto isso, corre contra o tempo, usando todas as vias diplomáticas possíveis. Afinal, sabe que, uma vez que tiver uma bomba, ninguém mexerá com eles. A opção do ataque israelense será descartada. Portanto, esqueçam a posição da China, da Rússia e muito menos a do Brasil e da Turquia. Daqui dois meses, quando o México estiver na Presidência do Conselho de Segurança da ONU, aprovarão uma resolução inócua que não afete os negócios chineses e russos. Obama venderá a aprovação como uma vitória, Ahmadinejad dará risada, Hu Jintal e Medvedev manterão seu comércio e Netanyahu tomará uma decisão.

Obs. Dizem que os EUA tentam na verdade é ganhar tempo para a coalizão de Bibi cair. Neste caso, já estariam resignados com um Irã nuclear.

Obs2. Desculpem publicar um post em seguida do outro. Mas estou em Washington na cobertura da cúpula nuclear. E tentarei responder ao máximo possível de comentários a partir de agora

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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Obama venceu a principal batalha de seu mandato com a aprovação da reforma do sistema de saúde. Pode não ter sido perfeita, da forma como ele queria. Mas é uma vitória e seu governo já pode celebrar um dos maiores avanços na política doméstica americana em anos. A partir de agora, o presidente terá tempo de se focar em outros assuntos, especialmente política externa. São cinco os pontos mais importantes para os Estados Unidos

1. Completar a retirada do Iraque. As recentes eleições, com todos os seus problemas, demonstraram que os iraquianos podem se transformar na primeira democracia no mundo árabe. O risco ainda é se transformar em um Líbano, que é democrático, mas enfrenta o problema da divisão sectária

2. Tentar aprovar uma nova resolução com sanções ao Irã. A não ser que a China vete, os americanos deverão conseguir. Mas Obama quer os votos simbólicos do Brasil e da Turquia. Caso contrário, mesmo sem o veto chinês, as sanções teriam menos força por não contarem com o apoio de duas potências regionais

3. Reconstruir o governo afegão para que as tropas americanas consigam deixar o Afeganistão o mais rapidamente possível. Ao mesmo tempo, Obama precisará determinar como lutar contra a Al Qaeda. Não deixa de ser uma aberração tantos recursos direcionados ao Afeganistão, enquanto a rede terrorista hoje é bem mais forte no Yemen

4. Levar adiante de uma vez por todas um acordo entre palestinos e israelenses. Como definiu bem Thomas Friedaman, é um embate entre a ideologia de Salam Fayyad, premiê palestino, e o presidente do Irã, Mahmoud Ahmedinejad. De um lado, o “Fayyadismo” busca o inverso de Arafat, tentando construir as instituições palestinas para ter um Estado viável ao lado de Israel. Do outro, o iraniano vibra com o maior caos na região, que apenas o fortalece

5. E, finalmente, Obama terá que decidir qual será o papel e a relação dos EUA com as novas potências emergentes. Brasil, China, Índia, Turquia e Rússia possuem hoje um peso crescente. Ao mesmo tempo, a força dos países europeus diminuiu. Não será fácil para o presidente americano. Apesar de todos estes emergentes serem aliados americanos, seus líderes discordam de grande parte da política externa dos EUA

Sigo em Cartagena (Colômbia), de onde escreverei posts nos próximos dias, antes de retornar a Nova York

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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