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A diferença entre ser rico e pobre no Egito

Gustavo Chacra

30 março 2009 | 16:19

Os libaneses dividem-se entre cristãos, druzos, sunitas e xiitas. Em Israel, os judeus podem ser ortodoxos, reformistas, sefaraditas, ashkenazis, russos ou até etíopes. Moderados e radicais compõem a sociedade palestina. Na Jordânia, há palestinos e jordanianos nativos. O Egito é diferente de todos esses. Apesar da minoria cristã copta, a divisão egípcia não é religiosa ou de origem. O que impera é a desigualdade social, com ricos e pobres.

Um jovem do Cairo pode pedir um capuccino ouvindo bossa nova em um dos elegantes cafés de Zemalek, a ilha elitizada no meio do Rio Nilo. Ou pode se sentar para tomar um chá na casa de um vizinho em um dos bairros pobres da cidade.

Os mais ricos mudam-se para condomínios em regiões afastadas, como Heliópolis e Maadi. Os pobres aglomeram-se em lotações para conseguir chegar ao trabalho. Os filhos dos ricos estudam em colégios internacionais e formam-se na Universidade Americana do Cairo. Os pobres conseguem muitas vezes ingressar nas universidades, mas isto pode levá-lo muitas vezes apenas ao cargo de porteiro ou de taxista. A classe média alta paga altas mensalidades para jogar squash em um dos vários clubes esportivos do Cairo, enquanto os pobres tentam economizar ao máximo para conseguir um ingresso para assistir ao Al-Ahli disputar a Copa da África de futebol.

Os egípcios das camadas mais baixas são denominados pejorativamente de fellah. Muitos vieram das regiões mais pobres do país para trabalhar no Cairo. A elite os enxerga muitas vezes como inferiores.

Os ricos são denominados muwazzaf, que significa funcionário público, mas que hoje se estende para toda a classe média, mesmo aqueles que trabalham na iniciativa privada. São pessoas que gozam de status. Entre os fellahs e os muwazzaf, surgiu uma nova classe de novos ricos, que vão trabalhar nos países de Golfo Pérsico e retornam com dinheiro. Passam a frequentar os mesmos clubes esportivos que a alta sociedade, mas continuam vistos como cidadãos de segunda classe.

“Apesar de trabalharmos o dia todo, não conseguimos sequer ganhar 750 libras por mês (cerca de R$ 300)”, diz o marinheiro Ahmad Adnam. “Passei muito tempo pelo mundo em navios e nunca vi nada tão desigual quanto o Egito”, acrescenta o egípcio, que é um típico representante das classes mais baixas.

O físico e empresário Mohammad Zewiss, que é um exemplo de muwazzaf, concorda. “Nós realmente conhecemos pouco a vida dos pobres. Gostaria de saber mais como eles vivem. Mas, no fundo, nossas vidas são muito separadas aqui no Cairo”, afirmou, enquanto fumava narguilé com alguns amigos alemães no tradicional Café Fishawi, no mercado de Khan al-Khalili.

No passado, a divisão era ainda maior. Bastava olhar para as vestimentas para perceber quem era rico e quem era pobre. Os fellah usavam uma vestimenta chamada gallabiya e andavam descalços, segundo Galal Amin, autor do livro Whatever Happened to the Egyptians. Já a burguesia começava a se vestir como os europeus, vestindo calças, camisas e sapatos.

Entre as mulheres, era ainda mais fácil perceber a diferença. Nos anos 1950 e 1960, algumas delas deixaram de usar o hijab e andavam com os cabelos soltos. No entanto, nos anos 70, um fenômeno começou a tomar conta das ruas do Cairo e Alexandria. Quanto mais as mulheres buscavam educação superior e posições no mercado de trabalho, mais elas usavam o hijab.

Hoje, mesmo meninas da elite cobrem a cabeça. Amin tem uma explicação para este retorno à vestimenta religiosa ao escrever que “as mulheres, ao saírem da segurança das suas casas para trabalhar e estudar, sentiram-se obrigadas a enviarem uma mensagem aos homens com quem dividiam escritórios de trabalho, ônibus e carteiras nas universidades. A de que, mesmo sentando lado a lado e conversando com eles, não se tornaram propriedade pública”.

* Reportagem minhas escrita para a edição impressa do Estadão