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Guga Chacra – Estadão.com.br

no twitter @gugachacra

A CNN e a Fox News cometeram uma barriga antológica ontem ao anunciarem equivocadamente que a Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado a lei para a reforma do sistema de saúde americano, principal bandeira da administração de Barack Obama.

Depois de dois minutos, a Fox News se corrigiu. Mas a CNN demorou ainda mais dez, noticiando uma ficção, um erro. E era algo fácil de acertar. Bastava esperar a Suprema Corte anunciar formalmente, escutar e contar. Não é o caso de uma dúvida sobre o que aconteceu na Flotilha de Gaza ou no Massacre de Houla, onde há diferentes versões e nenhum jornalista estava no local.

Isso ocorreu pela necessidade de dar o famoso breaking news. Mas tudo poderia ter sido corrigido caso esperassem cinco minutos mais antes de colocar no ar. Honestamente, os telespectadores podem aguardar das 10h07 até as 10h12 para ter a informação correta. Até duas décadas atrás, quem não estivesse escutando rádio, saberia apenas no telejornal da noite na NBC, CBS ou ABC ou no New York Times do dia seguinte. Mas teriam a informação completa e correta.

Pior, mesmo Obama por alguns minutos achou que houvesse sido derrotao porque estava vendo TV no salão oval. Certamente alguns investidores perderam dinheiro com o erro ao tomarem decisões de compra e venda de ações.E milhões de pessoas, por alguns minutos, precisaram repensar seus planos em relação a seguros de saúde.

Na semana passada, também ocorreram equívocos sobre a suposta morte de Hosni Mubarak no Egito. Eu mesmo, citando uma agência de notícias, coloquei no twitter. Depois, foram os anúncios contraditórios sobre quem teria vencido as eleições egípcias, dois dias antes dos resultados oficiais. Chegou ao ponto do Al Ahram em inglês dizer que foi o Ahmed Shafik e o em árabe o Mohamed Morsy.

Vamos esperar mais para saber exatamente o que aconteceu. Na Síria, a quantidade de desinformação e mentiras de todos os lados é enorme. Até secretárias de Estado cometem equívocos ao darem notícias. Mas, em Washington, era difícil de errar. E a CNN e a Fox News, duas das três maiores redes de notícias dos EUA (a outra é a MSNBC), erraram e feio.

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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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O Irã e a Arábia Saudita não foram convidados para a conferência sobre a Síria em Genebra neste fim de semana, apesar de Kofi Annan, mediador internacional da crise, pedir a inclusão de ambos. Mas a secretária de Estado Hillary Clinton ameaçou boicotar se Teerã fosse e, para compensar, também deram bola preta para Riad.

Esta decisão é um erro e demonstra a hipocrisia da administração de Barack Obama. Afinal, os iranianos agem em coordenação com os americanos no Afeganistão e também no Iraque. Os dois países são aliados de Hamid Karzai e Nouri al Maliki. Por que na questão síria será diferente? Por que estão em lados opostos?

Teerã, junto com Moscou, é quem banca o regime de Assad. Obviamente, deveria estar no diálogo. A Arábia Saudita, idem, afinal a monarquia dos Saud exerce enorme influência sobre os opositores.

Sem a participação destas duas nações do Oriente Médio, o encontro obviamente fracassará, assim como todas as iniciativas de resolução do conflito. A Síria terá um guerra civil que pode ser ainda pior do que a do Líbano dos anos 1980, com chances de virar uma Somália de tempos atrás, no coração do mundo árabe.

Antes que me esqueça, também me espanta que o Kuwait tenha sido convidado, mas o Líbano não.

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Recep Tayyp Erdogan, premiê da Turquia, condenou o bloqueio israelense a Gaza e a repressão das forças de Damasco aos opositores. Decidiu, nos dois casos, se posicionar contra um aliado, Israel, gritando publicamente com o presidente Shimon Peres, e um amigo pessoal, Bashar al Assad.

Nos dois casos, se envolveu, porém, em histórias mal contadas. Primeiro, no seu apoio à polêmica Flotilha de Gaza. Agora, com um avião que desrespeitou sim o espaço aéreo sírio – e os americanos admitem isso.

No fim, Erdogan se tornou herói dos palestinos, apesar de ele ter podido ajudar de outra forma, usando justamente seus canais de diálogo com Israel em vez de apoiar ativistas internacionais e desrespeitar um presidente. Na Síria, chutou “cachorro morto” ao condenar Assad, apesar de ter violado a soberania de um vizinho.

Ironicamente, em 2008, este Erdogan era diferente. Quase levou a um acordo de paz Israel e Síria. Reunia-se com Assad e com o então premiê de Israel, Ehud Olmert. O que aconteceu para esta mudança?

É o que devem se perguntar os curdos, que continuam sendo reprimidos e massacrados por Erdogan, lembrando Assad e suas ações contra os opositores sírios. Também se indagam os cipriotas, diante da política de assentamento turca de Erdogan no Chipre, bem superior à de Israel nos territórios palestinos. E os armênios também levantam questões, afinal Erdogan, sempre ele, não reconhece o Genocídio Armênio e nem mesmo permite debates sobre o assunto. Até parece o Ahmadinejad falando do Holocausto. Devagar, Erdogan também tenta quebrar os pilares laicos da Turquia, como se fosse um monarca do Golfo.

Este sultão hipócrita, porém, é importante porque ele comanda a Turquia, mais poderoso ator do Oriente Médio. Esperamos apenas que seu discurso pedindo a democracia na Síria e mais direitos aos palestinos se reflita também internamente. Afinal, armênios, curdos e cipriotas também são vítimas, mas da Turquia.

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A OTAN não lançará uma ação contra a Síria neste momento, conforme a própria entidade decidiu em reunião hoje na Turquia. Mas aos poucos a aliança militar tende a ser o fórum onde será decidido se haverá ou não uma intervenção externa para remover o regime de Bashar al Assad do poder. No Conselho de Segurança, esta alternativa é praticamente impossível porque a Rússia e a China são contra.

Até novembro, quando acontecem as eleições americanas, porém, o governo de Barack Obama preferirá manter as discussões no Conselho de Segurança. Assim, o presidente, enfraquecido pela má performance da economia americana e com um adversário forte como Mitt Romney, preferirá se esconder atrás de vetos de Moscou e Pequim para não agir.

Depois da eleição, independentemente de quem for eleito, os EUA reavaliarão os próximos passos na Síria. Se o regime de Assad houver conseguido enfraquecer os opositores, o que é possível, Washington pressionará por uma saída diplomática envolvendo o atual líder sírio. A Rússia passaria a ser o país mais importante na solução. Caso as milícias da oposição ganhem força, os americanos certamente pressionarão por uma ação da OTAN, em coordenação com as nações do Golfo. A Turquia, neste caso, estaria no comando.

Para finalizar, com a permanência ou não de Assad, e com uma intervenção militar ou não, a Síria seguirá em guerra civil por meses ou anos. Não há solução. Os cenários que eu coloquei acima servem apenas para a comunidade internacional fingir que dá para fazer alguma coisa. O conflito na Síria me lembram as brigas no pólo aquático, onde não há como separar os jogadores trocando socos dentro da água. Eles ficam ali se agredindo, por horas, até alguém apanhar muito e desistir.

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Mohamed Morsi, eleito presidente do Egito, não é um líder histórico de combate ao regime anterior. Trata-se de uma figura menor do que a Irmandade Muçulmana, seu partido, e não maior, como Nelson Mandela em relação ao Congresso Nacional Africano e Lech Walesa ao ser comparado ao seu Solidariedade.

Tampouco Morsi desfrutará de poderes para transformar o Egito da forma como ele pretende. De um lado, precisará seguir as orientações da organização islâmica. De outro, as Forças Armadas manterão pode de veto em questões de política externa e defesa. Além disso, com a dissolução do Parlamento, os militares possuem o controle legislativo no Cairo.

Para completar, não se sabe por quanto tempo Morsi permanecerá no poder. Depois de a Constituição ser aprovada, com a mão dos militares, um novo Parlamento e possivelmente um novo presidente serão eleitos.

Ainda assim, Morsi, um desconhecido PhD pela Universidade do Sul da Califórnia até meses atrás, será uma das figuras mais acompanhadas do mundo árabe nos próximos meses. Suas ações e declarações repercutirão de Rabat a Sanaa. Todos gostaremos de saber qual a sua visão sobre os direitos das mulheres e das minorias religiosas, como os coptas. Como será o seu discurso em relação a Israel, com quem Egito assinou um acordo de paz há mais de três décadas? Como ficam as relações com os EUA, que fornecem às Forças Armadas egípcias US$ 1,3 bilhão por ano? Como seu desempenho afetará os destinos do islã político na Síria, Tunísia, Iêmen, Líbia e mesmo a Argélia?

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Não há como impedir a implosão da Síria, conforme escrevi em dezenas de posts. O cenário de guerra civil certamente irá se deteriorar nos próximos meses, independentemente de intervenções externas ou queda de Bashar al Assad.

Para complicar, cada vez será mais difícil impedir a explosão da Síria. Isto é, que o conflito atravesse as fronteiras de forma definitiva como já acontece no Líbano e, em menor escala, na Jordânia, Turquia e Iraque. Apenas Israel ainda não foi afetado.

No caso libanês, o presidente Michel Suleiman convocou um diálogo nacional com as tradicionais autoridades sectárias libanesas. Mas será preciso ajuda da comunidade internacional para exercer pressão sobre Hassan Nasrallah, Saad Hariri, Michel Aoun, Samir Geagea e Walid Jumblat. Em alguns bairros de Trípoli e em áreas do vale do Beqaa já há um embrião de conflito armado.

A Jordânia mantém relações comerciais normais com a Síria pois precisa do país vizinho para exportar seus produtos via Mediterrâneo. Além disso, o rei Abdullah enfrenta levantes internos contra o seu regime. Ele sabe que pode ser o próximo da lista se cair Assad. Ao mesmo tempo, milícias da oposição treinam no território sírio.

A Turquia pode se defender por ser uma nação poderosa. Mas Assad já ampliou suas ligações com o PKK (grupo separatista curdo) e fará de tudo para irritar a administração de Recep Tayyp Erdogan.

No Iraque, os recentes atentados contra alvos xiitas deixam claro que sunitas da oposição síria estão trabalhando em conjunto com seus aliados iraquianos. A chance de agravamento da crise é enorme.

Israel não tem com o que se preocupar ainda. A tática de negligência benigna, sem se meter nos assuntos sírios e esperando o resultado, é correta. Os israelenses devem manter um plano de contingência para a sua fronteira contra o Líbano caso grupos pró-Síria (não necessariamente o Hezbollah) lancem operações. Não há perigo nas colinas do Golã neste momento.

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