Guga Chacra – Estadão.com.br

O jornalista e escritor Daniel Piza, que morreu nesta sexta aos 41 anos, viria morar em Nova York em 2012. Escreveria a sua coluna daqui do Upper West Side, onde pretendia viver com a família. “Quero escrever muito sobre livros, filmes e, em especial, exposições, item cultural ainda fraco em São Paulo. O dia a dia é contigo e a Denise, thanks God!”, me disse em email semanas atrás, referindo-se a mim, que cubro política internacional para o Estadão aqui nos EUA, e à Denise Chrispim, correspondente  em Washington.

Piza acrescentou que já estava vendo escolas para seus filhos Clara, de 10, e Bernardo, de 6. Certamente, os levaria para passear no Central Park e para conhecer os museus de Nova York, como o seu preferido “Natural History Museum”. Aliás, ele planejava escrever um livro sobre os museus. Também me perguntou de academias de yoga para a sua mulher. Em fevereiro, ele chegaria para alugar um apartamento, deixando para trás o seu prédio em Higienópolis.

Nas nossas recentes trocas de emails, o convidei para assistir a uma partida do Yankees. Iríamos usar meus season tickets para um jogo. Piza topou e, quem sabe, seria mais um convertido do futebol para o baseball, como eu.

“Vou para Nova York realizar um velho sonho meu de morar fora”, me falou o Piza por email. Eu brinquei dizendo que ele tinha tudo para se tornar no novo Paulo Francis, que também escrevia a coluna da cidade. No fim, combinamos que ele iria me ligar depois das férias de fim de ano para pegar mais informações burocráticas sobre a mudança. Os vistos para a família já haviam sido emitidos. “Estamos animados, muito animados”, escreveu.

Infelizmente, Piza não virá mais para Nova York. Deixo aqui meus sentimentos para sua mulher, pai, irmãos e filhos. Aqui, texto de Piza sobre a morte da mãe dele em agosto

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No Brasil, tenho um amigo evangélico chamado José Wilson. Ele trabalha no clube Paulistano. Nas minhas visitas, ele sempre pergunta da Terra Santa. Desta vez, contei da minha viagem a Damasco em outubro e falamos de São Paulo, que foi curado de sua cegueira com a ajuda de Ananias na hoje capital da Síria, onde também estaria a tumba de São João Baptista.

Religioso, José Wiolson acha que a Bíblia traz a palavra de Deus. Tudo o que precisamos saber está no livro sagrado dos cristãos, diz ele. Perguntei então se os muçulmanos, judeus, ateus e membros de outras religiões estão errados. Além disso, acrescentei que os seguidores do islamismo e do judaísmo possuem uma visão de Cristo distinta da dele.

Na resposta, José Wilson insistiu que a Bíblia é o único lugar onde encontramos a palavra de Deus. No Brasil, estas diferenças de pensamento afetam pouco. Afinal, trata-se de uma nação majoritariamente cristã, dividida principalmente entre católicos e evangélicos. No futuro, poderemos sim ter choques entre laicos (católicos ou não) e religiosos (principalmente evangélicos), mas este momento ainda está distante. As minorias judaicas e islâmicas vivem bem, com seus direitos respeitados, e normalmente integrando as classes mais altas da sociedade.

No Oriente Médio, é diferente. O Líbano, por exemplo, é uma nação sem uma maioria religiosa. Cristãos maronitas, cristãos ortodoxos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e druzos formam pluralidades. Naturalmente, o choque sectário tende a ser maior. O mesmo fenômeno pode ser observado também em países como a Bósnia e a Nigéria, que não têm nada de árabe.

Israel chama a atenção por ser o inverso da maior parte do Ocidente e do Oriente Médio, onde os judeus são minoria. Cidades como Tel Aviv são majoritariamente judaicas. Isso seria impensável no século 19. Imagina uma metrópole de primeiro mundo, mais avançada do que quase todas as capitais europeias, formada quase que integralmente por judeus? Este excepcionalismo israelense eleva as paixões dos dois lados. Muçulmanos e cristãos sempre viram os judeus como uma parcela pequena da população. Os judeus, por sua vez, passaram séculos tendo de se acomodar dentro de nações e impérios cristãos e muçulmanos que os perseguiam.

Já a Síria é um país onde as minorias governaram a maioria através do fortalecimento de uma identidade étnica. Alauítas e cristãos, para viverem em meio aos muçulmanos sunitas, sempre se identificaram como árabes e sírios. Assim, o governo era, até este ano, descrito como árabe, e não alauíta.

Nós brasileiros adoramos celebrar a nossa miscigenação. Dizemos que aqui judeus e árabes vivem bem. O problema é que, tirando o percentual mínimo de indígenas, todos temos antepassados que vieram do exterior. Alguns têm os pais ou avós nascidos no exterior. Outros estão aqui há gerações, como descendentes dos primeiros portugueses ou de escravos.

Preconceito existe. Vimos neste ano os ataques anti-semitas no episódio do metrô de Higienópolis. Agressões verbais contra árabes são comuns e eu mesmo já fui alvo de preconceito de alguns amigos com piadas infelizes sobre os libaneses e os árabes, equiparando-os a terroristas e bandidos (imagino que estas mesmas pessoas paguem para se internar no Einstein e no Sírio_Libanês para serem tratados por médicos árabes e judeus).

De qualquer forma, fica difícil comparar a identidade religiosa no Brasil com a do Oriente Médio. Aqueles cristãos sírios que eu falei acima são diferentes do José Wilson. Primeiro, são ortodoxos, assírios, melquitas e maronitas, não evangélicos e católicos romanos (os melquitas respeitam a autoridade papal, mas possuem um rito distinto e tem seu próprio patriarca). Muitos deles remontam suas famílias há gerações nesta região.

Em Malullah, Sednayah e Damasco, gravei pessoas rezando o Pai Nosso e o Ave Maria em aramaico, a língua de Cristo. Mostrei os vídeos para o José Wilson e seus colegas de trabalho Josias e Gonçalo, no Paulistano. Se nada for feito para protegê-los, em breve, não teremos mais cristãos nas terras onde surgiu o cristianismo. Não se esqueçam, a cidade de São Paulo (e próprio Paulistano) homenageiam Mar Boulus, Saulo, ou “São Paulo” em árabe. Boulus viveu em Damasco, na Síria.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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Eleições nos EUA 2012

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Irã e Israel são questões de política doméstica americana, de acordo com o professor Gary Sick, da Universidade Columbia. Os israelenses sempre são vistos como o “bom” e os iranianos (o regime) como o “mau”. Estes atributos se devem a fatores históricos. Teerã, até 1979, era um aliado. A atitude dos Estados Unidos mudou depois da Revolução Islâmica e a tomada da embaixada, traumatizando a população americana.

Os israelenses são aliados também por fatores históricos e culturais. Os EUA são o segundo maior país judaico do mundo, além de ter grupos evangélicos que admiram os judeus. Israel também esteve ao lado dos americanos na Guerra Fria e culturalmente as duas nações são muito próximas.

Porém as ações dos EUA envolvendo estes dois países afetam a política externa de Washington. Algumas oportunidades são perdidas. O Irã possuía um presidente moderado em 2003 e era inimigo de Saddam Hussein, do Taleban e da Al Qaeda. Seria o momento ideal para Washington se aproximar, já que os dois países possuíam os mesmos interesses. Em vez disso, optaram por isolar Teerã e Mahmoud Ahmadinejad chegou ao poder.

Nos últimos vinte anos, os EUA também evitaram bater de frente com Israel na questão dos assentamentos. Apenas no governo Obama houve um endurecimento. Mas o presidente voltou atrás, com medo de Benjamin Netanyahu. Outras nações do mundo, como a França e o Reino Unido, criticam abertamente a ocupação da Cisjordânia sem ver as suas relações com Israel se deteriorarem.

Ron Paul, o libertário pré-candidato republicano e possível vencedor do cáucus em Iowa, é o primeiro político a abordar abertamente as questões Irã e Israel como política externa. Na visão dele, uma bomba iraniana não será um problema para os americanos. E, se for para os israelenses, que eles ataquem Teerã sem pedir permissão para Washington. Claro, também sem ajuda militar e financeira. Cada país faz o que bem entender com o dinheiro de seus contribuintes.

 Aliás, o diretor do Mossad disse hoje que o Irã tampouco é uma ameaça para Israel.

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Nas suas primeiras décadas de história, Israel atraía principalmente judeus seculares em busca de construir um país. Viviam em kibutz e ergueram uma nação de primeiro mundo no Oriente Médio, com uma democracia vibrante e educada. Travaram guerras e venceram, em uma época em que realmente a existência do Estado judaico não era garantida. Como todas as nações do mundo, cometeram erros.

Nas suas últimas décadas de história, israelenses seculares e liberais passaram a emigrar para os Estados Unidos e outras partes do mundo. Algo normal, que também ocorre entre os brasileiros, chineses, indianos, turcos, libaneses e mesmo americanos em direção à Europa e Ásia. Por outro lado, Israel passou a atrair judeus mais religiosos. Vindos de diferentes partes do mundo, eles sonham com as yeshivas, e não os kibutz.

A democracia construída nos tempos de Ben Gurion, com o crescimento demográfico desta parcela da população, começou a provocar efeitos adversos. Alguns apelam para ataques terroristas contra os árabes de Israel e da Cisjordânia. Outros restringem os direitos das mulheres, as proibindo de andar na frente dos ônibus e cuspindo em uma menina de oito anos por suas roupas não serem conservadoras o suficiente.

Neste momento, o governo de Israel precisa agir com dureza para manter a democracia de seu país, evitando uma deterioração do cenário. Nos países vizinhos, como a Síria e o Egito, havia bem mais liberdade para as mulheres nos anos 1970 do que atualmente. Vou mais longe, Alexandria e Aleppo eram mais liberais nos anos 1920 do que hoje. Jerusalém não deveria seguir o mesmo caminho.

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Durante as minhas férias, pré-candidato republicano Newt Gingrich afirmou que os palestinos são um povo inventado. Ele foi corretamente criticado por uma série de pessoas com conhecimento mínimo da realidade. Afinal, o que são aqueles 3,5 milhões de pessoas que habitam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, sem falar nos cerca de 1 milhão de refugiados nos países vizinhos?

Podem chamá-los do que quiserem, mas as pessoas que vivem em Gaza, Nablus, Ramallah, Belém, Jericó e Hebron precisam ser alguma coisa. Se a Palestina não existe e aquele território é de Israel, logo eles precisam receber imediatamente a cidadania israelense. Não existe outra alternativa, a não ser o Apartheid. Se, por outro lado, forem chamados de palestinos, devem ter o direito de ter um Estado.

Alguns dizem que a nação deles seria a Jordânia. Mesmo que estejam corretos (não estão), como transferir 3,5 milhões de pessoas de suas casas onde vivem há dezenas de gerações? Isso seria limpeza étnica, um crime contra a humanidade.

A melhor solução para o conflito no Oriente Médio ainda é a criação de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamentos próximos da fronteira ficariam com Israel em troca de terras em outras áreas. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Os refugiados poderiam retornar para o que seria a Palestina, mas não Israel.

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Na Rússia, neste fim de semana, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra supostas fraudes em eleições parlamentares. Eles também querem o fim do poder de Putin, que tentará retornar à Presidência oficialmente no ano que vem.

Segundo alguns analistas, estas manifestações indicam que os russos não querem mais Putin, ou seu fantoche Medvedev, no poder. Isto é, se 40 mil pessoas saem às ruas em um país de 140 milhões, o governo deveria cair. Meio bizarra esta afirmação. O mesmo é afirmado nos recentes protestos da praça Tahrir no Egito e também na Síria, onde Damasco e Aleppo, as duas maiores cidades, ainda não observaram protestos contra Assad.

Sem dúvida, muitos russos não querem mais Putin comandando Moscou. No entanto, uma enorme parcela da população defende o ex-presidente. Apenas eleições justas podem definir se o líder russo deve voltar oficialmente ao poder. Pelo menos, diferentemente de Hugo Chávez, ele concordou em sair da Presidência depois de cumprir dois mandatos. Não desrespeitou a lei como o venezuelano.

Também vários egípcios são a favor dos militares. Eles temem sim uma radicalização de um país conhecido nos anos 1920 e 30 por ser cosmopolita e tolerante, mas que hoje vê o fortalecimento de grupos salafistas. Chegou a um ponto onde, nno Cairo, a Irmandade Muçulmana passou a ser vista como “moderada”. Mas eles venceram a eleição e não há do que reclamar. Em Damasco, dizer que “o povo sírio quer o fim do regime de Assad” tampouco é correto. Na verdade, existem movimentos a favor da queda do atual governo, assim como outros querem a manutenção de Bashar e seus aliados do partido Baath. Prestem muita atenção à maioria silenciosa.

Conforme escrevi antes da minha folga, muita gente gosta de ditadura, inclusive no Brasil. Médici era muito popular. Pinochet também, no Chile. Uma pena, mas o mundo é assim.

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