Antes de começar, entrem para escolher no portal do Estadão o fato mais marcante de 2011.
Com uma rede de voluntários espalhados por todo o Egito, a Irmandade Muçulmana demonstrou bem mais preparo do que seus adversários salafistas e seculares na condução do processo eleitoral no maior país árabe do mundo. Favorita, a entidade islâmica, devido a esta mega-operação, deve ter ainda mais votos para o Parlamento do que o previsto inicialmente, segundo analistas.
Seus membros estiveram presentes em postos eleitorais de cidades grandes, como Cairo e Alexandria, e também de pequenas vilas no interior para auxiliar os eleitores em uma complicada votação, de acordo com observadores internacionais. Diante de uma falta de organização do governo, o partido islâmico servia como instrutor para quem não entendesse como funcionava o sistema.
Por incrível que pareça, o partido conservador soube usar a modernidade de campanhas eleitorais ocidentais para derrotar agremiações laicas que ficaram no passado.
“A Irmandade montou uma rede de voluntários muito superior às dos rivais para treinar os eleitores. Em alguns casos, ensinava como eles deviam fazer para votar no partido. Desta forma, o Partido da Justiça e da Liberdade, da Irmandade, deve ter um desempenho bem acima do esperado. Dificilmente eles ficarão decepcionados com os resultados”, disse Hani Sabra, da consultoria de risco político Eurasia.
Ed Husain, do Council on Foreign Relations (CFR), seguiu na mesma linha. “Eleitores confusos pediam ajuda a voluntários da Irmandade para entender o sistema. Eles estavam espalhados ao redor do Cairo com laptops em mesas de campanha com duas instruções. Primeiro, sobre como votar. E, em segundo lugar, como votar para a Irmandade Muçulmana”, afirmou.
Os adversários também admitiam que não souberam montar uma estratégia para os dias da eleição e viam o preparo da Irmandade como um diferencial na busca dos votos. “Nós não espalhamos nossos militantes e tampouco estivemos perto o suficiente dos eleitores. Outros partidos foram mais experientes em conseguir apoio efetivo”, disse Emad Abdel Ghafour, de um partido salafista, ainda mais radical do que a Irmandade. Os partidos seculares, apesar de alguns de seus membros terem estado na vanguarda do uso de redes sociais, tampouco souberam explorar o dia da votação como os rivais islâmicos.
Quando começaram os protestos, a Irmandade manteve uma distância dos acontecimentos na Tahrir. Porém analistas já advertiam na época que o grupo islâmico era o único preparado para uma eleição. Desta forma, agremiações mais seculares queriam mais tempo para poder se organizar no processo eleitoral. O prazo foi considerado muito curto para formar partidos fortes depois de décadas de ditadura.
Membros da Irmandade dizem ter a expectativa de conseguir cerca de um terço do Parlamento. Junto com algumas agremiações islâmicas menores, eles podem conseguir uma maioria conservadora em questões religiosas no Egito. Este resultado deve assustar os egípcios mais seculares e também os cristãos coptas, que representam um décimo da população e reclamam de preconceito. Husain, do CFR, avalia que existe um risco de estes setores se aliarem a membros do antigo regime contra a Irmandade. Na época de Mubarak, o partido islâmico era considerado ilegal.
Além do preparo da Irmandade, a eleição parlamentar no Egito tem sido marcada por um elevado comparecimento às urnas. De acordo com autoridades egípcias, o número pode passar dos 70% nesta primeira etapa, na qual 17 milhões de pessoas tem o direito de votar. O resultado final da disputa parlamentar está previsto para o dia 11 de janeiro em um processo que durará mais de seis semanas.
Na semana passada, havia o temor de que menos pessoas fossem votar diante dos protestos na praça Tahrir e da repressão violenta por parte dos militares, que comandam a transição. No fim, tudo tem sido calmo.
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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista
O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
Antes de começar, entrem para escolher no portal do Estadão o fato mais marcante de 2011. Também leiam outro post publicado hoje sobre a concordata da American e a história da Pan Am.
Gosto sempre de basear as minhas análises em observações in loco ou teoria dos jogos. Na Síria, foi o primeiro caso. Visitei e Damasco e mantenho contato constante para saber dos acontecimentos. Na questão Israel-Irã, costumo apelar mais para a segunda alternativa.
E hoje, sem me aprofundar muito, cheguei à conclusão de que o Irã empurrará a situação um pouco mais com a barriga e, depois, anunciará ter a capacidade de fabricar armas nucleares, apesar de não necessariamente as produzir ou conduzir testes atômicos. Será a opção “Brasil”, que detém justamente este status. Já comentei em outros posts este assunto.
A partir deste momento, não haverá mais como atacar os iranianos sem levar em consideração este poderio militar. Será mais uma nação com armamentos atômicos e isso é ruim para o mundo, apesar de haver uma série de analistas avaliando que o Irã não usaria esta arma contra Israel por conta da Teoria da Mutua Destruição Assegurada. Mas o mundo é repleto de Black Swans (Cisne Negros). Além disso, muita gente séria discorda adota a visão de que o regime de Teerã é irracional. Também, no caso de Israel, existe o temor de contrabando de uma arma suja para o Hezbollah.
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A American Airlines decretou concordata duas décadas depois do último vôo de um avião da Pan-Am. Ironicamente, justamente agora, a mais célebre companhia aérea americana voltou à moda nos Estados Unidos, ainda que bem distante de aeroportos como o JFK. De fantasia mais disputada no Halloween de Nova York deste ano a uma série campeã de audiência na TV lançada no mês passado, a marca da antiga gigante da aviação mundial se transformou literalmente em um símbolo vintage e passou dar lucro.
Uma mala pequena com o logotipo da Pan-Am custa US$ 300. Um relógio, US$ 120. Dá até para comprar um porta passaporte por pouco mais de US$ 20 na internet. Também é possível adquirir os produtos em lojas espalhadas pelos Estados Unidos. Alguns destes acessórios pertencem a uma linha exclusiva desenhada pelo estilista Marc Jacobs.
Na TV, o programa da ABC, uma das três gigantes da TV americana, é exibido todas as noites de domingo. As estrelas são as aeromoças e os pilotos da companhia nos anos 1960 e 70. Parte da trama passa dentro dos aviões, onde era possível fumar à vontade, com os passageiros vestindo algumas de suas melhores roupas e sem a necessidade de passar a mala por aparelho de raio-x ou ter de atravessar um detector de metal sem os sapatos.
Mesmo as antigas concorrentes se aproveitam do renascimento da marca. A Delta, que comprou parte do espólio da Pan Am depois da falência em 1991, é um dos principais patrocinadores da série da ABC. Renée Whitworth, sócia de uma agência de branding de Nova York, explica que a “Pan Am era antes uma marca de aviação. Agora, se tornou ligada ao entretenimento e de uma forma vaga a viagens, mas não a aviões”.
Os direitos da marca Pan Am pertencem a uma empresa que atua na área ferroviária com base em New Hampshire e foram adquiridos depois da falência da empresa. Inicialmente, eles chegaram a abrir uma companhia aérea com este nome que fazia vôos locais. Mas a crise de 2008 levou à interrupção destes planos. Nesta mesma época, os produtores da série de TV entraram em contato para o realização do programa, mas as negociações demoraram alguns anos até ser concretizada.
Em recente entrevista, a diretora de marketing da Pan Am, Stacy Beck, disse que a marca é “atemporal, inovadora, com estilo. Gerações mais antigas a consideram nostálgica. Eles lembram da Pan Am e chegaram a voar pela companhia. Era uma época em que nos vestíamos para voar e vôo era uma aventura tão importante quanto o destino. Já os mais jovens consideram o nome retro e descolado”.
Pette Runnette, presidente da Fundação Histórica Pan Am, afirma que a a empresa “representava uma visão do que uma companhia aérea poderia ser. Os que trabalhavam na Pan Am e os que voavam na Pan Am desfrutavam de uma experiência que representa o melhor que os Estados Unidos poderiam ser e o melhor que os americanos poderiam oferecer ao mundo”.
O primeiro vôo da Pan Am aconteceu em 1927, para Cuba. E o último, em 1991. A companhia também foi marcada por ter sido alvo de um atentado terrorista nos anos 1980, em Lockerbie, na Escócia. O então líder líbio, Muamar Kadafi, morto no mês passado, foi acusado de ser o mentor do ataque. Depois de anos de sanções, ele concordou em pagar indenizações às vítimas, mas nunca assumiu o envolvimento.
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Leia hoje também post sobre como o Iraque e o Líbano sabotarão as sanções à Síria
Acabei de ler o relato da ONU sobre a repressão das forças de Bashar al Assad. Ao todo, foram mortas 256 crianças, de acordo com o levantamento conduzido pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Um menino de 15 anos foi estuprado por agentes de segurança diante de seu próprio pai. Adultos tiveram cigarros acesos introduzidos no ânus. Em outros casos, receberam choques elétricos e golpes nas genitálias. Mulheres tiveram seus véus e suas calcinhas removidas dentro de suas próprias casas e na frente da família.
Eu escutei relatos ainda piores, de pênis sendo cortados e cabeças decepadas na região de Homs. Até aconselhei assistirem ao filme Incendies, da guerra civil libanesa.
Ontem Thomas Friedman escreveu corretamente que os outros países árabes implodem, mas a Síria explode. Concordo. E acrescento que não existe saída para a Síria. Não haverá uma solução onde todos vivam felizes para sempre. A Síria é o Líbano de 1975, o Iraque de 2003. Teremos anos de violência e milhares de mortes.
Podem falar em intervenção externa, sanções, queda do regime, redemocratização, o que for. Tudo isso pode acontecer e aconteceu no Líbano e no Iraque. Mesmo assim, pessoas continuaram sendo mortas.
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Updates
1 – A Síria foi acusada pela ONU de crimes contra a humanidade em relatório de Paulo Sérgio Pinheiro
2- Espetacular Flash Mob de opositores sírios no Canadá
O Iraque e o Líbano não pretendem implementar as sanções econômicas à Síria adotadas pela Liga Árabe, segundo disseram autoridades em Bagdá e Beirute. Os dois países se recusaram a votar a favor da resolução e tampouco da suspensão ao regime de Bashar Assad na entidade que representa os governos da região.
Em Damasco, segundo o jornal libanês Daily Star, citando uma autoridade do regime, a estratégia é “ter o escudo político de Moscou e a proteção econômica de Bagdá, Teerã e Beirute”. A Jordânia também teme que as sanções provoquem uma onda de refugiados para a sua fronteira com a Síria.
Além disso, segundo me disse um diplomata com base em Damasco, outras resoluções anteriores da Liga Árabe não foram respeitadas pelos países membros. Tunísia, Egito, Omã, Argélia, Sudão, Líbano e Iraque mantiveram seus embaixadores na Síria, apesar de a entidade ter exigido que eles fossem retirados. “Nesta região, não interessa muito o que está no papel”, disse.
Segundo o ministro das Relações Exteriores iraquiano, Hoshyar Zebar, “não é possível impor sanções à Síria”. O governo de Bagdá teme ainda que as medidas econômicas afetem os mais de 1 milhão de refugiados iraquianos na Síria que não tem para onde ir. Bagdá não respeitará uma linha das determinações da Liga Árabe.
O Hezbollah e o grupo cristão de Michel Aoun, que integram a coalizão de governo do Líbano, repudiaram as sanções. Há décadas, o regime sírio usa o território libanês para contrabando e transações ilegais. O governo dos EUA já advertiu aos tradicionais bancos de Beirute para encerrarem estas operações.
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Os Estados Unidos e seus aliados europeus pretendem acabar com a atual divisão das Nações Unidas entre o Ocidente e os BRICS, como é denominado o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Neste ano, os dois lados se dividiram em questões envolvendo Síria, Líbia, Palestina e Irã.
Para conseguir o rompimento do grupo dos emergentes, americanos e europeus tentam convencer brasileiros, indianos e sul-africanos a adotarem posições mais próximas das de Washington e das capitais européias em relação ao Irã e à Síria, mas não necessariamente na Palestina – a Líbia perdeu importância depois da queda de Muamar Kadafi.
De acordo com diplomatas ocidentais consultados com quem conversei, os BRICS podem fazer sentido na economia, mas não necessariamente na política externa. “O Brasil deveria manter a sua postura de valorizar sempre a questão dos direitos humanos e não há motivos para bloquear iniciativas contra os regimes que as desrespeitam”, disse um deles, se referindo à Síria e ao Irã.
Analistas discordam e dizem que o princípio da não-intervenção une os BRICS e esta política se acentuou depois do episódio da Líbia neste ano. Segundo os governos dos países emergentes, a resolução que estabeleceu uma zona de exclusão aérea serviu de desculpa para uma operação de mudança de regime. Com o sucesso da OTAN no norte da África, estas nações dizem temer que o mesmo se repita na Síria ou no Irã. Até esta semana, antes de emergir a idéia do corredor humanitário sírio, proposto pela França, as potências ocidentais insistiam que este argumento não fazia sentido porque a resolução proposta em outubro não falava em intervenção.
Segundo Leonardo Weller, da consultoria de risco político britânica Exclusive Analysis, historicamente, o Brasil “adota uma posição não intervencionista porque teme que isso possa ser usado no futuro em questões envolvendo a Amazônia e temas nucleares. O episódio do (embaixador José Maurício) Bustani influenciou muito as posições brasileiras em política externa”. O diplomata brasileiro teve o seu mandato cortado na Organização para a Proibição de Armas Químicas em 2002 depois de intervenção dos EUA.
Também existe à oposição brasileira ao Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação Nuclear. As potência ocidentais insistem que o Irã, e mesmo o Brasil, deveriam ser signatários. Porém, mesmo levando em conta esta cautela, na avaliação de Weller, “talvez tenha havido exagero nos posicionamentos do Brasil” dentro da ONU.
Já a China e a Rússia se movem por interesses econômicos e geopolíticos na região e a “não intervenção” favorece esta política. O Irã é o terceiro maior exportador de petróleo para Pequim e as vendas cresceram 50% no primeiro semestre deste ano. Moscou mantém um entreposto militar na costa da Síria há décadas. Sanções contra o regime de Teerã ou o de Damasco trariam prejuízos para estes dois países. Mas o mesmo não se aplica ao Brasil.
Desta forma, na questão síria, os EUA e os europeus tentam convencer o Brasil a adotar uma posição mais dura. Segundo um diplomata ocidental, ocorreram avanços que podem demonstrar uma mudança de postura brasileira, como a votação a favor de uma resolução condenando a Síria na Assembleia Geral por violação dos direitos humanos. “Esperamos que este novo posicionamento seja confirmado caso a obstinação da Síria em ignorar os apelos da comunidade internacional exija mais ações na ONU”, afirmou o diplomata, indicando uma possível segunda tentativa de sanções contra a Síria no Conselho de Segurança.
Para Ayham Kamel, da consultoria de risco política Eurasia, “os países do BRIC mantêm uma posição de pedir um acordo negociado entre a oposição e o regime, mas eles estão menos a favor de Assad do que antes e podem reavaliar suas posições se a violência continuar”. Porém, em comunicado publicado nesta quinta em Moscou, o bloco dos emergentes voltou a dizer que é contra “uma intervenção externa” sem o aval da ONU.
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