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Guga Chacra – Estadão.com.br

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Já escrevi aqui que todos os dias o Departamento de Estado realiza um briefing falando dos principais acontecimentos políticos no mundo. No de ontem, foram levantadas questões sobre Líbia, Síria, Paquistão, Sudão, Israel, Nepal, Ucrânia e Japão. O Brasil, mais uma vez, ficou de fora.

A última citação do Brasil neste briefing, que certamente indica as prioridades da agenda política internacional no momento, foi em fevereiro, antes da viagem de Barack Obama ao país. Já são sete meses. Isso não significa que os brasileiros tenham perdido destaque aqui nos Estados. Na realidade, passamos a ser vistos com admiração em muitos casos.

Na semana passada, ao entrevistar um analista para matéria do 11 de Setembro, falei algo nações “emergentes como o Brasil, Índia, Turquia….” e completei com alguma questão. O entrevistado respondeu, em tom de brincaderia mas deixando claro uma mudança de visão, que “o Brasil deveria ser incluído entre os desenvolvidos”.

Um exagero,  dada a renda per capita brasileira, a desigualdade, que diminuiu, mas ainda é grande, os altos índices de criminalidade e o baixo nível educacional. Mas, no exterior, começamos a ser vistos como ricos. Especialmente a elite e a classe média que viaja ao exterior.

Escrevi isso na matéria sobre os brasileiros comprando imóveis em Miami e também sendo os turistas que mais gastam quando viajam para Nova York. Entre na loja da Apple na Quinta Avenida e aposto que, em um dia, o maior número de iPads será vendido para brasileiros.

Outro dia, eu me inscrevi na Reebok, que possui uma das melhores piscinas para treinamento de natação em Nova York.  Tem 22 metros e três raias apenas. Se fosse em São Paulo, seria uma piada. Pense na do Pinheiros, de 50 metros e dez raias. Como a gerente da própria academia me disse, “esta é a melhor academia de Nova York, mas não compare com as de São Paulo. Nós não possuímos tanto dinheiro para ter a mesma estrutura das nossas filiais no Brasil. Estamos em crise, vocês é que são ricos”.

O Brasil hoje conseguiu ser um exemplo positivo nos cadernos e departamentos de economia nos Estados Unidos. Sabe-se lá até quando. A Argentina também chegou a ser na primeira metade dos anos Menem assim como o Japão na década de 1980. Mas o fato é que hoje somos admirados em alguns pontos. Politicamente, somos estáveis. Nós não aparecemos no briefing do Departamento de Estado, mas a Suécia e a Dinamarca tampouco. Mesmo a França e a Alemanha não são freqüentadores assíduos como egípcios e israelenses.

Quando vivi na Carolina do Sul em 1993, em Boston em 1996 ou mesmo quando me mudei na última vez, em 2005, o Brasil ainda era mais uma nação confusa da América Latina. Ninguém nos dava bola. Devagar, viramos “cool”, como diriam aqui nos EUA. Verdade, em muitos pontos, “cool” demais, beirando o “emergente deslumbrado”. E neste ponto mora o perigo.

Sigam a cobertura da Líbia em tempo real no Estadão. E também no site do Portal do Estadão sobre o 11 de Setembro. Leia ainda o Radar Global 

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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Em seu livro “From Beirut to Jerusalem”, Thomas Friedman, colunista do New York Times, afirma que depois da saída das tropas dos EUA e, consequentemente, da imprensa americana de Beirute, os libaneses começaram a se sentir “órfãos” ou “esquecidos”. Era ainda a primeira metade dos anos 1980 e a guerra civil duraria mais seis, sete anos, com dezenas de milhares de mortes não noticiadas.

O Iraque ainda está em guerra. A violência é infinitamente maior do que a da Síria, Iêmen, Egito e Tunísia somados. Teve um mega atentado terrorista neste fim de semana. Aliás, estes ataques ocorrem todos os dias. Mas mesmo o New York Times, que mantém uma equipe de correspondentes, noticia pouco. Não existe mais tanto interesse sobre o destino de Bagdá na opinião pública americana.

Na última semana, todos os olhos estão na Líbia. Repórteres de todo o mundo acompanham de perto a queda de Muamar Kadafi. Mas, em mais duas ou três semanas, o assunto perderá espaço. As pessoas esquecerão da Líbia. E centenas ou milhares de pessoas morrerão em uma guerra que está longe, muito longe de terminar, como diz a consultoria de risco Stratfor.

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O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e o governador de Nova Jersey, Chris Christie, souberam mostrar liderança ao comandarem os preparativos para o furacão Irene. Desde sexta, venho acompanhando o trabalho dos dois. Tomam medidas enérgicas, são decisivos e demonstram confiança para os moradores da cidade e do Estado vizinho, que acabam se sentindo mais seguros.

A decisão de fechar o metrô, adotada por Bloomberg, assim como a ordem para evacuar cerca de 370 mil moradores, não é simples em uma cidade como Nova York. Verdade, pesou o fiasco do próprio prefeito na nevasca do Natal. Mas isso não tira o mérito dele como líder que soube assumir os erros e corrigi-los na oportunidade seguinte. Tampouco o de Christie, indo na porta das casas para convencer os moradores a buscarem refúgio em áreas com menor risco.

Líderes, os dois não têm medo de remar contra a maré quando sabem ser em benefício da população. Tampouco precisam ser populistas. Em um país onde cresce a islamofobia, eles defenderam publicamente os muçulmanos uma série de vezes, sendo inclusive premiados ou elogiados por entidades árabes e islâmicas.

Barack Obama, por sua vez, parece medroso em suas iniciativas. Daria um ótimo diplomata ou parlamentar, mas não exerce liderança. Há algumas semanas, fez um discurso sobre a crise financeira dos EUA que quase deu vergonha alheia. Ele precisa citar Warren Bufett para defender um argumento. O tempo de seus discursos históricos já passou. Bloomberg e Christie falam por eles próprios. Podem não ser grandes leitores de teleprompter, mas sabem se dirigir para a população.

Em um momento em que os Estados Unidos lutam para voltar a crescer, com a União Européia em crise e com transformações no Norte da África e no Oriente Médio, seria importante que os americanos e mesmo o resto do mundo tivessem um líder mais forte e decisivo.

No Iraque ou no Afeganistão, Obama sempre precisa citar seus generais ou assessores quando toma uma decisão. Parece não partir dele. Sobre o Irã, não sabemos direito qual a política do presidente. Nos meios diplomáticos, dizem que ele realmente teria apoiado as negociações do Brasil e da Turquia com Ahmadinejad. Hillary Clinton, sem consultá-lo, teria repudiado o acordo devido à célebre foto de Lula, Erdogan o presidente do Irã. O líder americano, contrariado, preferiu ficar quieto a enfrentar a sua secretária de Estado.

Este texto de hoje é de opinião e vem muito da minha percepção pessoal. Sei que muitos discordarão. Mas, diferentemente do Obama, não tenho medo de dizer que o Bloomberg e o Christie me passaram mais segurança nestes dias do terremoto do que o presidente e, para não deixá-lo sozinho, o governador Andrew Cuomo, bem menos carismático do que o pai.

Sei que muitos defenderão o Obama porque ele é mais popular no Brasil do que nos EUA. Isso apesar de ele ser o presidente que menos se interessa pela América Latina nos últimos tempos. Um presidente que não fala o básico de espanhol – Bush se comunicava bem nesta língua. O Bloomberg, apesar do sotaque, teve a preocupação de tentar se expressar para a população hispânica de Nova York, além de criar um site com informações em onze línguas sobre o furacão.

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Acompanhe a minha cobertura e de outros repórteres no Radar Global. Publicarei os comentários do post anterior ao longo do dia

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Israel pode ser criticado em diversos pontos na sua relação com os palestinos. Mas os israelenses foram 100% corretos nestas três décadas de acordo de paz com o Egito. Desocuparam o Sinai, estabeleceram laços comerciais, incentivaram o turismo e ainda são indiretamente responsáveis pela ajudar militar americana às Forças Armadas egípcias.

Em nenhum momento ao longo dos últimos 30 anos Israel feriu a soberania do Egito ou abriu espaço para um conflito entre os dois países. Porém tudo começou a mudar depois da queda de Hosni Mubarak. Não pelo lado israelense, mas pelo egípcio.

Enquanto Israel seguiu firme em seu compromisso com a paz, assinada com Anwar Sadat, e não com Mubarak, o Egito começou a se afastar. Abandonou o Sinai, onde atividades terroristas se intensificaram. Agora, um milhão de pessoas irão às ruas do Cairo para protestar contra o acordo de paz com Israel. Um tratado que deixou o Egito mais seguro e mais rico. E que foi assinado com um Estado, e não um governo.

Não sei o que estes egípcios querem. Outras quatro guerras como as que foram derrotados no século passado, em 1948, 1956 (sem os americanos, Suez não seria mais egípcio), 1967 e 1973? Boa sorte para eles. Tenham certeza, em qualquer conflito contra Israel, nas próximas gerações, serão derrotados.

Os israelenses também precisam dos egípcios por estarem em uma região hostil. O ministro da Defesa, Ehud Barak, abriu mão de parte do acordo – assinado, e não imposto, pelos egípcios – e permitirá que tropas do Exército patrulhem o Sinai. Vamos ver se funcionará.

Lembro apenas que, quando Mubarak caiu, em manifestações espontâneas, não havia atos contra os israelenses. O engraçado é que agora, em um protesto organizado, alvejarão Israel. Quem está por trás de tudo isso?

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Sei que não está saindo em quase nenhum lugar. Mas a Turquia está batendo o recorde de hipocrisia. Matou nos últimos dias mais de cem curdos em bombardeios no Iraque. A informação é difícil de achar. Ninguém dá bola. Afinal, são curdos. Quem liga para eles? São apenas o maior povo do mundo sem Estado…

A ONU não vai se manifestar. Não ocorrerá uma reunião do Conselho de Segurança para discutir este assunto. O presidente Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, ficaram calados. Não perguntaram nada no briefing do Departamento de Estado em Washington. O Brasil tampouco adotou uma posição. Irã e Israel evitaram críticas a Ancara, afinal os turcos desfrutam de unanimidade. Nem o Human Rigths Watch me enviou informações. Se fosse da Síria, teria recebido uns dez emails deles.

A Turquia disse que eram terroristas do PKK. Tudo bem. Aparentemente, muitos deles eram mesmo. Mas não é o premiê Recep Tayyp Erdogan que deu um chilique em Davos ao brigar publicamente com o presidente de Israel, Shimon Peres, pelos bombardeios em Gaza? Israel simplesmente agiu da mesma forma que os turcos. Disse que eram terroristas do Hamas.

O Erdogan também condena publicamente o Bashar al Assad pela repressão à oposição. Atitude perfeita e elogiável. Mas o líder sírio também diz estar lutando contra terroristas. Exatamente como o premiê turco no caso do PKK.

Eu, entre muitas outras pessoas, considero fundamental o papel da Turquia nos atuais levantes árabes. O país tem apoiado iniciativas democráticas e ficado no lado certo da história. A pressão sobre Assad talvez resulte em um cenário positivo na Síria. Também tem atuado com maturidade no Iraque e no Líbano.

Mas a Turquia ainda reprime os curdos, não reconhece o genocídio armênio (seria como os alemães negarem o Holocausto) e, para completar, contribuem para a ocupação do Chipre, onde não respeitam a propriedade privada de gregos no lado “turco” desta ilha-país no Mediterrâneo.

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