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Barack Obama visitará o Brasil no próximo mês e as relações entre os dois países não podem ser consideradas ruins. Mas dificilmente o presidente dos EUA apoiará a inclusão dos brasileiros como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas como fez no ano passado com os indianos.
Depois de o Brasil se posicionar contra as sanções ao Irã em junho de 2010, uma nova disputa ocorreu neste sábado durante as negociações sobre uma resolução contra Muamar Kadafi integrantes de seu regime. Ao votar a favor do texto, na noite de sábado, o Brasil criticou indiretamente os Estados Unidos. O problema, recorrente nas relações entre americanos e brasileiros, era referente ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
Em uma das principais divergências para aprovar a resolução, a administração de Barack Obama exigiu a inclusão de um parágrafo em que garantia isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma da jurisdição do TPI. Os EUA temem que autoridades do país sejam processadas pelo tribunal por suas participações nas guerras no Iraque e no Afeganistão. Além dos americanos, dois outros membros permanentes do CS não são signatários do Tratado de Roma – Rússia e China. Mas russos e chineses não faziam questão da inclusão do parágrafo. A Líbia tampouco faz parte do TPI.
Considerando a posição de Washington hipócrita, os brasileiros ameaçaram votar contra e apenas apoiaram o texto devido à urgência da questão líbia e o papel do país como presidente CS.
No meio tempo, os americanos vazaram para a imprensa a informação de que os brasileiros estariam sabotando um acordo, junto com Portugal. A notícia foi difundida por órgãos de imprensa internacionais. Eu estava na sede do conselho, assim como meus concorrentes da Folha (Álvaro Fagundes) e do Globo (Fernanda Godoy). E o porta-voz português, assim como um diplomata brasileiro envolvido nas negociações, negavam a informação difundida pelas agências de notícias.
A postura americana irritou a diplomacia brasileira que fez questão de deixar clara a insatisfação em uma ressalva na explicação do voto na noite de sábado no Conselho de Segurança da ONU. “Nós expressamos nossa forte reserva ao Parágrafo 6 (o que exigia a isenção). Reiteramos nossa convicção de que iniciativas que busquem estabelecer isenções da jurisdição do TPI sobre certas categorias de indivíduos não contribuem para fazer avançar a causa da justiça e da responsabilidade e não contribuirão para o fortalecimento do tribunal”, disse a embaixadora do Brasil junto às Nações Unidas, Maria Luiza Viotti, ao explicar o voto brasileiro.
A embaixadora dos EUA, Susan Rice, na explicação do voto, não disse os motivos que levaram à inclusão do parágrafo que garante a isenção de cidadãos de países não signatários do Tratado de Roma, que reconhece a jurisdição do TPI. Mas, segundo o Estado apurou, os americanos ameaçaram vetar o texto se não fosse colocado o anexo, utilizado no passado em sanções contra o Sudão e seu líder Omar Bashir envolvendo o TPI.
A ONU teve que esperar o líder chinês acordar
As delegações de todos os países do CS das Nações Unidas acordaram cedo no sábado para discutir uma resolução contra Muamar Kadafi e membros de seu regime. Depois de sete horas de negociação, chegaram a um acordo. Eram 16h em Nova York. Jornalistas e diplomatas estavam com fome em uma ONU com a lanchonete fechada. Erta complicado sair e voltar. A ONU está em reforma e é preciso cruzar a garagens e uma série de portas em que o crachá dos jornalistas não funciona. O processo levava mais de meia-hora. Todos queriam aproveitar o fim de semana. E ficaram empolgados porque ainda pegariam o por do sol depois da votação que puniria o líder líbio.
Isso, claro, se não tivessem que esperar o sol nascer no outro lado do mundo, em Pequim. A delegação chinesa pediu para que todos os países esperassem até o líder chinês, Hu Jintao, dar o aval para acordo, segundo disseram ao Estado diplomatas franceses e brasileiros. Mas ele estava dormindo, já que era madrugada no oriente. Apenas depois do contato por telefone, quando o homem forte da China havia acordado, os chineses afirmaram que o voto poderia ser levado para plenário. Quando o embaixador chinês levantou a mão dizendo “sim” a favor das sanções, os jornalistas (e diplomatas) celebraram. Era 21h e finalmente todos podiam encerrar os trabalhos e aproveitar o que restava do sábado.
Leiam os blogs do Ariel Palacios, da Adriana Carranca, da Claudia Trevisan, do Marcos Guterman e o Radar Global, sob o comando do Luiz Ratz. E façam pressão para que a Denise Chrispim, correspondente em Washington, comece o dela
Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes
O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
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Quando assumiu o poder aos 27 anos, em 1969, Muamar Kadafi ainda idolatrava o arabismo do egípcio Gamal Abdel Nasser, que influenciou toda uma geração de líderes árabes. Mas, no início dos anos 1970, o pensamento arabista perdia força diante das derrotas do Egito e seus aliados em guerras contra Israel.
Sem ser religioso, comunista ou adepto do capitalismo, Kadafi decidiu inovar e criar a sua própria ideologia, que mistura um pouco de islamismo, socialismo e tribalismo. Ele a delineou no pequeno “Livro Verde”, que é uma leitura obrigatória para toda a população líbia e está disponível em inglês e até mesmo português na internet.
Nesta obra, publicada em 1975, o líder líbio criou regras econômicas, políticas e de condutas sociais para uma sociedade idealizada onde ele buscava superar todos os problemas, na sua visão, da democracia, da economia e da sociedade mundial. Fala do papel da mulher a atividades esportivas, passando por métodos educacionais e instrumentos financeiros. Seu objetivo, nestas mais de quatro décadas no poder, foi implementar estes seus ideais na Líbia.
A primeira parte do livro, que pode ser lido facilmente em menos de uma hora, trata de questões políticas. Na avaliação de Kadafi, o Parlamento, partidos e mesmo a classe política não são democráticos. “O Parlamento é uma representação errada do povo. Os sistemas parlamentares são uma falsa solução para o problema da democracia”, escreveu o líder líbio, que tinha 33 anos na época em que colocou no papel seus pensamentos.
Para Kadafi, os partidos políticos são “uma forma contemporânea de ditadura”. Nem mesmo os plebiscitos contam com o apoio dele. “São uma fraude contra a democracia. Aqueles que dizem ‘sim’ ou ‘não’, na realidade, não estão expressando as sua vontade livremente porque não podem dizer mais do que ‘sim’ e ‘não’”, escreveu.
A única forma de obter uma democracia real são as conferências populares, segundo Kadafi, já que a democracia direta seria inviável por ser “impossível reunir todas as pessoas em um só local”. Como em um anúncio publicitário, o líder líbio afirma que o “Livro Verde guia a massa para um sistema prático de democracia direta sem precedentes”. Sempre citando a “Terceira Teoria Universal”, Kadafi explica o método que basicamente consistiria em assembléias populares que escolheriam seus representantes em um sistema não muito diferente do parlamentar que ele tanto critica.
Sua teoria econômica condena tanto marxistas como capitalistas e busca uma terceira via, como é comum ao longo do livro. Para começar, ele é contra o pagamento de salário e diz que cada pessoa é proprietária do que produz. “Assalariados são escravos dos patrões que os contratam, independentemente de estes serem indivíduos ou o Estado”, diz.
Kadafi também rejeita que as pessoas possuam mais de uma casa ou que estas pertençam ao Estado. De acordo com o líder líbio, “a habitação é uma necessidade fundamental para o indivíduo e a família e não deve estar nas mãos de outros. Viver na casa de outra pessoa, pagando aluguel ou não, compromete a liberdade”. Já as terras são de todos que trabalham nela.
Os transportes públicos, em teoria, não existem para o homem que manda na Líbia há 41 anos. “Os transportes são uma necessidade tanto do indivíduo quanto da família e não devem pertencer a outros”, diz, sem se aprofundar. Kadafi também afirma no livro que “empregados domésticos, sejam eles assalariados ou não, são os escravos da idade moderna”.
A terceira parte do livro é uma das mais divertidas. Depois de dissertar sobre o que é o Estado, Kadafi fala do papel da mulher. “Segundo ginecologistas, a mulher fica menstruada uma vez por mês mais ou menos, enquanto o homem, sendo um macho, não menstrua ou sofre durante o período”, diz. Por este motivo, a mulher deve cumprir a função de mãe, e não trabalhar como os homens, argumenta o líder líbio, que oficialmente não é chefe de Estado, mas apenas o “líder fraternal e guia da revolução”.
Depois de dizer que “a educação, ou aprendizado, não é necessariamente um currículo padronizado com matérias determinados em livros didáticos que os jovens são obrigados a aprender em horas específicas do dia enquanto se sentam em suas cadeiras”, Kadafi defende que o esporte seja apenas uma atividade individual. “Praticar esportes é como rezar, comer e os sentidos de frio e calor. É improvável que multidões entrem em um restaurante apenas para ver uma pessoa ou um grupo comer”, afirma, acrescentando que o mesmo se aplica a atividades esportivas.
Ele também fala das diferenças raciais. “O atraso dos negros trabalhará a favor deles para obter uma superioridade numérica porque o padrão de vida mais baixo os impede de ter métodos contraceptivos ou planejamento familiar”, disse.
Apesar de ser o próprio autor destas teorias e ter tido 40 anos para implementá-las, Kadafi continua sendo visto como um ditador sem diferenças para os seus vizinhos – isso quando a comparação não é negativa. Seu Congresso do Povo nada mais é do que um Parlamento com o agravante de não ter sido escolhido em eleições. Seus aliados e familiares comandam a economia baseada no petróleo com benefícios próprios. E os líbios são assalariados. Para finalizar, Kadafi construiu estádios em Trípoli para seu filho jogar e dirigir equipes de futebol para uma platéia que, desrespeitando o Livro Verde, comparece apenas para assistir.
Obs. Texto baseado em reportagem minha edição impressa do Estadão de domingo
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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes
O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
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O líder da Líbia Muamar Kadafi disse que Osama Bin Laden drogou os jovens líbios para que eles levassem adiante as manifestações opositoras que podem encerrar uma ditadura de mais de quatro décadas. Bobagem. Não apenas as drogas, como todo o mundo deve ter percebido. Mas a influência do terrorista da Al Qaeda.
A importância de Bin Laden para os levantes na Tunísia, Egito e Líbia é a mesma de Che Guevara para o fim dos regimes militares no Brasil e na Argentina nos anos 1980 – zero. Verdade, o saudita provavelmente ainda está vivo em algum lugar na fronteira do Afeganistão com o Paquistão, enquanto o ex-jogador de rugby argentino já havia sido morto nas selvas bolivianas. Mas ambos teriam impacto como símbolos de um ideal.
O de Che Guevara era a instalação de regimes comunistas nos moldes cubanos ao redor da América Latina e de outras partes do mundo. Bin Laden varia entre uma guerra contra a liberdade ocidental e a instalação de um califado medieval próximo ao que existiu no Afeganistão do Taleban nos anos 1990.
Em 1982, depois da Guerra das Malvinas/Falklands, e em 1984, na campanha pelas Diretas Já, argentinos e brasileiros queriam apenas o fim dos regimes militares. A não ser por algumas exceções, ninguém defendia um governo comunista em Brasília ou Buenos Aires.
O mesmo vale hoje para o mundo árabe. Os manifestantes nas ruas não querem uma revolução islâmica. Defendem apenas liberdade e o fim de autocratas tirânicos como Hosni Mubarak, Ben Ali e Kadafi. Há quem queira um viés mais conservador em questões religiosas, como a Irmandade Muçulmana. Mas mesmo estes não querem um regime islâmico.
No fim, poderá haver regimes como o de Raul Alfonsín, que veio da oposição da União Cívica Radical. Ou ex-membros do regime que como cameleões conseguem se adaptar aos novos tempos, como José Sarney. Por sinal, entre idas e vindas, há mais tempo no poder do que qualquer líder árabe. Inacreditável, mas isso ocorre no democrático Brasil.
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A Líbia não tem xiitas como o Líbano, o Iraque e o Bahrein. Trípoli não tem cristãos como Beirute, Damasco e Ramallah. Os líbios não possuem disputas com os israelenses como os libaneses, sírios e palestinos. Tampouco recebem ajuda americana como os egípcios e os jordanianos. Muito menos do Irã, como o Hezbolah, o Hamas e a Síria. A Líbia não é aliada da Arábia Saudita. E nem do Irã. A Líbia não recebe turistas como o Egito e o Marrocos.
Os líbios não possuem mais um rei como marroquinos, sauditas e kuwaitianos. Não há conservadorismo religioso em Trípoli, como existe em Riad e Teerã. Não há liberdade individual como em Beirute. Não existe identidade nacional como na Turquia, na Síria e no Egito. Religiões não disputam o poder como no Líbano e no Iraque.
Mas a Líbia tem petróleo, como a Arábia Saudita e os países do Golfo. É uma ditadura, como a Síria e a Argélia. Fala árabe como todos os países da região, menos o Irã, que é persa.
A queda de Muamar Kadafi nada terá a ver com Israel, com o Irã ou com a Arábia Saudita. Dizer que o Irã sairá vencedor de uma revolução na Líbia não faz sentido. Para Teerã, nos últimos anos, a aliança mais importante foi com o Brasil e a Turquia. Israel pode ter perdido um aliado no Cairo, mas o que interessa quem está no poder em Trípoli? A importância é a mesma de o Afeganistão ter o Taleban ou Karzai no poder – nenhuma.
Em 2005, me matriculei em uma aula durante o meu mestrado na Universidade Columbia, em Nova York, denominada Política do Oriente Médio e Norte da África. Imaginei que estudaria apenas os conflitos de Israel com seus vizinhos e um pouco da guerra do Iraque. Errei. Eram aulas sobre como Kadafi tomou o poder na Líbia e sua Jamahiriyya – a noção de não existência do Estado. Ou o papel da Irmandade Muçulmana nos levantes contra a fome no Egito nos anos 1970. E a Revolução de Ben Bella na Argélia.
Não havia percebido que a aula era sobre “Oriente Médio” e “África do Norte”. Na última década, observamos apenas o que estava ao redor dos três “I”s – Irã, Israel e Iraque. E esquecemos todo o vasto e desconhecido mundo que se estende de Suez ao Atlântico, conhecido como Maghreb, que quer dizer “Ocidente” em árabe. Por sinal, o mesmo nome é adotado pelo Marrocos na língua árabe.
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A Líbia não se divide em linhas sectárias como o Líbano e o Iraque. Quase toda a população é muçulmana sunita. Disputas religiosas nos moldes iraquianos, libaneses e de Bahrein podem ser descartadas. Existem duas etnias, a árabe e a berbere. Mas não há disputas entre estes dois grupos que se misturaram ao longo dos séculos.
O problema da Líbia está na divisão geográfica. Neste sentido, lembra o Iraque. Assim como o Estado iraquiano, o líbio foi criado através de uma fusão de três Províncias otomanas – Tripolitania, Cyrenaica e Fazzan. As duas primeiras localizadas na costa. As outras, no interior. A relação entre elas sempre foi distante, com desertos as separando.
O levante contra Muammar Kadafi começou em Cyrenaica, rica em petróleo, onde a oposição é mais forte. Agora se prolongou para a Tripolitania, onde o ditador tem mais poder. Com a queda ou não de Kadafi, existe um risco elevado de desmembramento da Líbia.
Em grandes movimentos como a Primavera do mundo árabe surgem novos países. Alguns por partilha, como a República Tcheca e a Eslováquia. Também dá para citar a Iugoslávia e o próprio Império Otomano. Outros Estados surgem por união, como a Alemanha. Não descartem a possibilidade de a Líbia, em breve, não existir mais. E os estudantes terem que aprender as capitais da Tripolitania, de Cyrenaica e Fazzan.
O mesmo pode ocorrer no Yemen, reunificado há pouco mais de duas décadas. Os movimentos separatistas no sul se intensificaram nos últimos meses.
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O mundo árabe também tem seus estereótipos internos. Os libaneses são os decadentes cultos, que sempre conseguem uma forma de implodir um país com enorme potencial. Uma espécie de Argentina do Levante. Aceitam que não vivem mais o apogeu dos anos 50 e 60. Mas ainda se preocupam com a forma elegante de se vestir, em apreciar bons vinhos e ler autores europeus e orientais em inglês, árabe e francês. Os sírios seriam uma espécie de subúrbio. As meninas, bonitas como as libanesas, se vestem de uma forma mais brega. É a terra das novelas, o México da região.
O Egito seria o Brasil, o maior de todos, com suas desigualdades e uma eterna promessa. O Cairo perdeu para Beirute o posto de centro intelectual da região. Os libaneses, os sírios e os palestinos olham os egípcios de cima para baixo. A Jordânia é um mini-EUA, ou o interior de São Paulo. Amã pode ser organizada, mas não tem história ou charme. Os kuwaitianos e sauditas são os emergentes deslumbrados. Os “golfies”, como gostam de dizer os libaneses. Visitam Beirute para beber, se drogar, dançar, pegar profissionais de entretenimento adulto masculino e feminino. Os palestinos são os coitadinhos, que todo o mundo defende. Mas ninguém os quer por perto. “Problema de Israel”, dizem.
Já os líbios são os habitantes daquele país no norte da África com o ditador palhaço. Muamar Kadafi, um assassino, é motivo de chacota nos países árabes. Ninguém o teme, ninguém o respeita mais. Não é um Saddam Hussein. Usa umas roupas cafonas, escreveu um livro bizarro e só fala bobagens. Os xiitas libaneses o odeiam por ter matado um líder do Hezbollah. Mas no fundo o acham uma figura ultrapassada. Com esta imagem patética entre os árabes, decidiu se voltar para os africanos, que pegam o dinheiro do petróleo líbio e riem da cara e dos cabelos tingidos do ditador amigo do Berlusconi.
Apesar disso, ele não é tão idiota assim. Nos últimos anos, contratou uma empresa de relações púb.icas de Nova York e decidiu mudar a sua imagem, querendo se vender como um estadista pró-paz. Funcionou razoavelmente bem, chegando a publicar um artigo no New York Times defendendo um Estado binacional com palestinos e israelenses.
Um de seus filho é um mimado, agressivo, que chegou a ser capitão e técnico da seleção ao mesmo tempo. Aliás, chegaram a marcar um jogo do Brasil contra a Líbia no passado. Um livro britânico afirma que Zagalo e Ricardo Teixeira teriam recebido dinheiro dos Kadafi. O outro filho, Saif, é mais preparado e escreveu papers bem razoáveis quando era aluno da London School of Economics. Era mais um da legião modernizadora que queria substituir o pai.
Pena a Líbia não ser mais explorada. Os correspondentes de Oriente Médio (incluindo este repórter) sempre optaram por se basear em Jerusalém, Cairo e Beirute, deixando de lado outras regiões
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