ir para o conteúdo
 • 

Gustavo Chacra

Este será o último post de 2010. Acho que não vale a pena me focar em algum assunto específico. Apenas vou relembrar algumas das minhas principais coberturas. Na virada do ano passado, nesta época, eu estava cobrindo a tentativa de atentado de um nigeriano em Detroit que teria sido treinado no Yemen.

Dias depois, no fim de uma tarde de inverno em Nova York, soube do terremoto no Haiti. No dia seguinte, eu estava em Porto Príncipe em uma das maiores experiências da vida de um jornalista. Nunca me recuperarei como ser humano das coisas que vi naqueles dias e que, de uma certa forma, estão bloqueadas na minha cabeça. Era o fim do mundo, com aquele palácio desmoronado que nunca mais vai sair da minha memória. Com uma patricinha linda morando em um campo de desabrigados no estádio de futebol. Com uma matriarca de oito décadas sobrevivendo quatro dias sob escombros.

Voltei do Haiti e embarquei para o Yemen. Um dos países com a arquitetura mais fantástica da humanidade, uma viagem a outro planeta, um lugar isolado que aos poucos se transforma no centro da Al Qaeda e que pode, assim como Afeganistão em 2001, alterar o destino da humanidade. Andar nas ruas de Sanaa me deu a sensação de estar perdido em outra dimensão, sozinho, como se São Paulo e Nova York estivessem em outro universo. Mas, ao realizar dois seminários com profissionais liberais e empresários em meio a rituais do qat, descobri que todos no mundo de hoje são parecidos. Aquelas pessoas poderiam estar no vestiário do Paulistano.

Em 2010, também estive na Colômbia. Os colombianos e as colombianas, na minha opinião, são o que há de mais próximo dos paulistas. Bogotá encanta pela supresa, pela elegância de suas ruas e seus prédios de tijolo. Cartagena é uma viagem real aos livros de Gabriel Garcia Marquez. Nossas relações políticas com a Colômbia deveriam se aprofundar ainda mais.

Estive duas vezes em Dubai neste ano. E apresendi a gostar da cidade e seu gigantesco Burj al Khalifa. Falem o que quiserem, mas visitei quase 50 países nestes meus 34 anos de idade e nunca vi algo tão impressionante quanto aquele prédio.

No fim de junho, durante a Copa do Mundo que tanto torci pelo Uruguai e os EUA, entrevistei o presidente da Síria, Bashar al Assad, com seu jeito jovial de jogador de basquetedo clube Sírio.  Como tantas outras vezes nestes últimos anos, andei pelas ruas de Bab Touma, na cidade velha de Damasco, com seus restaurantes, hotéis boutiques, igrejas e mesquitas. Voltei mais uma vez às colinas do Golã, sempre sonhando com uma solução para o conflito entre sírios e israelenses, muitas vezes esquecido diante da questão palestina.

Com o meu pai, visitei o campo de concentração de Dachau. Quem quiser entender o século 20 deve visitar o local para saber do que o ser humano, mesmo em avançadas sociedades, como a alemã, é capaz.

Em novembro, voltei de novo ao Haiti. Desta vez, para cobrir as eleições e a cólera. Como escrevi aqui, Porto Príncipe, infelizmente, continua um cenário de apocalipse. Dias depois, visitei mais uma vez Beirute, uma cidade que vive entre o sonho de metrópole cosmopolita, e o pesadelo de ser sinônimo de guerra. A variação entre uma e outra parece ser tão rápida quanto o terremoto de Porto Príncipe.

Passei poucos dias em São Paulo, que se tornou exemplo em matérias de jornais como o Wall Street Journal ao citarem casos de sucesso econômico “like in Shangai, Abu Dhabi, Mumbai and São Paulo”.

E hoje encerro o ano daqui, da cidade que eu mais gosto no mundo, onde escolhi viver. Na vida, obviamente, nascemos em algum lugar. Não temos como escapar. Sempre serei de São Paulo, dos Jardins, do Paulistano, do Litoral Norte. Mas temos a oportunidade de escolher onde viver.

Quando embarquei ao Brasil para o Natal, conversei rapidamente com uma mulher de cerca de 60 anos na fila. Está aqui há duas décadas. “Meus filhos querem que eu volte, mas não consigo. Minha casa é Long Island”. No meu caso, minha casa é Nova York

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários (67)| Comente!

De São Paulo a Nova York, em 50 horas. Esta foi a duração da viagem de nós passageiros do voo da TAM 8080 que embarcamos às 22h30 do 26 de dezembro, domingo, e chegamos ao destino final apenas às 21h30  de ontem, terça-feira  (0h30 de Brasília, já na quarta).

Ainda no aeroporto de Cumbica, os passageiros começaram a estranhar que os voos de outras companhias, como a Delta e a American Airlines, haviam sido cancelados. “Por que será que a TAM não cancelou?”, questionou um passageiro que iria esquiar com a noiva no Colorado, via Nova York. Outros recebiam ligações de parentes advertindo que viram na TV que o aeroporto JFK estava fechado.

Na porta do avião, o comandante me garantiu que pousaríamos em Nova York. Mas na manhã seguinte ele anunciou que seria preciso aterrissar em Miami porque não havia condições climáticas para chegar ao JFKl devido à nevasca. Desembarcamos, passamos pela imigração e alfândega. Depois de duas horas de espera, fomos divididos em grupos e distribuídos por hotéis em Miami. Alguns aproveitaram para fazer compras em shoppings. Até aquele momento, todos estávamos calmos.

Com a parada, a TAM informou que o voo sairia às 3h da manhã de ontem (6h de Brasília) e os passageiros deveriam se reunir à meia-noite no lobby do hotel. Porém decidiram adiar para as 10h. Três horas antes, os ônibus partiram levando os passageiros. Quando todos estávamos no avião, com cintos afivelados, o comandante anunciou – “há apenas uma pista em operação em Nova York e precisaremos esperar quatro horas mais para partir”. Neste momento, a paciência dos passageiros se esgotou.

“Assim que decidiu sair do Brasil, a TAM passou a ter culpa”, disse um. “Não quero comer, quero ir para Nova York”, disse outro em resposta ao anúncio de que a companhia daria um vaucher de US$13 para alimentação. “Vamos pegar a comida da primeira-classe, fazer um amigo secreto e celebrar o reveillon”, acrescentou uma passageira mais animada.

A advogada Vera Maria Lacerda, que viajava com a filha, estava revoltada. “Perdi dois dias de hotel em Nova York. A TAM deveria me reembolsar. Ou pelo menos trocar a minha passagem para dois dias mais tarde”, afirmou. Mais grave era a situação do engenheiro mecânico Maximo Nemer, de Curitiba. Ele faria uma escala em Nova York com a mulher e dois filhos antes de seguir para a Califórnia e Havaí. “Já perdi meus três dias em San Francisco. Agora, ainda tenho que chegar a Nova York e ver se consigo embarcar os quatro para o Havaí”, afirmou, triste pelo fim das férias.

Às 14h (17h de Brasília), entramos no avião, que finalmente decolou. Quando nos aproximamos de Nova York, começamos a voar em círculos esperando pelo momento de pousar. Eu estava na janela. Ao meu lado, uma dentista chamada Margarete, que nunca havia visto neve, assim como a amiga da academia e o irmão dela. Todos estavam ansiosos. Queriam, no dia seguinte, acordar cedo no albergue e ir ao Central Park.

O avião pousou apenas às 18h. O comissário, em meio a aplausos, disse – “nós prometemos trazê-los com segurança e conseguimos”. Margarete, emocionada, olhava pela janela a pista completamente branca. Fiquei com inveja dela. Nunca, na minha vida, terei a sensação de ver neve pela primeira vez aos 30 anos, já que conheci ainda criança. Deve ser uma sensação mágica descobrir a neve já adulto. A Vilma, que cozinha para mim comida brasileira duas vezes por semana em Nova York, também viu neve pela primeira vez anteontem. Segundo me disseram, tirou várias fotos para enviar à família no Brasil. Imaginem passar quatro décadas sonhando com a textura, com a temperatura, com a cor branca da neve?

O comandante anunciou que precisaríamos esperar “um bocado” até estacionar o avião. Segundo ele, cerca de “duas horas”. No fim, foram três horas e meia, se as minhas contas não estão erradas. “Porta em manual – Senhores passageiros, vocês foram fantásticos”, disse o comandante. Mais uma hora e meia para pegar as malas, uma hora de fila para o taxi e outra para chegar à minha casa, que é Nova York. Consegui voltar, depois de uma temporada que incluiu Haiti, Líbano e São Paulo.

Mas, no meio da confusão, perdi a Margarete de vista. Queria vê-la pela primeira vez pisando na neve acumulada, na porta do aeroporto. Nova York estava linda hoje, toda branca, de inverno, depois do colorido do outono. Agora, de volta para minha casa, retornarei com tudo nos assuntos de política internacional a partir de amanhã. Peço desculpas pela folga de Natal e o inconveniente do vôo que me impediu de postar.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários (63)| Comente!

Prometi que voltaria a escrever hoje. Mas estou em Miami. Meu avião que seguiria de São Paulo para Nova York teve que pousar nesta cidade da Flórida devido à nevasca que atingiu o nordeste dos Estados Unidos. No momento, estou em um hotel para onde fui trazido com os outros cerca de 400 passageiros

Comentários (7)| Comente!

Volto no dia 27, segunda, direto de Nova York

Comentários (9)| Comente!

Uma amiga libanesa me convidou para almoçar em Beirute no início deste mês. Em outros anos, iríamos a algum restaurante da região de Ashrafyeh, como é conhecido o sofisticado bairro cristão da capital libanesa, sendo o equivalente dos Jardins ou da Recoleta. Desta vez, ela indica outro lugar. “Você me encontra no restaurante People, que fica na cobertura da loja Aishiti”, diz a jovem libanesa de origem armênia, citando a loja que seria uma espécie de Daslu dos cedros, localizada no centro reconstruído de Beirute, que até pouco tempo atrás jamais integraria a lista de prioridades da elite libanesa. No restaurante, em vez de kibe cru, steak tartar, além de vistas para o Mediterrâneo e os montes do Líbano, com mulheres elegantes que poderiam estar no Balthazar de Nova York.

Cerca de quinze anos atrás, circulei nestas mesmas ruas pela primeira vez. Eram prédios com marcas de bala, mato crescendo em ruas abandonadas, igrejas em ruínas e nenhum pedestre nas ruas. Nem mesmo os guerrilheiros. Ao longo dos anos seguintes, retornei diversas vezes para Beirute, acompanhando passo a passo a reconstrução que teve seus reveses, incluindo uma ocupação do Hezbollah e de seus aliados cristãos e um conflito contra Israel. Ao ver Beirute reerguida, para quem a viu destruída nos anos 1990, depois do fim dos 15 anos de guerra civil, demonstra que há sim formas de se reconstruir e tentar voltar ao apogeu de outras épocas. Mesmo depois de mais uma guerra em 2006 e o risco de outra a qualquer momento, a capital libanesa se transforma mais uma vez no centro cultural e boêmio do Mediterrâneo Oriental, com seus hipsters e playboys, com sunitas e xiitas, com cristãos e druzos, falando na língua do hi-kifak-ça va, misturando o árabe, o inglês e o francês em meio a vinhos do Beqa, cerveja Almaza, Arak ou mesmo um suco de jelab.

Na semana anterior ao meu jantar em Beirute, acompanhei uma patrulha brasileira no centro destruído de Porto Príncipe, capital do Haiti. Os oficiais e os soldados discutiam como seria quase impossível reconstruir esta cidade que um dia foi chamada de pérola do Caribe. De todos, apenas eu havia estado ali também na época do terremoto. Percebi melhoras, apesar de ainda enxergar Porto Príncipe como a imagem do apocalipse. São quarteirões e quarteirões de ruínas, de fachadas de farmácias no chão, de supermercados de comidas apodrecidas, de cheiro de morte, de haitianos vagando como zumbis para algum lugar inexistente, sem diversão e sem a menor perspectiva de futuro, ilhados entre o oceano e a reforçada fronteira dominicana. Em alguns locais, havia documentos perdidos de um sobrevivente ou de uma vítima. Em outros, calcinhas no meio de entulho deixavam exposta a intimidade de mais alguém que talvez tenha morrido nos abalos da ilha de Hispaniola.

Às vezes, ainda se vê corpos nas ruas, mas não de mortos no terremoto. São vítimas da cólera abandonadas nas calçadas e, devido ao caro preço de um funeral, queimadas ali mesmo, na frente das crianças, quando não são crianças elas próprias. As casas não foram reerguidas. Em Porto Príncipe, praticamente não há espaços livres. Todas as praças estão ocupadas por acampamentos onde vivem centenas de milhares de haitianos que viram suas casas ou barracos virarem escombros no tremor de janeiro. Na orla, há uma favela com porcos diante de um mar caribenho que mais parece um esgoto a céu aberto. Bebês ficam jogados em um chão que serve de cama, mesa e banho para família.

Os dois principais hotéis, o Christopher e o Montana, desmoronaram, matando centenas de pessoas, incluindo funcionários da ONU. Nem mesmo o imponente Palácio Nacional, onde “reinou” Papa Doc, escapou. Ainda em ruínas, haitianos ainda observam inertes atrás das grandes o que um dia foi o símbolo de um país arrasado em um terremoto de menos de um minuto.

O tremor faz aniversário de um ano no dia 12 de janeiro. Beirute demorou mais de uma década para se reerguer dos 15 anos de guerra civil. Não dá, portanto, para cobrar que o Haiti esteja de pé novamente. A dúvida é se o modelo aplicado na capital libanesa poderia ser repetido em Porto Príncipe. As duas cidades têm algumas similaridades, além do histórico de destruição. Primeiro, a haitiana foi colônia francesa, enquanto Beirute esteve sob mandato francês. Além disso, estão à beira do mar com montanhas que se erguem depois de uma estreita faixa de planície. E, para completar, as remessas da diáspora são fundamentais para as economias dos dois países. Mas estes pontos comuns não são suficientes na hora de falar em reconstrução, quando as diferenças aparentam pesar mais.

O Líbano tem um dos mais sólidos sistemas financeiros do mundo árabe. Há universidades de prestígio como a Saint Jouseph e a Universidade Americana de Beirute. Depois de Israel, os libaneses têm os que são considerados melhores médicos do Oriente Médio. Já o Haiti não tem sistema de saúde, dependendo de ajuda de entidades como a Cruz Vermelha. Suas universidades são fracas e, para complicar, muitos dos prédios desmoronaram no terremoto. Não há classe média. E a diáspora, apesar de contribuir com a economia, não integra a elite em outros países, como no caso libanês. Apenas para ficar em um exemplo simples, Carlos Slim, um dos dois homens mais ricos do mundo, é filho de libaneses. E há libaneses milionários do São Paulo a Freetown, da Sydney a Paris, de Detroit a a Abu Dhabi – e, curiosamente, as raras fortunas haitianas costumam ser de pessoas com origem no Líbano.

Rafik Hariri era um destes libaneses bem sucedidos na diáspora. Nascido em uma família pobre de Sidon, se mudou para a Arábia Saudita, onde fez fortuna na área da construção. Durante a guerra civil, se manteve distante do Líbano. Retornou depois dos acordos de Taif, em 1989, que ajudaram a encerrar formalmente o conflito, com bilhões no bolso em um país destruído. Eleito primeiro-ministro, decidiu levar adiante a reconstrução de Beirute em uma mistura da iniciativa pública, de seu governo, com a privada, de sua empresa Solidere. Em 1994, começou o processo.

O projeto de Hariri visou adquirir os imóveis destruídos no centro da capital libanesa em troca de ações da Solidere. Desta forma, ele pôde reerguer quase todos os edifícios destruídos ao longo da década seguinte. Igrejas e mesquitas, com o apoio financeiro de sua empresa, em alguns casos, também foram reconstruídas. Até mesmo a sinagoga está praticamente completa, depois de um esforço conjunto com a comunidade judaica na diáspora. Embaixadas, incluindo a brasileira, também se transferiram para a região, que recebeu o apelido de Solidere.

Nem tudo foi perfeito neste processo. Opositores de Hariri o acusavam de corrupção. Outros questionaram a gigantesca mesquita construída na praça dos mártires que ofuscou torres de igrejas já existentes. Muitos urbanistas dizem que há um ar de artificialidade na região, a comparando a uma espécie de Disney ou Dubai. Alguns proprietários também questionaram o monopólio da Solidere e se recusaram a vender seus imóveis, como o Hotel Saint George – ironicamente, o local onde Hariri foi assassinado em atentado em 2005, e que ainda segue em pedaços.

Quando tudo caminhava para a normalidade em 2006, a guerra de Israel contra o Hezbollah arrasou a região sul de Beirute, controlada pelo Hezbollah, apesar de ter deixado o centro intacto. A organização xiita, com auxílio de dinheiro da diáspora, do Irã e do Qatar, também conseguiu reerguer Dahieh.

No Haiti, não existe um Hariri ou milionários na diáspora com capacidade de bancar esta obra de reconstrução. Todo o projeto de dependerá de ajuda internacional. A destruição também é bem maior do que a de Beirute. No Líbano, o centro ruiu, mas outras áreas da cidade conseguiram se manter relativamente intactas. Por mais que Beirute tenha renascido, fica difícil imaginar o mesmo cenário no Haiti. Talvez, daqui 15 anos, seja possível ir a um restaurante projetado por arquitetos renomados em um hotel diante do Palácio Nacional de Porto Príncipe, mais uma vez de pé, como ocorreu em Beirute. Mas, por enquanto, como dizem os militares brasileiros, isso ainda é um sonho. Porto Príncipe segue sendo o apocalipse. E, diferentemente das guerras libanesas, ali as tragédias naturais nunca dão trégua.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários (84)| Comente!

Os cristãos árabes vivem uma crise demográfica. Dos montes do Líbano, com a Nossa Senhora Harissa, padroeira dos libaneses, aos caldeus iraquianos, passando pela Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, o cristianismo oriental enfrenta uma das maiores adversidades de sua história, com perseguições em Bagdá e no Cairo e emigração em massa em Beirute, nos territórios palestinos e Israel.

Na capital do Iraque, a catedral da Nossa Senhora da Salvação era o coração dos cristãos caldeus iraquianos, residentes neste país há mais de um milênio. Em novembro, um atentado terrorista matou 51 pessoas dentro deste templo religioso, em um sinal de que os cristãos não vivem mais em paz no Iraque. Como em quase todo o restante do Oriente Médio, eles correm o risco de desaparecer justamente na região onde o cristianismo começou, com o nascimento de Jesus em Belém, segundo a tradição.

Nos tempos de Saddam Hussein, que tinha o cristão Tariq Aziz como seu número dois, os caldeus eram protegidos, segundo eles próprios me disseram em entrevistas. Com os ataques dos últimos meses, centenas de milhares passaram a imigrar para os países vizinhos. Os cristãos egípcios, que por décadas conviveram bem com os muçulmanos, passaram entrar em conflito nos últimos anos no Cairo e em Alexandria. Em Israel e nos territórios palestinos, os cristãos são cada vez mais minoritários e buscam o refúgio e melhores condições econômicas em outras terras, como os Estados Unidos.

Mesmo no Líbano, onde por lei o presidente e metade do Parlamento precisam ser cristãos, a situação se deteriorou. No passado, eles comandavam o país, que ainda segue o calendário cristão, com feriados aos sábados e domingo – os outros países árabes têm a sexta como o dia do descanso, enquanto em Israel é no sábado. Nos últimos tempos, os cristãos libaneses vivem divididos e observando como coadjuvantes as disputas entre os xiitas do Hezbollah e os sunitas que seguem o premiê Saad Hariri. A população, antes majoritária, hoje fica entre um terço e 40%, segundo estimativas. Talvez apenas na Síria ainda não existam tantos problemas. O líder sírio, Bashar al Assad, mantém boas relações com os cristãos que ainda habitam áreas como o bairro de Bab Touma na cidade velha de Damasco.

Iraquianos – O ocaso dos cristãos no Oriente Médio pode ser facilmente presenciado em uma visita à catedral dos caldeus na parte oriental de Beirute, majoritariamente cristã. Todos os dias, jovens iraquianos cristãos vão em busca do bispo Michel Kassarj para conseguir ajuda. Vindos de Bagdá e de Mossul, eles querem um emprego e refúgio das perseguições que sofrem no Iraque. A opção pelo Líbano se deve justamente ao país ainda ser um dos bastiões do cristianismo.

“Não dava mais para ficar em Bagdá. Meu irmão foi morto em um carro-bomba há duas semanas”, diz Shaker Tariq, que começa a chorar na entrevista concedida na catedral caldeia de Beirute. “Meu pai é taxista, mas não tem como sair mais à rua. Se pendurar o crucifixo no espelho, como costumava fazer, pode ser morto. Agora, fica em casa com a minha mãe e minhas quatro irmãs. Vim para o Líbano trabalhar e tentar conseguir asilo nos Estados Unidos”.

Seu amigo Samer Yakoub está ao lado. Os dois são estudantes universitários de contabilidade. Diferentemente dos cristãos libaneses, que costumam ser fluentes em francês e inglês, enfrentam a barreira da língua para conseguir uma recolocação no exterior. Além disso, ninguém os ajuda. “Os Estados Unidos não nos protegem. Na verdade, não estão nem aí para nós cristãos iraquianos, sem nos oferecer asilo”, diz Samer, que já foi sequestrado.

Raed Youran é mais velho. Tem 40 anos e trabalha como “engenheiro ou jornalista”. “Eles ameaçaram me seqüestrar”, afirma. O Estado pergunta quem. Esta dúvida afeta todos os cristãos do Iraque. Eles não sabem se radicais xiitas, apoiados pelo Irã, ou radicais sunitas, que integram a Al Qaeda. “Só sei que nos tempos de Saddam Hussein vivíamos com muito mais segurança. Ele protegia os cristãos”, acrescentou, repetindo o mesmo discurso dos outros iraquianos.

Aproveitando a presença de um jornalista brasileiro, o bispo caldeu Michel Kassarjn pede ajuda. “Vocês no Brasil, que talvez seja o país com mais cristãos árabes no mundo, precisam nos ajudar. O cristianismo no Iraque está desaparecendo. Estamos lá há séculos”, afirma, enquanto traz uma série de papéis com dados sobre os cristãos caldeus. “Eram dois milhões de cristãos no Iraque, hoje são 600 mil. Todos estão partindo”, diz o bispo, pedindo para que o repórter peça doações aos cristãos árabes brasileiros.

Hoje, o Brasil é o segundo país com maior número de cristãos de origem árabe no mundo, depois do Egito – proporcionalmente, o Líbano é o que tem mais. Mas a maior parte dos cristãos árabes brasileiros já está na segunda geração e mantém pouca relação com os países de seus antepassados, em sua maioria provenientes do que hoje é a Síria e o Líbano.

Palestinos e libaneses – Jihan Abdallah, uma palestina cristã de 24 anos, sabe bem o que é a vida de um cristão tanto em Israel como na Cisjordânia. Moradora da parte árabe de Jerusalém, assim como os demais palestinos cristãos, se sente bem mais próxima dos muçulmanos do que dos judeus. “Nós cristãos nos sentimos isolados.Por um lado, somos árabes, orgulhosos de sermos palestinos e nunca quisemos estar separados dos muçulmanos. Falamos a mesma língua, comemos a mesma comida. Ao mesmo tempo, alguns cristãos se acham mais próximos do Ocidente pela forma de se vestir e também pela maneira como tratam as mulheres”, afirma. Apesar de no exterior dizerem haver perseguições contra cristãos, os palestinos discordam. Afirmam que imigram por questões econômicas. Ainda “há o problema de perder o direito de viver em Jerusalém se ficarmos longe por muito tempo”, afirma.

Em Beirute, o líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallahm nesta semana, fez um dos discursos mais duros contra os cristãos libaneses. “Alguns cristãos pensam que um conflito entre sunitas e xiitas no Líbano os colocará em uma posição privilegiada, mas eles estão errados”, afirmou. A resposta veio de Samir Gaegea, líder do grupo cristão Forças Libanesas e morador da vila de Bsharri, na região dos cedros, onde imagens de Nossa Senhora são colocadas nas portas das casas. “Nós cristãos libaneses não precisamos de nada, a não ser de liberdade. Isso nos distingue dos outros países da região”, afirmou.

Obs – Adaptado de reportagem minha publicado na edição impressa do Estadão neste domingo

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários (213)| Comente!

Arquivo

Blogs do Estadão