São 22h40 aqui em Jerusalém. Último dia do ano que começou de forma inusitada. De manhã, ao acordar, desci para tomar café da manhã no hotel. O restaurante estava vazio, a não ser por duas meninas. Até chegarem uns seguranças agitados com fones de ouvido acompanhando um homem baixo, de cabelo branco e meio barrigudo. Era Benjamin Netanyahu. Junto com ele, Benny Begin, filho de Menachen Begin, premiê de Israel que fez a paz com o Egito. Na minha frente, estava o jornal “Haaretz” com uma prévia da entrevista dele que será publicada na edição de amanhã. Por um momento, fiquei na dúvida se eram eles, mas as garçonetes confirmaram a informação. Pensei até em fazer uma pergunta, mas eu ainda nem estava registrado como jornalista aqui e poderia enfrentar problemas com os seguranças.
Não deixa de ser irônico que, semanas atrás, eu estava em uma exposição do Hezbollah onde a figura de “Bibi”, como é conhecido o ex-premiê de Israel, certamente seria comparada ao demônio. Agora, ele estava ali, a poucos metros de distância, em uma outra mesa.
Depois do meu último café da manhã do ano, fiz meu credenciamento no Escritório de Imprensa de Israel e segui para uma cidade palestina para escrever uma reportagem que sairá na edição impressa do Estadão. Assim como artigo sobre o conflito. Amanhã, vou para Sderot e outras cidades nas proximidades da faixa de Gaza.
Feliz Ano Novo.
A partir de hoje, começo uma cobertura on-line do conflito em Gaza.
Estou em Jerusalém. Mas não foi fácil entrar em Israel. Como era esperado, tive problemas na imigração por causa dos meus vistos libaneses e sírios (tenho mais de um de cada país). Tenho sobrenome árabe também, mas “Chacra” muitas vezes não chama a atenção após “Gustavo Cerello”. Ao desembarcar no aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv, segui com os demais passageiros em direção aos guichês israelenses. A fila demorou cerca de 20 minutos. A moça que me atendeu era uma jovem judia etíope. Falei de cara que era jornalista e estive no Líbano e na Síria. Simpática, ela disse que eu precisava ir para uma outra sala. Fui acompanhado de um homem com um uniforme de guarda.
Na sala, com TV e máquinas de coca-cola e café, havia seis pessoas. Nenhum com aparência árabe. Dois eram judeus ortodoxos. Um homem magro de cerca de 40 anos e outro de colete com pinta de escandinavo que trabalha na ONU. Uma menina jovem e uma senhora vestida para ir à Ópera. Os funcionários da imigração entravam e saiam chamando os passageiros pelo nome. Na minha vez, entrou uma menina baixa, lorinha, com sardas no rosto, vestindo jeans e um casaco de zíper com desenhos infantis. Acho que apenas em Israel somos entrevistados por meninas bonitas como ela. “Gustavo, venha comigo”, disse em inglês. Fomos para uma sala, na qual ela ficava de frente para o computador. Acredito que nos filmavam. Resumindo, o interrogatório foi mais ou menos assim.
Moça – É a sua primeira vez em Israel?
Eu – Terceira.
Moça – Você tem amigos em Israel?
Eu – Conheço israelenses que estudaram comigo na Columbia, em Nova York. Mas eles ainda moram nos Estados Unidos. Não sei se estão aqui.
Moça – O que você foi fazer no Líbano e na Síria?
Eu – Sou jornalista (mostrei os jornais com as minhas reportagens e a carta de jornal).
Moça – O que está escrito?
(traduzi o texto)
Moça – Você veio cobrir o conflito?
Eu – Vim
Moça – Seus pais são brasileiros? (note que ela perguntou sobre meus pais)
Eu – São.
Moça -Alguém da sua família vive no exterior?
Eu – Apenas um primo na Irlanda.
Moça (sorrindo e voz meiga) – Gustavo, você está mentindo. Eu sei que os seus avós são libaneses (e começou a ler algo que escrevi na internet em inglês).
Eu – Você não perguntou dos meus avós. Você apenas perguntou dos meus pais e se alguém da minha família vive no exterior. Meus avós já morreram.
Moça – Você devia ter me dito.
Eu – Concordo, mas eles foram ao Brasil ainda crianças e isso não influencia em nada com o fato de ser jornalista.
Moça (que decidiu mudar de assunto) – O que você acha de Israel?
Respondi por uns dez minutos. Ela disse que eu estava mais bem informado do que os amigos dela. Quis saber mais dos conflitos internos do Líbano. Passou a ser uma conversa informal, na qual discutimos também sobre as propostas de paz saudita, a eleição israelense, a guerra de 2006 e, claro, a ofensiva em Gaza. Fiquei surpreso também com o conhecimento dela sobre o Líbano. No fim, já cansado, eu disse:
Eu – Se você quiser me barrar, tudo bem. Vou para o Brasil.
Moça – Fica tranquilo Gustavo. Apesar da sua mentirinha, você causou uma boa impressão em mim.
Eu – Então, por favor, não carimbe o meu passaporte (caso contrário, não posso entrar em muitos países árabes).
Volto para a sala, onde ainda estão os outros passageiros e mais alguns recém chegados. Espero mais dez minutos. Uma guarda traz o meu passaporte e diz que posso entrar em Israel. Abro o passaporte e vejo que carimbaram o visto de Israel. Pelo menos com este passaporte, estou proibido de ir à Síria e ao Líbano. Mas deixo para pensar nisso mais tarde.
Obs. Antes que me esqueça, a Embaixada do Iraque em Beirute não me deu visto de jornalista para visitar o norte do país (Curdistão). Ninguém na Embaixada iraquiana falava inglês e o serviço era extremamente confuso. Leve-se em conta que eu tinha o visto de jornalista da Síria e credencial para trabalhar no Líbano.
1. O Hamas é sunita. O Hezbollah é xiita.
2. O Hamas é palestino. O Hezbollah é libanês
3. O Hamas tem a sua origem na Irmandade Muçulmana no Egito. O Hezbollah é inspirado pela Revolução Islâmica iraniana
4. O Hamas já cometeu dezenas de atentados suicidas em Israel. O Hezbollah apenas cometeu no sul do Líbano durante a ocupação israelense. Ainda assim, foram pouco mais do que dez e há mais de uma década não realiza este tipo de operação, mesmo porque Israel desocupou a região em 2000.
5. O Hamas tem mísseis caseiros e pouco alcance. O Hezbollah tem Katyushas com capacidade para atingir Tel Aviv.
6. Os membros do Hamas não são bem treinados em táticas de guerrilha. Os membros do Hezbollah, de acordo com relatório militar americano, são certamente mais bem preparados do que qualquer soldado árabe.
7. O Hamas não tem uma liderança unida, já que o líder do grupo, Khaled Meshal, vive em Damasco e costuma entrar em conflito com os líderes da organização em Gaza. O líder absoluto do Hezbollah é o xeque Hassan Nasrallah.
8. O Hamas enfrenta dificuldades financeiras. O Hezbollah possui uma enorme fonte de renda oriunda de libaneses xiitas que vivem no oeste da África e no golfo Pérsico, além de receber contribuições do Irã.
9. Israel tem informantes no alto escalão do Hamas. Porém enfrenta dificuldades para conseguir informações dos mais disciplinados membros do Hezbollah.
10. A quase totalidade da população de Gaza é muçulmana sunita (religião do Hamas). Os xiitas (religião do Hezbollah) são apenas um dos vários grupos que compõem a miríade sectária libanesa
obs. Estou a caminho de Israel
A ação militar israelense na faixa de Gaza já deixou ao menos 230 palestinos mortos e mais de 780 feridos. O objetivo de Israel é acabar com os disparos de mísseis Qassam contra o seu território, que se intensificaram na semana passada quando o grupo Hamas decidiu abandonar o cessar-fogo.
Autoridades palestinas tanto do Fatah como do Hamas classificaram a ofensiva como crime de guerra. Israel afirma que pretende desmantelar a infra-estrutura terrorista do Hamas, que controla a faixa de Gaza.
A operação israelense não foi uma surpresa. Especula-se que alguns países árabes, como o Egito, tenham dado luz verde para Israel atacar o Hamas.
O que não está claro é o risco de ser aberta uma nova frente na fronteira norte de Israel com o Líbano. Nesta semana, o Exército libanês desmantelou oito mísseis do Hezbollah que estavam prontos para serem disparados contra o território israelense. O episódio pode indicar, primeiro, que a organização xiita está preparada para uma nova guerra contra os israelenses. Segundo, que o Exército libanês quis mostrar que tem atuado para desarmar o Hezbollah. Dessa forma, Israel teria dificuldades de acusar o governo libanês de não agir para impedir ataques do Hezbollah.
Combater o Hamas em Gaza não é difícil para Israel. O grupo palestino é fraco militarmente e não possui armamentos que possam colocar em risco os israelenses. Além disso, o Exército de Israel conhece bem a área e tem excelentes informantes inclusive no alto escalão do Hamas. Existe o temor de matarem o jovem soldado Gilad Shalit. Porém o militar israelense deve ser guardado como moeda de troca.
O perigo para Israel está mesmo na divisa com o Líbano. O Hezbollah, segundo estudo de uma academia militar americana, é mais poderoso do que qualquer Exército árabe. O grupo conseguiu combater Israel em 2006. Agora, teria se armado ainda mais, mesmo com a maior fiscalização do governo libanês e da Unifil (Forças de Paz da ONU). A organização xiita pode até atacar Tel Aviv.
Uma guerra com o Hamas significa “230 mortes em Gaza”. Já um confronto com o Hezbollah também pode levar a centenas de mortes no sul do Líbano. E, com certeza, outras centenas em Israel.
O Egito, Jordânia e Arábia Saudita estão do lado dos israelenses contra o Hamas, apesar de negarem publicamente. O Irã com certeza não. Resta saber como se comportará a Síria.
O que está claro é que o cenário lembra muito o de julho de 2006. Israel lança operação em Gaza e, dias depois, acaba em uma guerra no Líbano.
Um casal de árabe-israelenses não pôde colocar a sua filha em uma creche no norte de Israel devido à oposição de outros pais que são judeus. De acordo com o diário israelense Haaretz, revoltados com a iniciativa dos pais, diretores de outras creches israelenses fizeram questão de convidar a jovem Dana para se matricular nas suas instituições.
Judeus e muçulmanos não têm Natal. Para quem vive no mundo árabe ou em Israel, não é um grande problema. A Universidade Hebraica de Jerusalem tem aulas normais nos dias 24 e 25 de dezembro. Bancos e lojas abrem em países como a Arábia Saudita. A data que, segundo a tradição, marca o nascimento de Jesus é quase um dia como outro qualquer. No caso israelense um pouco menos, devido ao enorme número de turistas que vão passar o Natal em Belém e Jerusalém.
Já quem não é cristão e vive em países como o Brasil deve se sentir um peixe fora da água. Uma criança judia ou muçulmana em uma escola de São Paulo que não seja religiosa deve sem dúvida questionar muito os pais quando chega em casa. “Por que eu não recebo presente de Papai Noel?”, “Por que não tem árvore de Natal aqui em casa?” são algumas das perguntas que elas devem fazer.
Os americanos perceberam o sentimento de isolamento de comunidades não-cristãs durante o Natal e começaram a tomar algumas medidas. No fim do ano, em vez de desejar “Merry Christmas” (Feliz Natal), alguns americanos passaram a dizer “Happy Holidays” (bom feriado ou boas festas). Em muitos prédios de Nova York, uma Menorah (candelabro) é colocada ao lado da árvore de Natal para celebrar o feriado judaico do Hanukkah, que cai mais ou menos nesta época do ano.
No Brasil e no Líbano, sei de famílias muçulmanas menos religiosas que trocam presentes e enfeitam árvores no Natal como se fosse uma festa familiar, não religiosa. Algumas comunidades islâmicas brasileiras chegam a organizar festas juninas.
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