Israel libertará 250 prisioneiros palestinos em gesto para fortalecer o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Existe a possibilidade de que Marwan Barghouti esteja entre os libertados. Como escrevi em outro post, Barghouti é hoje a figura palestina mais popular. Integrante do Fatah, ele é respeitado pelo Hamas por sua participação na Intifadah. Por este mesmo motivo, ele está preso em Israel sob a acusação de ter ordenado atentados contra israelenses. Na prisão, Barghouti, que é fluente em hebraico, serviu muitas vezes como negociador entre israelenses e palestinos. Muitos analistas acham que ele seria fundamental para o fim do conflito entre o Hamas e o Fatah. Porém muitos israelenses acham um erro libertar um homem acusado de envolvimento em atentados terroristas.
A Ásia Central, sempre esquecida, será cada vez mais importante no cenário político mundial. Os ataques terroristas na Índia deixaram isso ainda mais claro. O Paquistão aos poucos se torna o país mais instável do mundo. Atentados mataram milhares no último ano, inclusive Benazir Butho. O Taleban ressurge forte no Afeganistão. E ninguém entende bem o que acontece nestas áreas, quais os grupos principais, as correntes políticas, os ideais. Qual o motivo dos ataques desta semana em Mumbai?
Poucos sabem as razões, já que a maior parte dos jornalistas – e eu me incluo neste grupo – prefere cobrir o Oriente Médio. Estudamos o Hezbollah, o Hamas, o Jihad Islâmico. Acompanhamos a política israelense, sabemos as diferenças de opinião de Tzipi Livni e Benjamin Netanyahu. Conhecemos a geografia das Fazendas de Shebaa, do Golã, de Sderot. Preferimos morar em Beirute ou Tel Aviv, muito mais atrativas do que Lahore ou Cabul. Que jornalista ocidental quer viver na Ásia Central? Poucos, bem poucos. Daniel Pearl foi um deles e pagou com a própria vida.
E não é apenas no jornalismo. Estudei na Universidade Columbia, em Nova York. Havia cursos de História da Palestina, Política da Palestina, Política de Israel, História do Líbano e cerca de cinco cursos relacionados ao Irã. Do Paquistão, nada. Da Índia, apenas matérias sobre economia ou cultura. Não havia um acadêmico especializado em política indiana. Mesmo em um curso sobre História dos Movimentos Islâmicos, as organizações de países como o Afeganistão, Paquistão e Índia eram ignoradas. O foco, como sempre, no Hezbollah, Irmandade Muçulmana, Irã, Hamas, Wahabbitas.
Não é novidade, portanto, que tanhamos sido pegos de surpresa pelo atentado na Índia. Se fosse em Israel ou no Líbano, tenham certeza, haveria já centenas de pessoas com opiniões e livros publicados sobre os grupos responsáveis. Não que estejamos errados em acompanhar israelenses, palestinos e libaneses. Por causa da diáspora destes povos, as notícias sobre eles tendem a gerar mais leitura e discussão. O problema é não sabermos nada sobre Paquistão, Índia e Afeganistão. Lembro que nenhum país árabe tem mais muçulmanos do que o Paquistão e a Índia. Isso sem falar dos completamente esquecidos Uzbequistão, Cazaquistão, Tadjiquistão.
Perdida entre a China e o Oriente Médio, a Ásia Central, com dois países nucleares (Índia e Paquistão), pode se tornar, em pouquíssimo tempo, o centro das atenções dos conflitos internacionais. Mas tampouco posso garantir, já que, como os outros jornalistas, só entendo de Oriente Médio. O pior é que os serviços de inteligência americanos tendem a ser com nós jornalistas e acadêmicos. Preferem estudar Israel, Irã e o mundo árabe. Nem a Guerra do Afeganistão alterou a situação.
Nota – O ataque ao centro judaico em Mumbai me fez lembrar o atentado contra a Amia em Buenos Aires. Não existe justificativa alguma, apenas anti-semitismo. Mataram porque eram judeus. Do tipo de atentado mais deplorável que existe.
Nota 2 – Apenas para dizer que a jornalista Adriana Carranca está no Afeganistão e conhece bem a região (leiam o blog dela). Mas são poucos jornalistas como ela no Brasil. A maioria, na área internacional, ainda prefere o Oriente Médio, América Latina, EUA, Europa e, aos poucos, a China (vale ler a Claudia Trevisan, aqui no Estado, além do Raul Juste Llores, na Folha, e o Pedro Bassan, na TV Globo).
O Guns and Bums é conhecido em Beirute como a lanchonete do “Hezbollah”. Diz a lenda que o xeque Hassan Nasrallah apenas come o cheese burger deste restaurante, cuja localização, para muitos libaneses, é uma incógnita. O local, me diziam, era frequentado apenas por militantes da organização xiita. Uma equipe da rede Globo, recentemente, tentou fazer uma reportagem sobre a lanchonete, mas acabou detida pelos integrantes do Hezbollah. Afinal, o Guns and Bums não fica no Líbano, mas em um outro país que divide o mesmo território – a Hezbollândia.
Como jornalista, não tenho autorização do Hezbollah para trabalhar em Dahieh, no sul de Beirute, que é controlado pela organização. O “Hezbollah Media Relations” me permitiu trabalhar apenas no sul do Líbano, mas não na capital libanesa, apesar de eu ser credenciado pelo governo do Líbano.
A saída, para ir ao Guns and Bums, foi convidar o Khaled, um motorista/fixer amigo meu que conhece a região. Garanti a ele que não iria como jornalista. Apenas como “turista” e que relataria a visita ao restaurante sem entrevistar ninguém. Pegamos o carro dele e circulamos pelas ruas de Dahieh, que tem o trânsito controlado por membros do Hezbollah. Passamos perto de alguns campos palestinos, uma mesquita e, de repente, dou de cara com uma lanchonete que lembra estas de estrada no Brasil. Havia umas pessoas que até poderiam ser membros do Hezbollah. Não tenho certeza. Afinal, não podia perguntar. Tinha também uma mãe, acompanhada dos filhos de uniforme escolar, comprando o almoço.
Pedi o cardápio, que está na foto acima. O que me chamou a atenção é que eles têm um prato para o almoço denominado “Terrorist Meal”. Note que a lanchonete é supostamente o ponto de encontro do Hezbollah para tomar lanche. E eles orgulhosamente chamam o prato de “terrorista”. O preço é de 8.000 liras libanesas, o que dá um pouco mais que US$5. Outras opções incluem o B52, M16, Klashinkov entre outros. Eu pedi um hamburger comum. Demorou uns vinte minutos, apesar de slogan da lanchonete dizer que o hamburger fica pronto mais rápido do que um tiro. O tempero é diferente, meio picante. Para beber, tinha apenas Pepsi. A batata frita vinha dentro do sanduíche, e não ao lado.
Honestamente, não é das melhores atrações de Beirute. Tampouco vi o Nasrallah ou qualquer figura relevante do Hezbollah. E, segundo me disseram, os donos do Guns and Bums, que são da organização xiita, querem abrir franquias no centro reconstruído de Beirute e, como não poderia deixar de ser, em Dubai – “made in Hezbollândia”.
Obs. Vim por motivos pessoais passar uns dias nos Estados Unidos, mas, na semana que vem, estarei de volta ao Oriente Médio. Irei a um país surpresa. De qualquer forma, continuarei postando daqui de Nova York.
Houve uma época em que os atentados terroristas tinham causas nobres, ainda que resultassem na morte de milhares de inocentes. Agora, os ataques são motivados por dinheiro e vingança.
Segundo reportagem do diário israelense “Jerusalem Post”, a organização xiita libanesa Hezbollah pretende pagar grupos palestinos para que estes realizem atentados terroristas como vingança pela morte de Imad Mughnyieh, morto em explosão de carro-bomba em Damasco no início deste ano. Comandante militar do Hezbollah, Mughnyieh era um dos mais conhecidos terroristas do mundo. Até o 11 de Setembro, era acusado de ser o homem que mais matou americanos. Não se sabe quem o assassinou. Oficialmente, o Hezbollah acusa Israel, mas em Beirute circula a versão de que os próprios sírios poderiam estar por trás do ataque.
É triste saber que o Hezbollah e os grupos palestinos agora tenham transformado a sua luta em uma guerra mafiosa. O Hezbollah não quer atacar Israel para que os israelenses desocupem as Fazendas de Shebaa, no sul do Líbano. Quer atacar Israel para se vingar da morte de um de seus líderes e para aumentar o seu poder. Os grupos palestinos não cometerão o atentado para que seja criado um Estado palestino. O ataque terrorista ocorrerá porque eles foram pagos. Igual à Máfia. O Hezbollah e alguns grupos palestinos têm desvirtuado a causa palestina e libanesa. Aos poucos, se tornam verdadeiras organizações criminosas, que vivem do dinheiro do tráfico de armas e – acreditem – da ocupação israelense. Assim como o líder iraniano Mahmoud Ahmedinejad, torceram para que John McCain vencesse as eleições americanas. Eles não querem paz.
“O Estado [libanês] não pode permitir a presença ilegal de armamentos militares em seu território. Nem as armas das facções palestinas, nem as armas do Hezbollah”.
Frase de Amin Gemayel, ex-presidente do Líbano e líder da Phalange, um dos mais tradicionais partidos cristãos libaneses.
Ao escutar esta declaração, ficam algumas perguntas. Por que os cristãos, muitas vezes, são considerados os “maus” da história do Líbano e os xiitas os bonzinhos? Por que o Hezbollah pode homenagear seus mártires e os cristãos não? Amin Gemayel merece inúmeras críticas. Seu partido cometeu uma série de crimes durante a guerra civil. Mas quem não errou no Líbano? O Hezbollah? Amin Gemayel tem um discurso sectário, no qual defende os cristãos. Mas quem não tem no Líbano, o xeque Hassan Narallah, líder do Hezbollah? Nasrallah é superior porque seu filho foi “martirizado” em uma ação contra Israel? Bom, o filho de Gemayel, Pierre, foi assassinado em atentado. Seu irmão, Bashir Gemayel, principal líder cristão em décadas no Líbano, também foi morto em ataque terrorista. Em número de “mártires”, Gemayel supera Nasrallah.
Os cristãos, junto com xiitas, lutaram no sul do Líbano com o apoio de Israel. Controlaram aquela região por anos. Cometeram crimes e não permitiram que o Estado libanês tivesse presença na área. O objetivo deles era eliminar facções palestinas que haviam criado um Estado dentro do Estado no Líbano. No final, lutavam contra o Hezbollah, uma organização xiita apoiada pelo Irã. Os libaneses aliados de Israel perderam. Os libaneses aliados do Irã venceram.
Hoje o sul do Líbano e bairros de Beirute são controlados pelo Hezbollah, que tem um discurso sectário, além de ser apoiado por dois Estados estrangeiros – o Irã e a Síria. O Hezbollah não respeita a independência do Líbano e já levou o país a uma guerra inútil, na qual os libaneses pagaram com centenas de mortes para que a organização conseguisse a libertação, por parte de Israel, de um assassino terrorista como Samir Quntar – que nem era integrante do grupo.
A Phalange se desarmou depois da guerra civil, respeita o Estado libanês e hoje não é aliada de uma nação estrangeira. Ainda que fosse, por que é mais legítimo, como o Hezbollah, ser aliado do Irã do que de Israel? Por que quando o Hezbollah, com o apoio do Irã, controla o sul do Líbano, não dizem que se trata de uma ocupação estrangeira?
Até 2000, o sul libanês era controlado por cristãos e xiitas aliados de Israel que torturavam, prendiam e matavam pessoas. Agora, a região está nas mãos da milícia do Hezbollah, que também comete crimes, ainda que sob vigilância da Unifil (forças de paz da ONU no Líbano). A diferença é que uma era aliada de Israel e a outra do Irã. O objetivo talvez seja, nos dois casos, lutar pela independência do Líbano. Mas, na verdade, o Hezbollah, assim como a então milícia pró-Israel Exército do Sul do Líbano, apenas contribui para o enfraquecimento das instituições libanesas.
Pelo menos, os radicais cristãos da Phalange já entenderam que o Estado libanês deve estar acima de tudo. O Hezbollah ainda não. Os seus interesses, do Irã e da Síria parecem ser mais importantes dos que o do Líbano. Eles se consideram superiores moralmente aos phalangistas, com uma causa mais nobre. Por que?
O Líbano celebra hoje 65 anos da sua independência. Foi no dia 22 de novembro de 1943 que o presidente Bechara al Khoury e o premiê Riad al Solh foram libertados pelos franceses da prisão na fortaleza de Rachaya. Cinco anos mais tarde, o Líbano enfrentava a sua primeira guerra contra o recém criado Estado israelense em 1948, lutando ao lado de outros países árabes. De herança, milhares de refugiados palestinos que hoje somam quase 400 mil em todo o território libanês sem terem ainda sido integrados à sociedade libanesa. Dez anos depois, em 1958, a segunda guerra, desta vez civil.
Os resultados não foram tão desastrosos, como na que estava por vir, em 1975. Em um conflito que arrasou Beirute e a maior parte do Líbano, dezenas de milhares de pessoas foram mortas. Em uma teia de alianças e traições, a guerra envolveu facções cristãs inimigas, grupos sunitas, xiitas, drusos, uma série interminável de milícias palestinas, guerrilheiros de esquerda, Israel, Síria e forças de paz da França, dos EUA e de outros países.
Para muitos, a data do fim do conflito é 1990, quando os libaneses assinaram os Acordos de Taif. Mas, nessa época, o Líbano ainda vivia a guerra civil no esquecido sul do país. Israelenses e seus aliados cristãos – junto com alguns xiitas – do grupo auto-denominado Exército do Sul do Líbano combatiam guerrilheiros do Hezbollah. O confronto terminaria apenas em 2000, com a retirada israelense e a fuga de muitos de seus aliados libaneses. Além do sul ocupado por Israel, o Líbano, nesse período, deixava de ser independente no restante do território. Por 15 anos, a partir de 1990, a Síria controlou a política libanesa, além de ocupar militarmente o país. Quem não fosse aliado sírio, não tinha vez no Líbano.
Rafik Hariri havia sido por muitos anos o homem de Damasco em Beirute. Mas, em 2004, rachou formalmente com o regime de Bashar al Assad e passou a liderar a oposição que, basicamente, ainda lutava pela distante independência libanesa. O ex-premiê pagou com a própria vida por esta luta em fevereiro de 2005. Os libaneses foram às ruas no que jornalistas estrangeiros descreveram como “Revolução dos Cedros”. Meses depois do atentado, após centenas de milhares de pessoas terem saído às ruas, as tropas sírias desocupavam o Líbano e, pelo menos temporariamente, a Síria estava fora do Líbano.
Não demorou nem um ano a paz dos libaneses. Afinal, o país ainda não estava totalmente independente. O sul libanês, após a partida dos israelenses e de seus aliados libaneses, não ficou nas mãos do Estado. Na verdade, o Hezbollah passou a exercer as funções de governo em toda a região. Aproveitando-se desta autonomia, fez a mesma coisa que tanto criticava em Israel. Invadiu o território israelense, sequestrou dois soldados e matou outros. Israel respondeu com uma ampla operação militar que alvejou tanto a “Hezbollândia” como o Líbano propriamente dito. Mais uma guerra na história libanesa. Mais uma vez o país não ficava independente.
Meses depois, o mesmo Hezbollah, com apoio da Síria e do Irã, ao lado dos seus aliados cristãos da seguidores de Michel Aoun – ironicamente inimigo de Damasco no passado -acamparam nas ruas de Beirute e forçaram o Parlamento libanês a ficar fechado por mais de um ano. No primeiro semestre deste ano, o país não tinha nem presidente. Após decidir intervir na Hezbollândia, tentando eliminar o sistema de comunicação de grupo e acabar com controle do grupo sobre a segurança do aeroporto, o Estado libanês batia de frente com o Hezbollah. Mas não deu certo. Em poucas horas, o Hezbollah tomou as ruas de Beirute e, se quisesse, assumiria o poder. Todas as facções foram ao Qatar e chegaram a um acordo. Hoje o Líbano tem presidente, Michel Suleiman. E todos tentam formar um governo de união nacional.
O problema é que o Líbano ainda está longe de ser independente. Dentro do território, que já é menor do que o Sergipe, existe um outro país, com Exército, sistema educacional, rede de TV e, pior, política externa próprios. Esta política externa, dizem alguns, pode mais uma vez, 65 anos depois da independência, culminar em uma nova guerra. Com o país dos Cedros, novamente, se tronando sinônimo de destruição. E sem ser independente, mesmo 65 anos depois.
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