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Guga Chacra – Estadão.com.br

Onze aviões israelenses sobrevoaram o território libanês, segundo nota do Exército do Líbano. A ação de Israel é uma violação da resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas e desrespeita a soberania libanesa. Parte das aeronaves israelenses voaram sobre o sul. Porém outras estiveram próximas de Batrun, no norte, conhecida por suas igrejas e bares frequentados pela juventude libanesa. Não há bases do Hezbollah conhecidas no local. Os israelenses continuam ilegalmente sobrevoando o Líbano, mesmo após a Guerra de 2006, segundo relatório do secretário-geral da ONU publicado neste mês. Os libaneses também ainda não cumpriram integralmente a sua parte na resolução, que pede o desarmamento do Hezbollah.

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A candidato do Partido Republicano, John McCain, tem usado a relação de amizade entre Barack Obama e o acadêmico palestino-americano Rashid Khalidi para atacar o democrata, ao afirmar que o professor da Universidade Columbia é um neo-nazi e com ligações ao terrorismo.

Por essa linha de raciocínio, para McCain, este repórter também seria um radical. Cursei três matérias com Khalidi, quando fiz mestrado na Columbia – História da Palestina, História dos Movimentos Islâmicos e História do Oriente Médio. Escrevi três papers sob sua orientação direta. Recebi uma carta de recomendação dele. Já visitei o apartamento do professor e de sua mulher, Mona, com quem troco emails regularmente. Na minha formatura, ela fez questão de conhecer meus pais.

Mas os republicanos mentem ou não conhecem Khalidi, que é um dos maiores arabistas dos Estados Unidos. De uma das mais tradicionais famílias de Jerusalém, Khalidi nasceu e foi criado no Upper West Side, em Nova York, e tem amigos judeus desde a infância. Com PhD pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, lecionou na Universidade de Chicago até 2003, quando foi convidado para assumir a cadeira Edward Said de Estudos Árabes e a direção do Instituto de Oriente Médio da Columbia, que, entre as dez melhores universidades americanas, é a que tem o maior número de alunos e ex-alunos judeus.

Sua especialidade é a história palestina na transição do período otomano para o do mandato britânico, com grande foco na identidade dos palestinos. Crítico do presidente George W. Bush e da Guerra do Iraque, escreveu recentemente o livro “Resurrecting Empire”. Em outra das suas últimas obras, “The Iron Cage”, sobre a história palestina, aponta os erros e culpas dos palestinos no seu fracassado intento de conseguir um Estado – o livro é citado positivamente pelo ex-ministro das Relações Exteriores de Israel Shlomo Ben-Ami na edição de setembro/outubro da revista “Foreign Affairs”.

Nos anos 1970 e 1980, foi professor da Universidade Americana de Beirute, que fica em uma área da capital libanesa que era controlada pela OLP (Organização para a Libertação da Palestina), na época considerada terrorista pelos EUA. Com certeza, o professor mantinha laços pessoais com membros da organização. Mas sempre foi um acadêmico.

Em 2005, houve acusação de anti-semitismo contra outros professores da Columbia e Khalidi entrou na confusão sem ter culpa. Nunca, nas 80 aulas dele que assisti em dois anos, o professor teve qualquer atitude contra judeus ou defendeu o fim de Israel. Sim, o professor, de licença neste ano, é contra a ocupação dos territórios palestinos e defende – mas acha improvável – o direito de retorno de refugiados. Esses temas, porém, não eram presentes nas suas aulas.

Obama admite a amizade e, como se diz abertamente pró-Israel, afirma que os dois tem pontos de vista diferentes.

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Acabo de ler uma reportagem na Newsweek sobre o aumento da audiência dos programas de humor político durante as eleições americanas. A revista nota, porém, que os humoristas vivem um dilema. Se o Obama vencer, as piadas diminuirão, afinal o candidato democrata não é um bom personagem para ser alvo de piadas. Ao mesmo tempo, quase todos os comediantes apóiam o jovem senador. Dizem que é o melhor para os Estados Unidos.

Para um jornalista que cobre o Oriente Médio, o dilema é parecido. Torcemos para que um dia todos os países e povos da região vivam em paz. Mas, se não houver mais conflitos, o que será de nós? Imagine qual seria a audiência deste blog se ele se chamasse Diário da Escandinávia? Em vez do comentarista Sionista, teria o Viking? Será que ninguém daria mais bola para esta região do mundo?

Eu acho que não. O Oriente Médio, mesmo em paz, nunca será a Escandinávia em termos de ausência de notícias – sem desmerecer os belos e avançados países do norte europeu. As três grandes religiões do Ocidente nasceram onde hoje estão Israel e os países árabes. A economia mundial depende do petróleo produzido no golfo Pérsico. Israelenses e libaneses, mesmo em paz com os vizinhos, sempre terão as suas contradições internas. As populações na diáspora continuarão sedentas por notícias de sua terra materna.

As notícias do Oriente Médio apenas mudarão de tom. Jornalistas que gostam mais de política, como eu, sairiam perdendo. Mas os que se especializam em religião, economia e cultura, ainda teriam muito que escrever.

De qualquer forma, eu me sinto como os humoristas americanos. Prefiro perder a piada (ou notícia), mas quero ver o melhor para os povos que vivem nesses países. Mesmo sem ter que cobrir os conflitos, poderia vir para cá e escrever uma reportagem de turismo sobre uma viagem de Tel Aviv a Beirute, parando em Haifa, Acre, Tyro e Sidon.

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Foram várias boas notícias nas últimas semanas para o Oriente Médio. O Líbano e a Síria, pela primeira vez na história, vão trocar embaixadores. Ehud Olmert, premiê de saída em Israel, disse que haverá paz apenas quando os israelenses desocuparem todos os territórias árabes. A Síria e Israel dialogavam, ainda que indiretamente.

O Hamas e o Fatah estabeleceram um canal de negociação. Tzipi Livni, ministra das Relações Exteriores de Israel e, para muitos, a esperança para a retomada do do processo de paz com os palestinos, estava próxima de formar um governo. A violência no Iraque estava no menor nível nos últimos anos. Israel passou a ver com bons olhos a proposta de estabelecimento de relações diplomáticas feita há seis anos pelos países árabes capitaneados pela Arábia Saudita.

Facções cristãs rivais do Líbano que não se falavam desde a guerra civil ensaiavam uma reconciliação. E, no sábado, o ponto máximo, com o encontro cordial do líder do Hezbollah e da comunidade xiita libanesa, Hassan Nasrallah, com Saad Hariri, principal liderança política sunita do Líbano. Para completar, Barack Obama, favorável a mais diplomacia e menos guerra, disparava nas pesquisas americanas.

Um avanço para uma região que, no ano passado, teve quase uma guerra entre sírios e israelenses, havia a constante ameaça de bombardeio americano ao Irã, o cenário no Iraque era o pior possível, e, enquanto o Líbano estava a beira de uma guerra civil, os palestinos já tinham dado início a uma. Relações entre libaneses e sírios pareciam um sonho, sunitas e xiitas em Beirute se odiavam a cada dia mais e os cristãos pareciam querer de qualquer maneira retornar aos anos 1980.

Até que chegou o domingo, dia 26 de outubro. E o Oriente Médio voltou a ser o Oriente Médio, como em 2007 e em quase todos os anos de sua história. Estes últimos meses de 2008 pareciam uma miragem. Tzipi Livni foi enrolada pelo partido ortodoxo judaico Shas, e ficou sem condições de formar uma coalizão. Israel convocou eleições, e ficará no limbo até fevereiro, com seus inimigos sabendo da fragilidade israelense, o que sempre é um incentivo para uma provocação.

Os Estados Unidos decidem, após cinco anos no Iraque, que este era o momento de atacar sírios em território sírio e sem avisar o governo sírio. E, com vergonha, não assumem uma ação que matou crianças e, talvez – não é comprovado -, um suposto terrorista. Bem agora, que a Síria, graças à França, vinha mudando o seu comportamento em relação ao Líbano, a Israel e também ao Iraque. Pior hora não existia.

Os cristãos libaneses tampouco se acerteram. Os palestinos, pelo menos até saberem quem serão os governantes de Israel e dos EUA, completarão mais um ano sem Estado, apesar de, pela primeira vez, terem assistido a uma partida de futebol de sua seleção na Cisjordânia. Ontem, o direitista israelense Avigdor Lieberman decidiu atacar um dos poucos países árabes em paz com Israel. Disse que o presidente egípcio, Hosni Mubarak, poderia ir para o inferno.

E ninguém sabe como será 2009. Temos que esperar. Primeiro, a eleição americana, em 4 de novembro. Depois, a eleição israelense de 10 de fevereiro – acho difícil que os palestinos, nas atuais condições, realizem a sua prevista para janeiro. Depois, será a vez do Líbano, em maio – quando tentará provar que existe mais de uma democracia no Oriente Médio. Para completar, o Irã elege ou reelege seu presidente. Se bem que, especula-se em jornais de Beirute, Teerã teria uma grande surpresa. Sabendo que não anda tão popular, Mahmoud Ahmedinejad pode desistir de disputar o pleito para, no futuro, argumentar que não foi derrotado. Veremos. Até lá, talvez, tenhamos até uma nova guerra. Ou uma paz inesperada.

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Aqui no Líbano, quando me perguntam de onde sou e respondo Brasil, logo vem a frase dos libaneses – “O Brasil tem mais libaneses do que o Líbano! São 7 milhões” (A população libanesa é de cerca de 4 milhões).

Pode ser professor universitário, motorista de taxi, salva-vidas, xiita, druso, cristão-maronita, ortodoxo ou sunita. Pode estar em um restaurante na beira do rio Bardauni em Zahle, nos cedros de Bshari, em uma exposição do Hezbollah em Nabatieh, nas ruínas de Tyro, em uma loja de prata em Rachaya ou em um bar de Gemeyzah. Todos os libaneses sabem na ponta da língua que no Brasil tem 7 milhões de pessoas com sobrenomes parecidos com os deles.

O número pode ser exagerado e inclui descendentes com 25% ou menos de sangue libanês. Mas, convenhamos, em qualquer parte do Brasil, sempre há um “turquinho” (sei que o termo é errado) por perto. Até na prefeitura de São Paulo. Há médicos, jornalistas, comerciantes, advogados, presidentes de clubes de futebol, publicitários, dirigentes de escolas de samba no Rio de Janeiro. Quem nunca teve um colega com um nome árabe? Para onde olhamos, lá está o sobrenome libanês e uma história para contar dos pais, avós e bisavós que imigraram para o Brasil de um dos menores países do mundo, com um território menor do que o do Sergipe.

Os libaneses do Líbano apenas não entendem como, desses 7 milhões, não surgiu um jogador de futebol brasileiro que tenha origem libanesa. Houve o George Hagi, craque da Romênia em 1994, que era filho de libaneses. Mas e no Brasil? Alguma explicação?

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A Síria acusa os EUA de atacarem o seu território e matarem oito pessoas. Os americanos não confirmaram, tampouco negaram a operação. Mas tanto Washington quanto o Iraque afirmam que a Síria não controla a fronteira entre os dois países.

Os sírios argumentam que os americanos, com muito mais dinheiro e equipamentos, são incapazes de impedir a imigração ilegal e o tráfico de drogas na fronteira com o México. Portanto, deveriam saber das dificuldades de monitorar uma região localizada no meio de um deserto.

Segundo Damasco, os americanos não dão o mesmo apoio logístico que concedem à Jordânia e à Arábia Saudita para vigiarem as fronteiras deles com o Iraque. E, acrescenta o regime de Bashar al Assad, a Síria recebeu mais de um milhão de refugiados iraquianos e fornece a eles educação e saúde gratuitas sem nenhuma ajuda americana ou do Iraque. Os jordanianos e os sauditas fecharam as suas portas para os iraquianos que fugiam da guerra.

Os EUA dizem que a Síria, na verdade, tem má vontade para controlar a sua fronteira e quer provocar instabilidade no Iraque. Os sírios são acusados por integrantes da administração de George W. Bush de dois pesos e duas medidas em relação a grupos radicais islâmicos.

O regime de Damasco combate com extrema dureza essas organizações dentro do país. Há o célebre episódio do massacre de Hama, quando a Irmandade Muçulmana foi praticamente eliminada da Síria e, mais recentemente, a mobilização de 10 mil militares para a fronteira com o Líbano para impedir a entrada de radicais sunitas ligados à rede terrorista ål Qaeda. Fora das suas fronteiras, a Síria dá apoio ao Hezbollah e ao Hamas, além de, segundo os americanos, a facções ligadas à Al Qaeda no Iraque.

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