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Se o leitor fosse o Obama, o que faria neste momento em relação à Síria?
1 – Enviaria tropas americanas para tentar estabelecer a paz?
Difícil, os americanos acabaram de sair do Iraque depois de milhares de mortes. Não há clima para ocupação nos EUA e no mundo árabe. Sem falar no risco de não dar certo. Veja o que aconteceu com os marines no Líbano nos anos 1980. E este ano é de eleição. Um revés na Síria pode afetar a popularidade do presidente, que em política externa pode apresentar o troféu Bin Laden
2 – Deixar Assad prosseguir com os massacres?
Até daria inicialmente e este era o plano. Mas o regime sírio está matando demais mesmo para os padrões da região. Ele se transformou no mais sanguinário líder árabe desde a morte de seu pai e da queda de Saddam Hussein. As redes de TV exibem as imagens o tempo todo. O país já está em guerra civil, com choques sectários (sunitas da oposição contra cristãos e alauítas pró-governo). O cenário pode se agravar. E, se Assad vencer (não descartem esta possibilidade), também seria um revés para Obama
3 – Apoiar uma ação militar dos países vizinhos?
Caso a Arábia Saudita envie tropas para a Síria, o Iraque e o Irã devem intervir para defender Assad e poderemos ter uma gigantesca guerra regional. O Líbano também seria sugado para o conflito e dezenas de milhares de pessoas morreriam. Israel também correria risco de ser afetado
4 – Armar os opositores e reconhecer o governo no exílio?
Esta alternativa enfrenta obstáculos logísticos. Primeiro, como chegar até Homs? A costa mediterrânea é alauíta (pró-Assad) e tem uma base militar russa, sendo improvável o uso como via de acesso até a cidade. A fronteira que liga Baalbeck, no Líbano, a Homs é controlada pelo Hezbollah e este não permitiria a entrada de ajuda humanitária e militar. Um corredor vindo da Turquia seria difícil. Precisaria passar por centenas de quilômetros, cruzando Aleppo, segunda cidade da Síria e bastião pró-Assad. Dá apenas para manter o contrabando de armas, como já ocorre atualmente. Mas é insuficiente para lutar contra o Exército
5 – Apoiar um golpe dentro do regime?
Esta é a estratégia que tem ganho força e conta com o apoio indireto russo (que prefere uma sucessão mais organizada). Basicamente, Assad seria “convencido” a ir para o exílio na Argélia, Marrocos ou Emirados Árabes. Em seu lugar, entraria seu vice, Farouq al Shaara. De um lado, ele é do regime, controlado por alauítas e cristãos. De outro, é sunita e daria algumas garantias aos opositores, majoritariamente deste ramo do islamismo. A estabilidade seria relativa, nos moldes do Iêmen. Mas o cenário tenderia a virar o egípcio, onde o regime permaneceu sem Mubarak. Sem falar que estariam no poder justamente as pessoas responsáveis por matar milhares, o que não aconteceu no Cairo. No fim, seria uma solução provisória, até as pessoas esquecerem que a Síria existe e a guerra civil prosseguir sem ninguém prestar atenção. Mais ou menos como o Líbano entre 1984 e 90, a Argélia nos últimos 15 anos, o Iraque e a Líbia atualmente. Obama, pelo menos, lavaria as mãos até as eleições. Esta é a triste realidade
O que eu proponho? Não proponho nada. Acho que a Síria rumará cada vez mais para uma guerra civil sectária de baixa à média intensidade sem data para acabar. Milhares de pessoas morrerão, independentemente do que for feito. Tem situações no mundo sem solução. A Síria é uma delas
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Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista
O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacio
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Nenhum dos 14 mil assassinatos registrados nos Estados Unidos no ano passado foi resultado do extremismo islâmico, considerado por muitos como uma ameaça ao país. Ainda assim, islamofóbicos como Rick Santorum têm força política, como ficou claro na sua vitória em três prévias ontem.
Além de atacar verbalmente os muçulmanos, Santorum também é homofóbico. O pré-candidato republicano comparou o homossexualismo à pedofilia, ao incesto e até mesmo a sexo com animais. A revolta da comunidade gay foi tamanha que criaram a expressão “Santorum” para designar o excremento fecal pós-sexo anal. Ele não é muito diferente do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. A diferença é que o iraniano pode ser classificado como anti-semita e o republicano como islamofóbico. Mais importante, um ameaça destruir Israel; o outro, o Irã.
Os EUA têm candidatos capacitados entre os republicanos para enfrentar Barack Obama, como o moderado Mitt Romney e o libertário Ron Paul. Pode-se discordar de alguns pontos da política dos dois. Mas são pessoas sérias. Quem sabe, os republicanos voltam a ser aquele partido sério do século 20, tão fundamental para transformar os EUA na maior potência mundial.
Infelizmente, o partido foi sequestrado por uma ala ultraconservadora que, como Santorum, sequer acredita na ciência e na teoria da criação.
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Israel pode dizer que o Hamas é aliado do Irã. Mas, na verdade, o mundo mudou no último ano. O grupo palestino integra esta nova onda de governos e movimentos apoiados pelo Qatar e pela Arábia Saudita, como a Irmandade Muçulmana, que estão redesenhando o mapa do Oriente Médio com o aval de Barack Obama.
Na Tunísia, os movimentos islâmicos já chegaram ao poder. Na Líbia, idem. No Egito, estão cada vez mais fortes. Recebem apoio dos EUA e dos europeus na Síria para lutar contra Bashar al Assad. São justamente os adversários do regime de Teerã, e não seus aliados. Mais importante, têm financiamento justamente dos dois países árabes mais poderosos no Ocidente. Veja o que está escrito na camisa do Barcelona para ter uma idéia.
O Qatar está reconstruindo Gaza e suplantará qualquer corte na ajuda dos EUA e de Israel. Mais importante, passarão a usar seu lobby em Washington, junto com os sauditas, para patrocinar os palestinos e, em especial, o Hamas. A contrapartida é a organização palestina abdicar de ações terroristas e lançamentos de foguetes, conforme já vem acontecendo. O discurso agressivo de líderes do Hamas são mais populistas do que realistas.
Portanto o Hamas hoje não deve ser mais descrito como pró-Irã. Esta aliança sempre foi meio bizarra e se deveu a um erros israelense anos atrás, quando libertaram membros da organização para irem ao sul do Líbano. Na época, eles foram treinados pelo Hezbollah.
Porém, no fundo, o Hamas sempre foi uma organização sunita radical, nos moldes da Irmandade Muçulmana (mas bem mais moderada do que os salafistas) O Irã é xiita. Hoje, no Oriente Médio, estão em lados antagônicos. Os palestinos cada vez mais passam para o lado da Arábia Saudita e do Qatar, não do Irã. Para Israel, não é tão ruim. O inimigo de Riad está em Teerã, não em Jerusalém.
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Sem a ONU, duas idéias paralelas passam a competir para lidar com a crise na Síria. De um lado, está o bloco dos EUA, França, Reino Unido, países do Golfo Pérsico e Turquia. Eles passarão a armar a oposição, isolar cada vez mais o regime através de medidas como o fechamento da embaixada americana em Damasco hoje e, em breve, reconhecimento da oposição como o governo sírio no exílio, provavelmente com sede em Istambul.
Com este armamento e treinamento, que já existe, mas ampliando para uma escala muito maior, os EUA e seus aliados esperam que os opositores controlem pelo menos uma parte do território, que seria transformado em uma espécie de Benghasi. Mesmo sem o aval da ONU, seria criada uma zona de exclusão aérea nesta área, provavelmente próxima a Turquia.
Ao mesmo tempo, haverá cada vez mais incentivos para que membros do regime, em especial o vice Farouq al Shaara, dêem um golpe em Bashar al Assad, e aceitem dialogar com a oposição em uma transição.
O outro bloco, da Rússia e da China, tentará convencer Assad a acelerar as reformas, dialogando com uma oposição mais branda, não armada, de Damasco. Também tentarão, a partir de amanhã, com a visita de Sergey Lavrov à Síria, convencer o líder sírio a deixar o país em uma transição controlada pelo regime, sem o envolvimento do Ocidente, na qual Moscou, Teerã, Hezbollah e Pequim não teriam seus interesses afetados. Mais importante, Putin, e não Obama, sairia como vitorioso nesta crise Síria.
Independentemente de quem suceder, eu mantenho a previsão de que a Síria terá meses ou mesmo anos de guerra civil de caráter sectário, com a morte de milhares de pessoas. No fim, como no Líbano, Bósnia ou Iraque, haverá um acerto de divisão sectária de poder em uma democracia frágil.
E, mais importante, os olhos do mundo, quando isso acontecer, já estarão na Jordânia.
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Uma frase do embaixador da Síria no Conselho de Segurança da ONU, logo depois de ser salvo pelo veto da Rússia e da China, entrará para a história. “É racional Estados apoiarem esta resolução (no Conselho de Segurança) ao mesmo tempo que proíbem as mulheres de irem a uma partida de futebol? São eles que estão pedindo para a Síria ser democrática?”, afirmou Bashar Jaafari, se referindo a nações do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita.
Como escrevi ontem, a Síria é alvo do conselho por matar mais, não ser por uma ditadura. No mundo árabe, apenas o Líbano, o Iraque, a Tunísia e o Marrocos podem dizer que possuem alguma forma de democracia. Ainda assim, no primeiro e no segundo caso, sectária e, no terceiro e no quarto, ainda em transição. O Egito, a Líbia e o Iêmen podem não ter mais ditadores, mas tampouco são democráticos.
A Arábia Saudita e os outros países do Golfo são monarquias absolutistas. O Human Rigths Watch descreve uma série de casos de escravidão de estrangeiros nestes países. Realmente, na Arábia Saudita, mulheres não podem ir a jogos de futebol, andar sozinhas na rua e dirigir. Como afirmei outras vezes, vocês podem ir hoje ao cinema em São Paulo assistir ao filme Separation, do Irã. Mas ainda aguardamos o dia em serão exibidos filmes sauditas.
Além disso, realmente, na Síria, para padrões da região, as mulheres desfrutam de liberdade. Usam biquínis nas praias, podem namorar, beber álcool e usar cabelos soltos. Sexo antes do casamento é tabu, mas elas praticam normalmente sexo anal com seus parceiros, mantendo desta forma a virgindade.
Enfim, seriam, depois das libanesas, as menos conservadoras do mundo árabe. Isso não significa dizer que sejam livres. Mesmo os homens na Síria não têm liberdade para expressar suas opiniões políticas. Criticar o regime abertamente em Damasco hoje pode significar tortura e até mesmo morte.
No caso, é deprimente que um regime secular como o do Assad mate milhares de pessoas, assim como é deprimente ditaduras que tratam as mulheres como na Arábia Saudita. O ideal é que todo o mundo árabe fosse democrático, como a Escandinávia. Mas não é e não será no longo prazo. Aliás, ninguém que ler este texto presenciará este momento em suas vidas. É para o século 22 e olhe lá.
E, apenas para ficar claro, a Arábia Saudita não pode ser alvo do Conselho de Segurança da ONU porque trata as mulheres como animais. Este é um tema do Conselho de Direitos Humanos em Genebra. O órgão de Nova York lida apenas com questões de segurança internacional, como a Síria, Palestina, Irã, Líbia, Chipre, Sudão.
Bahrain, por prender, torturar e matar opositores, incluindo crianças e mulheres, como na Síria, também deveria ser alvo do Conselho de Segurança. Mas os Estados Unidos impedem qualquer ação contra os seus aliados da monarquia Al Khalifa. Os americanos rejeitam até mesmo que o tema seja debatido no conselho. A embaixadora Susan Rice desconversa quando perguntada sobre o assunto. Nem mesmo Israel tem uma proteção destas dos americanos.
No caso israelense, os americanos vetam as resoluções da questão Palestina, mas não agem para impedir até mesmo debates sobre o assunto – inclusive, apesar dos vetos em resoluções, os EUA criticam os assentamentos nos debates. Mais importante, no caso das colinas do Golã, Washington adota a posição dos sírios, e não a dos israelenses, ao aprovar semestralmente resolução considerando a anexação do território como ilegal.
Mas, voltando ao assunto anterior, esta posição americana em relação a Bahrain se deve a questões geopolíticas e econômicas. Para resumir a importância, a Quinta Frota da Marinha americana fica baseada neste país do Golfo Pérsico.
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A Rússia e a China acabaram de vetar mais uma resolução no Conselho de Segurança. Foi a segunda vez.
Por que a Síria é diferente dos outros países e chama tanto a atenção internacional? Afinal, a Argélia, Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Emirados Árabes e Omã também são ditaduras. Isso sem falar na China. Mas vamos ficar apenas no mundo árabe.
Apesar de discursos anti-americanos, a postura anti-Síria do Ocidente não se deve aos EUA. Na realidade, a administração de Barack Obama buscou ao máximo dialogar com Bashar al Assad. Inclusive, enviaram o embaixador Robert Ford para Damasco justamente tentando esta aproximação.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, mesmo depois da morte de dezenas de pessoas, disse ter confiança de que Assad era um reformista. O líder sírio também desenvolveu amizade com John Kerry, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.
Israel faz tempo que queria voltar a negociar com Assad a devolução das colinas do Golã. Ehud Olmert chegou perto de um acordo. Para os israelenses, apesar da aliança com o Hezbollah, o líder sírio era uma garantia de segurança na fronteira.
A Arábia Saudita e seu aliado no Líbano, Saad Hariri, nunca gostaram de Assad. Mas eles não estavam no auge de sua oposição ao regime sírio, como em 2005 e 2006. Havia uma acomodação. O rei Abdullah visitou o Líbano acompanhado de Assad em 2010. Hariri visitou o líder sírio duas vezes em Damasco.
Na realidade, a Síria passou a ser alvo da comunidade internacional porque o regime matou ao menos 5.400 pessoas, segundo a ONU. O Human Rights Watch publicou relatório ontem acusando as forças de Assad de ter torturado e matado crianças.
Regimes repressores como o da Argélia, do Irã e da Jordânia não conseguem entender. Eles também prendem e torturam opositores, mas não têm levado adiante assassinatos em massa – os argelinos fizeram uma limpeza anos atrás, mas agora evitam mortes na repressão.
No mundo árabe, desde a deposição de Saddam Hussein, nenhum regime matou tanta gente quanto o de Assad. Nem mesmo Muamar Kadafi chegou perto. Mas, claro, não podemos esquecer de um outro Assad, o Hafez, que matou ao menos 10 mil pessoas em Hama 30 anos atrás.
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