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Guga Chacra – Estadão.com.br

Meu comentário sobre EUA-Taleban no Jornal das Dez da Globo News

Os EUA estão corretos em negociar com o Taleban. Não sei se obterão sucesso, mas é uma iniciativa importante para tentar deixar o Afeganistão o mais estável possível no período posterior à retirada das tropas da OTAN no final de 2014.

Primeiro, vamos recapitular. Nos anos 1980, a União Soviética invadiu o Afeganistão para defender seus aliados. No contexto da Guerra Fria, os EUA armaram os mujahedeen, que eram guerrilheiros extremistas islâmicos, tanto do país como de outras nações na região, que acabaram sendo os vencedores e se dividiram em dois – os afegãos fundaram o Taleban, que chegou ao poder em Cabul. Os de outros países, como Osama bin Laden, criaram a Al Qaeda para realizar atos terroristas ao redor do mundo.

Ao longo dos anos 1990, o Taleban instalou um regime ultra radical no Afeganistão que era completamente ignorado no resto do mundo. Apenas o Irã, isso mesmo, demonstrava preocupação com esta organização e os dois países quase entraram em guerra.

A Al Qaeda, por sua vez, se voltou contra os EUA no período da Guerra do Golfo, em 1991. Bin Laden e seus associados se ofereceram para expulsar as forças de Saddam Hussein do Kuwait. Mas os países do golfo optaram pela ajuda da coalizão liderada pelos americanos, que ergueram bases na Arábia Saudita, irritando a Al Qaeda.

Muitos membros da organização, no final da década de 1990, buscaram refúgio no Afeganistão do Taleban. A partir dali, os membros da rede terrorista de Bin laden teriam organizado o 11 de Setembro e outros atentados.

Bush disse que, caso o Taleban concordasse em entregar os líderes da Al Qaeda, não haveria invasão do país. Os afegãos não aceitaram e acabaram sendo derrubados no poder no fim de 2001 pelas tropas dos EUA com ajuda da OTAN.

Neste período, morreram dezenas de milhares de pessoas em um conflito que já dura doze anos. Agora, depois da multiplicação do número de militares no início do mandato de Obama, o Afeganistão se tornou mais estável do que anos atrás, embora ainda em guerra. A Al Qaeda perdeu completamente a força no país, sendo hoje mais poderosa na Síria, onde luta contra Bashar al Assad, no Iraque, onde luta contra o governo, no Yemen, na chamada Al Qaeda da Península Arábica, e no norte da África, na Al Qaeda do Maghreb.

O objetivo americano, portanto, foi alcançado. O Taleban, porém, é um ator político dentro do Afeganistão. Sem a Al Qaeda, abandonando as armas e concordando em respeitar a Constituição, como demandam os EUA e o governo em Cabul, não haveria motivos para os americanos se preocuparem. É importante notar que o Taleban do Paquistão, responsável por uma série de ataques terroristas, não é a mesma organização que o Taleban afegão.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no  gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios

 

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O mundo hoje se divide entre governantes que decepcionam a população e opositores incapazes de provocar esperança. O Brasil não é diferente. Mas, como não sou especialista em política brasileira, falarei do resto do mundo.

Começo pelos Estados Unidos. Em 2008, Barack Obama chegou ao poder com a promessa de que seria um presidente diferente. Arrumaria a economia e sairia de guerras. Implementaria liberdades sociais.

Hoje, cinco anos depois, descobrimos que Obama mantém uma guerra suja com seus Drones no Yemen e no Paquistão. Espiona os dados das pessoas na internet e nos telefonemas. Bombardeou a Líbia e agora enviará armas para rebeldes na Síria. Multiplicou o número de militares no Afeganistão. Não fechou Guantánamo. E o número de pessoas com emprego permanece o mesmo de quando ele assumiu.

Os republicanos não trazem  expectativa de mudança alguma. Mitt Romney até possuía projetos mais claros para a economia. Mas se radicalizou nas primárias do partido, deixando de ser aquele grande governador de Massachusetts responsável por uma exemplar reforma do sistema de saúde. Preferiu adotar, em vez disso, um discurso contra os imigrantes e não propôs nada distinto da bélica política externa de Obama.

Vamos para o Egito. Hosni Mubarak era um ditador e foi derrubado depois das manifestações da praça  Tahrir . Em seu lugar, assumiram os opositores da Irmandade Muçulmana. A segurança piorou, o Egito está um caos, minorias religiosas passaram a ser perseguidas e mulheres viram seus direitos restringidos.

E Israel? Reclamam de Benjamin Netanyahu e de seu governo onde alguns ministros passaram a rejeitar a solução de dois Estados. Mas os opositores se desuniram e não souberam encampar os desejos de dezenas de milhares que saíram às ruas em Tel Aviv.

Os palestinos têm o corrupto Fatah no poder na Cisjordânia. Os opositores são do Hamas, que adotam na Faixa de Gaza as práticas citadas acima para a Irmandade Muçulmana somadas a atos terroristas.

Os sírios são os em pior situação no momento. De um lado, um regime sanguinário. De outro, uma oposição cada vez mais radical, com integrantes canibais, e sem união ou ideal algum. Esta oposição apenas serve para ameaçar as mulheres (relativamente livres na Síria para padrões árabes) e as minorias religiosas como os alauítas e os cristãos, normalmente associados a Bashar al Assad.

Os turcos tem um premiê cada vez mais autoritário na figura de Erdogan, que tenta impor valores religiosos conservadores em uma nação com elevada proporção de laicos. Os partidos opositores não se organizam e ainda ficam à sombra de antigas ditaduras militares.

Na Europa, como sabemos, sai um Sarzoky e entra um Hollande para nada mudar. Todos os líderes europeus, da situação ou da oposição, têm decepcionado suas populações. Espanhóis são cada vez mais indiferentes ao PSOE e ao PP. Mesmo os alemães andam insatisfeitos.

O Canadá, que muitos devem achar o máximo, vê o prefeito de Montreal ser preso por suborno e o de Toronto ser acusado de ser viciado em crack – jornalistas viram imagens dele fumando.

Devagar, parece que todo o mundo se parece com a Argentina. Lembro de cheguei ao país para ser correspondente pouco depois da posse de De la Rúa. Ninguém aguentava mais a corrupção e a crise dos tempos do peronista Carlos Menem. A União Cívica Radical prometia mudanças. Era 2000. O resto vocês sabem. E hoje os argentinos tem uma presidente péssima, mas que se mantém no poder por não ter nada relevante na oposição.

O jeito, na Taksin, na Tahrir, em Manhattan, Budrus, Tel Aviv, na Plaza de Mayo e agora nas fantásticas manifestações de São Paulo, Rio, Brasília e tantas cidades do Brasil, é a população sair às ruas para protestar.

Obs. Honestamente, pelas fotos que vi, foram bem mais do que 65 mil pessoas em São Paulo. É impossível que o número de manifestantes seja 15 vezes menor do que a parada gay e a dos evangélicos. Algum dos números deve estar errado.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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Quando Mahmoud Ahmadinejad era presidente, opositores do regime iraniano alertavam para os riscos de Teerã desenvolver uma bomba atômica. O argumento costumava ser as declarações do presidente do Irã. Como sabemos, ele questionou o Holocausto, o 11 de Setembro e teria, segundo algumas traduções (outras dizem o contrário), pedido para varrer Israel do mapa.

Nestes últimos oito anos, Ahmadinejad serviu como uma arma de PR dos inimigos do Irã. Era fácil acusar o regime iraniano de ser perigoso tendo um presidente como ele. A chegada de Hassan Rowhani, um moderado para padrões iranianos, ao poder, tornou esta tarefa mais difícil.

Alguns dos adversários do Irã começaram a usar o argumento, depois da eleição de Rowhani, de que o poder, na realidade, está nas mãos do líder supremo, aiatolá Ali Khamanei. Verdade, em questões nucleares, ele tem a decisão final. Mas, neste caso, por que falavam tanto de Ahmadinejad se o presidente não manda nada? As declarações dele seriam irrelevantes para o programa nuclear iraniano, certo?

Na minha avaliação, se eu fosse israelense ou saudita, faria de tudo para impedir o Irã de ter uma bomba atômica. Uma bomba nas mãos dos iranianos alteraria a balança de poder na região. Se eu fosse membro do regime de Teerã, faria de tudo para ter este armamento pois isso aumentaria a segurança deles – basta ver o que ocorreu com Muamar Kadafi, que abdicou e foi derrubado em intervenção da OTAN aliada a rebeldes líbios, e com a Coreia do Norte, firme e forte por ter a bomba atômica.

No fim, este impasse pode culminar em uma operação preventiva de Israel em parceria com os EUA ou pode terminar com o regime de Teerã dominando o ciclo de enriquecimento de urânio para produzir uma bomba. Mas, claro, será bem mais difícil para o governo americano e para Israel conseguirem apoio internacional para uma ação destas com Rowhani no poder. Teria sido mais simples quando Ahmadinejad era a cara do Irã. Não é mais.

 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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Um moderado, para padrões iranianos, venceu as eleições presidenciais. Hassan Rowhani, surpreendentemente, derrotou seus adversários mais conservadores e conquistou a vitória no primeiro turno da disputa pela Presidência em Teerã,  contando com o apoio de reformistas – entre eles o ex-presidente Khatami e Rafsanjani.

Muitos dizem que não mudará nada com sua vitória. Afinal, o aiatolá Ali Khamanei, líder supremo do país, mantém a palavra final em questões como o programa nuclear a política externa do regime de Teerã.

Por outro lado, o presidente é responsável por uma série de políticas domésticas, incluindo a economia. Um moderado no poder, como Khatami entre 1997 e 2005, também pode incentivar o renascimento de movimentos reformistas.

Para completar,  o presidente do Irã simboliza a imagem do país no exterior. Esta certamente melhorará com Rawhani. Nós não escutaremos mais os discursos de Mahmoud Ahmadinejad, que caminha para o ostracismo, questionando o Holocausto ou o 11 de Setembro. Será bom para a “PR” do regime no Ocidente.

Além disso, mesmo questões de política externa serão afetadas, conforme lembra Trita Parsi, um dos maiores especialistas em Irã dos EUA. Primeiro, alguns dos assessores do Rowhani “são os mais pragmáticos e competentes em política externa do país, tendo tomado decisões como a colaboração dos EUA no Afeganistão e a suspensão do enriquecimento de urânio em 2004”.

Em segundo lugar, diz Parsi em artigo, Rowhani “não vê o mundo de uma forma maniqueísta”, como Ahmadinejad, e acha possível “uma colaboração” com o Ocidente. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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A DECISÃO DE OBAMA

Escrevi ontem aqui sobre os motivos pelos quais uma intervenção americana na Síria é arriscada. O próprio governo de Barack Obama concorda ser extremamente complicado e se manteve distante da guerra civil ao longo dos últimos dois anos . Agora, devido à pressão de figuras como o senador John McCain e de membros de seu Departamento de Estado, decidiu intervir.

A história das armas químicas, embora tenha servido de argumento, não foi o principal motivo para a mudança de postura de Obama. Pesou mais o avanço recente do regime de Bashar al Assad, que conta com o apoio da Rússia, Irã, Iraque e do grupo libanês Hezbollah.

COMO ESTÁ ASSAD 

Neste momento, Assad controla todo o território a partir da fronteira com a Jordânia, passando pela capital Damasco, cruzando pelas Províncias de Homs e Hama e chegando à Costa Mediterrânea. Existe uma variação da força do regime em cada uma destas áreas.

A COSTA MEDITERRANEA

Nas cidades litorâneas de Tartus e Latakia, apenas uma pessoa sem o menor conhecimento de Síria pode imaginar que o regime corra algum risco. O controle e o apoio a Assad é total  e a vida nestas cidades é tranquila, como se fosse um verão comum. Mesmo que Damasco venha a cair nas mãos dos opositores, a tendência seria de estas cidades e as áreas mediterrâneas se transformarem em um novo país, uma espécie de Síria para os alauítas, cristãos e sunitas laicos da classe média das grandes cidades.

DAMASCO

Damasco ainda é integralmente do regime. Os rebeldes conseguem realizar operações terroristas ocasionais, como vimos nesta semana. Normalmente, são levadas adiante pela Frente Nusrah, ligada à Al Qarda, e mais poderosa facção militar da oposição. Alguns subúrbios da capital ainda têm a presença de rebeldes, mas todos voltaram para as mãos do regime.

HOMS E HAMA

Na Província de Homs, o regime voltou a controlar Qusayr e tem nas mãos Homs. Mas os rebeldes ainda atuam em algumas áreas do interior. O cenário é parecido na Província de Hama.

 ALEPPO

O objetivo do regime, neste momento, é controlar totalmente as Províncias de Homs e Hama, especialmente nas áreas próximas à estrada que liga Damasco a Aleppo. Esta metrópole, que é o centro econômico e maior cidade da Síria, está dividida entre os rebeldes e o regime. Com os recentes avanços e o apoio do Hezbollah, Assad tentará recuperar as regiões de Aleppo nas mãos dos rebeldes em uma batalha que deve ser a mais sangrenta da guerra civil.

FRONTEIRAS COM TURQUIA E IRAQUE

A oposição controla atualmente porções do território nas fronteiras com a Turquia e o Iraque. Das 14 capitais de Província, apenas uma está nas mãos dos rebeldes. Vale lembrar que muitas destas áreas são administradas por curdos, que não têm ambição de derrubar Assad. Querem ter apenas autonomia.

COMO ESTÁ A OPOSIÇÃO

Hoje existem mais de mil grupos armados da oposição, com diferentes agendas e patrocinadores. Os ligados à Irmandade Muçulmana são apoiados pelo Qatar. Facções salafistas e seculares contam com o suporte da Arábia Saudita e de figuras independentes do Golfo Pérsico. Os armamentos costumam ser no máximo civis.

FRENTE NUSRAH

O grupo mais forte da oposição é a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda e considerada terrorista até pelos EUA. Muitos de seus membros não são sírios. A vantagem desta organização é uso de atentados terroristas suicidas, o que facilita a sua penetração em áreas do regime.

GENERAL IDRIS

O general Salim Idris é comandante do Exército Livre da Síria, que existe apenas no nome. Na prática, é uma colcha de retalhos de diferentes organizações. Este militar, porém, desfruta de muito mais respeito dos rebeldes do que as liderança sírias políticas no exílio, que são irrelevantes para quem está no campo de batalha. Ele também não é visto com tanto temor pelos simpatizantes do regime por não ser uma figura extremista religiosa, como outros membros da oposição.

AJUDA DOS EUA

Os EUA, ontem, anunciaram que devem enviar armamentos aos rebeldes. Esperem arsenais antitanques, mas não antiaéreos. Uma zona de exclusão aérea, neste momento, está descartada. É quase impossível que o governo Obama decida enviar soldados.

Os esforços americanos se concentrarão no general Idris. O militar será responsável por receber e distribuir a ajuda. Desta forma, os EUA tentarão fortalecer uma figura moderada em detrimento das alas extremistas da oposição.

Em um primeiro momento, esta ação corre o risco de gerar um conflito intra-oposição, entre os aliados de Idris, pró-EUA e mais laicos, contra a Frente Nusrah, organizações salafistas e ligadas à Irmandade Muçulmana.

AJUDA DO IRÃ, IRAQUE, RÚSSIA E HEZBOLLAH

Contra o regime, os rebeldes continuarão enfrentando enormes dificuldades. Assad possui armamentos e militares leais. Notem como quase não ocorrem mais deserções. Quem ficou ao lado do regime demonstra uma enorme lealdade. O governo também possui as milícias cristãs, alauítas e xiitas aliadas, conhecidas como shabiha. O Hezbollah, mais poderosa guerrilha do mundo, enviou as suas tropas de elite para o conflito. O Irã ajuda logisticamente. O Iraque envia guerrilheiros para ajudar. A Rússia intensificará o fornecimento de armamentos.

CENÁRIOS PARA O FUTURO

Diante deste cenário, a tendência no médio e longo prazo será uma divisão do país na prática, com o regime consolidando as áreas sob seu controle, mas evitando se envolver nas áreas da oposição. Os rebeldes fariam o inverso.

Isso poderia abrir as portas para uma tentativa de acordo diplomático. Os dois lados aceitariam a realização de eleições, com Assad e Idris, além de outras figuras menos expressivas, concorrendo. Quer dizer, este seria o cenário otimista. O cenário pessimista seria a continuação do conflito por anos, com o aumento de massacres. Eu avalio que a segunda possibilidade é a mais provável. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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O presidente dos EUA, Barack Obama, decidiu dar um apoio militar para a oposição síria. Isto deve significar o fornecimento de armamentos e o treinamento de rebeldes, mas, pelo menos por enquanto, não o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea

Esta decisão traz uma série de consequência

.É fácil entrar em um conflito, mas extremamente difícil sair

. Não se sabe qual o destino destes armamentos. Basta ver a Líbia, onde milícias armadas pela OTAN cometeram atentados contra consulados e embaixadas ocidentais e ainda desrespeitam o controle do Estado. No Afeganistão, nos anos 1990, os mujahedin, armados pelos EUA, se transformaram no regime do Taleban

. O grupo mais forte da oposição é a Frente Nusrah, aliada da Al Qaeda e considerada terrorista pelo próprio governo americano

. Minorias religiosas, especialmente os alauítas e cristãos, que apoiam abertamente Assad, devem ser massacrados futuramente pelos rebeldes, majoritariamente sunitas religiosos. Inclusive, muitos já foram, como xiitas pró-regime ontem

. O armamento dos rebeldes não garante vitória alguma. Rússia, Irã, Iraque e Hezbollah devem intensificar o apoio ao regime, que deve intensificar os esforços para vencer o conflito

. Os EUA partem do pressuposto que a maior parte da população síria é contra Assad. Não há nenhuma indicação neste sentido. No Golã, em território controlado por Israel, e sem a presença do regime, os moradores sírios apoiam abertamente Assad. Converse mesmo com sírios no Brasil e nos EUA, especialmente cristãos, e vejam de que lado eles estão

. O regime permanece extremamente forte em Damasco e na Costa Mediterrânea. Nesta área, em cidades como Tartus e Latakia, a força e o apoio ao regime é enorme. Não dá para imaginar como seria possível derrota-los, ainda que a capital venha a ficar nas mãos dos rebeldes

. Os EUA intervieram no Iraque e derrubaram Saddam Hussein em 2003. Dez anos mais tarde, apesar de o país já ter chegado a receber 180 mil membros das tropas da OTAN, a guerra continua – e o ˜número de mortos é mais do que o dobro na Síria, com um governo em Bagdá aliado do regime iraniano e também de Assad

. O objetivo pode ser derrubar Assad. Mas e depois? Como estabilizar o país? O que fazer com todas as Forças Armadas da Síria, que estão ao lado do regime? E as milícias pró-Assad? E como impedir a Frente Nusrah e outros grupos extremistas da oposição de assumirem o poder?

. Os EUA dizem defender a democracia. Mas, neste caso, estarão se aliando a regimes não democráticos. Um deles, a Arábia Saudita, possui um regime de Apartheid contra as mulheres.  Qual a lógica?

. O que são os rebeldes? São mais de mil facções armadas, sendo a mais forte delas ligada à Al Qaeda. O Exército Livre da Síria existe apenas no nome, sendo uma colcha de retalhos de grupos independentes. No Iraque, onde os EUA tinham 180 mil soldados e muito menos facções armadas, os americanos tiveram dificuldades sobre com quem fazer alianças

    Obs. Obama concorda com todos os pontos citados acima, tanto que, mesmo depois de dois anos e meio de conflito, se mantinha relutante em se envolver. Mas o presidente acabou cedendo a pressões de figuras como John McCain e Bill Clinton. O risco, como diriam os libertários americanos, são os EUA se aliarem à Al Qaeda, que está na oposição, contra os cristãos sírios, que apoiam o regime. É totalmente antagônico, mas é exatamente isso

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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