Dirty Mac
Melhor que essa hora chegasse logo. Para todos os amigos que eu contava do Projeto 1001, a mesma dúvida surgia: mas o que você vai escolher dos Beatles? Difícil, mas foi ainda mais difícil escolher uma dos Rolling Stones, que continuou a fazer bons álbuns bem depois que o sonho acabou. Colocar as duas bandas lado a lado é um jeito legal de pontuar a primeira centena de músicas do projeto. Claro, entre Beatles e Stones eu fico com os St…. dois. Mas, como o projeto é pessoal e intransferível, quase psicanalítico, me resrevei o direito de enfurecer os fãs harcore dos Beatles e dos Stones. Eles devem sentir falta, de um lado, do trabalho solo de Paul McCartney e, de outro, do Mick Jagger. Mas, sendo fiel aos princípios desse projeto, nenhum dos dois fez uma música sequer que eu coloque entre as minhas preferidas. Polêmica de lado, vamos aos sons que realmente fizeram a minha cabeça:
1. I´m the Greatest – Ringo Starr
2. Wah Wah – George Harrison
3. God – John Lennon
4. Don’t Worry, Kyoko (Mummy’s Only Looking For Her Hand In The Snow) – Yoko Ono
5. A Day In a Life – The Beatles
6. Street Fighting Man – The Rolling Stones
7. It Means a Lot – Keith Richards
8. Monkey Grip Glue – Bill Wyman
9. Edward Thumbs Up – Jamming with Edward
10. Robbins Nest – Charlie Watts Orchestra
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Não é só a presença de Norah Jones no papel principal nem o toque sempre certeiro de Ry Cooder na trilha sonora. Assistindo ontem no cinema a Um beijo roubado (My blueberry nights), de Wong Kar Wai, não conseguia tirar o blues da cabeça. A relação não é a mais óbvia com a trilha sonora, mas é a própria construção cinematográfica e de roteiro d0 filme que me lembraram o blues. E são muitos os pontos de conexão. Em primeiro lugar, há uma sobreposição de culturas. A despeito de sua origem, o olhar do diretor para os Estados Unidos é tudo menos estrangeiro. E o blues não poderia ser mais americano apesar de suas origens africanas. Kar Wai é um mestre ao contar histórias e pintar com a câmera, e faz isso sempre de um ponto de vista íntimo. O blues também sempre parte da intimidade, da experiência pessoal, para pintar um retrato aberto, onde podemos inferir nossos sentimentos. O filme é uma fábula enganadora sobre o amor. No fundo, seus temas são o a confiança, a morte, o vício, o abandono, a estrada, a dificuldade de cruzar os limites pessoais, de inventar uma nova persona a partir do autoconhecimento. E esses são temas clássicos do blues. Poderia enumerar uma série de músicas, mas por serem tantas, tornam-se desnecessárias. Por fim, há uma magia no fazer cinema de Kar Wai. Aí a comparação é com a escala pentatônica. A sequência das notas não é nenhuma novidade, sabemos o que esperar, mas há sempre uma nota dobrada, um acento especial, algo que transmite a alma do bluesman quando ele escolhe que notas usar da escala. Kar Wai também não sai muito da pauta. Apesar de manejar sua câmera às vezes de forma surpreendente, sabemos onde ele vai chegar desde o início, mas é como ele escolhe chegar lá, como ele enquadra a cena, o tratamento que dá para luz e grão que o tornam tão diferenciado. E isso é o blues. Em tempo: adorei a pequena e matadora participação da Cat Power no filme.
Lembro perfeitamente da primeira vez que ouvi Captain Beefheart and his Magic Band, sei lá, há uns 20 anos, talvez um pouco mais. Um amigo fã do Zappa dizia que era uma heresia falarem que tinha um cara mais louco do que o pai de ‘Bobby Brown’. Descolei uma fita K7 do Safe as Milk – alguém se lembra disso? – que ouvi até enrolar no toca-fitas. Coloquei a fita para tocar numa tarde, estava sozinho na casa dos meus pais, volume no máximo. Pirei. Depois que a fita se foi, fiquei anos sem ouvir. Só voltei ao Beefheart nesses tempos de internet. Safe as Milk foi um dos primeiros discos que baixei, ainda nos idos do Napster. Embora tenha alguns gigas de mp3 do Beefheart, nunca tive um disco sequer. Isso até hoje. O amigo Bruno Torturra me trouxe dos EUA um vinil lindo, novo, justamente do Safe as Milk. Confesso que fiquei emocionado. Fiquei até a fim de fugir da Trip e correr para casa e botar o bichinho pra tocar. O disco é 1967 e pode ser considerado o primeiro de estúdio com a fantástica Magic Band. Ele está, obviamente, impresso nas minhas memórias afetivas. Tem Ry Cooder na guitarra e, na maior parte do tempo, é uma viagem de blues elétrico, com pitadas de folk. Só duas músicas têm a estranhesa alucinante que tomou conta da obra de Beefheart nos anos seguintes e que fez com eu discordasse com o meu amigo: é mesmo mais doido do que Zappa. Essas músicas são ‘Abba Zaba’ e ‘Electricity’, que você pode ver nesse vídeo aí em cima. Pode aproveitar!
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